quinta-feira, dezembro 30, 2004

Os livros das nossas vidas

«Uma das razões pela qual há tão poucos de nós a agir, em vez de reagir, reside no facto de estarmos continuamente a sufocar os nossos impulsos mais profundos. Posso ilustrar esta ideia escolhendo, por exemplo, a maneira como a maioria de nós lê. Se se trata de um livro que nos entusiasma e nos estimula o pensamento, lemo-lo a correr. Ficamos impacientes por saber aonde vai aquilo levar; queremos captar, possuir a mensagem oculta. Repetidamente, nesses livros, tropeçamos numa frase, numa passagem, por vezes num capítulo inteiro, de tal modo estimulante e provocador que mal entendemos o que estamos a ler, de tal modo o nosso espírito fica sobrecarregado de pensamentos e associações que nada têm a ver com a obra. É raro interrompermos a leitura a fim de nos darmos ao luxo de desfrutar os nossos próprios pensamentos! Não, abafamos e suprimimos as nossas ideias, pensando poder retomá-las mais tarde, depois de termos acabado o livro. Claro que nunca o fazemos. Como seria melhor e mais sensato, mais instrutivo e enriquecedor, se seguíssemos a passo de caracol! Que importa se levássemos um ano, em vez de uns quantos dias, a acabar o livro?

«Mas não tenho tempo para ler assim!», objectar-me-ão. «Tenho outras coisas para fazer. Tenho deveres e responsabilidades.»

É precisamente àqueles que falam assim que estas palavras se destinam. Quem receia negligenciar os seus deveres lendo vagarosa e ponderadamente, cultivando os seus próprios pensamentos, irá negligenciar os seus deveres de qualquer maneira, e por motivos piores. Talvez o nosso destino seja perder o emprego, a mulher, a casa. Se a leitura de um livro nos pode agitar tão profundamente, a ponto de nos fazer esquecer as nossas responsabilidades, é porque estas últimas não têm grande significado para nós. Nesse caso, tínhamos responsabilidades maiores. Se tivéssemos confiado nos nossos impulsos íntimos, teríamos seguido até um terreno mais firme, no qual ficaríamos numa posição de vantagem. Mas tivemos medo de uma voz que murmurasse: «Volta aqui! Bate a esta porta! Entra!» Tivemos medo de nos vermos despojados e abandonados: Pensámos em segurança em vez de pensarmos numa nova vida, em novos domínios de aventura e de exploração.

Este é um mero exemplo do que pode acontecer, ou não acontecer, ao lermos um livro. Se o aplicarmos às múltiplas oportunidades que a vida constantemente nos oferece, será fácil ver por que motivo os homens não são capazes, não só de se tornarem heróis, mas mesmo simples indivíduos. A forma como lemos um livro é a mesma forma como lemos a vida. Maeterlink, a quem me referi há pouco, escreve com tanta profundidade e de uma maneira tão atraente sobre insectos, flores, estrelas, sobre o próprio espaço, como sobre os homens e as mulheres. Para ele, o mundo é um todo contínuo, interactivo e intermutável. Não há muros nem barreiras. Não há morte em nenhum lugar. Um momento do tempo é tão rico e completo como dez milhares de anos. Na verdade, trata-se de uma forma de pensar magnífica!»


O pilha fez um ano de vida no passado dia 21, e entre períodos mais férteis e outros de pousio, por aqui se tem falado muito de livros, do mundo que os rodeia, das pessoas que neles vivem.

Quem aqui em cima fala é Henry Miller, excerto de "Os Livros da Minha Vida", o livro que mais me marcou neste 2004, neste ano de pilha.

O desafio aqui fica: quais os vossos livros deste ano? Editados em 2004 (ou não), a descoberta de um autor, de uma colecção de livros, de uma editora, o que mais vos marcou neste ano de livros pilhados (oferecidos e partilhados) pode ser depositado no espaço de comentários mesmo aqui por baixo, ou enviado para a nossa nova morada: pilhalivros@yahoo.com.

Até já :)

quarta-feira, dezembro 15, 2004

A Terrível Impostura

Porque a verdade tem muitas versões



A Terrível Impostura, de Thierry Meyssan, da Frenesi, 240 páginas, pvp: 15€

conversas com Agostinho da Silva

A.S. - (...)
Bem, mas o que é que Camões diz? Camões diz que se pode, ao mesmo tempo, estar-se preso no Tempo e no Espaço mas pairar acima desses dois condicionalismos com uma noção de Eternidade e com uma noção de não-Espaço, de se poder dominar tudo quanto é o universo do Espaço. Estar lá e ele estar cá, deste lado.

V.M. - Mas quando pode acontecer isso?
A.S. - Quando o Homem é capaz, ou por inspiração alheia ou, vamos lá dizer, pela cabeça dele, de produzir uma obra que pode ser uma obra de literatura, como Camilo; pode ser uma obra científica, como uma nova teoria da Física; ou até uma ideia mística de qualquer espécie de religião que também paira no Eterno.
Quando encontramos um grande poema, quando deparamos com uma grande teoria científica ou um grande arrebatamento místico, isso é da Eternidade e do não-espacial. Tanto é grego como é português, tanto é português como é chinês...
Voltemos, pois, a Camilo Castelo Branco e digamos que o seu destino era esse, de escrever para comer.
Em primeiro lugar, era assim tão ruim?
Existe outra maneira de ver a coisa, dizendo assim: provavelmente se Camilo fosse rico ele tinha-se abandonado ao jogo do bilhar, ou dedicado a namorar meninas ou entreter-se a andar à pancada e não se tinha aplicado a escrever como escreveu.
Não temos a certeza de que as condições a que um homem é submetido na sua vida ou num certo ponto da História não seja a mesma coisa que faz com que espremamos a pasta dos dentes para poder lavar os dentes.

V.M. - O mesmo caso pode-se colocar para Fernando Pessoa?
A.S. - Se Pessoa tivesse sido rico, com amigos e com família, bem instalado numa casa, em lugar de andar errante e de comer pessimamente, será que teria produzido a poesia, os heterónimos, a prosa e o pensamento que produziu?
Nós apenas sabemos o que aconteceu pois aquilo que teria acontecido nunca sabemos. Em História, apenas aquilo que sucedeu é passível de análise e de discussão e o que não sucedeu é uma fantasia e uma lição que nós podemos ter mas sem a certeza de ancorar em Terra.
O Camilozinho teve, por exemplo, por destino o ser obrigado a escrever e ele cumpriu esse destino, o destino de ter fome, o de ter dificuldades sociais, mas ao mesmo tempo em cada livro que escrevia, ou em quase todos os livros que escreveu, ele pairou acima do seu destino.
Hoje o que importa para um homem que leia Camilo e não esteja interessado na sua biografia, não são propriamente as desgraças sucedidas a Camilo mas a beleza extraordinária que ele era capaz de colocar num livro.

(das páginas 35 a 37)

conversas com Agostinho da Silva, por Victor Mendanha, da Pergaminho, Novembro de 1994 (10ª reimpressão, 2002), 123 páginas, pvp: 6,50€

terça-feira, dezembro 14, 2004

Autobiografia sumária

Não acha que escrever textos cómicos é uma actividade muito triste? Talvez seja porque dá imenso trabalho ter graça. Concorda?

Sim, mas - até por pudor - não gostaria de fazer a rábula do humorista angustiado.
Há um poema da Adília Lopes que se chama "Autobiografia sumária". São só três linhas:

Os meus gatos
gostam de brincar
com as minhas baratas

Sempre achei que isto era uma bela metáfora sobre o processo de fazer humor: aquilo que em nós é felino, perspicaz e arguto, põe-se a brincar com o que temos de mais obscuro e repelente. Uma vez perguntei à Adília Lopes se era isso que ela tinha querido dizer com o poema. Ela respondeu: "Não. O que se passa é que eu, às vezes, tenho baratas na cozinha, e os meus gatos gostam muito de brincar com elas."
Toma que é para não te armares em esperto.


excerto da entrevista de Leonor Pinhão a Ricardo Araújo Pereira, publicada na revista os meus livros nº 22, de Dezembro 2004.


O pilha sugere a Obra completa de Adília Lopes (e as incompletas também) e os anúncios do Montepio Geral.

domingo, dezembro 12, 2004

O MAR, A MÃE - Marie Darrieussecq

"O Mar, A Mãe pode ser considerado como o "negativo" do romance anterior da autora, O Nascimento dos Fantasmas, no qual um marido desaparece quando sai para comprar pão. Se nesse texto a descrição se ocupa das emoções da mulher face a essa ausência inesperada, no presente livro é o próprio desaparecimento que invade todos os limites da narrativa, consagrando-se como figura de primeiro plano."

Quando li estas palavras, e como já tinha lido "O Nascimento dos Fantasmas", pensei: "olha, até que é uma boa ideia". Má ideia foi ter comprado o livro.

A acção decorre num extrema confusão, sem um fio condutor. O aparecimento dos personagens surgem sem qualquer introdução, e como não há diálogos, lemos as primeiras linhas de cada parágrafo a tentar adivinhar quem está a pensar o quê. Durante todo o livro não nos é dado a conhecer o estado de espírito e os sentimentos da personagem principal (a desaparecida), e terminamos o livro sem perceber o porquê desta fuga. Igualmente mal explorados são os outros dois personagens principais (a filha da desaparecida e o detective), que teriam muito a dizer ao verem-se inseridos nesta história. A escritora limita-se a descrever o que as personagens veêm, e as pessoas que conhecem, mas a desorganização da escrita é incómoda e, por vezes, irritante.

Se alguém quiser pegar na ideia desta história (que ainda me parece boa), tente ser um bocadinho mais exigente consigo próprio.

"O Mar, A Mãe", de Marie Darieussecq (tradução de Maria do Rosário Mendes), 1ª Edição (2001), Edições Asa, 95 págs., pvp: 2.50€

quarta-feira, dezembro 08, 2004

Prendas de Natal

Dizia assim um vendedor de uma editora num destes dias:
- Quantos mais Natais andaremos a vender os mesmos livros?
Há aqueles livros que vendem o ano inteiro, mas que têm um lugar cativo nas compras de todos os portugueses, assim que nos começamos a sentir como um velhinho de barbas brancas vestido de robe vermelho.

Gabriel García Márquez, Nicholas Sparks, Luis Sepúlveda, "O Perfume" (Patrick Süskind), "As Velas Ardem Até ao Fim" (Sándor Márai), "Equador" (Miguel Sousa Tavares) e outros que tais, são as escolhas óbvias de quem quer oferecer espírito natalício em forma de livro. Na dúvida, oferece-se algo de que todos (?) gostam.

E aí, este Natal, há algo novo. Poderia pensar-se que o fenómeno estava gasto, que já todos tinham lido, que não haveria um único português sem um exemplar em casa. Estava enganado. Na dúvida, oferece-se "O Código Da Vinci". Saem mais depressa do que entram e não há outro "best-seller" que lhe faça frente.

Pode perguntar-se «Será que o Código DaVinci já vendeu mais exemplares do que o Código Civil?». Faltava a edição ilustrada (já aí está), mas ainda falta uma edição para crianças, agendas, livros de receitas, colecções de cromos, banda-desenhada, e porque não, "O Código Da Vinci para Advogados e Juízes". Se não vendeu mais que o Código Civil, para lá caminha rapidamente, com uma pequena ajuda do Pai Natal.

segunda-feira, novembro 29, 2004

HISTÓRIAS DE 1 MINUTO (VOL. 1) - István Örkény

Informação

"Há já catorze anos que está sentado à entrada de um postigo. As pessoas só lhe dirigem dois tipos de perguntas.
- Onde ficam os escritórios da Montex?
Ele responde:
- Primeiro andar, à esquerda.
A segunda pergunta é:
- Onde fica a Empresa Transformadora dos Desperdícios de Resinas?
A esta ele responde:
- Segundo andar, segunda porta à direita.
Há catorze anos que nunca se engana, toda a gente tem recebido a informação correcta. Uma vez, porém aconteceu que uma senhora se dirigiu ao postigo e lhe fez uma das perguntas habituais:
- Pode fazer o favor de me dizer onde é a Montex?
E ele, nessa única vez, alongou os olhos e disse assim:
- Todos nós vimos do nada e à merda do nada vamos voltar.
A senhora apresentou queixa. A queixa foi examinada, discutida e depois arquivada.
E de facto, não era assim tão grave."

Contos de 1 minuto (Vol. 1), de István Örkény (tradução de Piroska Felkai), 1ª edição (2004), Cavalo de Ferro, 155 págs., pvp: 15€

Durante a minha incessante busca e descoberta da literatura húngara (que não é assim tão escassa, traduzida para português), dei por mim a esperar 12 longos e exasperantes meses pela edição deste livro. A Ficções deu mais uma facadinha na angústia com a publicação de um dos contos no Ficções de Comer. Mas a espera valeu a pena. Sendo uma colectânea de contos, é difícil descrever o livro como um todo. Örkeny salta do simples para o absurdo, do grotesco para o romântico, havendo apenas dois pontos em comum nas suas histórias: um é a ausência de "moral da história"; o outro é a fantástica capacidade de deixar o leitor a pensar "mas o que é que ele quis dizer com isto?". A sua escrita deixa margem de manobra para o leitor tirar as suas próprias conclusões. Este, se estiver "desatento" vai dar por si a divagar mentalmente, por horas a fio. Sim, porque, de um minuto, estes contos têm apenas a sua leitura.

Os nossos filhos

"Era uma vez uma viúva velhinha e essa viúva tinha dois belos filhos. Um, o mais velho, empregou-se num navio cuja primeira viagem o levou ao Oceano Pacífico. O que lhe aconteceu, ninguém pode dizer, porque desapareceu no mar sem deixar vestígios.
O mais novo ficou em casa. Mas uma vez, quando a sua mãe o mandou comprar vermicida (a farmácia, que é a sétima casa a seguir à sua), nunca mais voltou. Também ele desapareceu para sempre.
Esta é a realidade dos factos. Mas nos contos as viúvas costumam ter três filhos. É sempre o terceiro que consegue o seu lugar ao sol."

sábado, novembro 20, 2004

ROSA DO MUNDO - 2001 poemas para o futuro

(Mito da criação)

No princípio existia uma enorme gota de leite.
Então chegou Doondari e criou a pedra.
A pedra criou o ferro;
E o ferro criou o fogo;
E o fogo criou a água;
E a água criou o ar.
Então Doondari desceu pela segunda vez.
Juntou os cinco elementos
E moldou-os num homem,
Mas o homem era orgulhoso.
Então Doondari criou a cegueira e a cegueira derrotou o homem.
Mas quando a cegueira se tornou demasiado orgulhosa,
Doondari criou o sono, e o sono derrotou a cegueira;
Mas quando o sono se tornou demasiado orgulhoso,
Doondari criou a preocupação, e a preocupação derrotou o sono;
Mas quando a preocupação se tornou demasiado orgulhosa,
Doondari criou a morte, e a morte derrotou a preocupação.
Quando a morte se tornou demasiado orgulhosa,
Doondari desceu pela terceira vez.
E ele veio como Gueno, o Eterno,
E Gueno derrotou a morte.
trad. Vasco David


Esta saga disfarçada de poema vem do Mali, e entre ela e o que se segue estão 1999 poemas para o futuro, naquele que é um dos objectos mais bonitos que se podem encontrar nas livrarias.
Objecto de desejo claro está, até porque tão monumental obra tem um preço condizente. Mas para quem nunca tenha concretizado essa vontade, aqui fica a sugestão: só até ao final do ano, a Assírio & Alvim disponibiliza estas 1919 páginas de viagens e sonhos por 35€, menos 20€ que o preço de venda ao público habitual.
Venham eles, os sonhos, e as descobertas.


TESTAMENTO

Após a morte de Deus
abriremos o testamento
para saber
a quem pertence o mundo
e aquela grande armadilha
de homens.

Ewa Lipska (Polónia), trad. Aleksandar Jovanovic

sábado, novembro 06, 2004

a mão que faz o livro

"- (...) Ao princípio trabalhava com planos muito detalhados e agora não. Agora é a mão que faz o livro. Por exemplo, para escrever aquelas crónicas de jornal, quando me sento não sei o que vou escrever, escrevo a primeira palavra e depois as palavras geram-se umas às outras. Ao princípio sim, fazia planos e esquemas, tinha de ter uma ideia, e agora não.

- O que mudou?
- Não tinha ainda percebido que o livro é uma entidade independente de si e que tem as suas leis próprias e que é um organismo vivo, não depende de um acto voluntário seu. É qualquer coisa que nasce de uma zona que não sabe se é sua, se é de outra pessoa, de quem é, e que não lhe pertence. Isto por um lado também é bom porque elimina toda a vaidade que possa existir."

entrevista de Paula Macedo, foto de João Barata, em A Capital, de 04/11/04

sexta-feira, novembro 05, 2004

"Eu Hei-de Amar Uma Pedra"

Na próxima 3ª feira (9/11) é posto à venda o mais recente livro de António Lobo Antunes, pela editora Dom Quixote. A acompanhar este lançamento chegará também às livrarias uma fotobiografia do autor, assim como 4 novas edições definitivas (ne varietur) de livros já publicados.

A menos de uma semana de distância, o espanto. Na capa de "A Capital" de ontem, 5ª feira, uma grande fotografia de António Lobo Antunes e o anúncio da "primeira grande entrevista" do autor antes da publicação de "Eu Hei-de Amar Uma Pedra". Até dia 9, pilham-se aqui as suas palavras.


"- Este livro tem um lado cubista, tenta mostrar as perspectivas todas. Concorda?
- Não li o livro, só escrevi e portanto a minha opinião nunca é a opinião de um leitor, não tem distância. Eu também não leio os livros. No fundo é um paradoxo: escrevo os livros que gostaria de ler e acabo por não os ler. Quando acabo um livro, quero é esquecê-lo para fazer outro. Nunca li um livro antigo. Nunca.

(...) não posso dizer muito bem que sou o autor dos livros, parece que eles estavam ali à espera. É como a gente meter a mão num saco às cegas e aparece qualquer coisa, as palavras são tiradas do fundo de um poço, uma a uma."

entrevista de Paula Macedo, fotos de João Barata, em A Capital 04/11/04

domingo, outubro 03, 2004

«Está a Brincar, Sr. Feynman! – Retrato de um Físico Enquanto Homem» - Richard P. Feynman

Li este livro há uns anos atrás, por recomendação de um professor meu. São histórias da vida de Richard Feynman, físico e vencedor do Prémio Nobel da Física, contadas na primeira pessoa, com muito humor. Feynman não corresponde à ideia de um cientista normal – ele consegue explicar conceitos científicos profundos de uma forma bastante clara a leigos. O grande e mais famoso exemplo disto foi demonstrado no dia em que ele foi chamado a Washington para explicar aos políticos e à imprensa as razões do vaivém Challenger ter explodido. Quando toda a gente estava à espera de um discurso longo, aborrrecido e incompreensível, Feynman limitou-se a colocar um elástico de borracha num copo com gelo, retirou-o do copo, esperou alguns momentos, e em seguida dobrou o elástico, partindo-o. E encarando a audiência espantada com estes procedimentos, simplesmente disse que o vaivém continha anéis de borracha que enrijeceram com o frio que se fazia sentir nessa altura, e quando se deu o lançamento do vaivém Challenger, os anéis partiram-se, fazendo o Challenger explodir.

Lendo este livro, é de vezes difícil acreditar que este conjunto de histórias pertençam todas a um homem apenas – desde o rapazinho que consertava rádios, ao professor universitário que gostava de pregar partidas, até ao homem que ganhou o prémio Nobel, passando pelo rapaz que, só para se divertir, aprendeu coisas como Biologia Genética, a consciência do Homem, a filosofia dos sonhos, arrombar cofres, até tocar frigideira no Carnaval do Brasil! Todas as histórias são contadas com um toque de humor e com compreensão da psicologia humana. Feynman adorava ser não convencional: de tal modo, que quando foi chamado para seviço militar, decidiu gozar com o psicólogo de tal modo que foi rejeitado do Exército por ser “deficiente em termos psicológicos”!!

Há ainda um segundo livro, «Nem sempre a brincar, Sr. Feynman!», publicado pela mesma editora, no qual ele fala mais detalhadamente da sua vida pessoal, especialmente da infância, sempre com o mesmo estilo. Também recomendo vivamente.

«Está a Brincar, Sr. Feynman! – Retrato de um Físico Enquanto Homem», Richard P. Feynman (trad. Isabel Neves), 3ª Edição, Gradiva, 1998, 328 pág., pvp: 16€.

O Código da Vinci Descodificado - Simon Cox

Há uns meses atrás publiquei a minha crítica de ”O Código da Vinci”, e como este livro despertou muita atenção em Portugal, o Dracul (o criador deste blog) pediu-me para fazer a crítica de um dos vários livros que se baseia nele, “O Código da Vinci Descodificado”.

Como muitos que leram "O Código da Vinci", ao acabar de ler este livro, fui à Internet para verificar os factos, e tentar descobrir o que era ficção e o que não era. "O Código da Vinci Descodificado" faz isso mesmo – mas extensamente. Para quem quiser saber tudo acerca de cada ocorrência do livro original, ou a origem dos nomes das várias personagens, este é o livro a comprar. Mas, para outros que só queiram ter uma ideia do que Dan Brown utilizou como facto/ficção (como imagino que seja a maioria) sugiro apenas que leiam o artigo neste site: http://www.crisismagazine.com/september2003/feature1.htm. Dará uma outra visão do livro original.

“O Código da Vinci Descodificado – O Guia Não Autorizado dos Factos por Detrás da Ficção”, de Simon Cox (Trad. Maria João Freire de Andrade), 4ª Edição, Publicações Europa-América, 2004, pvp: 12,90 €.

sexta-feira, outubro 01, 2004

Comunicado

A gerência deste estabelecimento vem por este meio assegurar que, apesar dos fracos sinais de vida dados nas últimas semanas, o mesmo continua vivo e (espera-se) de boa saúde. Continuamos abertos (salvo seja) a visitas, comentários e colaborações, na esperança de um futuro melhor (e de um mundo melhor), em que o tempo (e o €) chegue para todas as encomendas (até para ir passar um mês à Islândia). Enquanto isso cá vamos andando, umas vezes melhor, outras pior, na paz do senhor, e da senhora.

Obrigado pela preferência :)

segunda-feira, setembro 27, 2004

sexta-feira, setembro 24, 2004

O Encantador de Palavras

A menina apareceu grávida de um gavião.
Veio falou para a mãe: O gavião me desmoçou.
A mãe disse: Você vai parir uma árvore para
a gente comer goiaba nela.
E comeram goiaba.
Naquele tempo de dantes não havia limites
para ser.
Se a gente falasse a partir de um córrego
a gente pegava murmúrios.
Não havia comportamento de estar.
Urubus conversavam auroras.
Pessoas viraram árvore.
Pedras viraram rouxinóis.
Depois veio a ordem das coisas e as pedras
têm que rolar seu destino de pedra para o resto
dos tempos.
Só as palavras não foram castigadas com
a ordem natural das coisas.
As palavras continuam com seus deslimites.

Manoel de Barros

quarta-feira, setembro 01, 2004

Rikardo Arregi



CONVERSAS ENTRE AMIGOS

Quando, a meio de uma conversa entre amigos,
chega o acostumado momento das recordações,
e nos seus lábios ressuscita em claro-escuros
a flor seca do passado, penso surpreendido
que os clássicos tinham razão
quando escreveram com tal subtileza os seus belos tópicos
acerca da fugacidade do tempo,
e sacode-me com violência
a inutilidade destas repetições.

A fugacidade do tempo
não é coisa que me assombre,
mais estranho seria
deter a ordem das horas;
mas ouvir questões
que nos velhos livros já eram velhas
repetidas de forma torpe e presumidamente nova
é coisa que me assusta.


LAGUNEN ARTEKO SOLASETAN

Lagunen arteko solasetan
oroipenen une ohikoa
ailegatzen, eta ezpainetan
iraganaren lore iharra
ilun-argi berpizten denean,
pentsatzen dut harriturik
arrazoi zutela klasikoek
denboraren ihesari buruz,
haien topiko ederrez,
hain sotil izkiriatzean,
eta bortizki barneratzen zait
errepikapen hauen hutsala.

Denboraren iheskortasunak
ez nau asko liluratzen
bitxioaga bailitzateke
orenen ordena gelditzea,
baina zaharren libutuetan
jadanik zaharrak ziren kezkak
manera trakets uste berrian
entzuteak izutzen nau.

Periférica

sexta-feira, agosto 20, 2004

Linguagem Seinfeld

«Ainda não consigo acreditar que este livro está numa livraria. Adoro livrarias. Uma livraria é uma das poucas certezas que temos de que as pessoas ainda pensam. E gosto da forma como separam ficção e não-ficção. Dito de outra forma, dum lado põem as pessoas que estão a mentir e do outro as que não estão a mentir. Era assim que o mundo devia ser.

- Olá, sou o Jerry Seinfeld. Sou ficção.
- Eu sei.
- Como é que sabe?
- Porque eu sou não-ficção.

Também acho as livrarias um laxante maravilhoso. Não sei por que razão. Não sei se é do silêncio ou se é por haver lá tantas coisas para ler, mas quando se entra numa livraria há qualquer coisa que acontece. Acho que deviam tirar alguns corredores e pôr umas casas de banho bonitas para homens e senhoras ao fundo, e então as livrarias passariam a ser um sítio fantástico para se visitar.
Acho que o maior problema das livrarias é terem pouco espaço ao pé das caixas para vender coisas. Devem achar que é a única zona de vendas realmente boa. Devem pensar: «A única maneira de nos livrarmos deste livro é aproveitar quando os clientes têm o dinheiro na mão.» Porque não dão uma caixa registadora a cada empregado e os mandam seguir cada cliente? Quando vissem alguém pegar num livro, iam por trás, abriam a máquina, «cha-ching», e o cliente voltava-se e dizia: «Bem, como já abriu a caixa...»

Acho que o principal concorrente do livro é o vídeo porque, por uma razão qualquer, as pessoas pensam que têm de chegar a casa com um bloco rectangular de uma coisa qualquer, cujo fim desconhecem. A grande vantagem do livro é que é muito fácil de rebobinar. Basta fechá-lo e estamos outra vez no princípio.

Deve ser frustante trabalhar numa livraria. Vêem uma pessoa entrar, passar lá duas horas e sair sem levar nada. Devem ter vontade de explodir - dar um empurrão no cliente, quando sai, e dizer-lhe: «Então, já sabe tudo? Não precisa de nada daqui? Deve haver alguma coisa aqui em que pelo menos esteja interessado. Afinal, porque é que entrou aqui? Não precisamos de si, sabe?»

Afinal, bem vistas as coisas, uma livraria é isso mesmo. É uma loja «mais esperta do que você». E é por isso que as pessoas se sentem intimidadas - porque, para entrarem numa livraria, têm de admitir que há qualquer coisa que não sabem.

E o pior de tudo é que nem sequer sabemos onde é que ela está. Entramos numa livraria e temos de perguntar: «Onde é que está isto? Onde é que está aquilo? Não só me faltam conhecimentos, como não sei onde hei-de ir arranjá-los.» Por isso, ao entrar numa livraria, estamos a admitir perante toda a gente que não somos lá muito espertos.

É impressionante. A sério.»

da introdução do livro Linguagem Seinfeld, de Jerry Seinfeld (trad. Maria do Carmo Figueira), Gradiva, 4ª edição (Lisboa, Julho 2004), nº 1 da colecção «E agora, para algo completamente diferente», 139 pág., pvp: 11€


Diogo, esta é para ti :)

sábado, agosto 14, 2004

Adivinha quem (Oinc! Oinc!) voltou

No Minimercado Bob
- Papel ou plástico?
- Cheque.
- Tem de escolher.
- Cheque.
- Cheque o quê?
- Vou pagar com cheque.
- O que é que isso me interessa?
- A mim também não. Você é que está sempre a perguntar.
- Porque você não responde.
- Eu estou a responder... Não tenho dinheiro nem cartão de crédito.
- E...?
- E... Nem papel... Nem plástico...
- Seu porco bronco!! Não lhe estou a perguntar como é que vai pagar!! Estou-lhe a perguntar onde é que quer que eu lhe ponha as compras!
- Num saco.

Pérolas a Porcos 2 - Nem Tanto Nem Tão Porco, Stephan Pastis (trad. Jorge Lima), Bizâncio, 125 pág., pvp: 12,50€.

Mais sarcástico que nunca, mais corrosivo, mais estúpido, mais porco!

É o regresso do ano. Ocasião para dizer: nem tanto ao mar, nem tanto ao chiqueiro.

Diz o rato:
- Achas que há uma razão para te acontecerem coisas más na vida?
- Acho... sou estúpido.



E especialmente dedicado aos jogos que já nos deram uma medalha

:)

domingo, agosto 08, 2004

As Aventuras de Sherlock Holmes

Este livro é constituído por doze pequenos contos, em que o grande detective e o seu companheiro Dr. Watson resolvem casos aparentemente sem solução, como por exemplo: a partir de um chapéu velho e de um ganso conseguem descobrir o paradeiro de uma jóia valiosa, roubada poucos dias antes, na "Granada Azul"; tentam lidar com Irene Adler, uma mulher que alegadamente está a chantagear um rei, no “Escândalo na Boémia”; ou ainda, relacionam o estranho emprego de um homem ruivo (transcrever a Enciclopédia Britânica, quatro horas por dia, por um salário extraordinário) com um roubo de um banco, na “Liga dos Cabeças Vermelhas”.

Eu sempre adorei as histórias de Sherlock Holmes (já as li todas!), e diga-se de passagem que foi a partir destas que comecei a apreciar o género policial. Alegadamente o autor baseou-se num dos seus professores de Medicina chamado Joseph Bell (a quem ele dedica este livro), que empregava os mesmos métodos de dedução de Holmes para descobrir o que acontecera com os seus pacientes. Muitos outros autores, incluindo a grande Agatha Christie, basearam-se em Sherlock para criar os seus detectives. Aqui vão duas das frases mais famosas:

“Quando tudo o que for impossivel for eliminado, o resto, mesmo que seja improvável, deve ser a verdade”

“- Há alguma coisa a que queira que eu dê atenção?
- Sim, ao curioso incidente do cão.
- Mas o cão não fez nada!
- Por isso mesmo.”

Nestas doze histórias encontram-se algumas das pessoas que marcaram a vida e carreira de Holmes: Irene Adler, designada por Holmes simplesmente por “a mulher”, a única mulher (ou pessoa) que alguma vez conseguiu enganar Holmes; o inteligentíssimo professor Moriarty, o arqui-inimigo de Holmes, que infelizmente usa todo o seu génio para o mal; Mycroft Holmes, irmão de Sherlock, também ele um génio mas que prefere deixar os “detectivismos” nas mãos do irmão mais novo; os detectives Lastrange e Gregson, da Scotland Yard, que acham os métodos do grande detective no mínimo pouco ortodoxos, mas que no final ficam rendidos com a sua eficácia (ficam também com o crédito dos casos resolvidos, uma vez que Sherlock Holmes não gosta de ficar com os louros); e obviamente o grande Dr. Watson, o grande amigo e companheiro de todas as horas. Se me permitem um desabafo, sempre fui da opinião que os produtores e escritores dos filmes e das séries de TV foram sempre muito injustos com este personagem, fazendo dele um tolo, como se a sua burrice fizesse Holmes mais inteligente por comparação. A verdade é que nos livros ele é essencial porque é ele quem escreve a história – descrevendo os lugares e os personagens com detalhe e sentimento. Claro que quando as histórias foram passadas para o grande e pequeno ecrã, a função de narrador de Dr. Watson já não era necessária, mas não era preciso fazer dele uma personagem quase cómica. É uma pena porque, pensando bem, ele é médico (logo deve ter alguma inteligência), e se fosse tolo Holmes nunca o teria tomado como confidente.

Algo muito interessante é o facto de que enquanto toda a gente adorava Sherlock Holmes, o próprio autor detestava-o – Conan Doyle dizia sempre que o detective era demasiado arrogante para o seu gosto. Por isso, ele pôs Holmes a consumir morfina e cocaína (nessa altura, finais do séc. XIX, eram drogas legais, mas os editores decidiram retirar este vício de Holmes nas edições mais recentes dos contos de Conan Doyle). Mais tarde, farto da adoração do público, matou o detective no conto “O Problema Final”, após um confronto com o arqui-inimigo Professor Moriarty. Os seus leitores não quiseram acreditar, e a revista Strand, que publicava os contos de Sherlock Holmes, teve de persuadir Conan Doyle a ressuscitá-lo. Depois de muita pressão, este cedeu, e Sherlock voltou a viver no “Problema da Casa Vazia”.

Acho também que “As Aventuras de Sherlock Holmes” é recomendável para aqueles que não têm o hábito de leitura, por ser uma colectânea de pequenos contos. Para aqueles que preferem histórias mais longas, recomendo o famosíssimo “Cão dos Baskervilles” (publicado pela mesma editora). Deixem o “Estudo em Escarlate” para último lugar: é a primeira novela com a personagem de Sherlock Holmes e conta o início da amizade entre este e Watson, mas o autor quando a escreveu era ainda jovem e estava a aprender, e por isso a história não é nem forte nem tem as características das seguintes. Este livro foi publicado pela editora Europa-América.

Uma curiosidade final: quando é que o famoso detective disse ao seu amigo “Elementar, meu caro Watson!”? Se respondeu em todos os livros, está enganado: Sherlock NUNCA disse isso a Watson. Esse comentário, assim como o famoso cachimbo e chapéu de Holmes, nunca apareceram nos livros originais de Conan Doyle – só apareceram nas primeiras séries de televisão, e daí ficou a ideia.


Aventuras de Sherlock Holmes”, de Arthur Conan Doyle, editora Matin Claret, 2003, 213 pags, Preço: 5,23 €

Make Like Paper


Leaves are turning brown
all over the ground
leaves make like paper
make like paper sounds







Mark Kozelek

quinta-feira, agosto 05, 2004

e muitas Feiras por todo o Algarve

A Feira do Livro de Portimão está mais uma vez instalada na Zona Riberinha, local que recebe este evento desde 1997. Organizada pela Câmara Municipal de Portimão em colaboração com 3 livreiros locais, a Feira deste ano recebe o público numa área coberta de 400 m2, das 19h30 às 24h00, até 22 de Agosto

A 28ª edição da Feira do Livro da Cidade de Faro também já está aberta ao público. Numa organização da Câmara Municipal, o certame realiza-se até ao próximo dia 15, diariamente de portas abertas das 19h00 às 24h00.

A 3ª Feira do Livro de Vilamoura já decorre nos Jardins do Casino de Vilamoura e aí decorrerá até dia 12 de Agosto. Uma organização do Município de Loulé com o apoio da Delegação Regional da Cultura do Algarve.

A 5ª Feira do Livro de Quarteira, também numa organização do Município de Loulé, decorre de 10 a 21 de Agosto.


Mais informações sobre estas e outras Feiras do Livro por todo o país serão bem recebidas em draculpt@yahoo.com, ou aqui mesmo, no espaço de comentários. Obrigado :)

terça-feira, julho 27, 2004

Feiras até Sábado

No cenário habitual do Mercado da Ribeira decorre, desde o passado dia 8, a 1ª Exposição Feira do Papel Velho e das Velharias. Nela pode encontrar-se uma grande colecção de livros que normalmente só está disponível em alfarrabistas, mas também muitos postais e fotografias antigas, jornais que relatam os tempos pós-revolução e outros bem mais antigos, e muitas outras preciosidades. Para além disso, destaque para a presença de muitos títulos antigos da Ulmeiro, entre os quais uma colecção de obras de Agostinho da Silva.

«Dos fados que a mim me movem
sou voluntário instrumento
se fosse solteiro e jovem
te pedia em casamento
sem vontade de casar
que o mais fundo sentimento
é este amor de te amar
o qual amor de te amar
ao que mais quer é à vida
e ao sonho que é te adorar
mais sonhada que vivida.»

em Uns poemas de Agostinho



Também já habituais são as feiras realizadas na Gare do Oriente, com organização da Caminho Divulgação. Desta feita o mote são as férias e assim desde o dia 8 que ali se está a realizar a 2ª Feira do Livro de Verão. Entre as 10h e as 23h ali poderemos encontrar alguns fundos de catálogo de muitas editoras nacionais, bem como títulos mais recentes, todos com um desconto mínimo de 20% sobre o preço de editor.

sábado, julho 24, 2004

“O Diário da Nossa Paixão” de Nicholas Sparks

Num lar de terceira idade, um homem de idade lê uma história a uma senhora também de idade, todos os dias. É sempre a mesma história, a paixão de Noah e Allie, um rapaz simples e uma rapariga de boas famílias, que se apaixonam perdidamente na adolescência, mas a interferência dos pais dela resulta numa separação previsível. Quinze anos depois, quando eles se encontram de novo, ele já possui cicatrizes provocadas pela Segunda Guerra Mundial, e ela está noiva de outro homem. Ela encanta-se então com a inocência e com o poeta que ela encontra dentro dele, e ele apaixona-se pela artista que ela é. A história de Noah e Allie é banal, uma história de amor como tantas outras… Mas o velhote insiste em contar-lhe a mesma história todos os dias, porque ela esquece-se dela todas as noites, por ter a doença de Alzheimer. Mas há dias que a memória não lhe falha tanto, e em que a história lhe parece terrivelmente familiar… Talvez porque o rapaz simples da história lhe lembre alguém que lhe foi muito importante na vida… Ou simplesmente talvez por encontrar um poeta dentro do velhote contador de histórias.

            Quero salientar aos leitores que não sou de maneira alguma uma pessoa que adore ler romances românticos e que chora no final, mas este livro realmente é comovente. É uma história de amor intemporal num cenário deslumbrante: Nova Berna, uma cidadezinha no sul dos E.U.A.. O autor descreve as paixões dos protagonistas de tal modo que é possível sentir os medos, inseguranças, excitação, contentamento, e obviamente o amor que eles sentem um pelo outro, primeiro no ardor da adolescência, passando pela incerteza na fase de adultos, terminando na maturidade na velhice. Sparks percebe que a relação entre um casal muda consoante a fase da vida em que se encontra, pelo que a interacção entre Noah e Allie é realista, e por isso, muito comovente. É sem dúvida um dos melhores e apaixonantes livros de Nicholas Sparks. Para finalizar, gostaria de deixar a nota de que o autor baseou esta história na relação dos sogros, que estiveram juntos durante quase 60 anos. Nos dias de hoje, é algo incrível!

 
O Diário da Nossa Paixão”, Nicholas Sparks (Trad. Helena Barbas), Ed. Presença, 4ª Edição, 1999, 159 págs. Preço: 12,47 €
.

terça-feira, julho 20, 2004

diz assim O Guardador de Rebanhos

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

(...)
 
Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa
Que tem que ver com haver gente que pensa...
 
(...)
 
Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras à ideia
E não precisar dum corredor
Do pensamento para as palavras.
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.

segunda-feira, julho 19, 2004

Novidade: Jack London

«Depois de alguma manipulação, lá conseguiu pôr o molho de fósforos entre os punhos das mãos enluvadas. Segurando-os deste modo, levou-os à boca. Fazendo um grande esforço, e entre estalidos do gelo em volta dos lábios, conseguiu abrir a boca. Recolheu a mandíbula inferior e avançou a superior, arreganhou o lábio superior com cujos dentes tentou separar um fósforo. Conseguiu agarrar num, que deixou cair no regaço. Foi inútil, não conseguia chegar-lhe. Depois descobriu uma forma. Apanhou-o com os dentes e riscou a perna com ele. Fê-lo vinte vezes até conseguir acendê-lo. Quando o ateou, segurou-o com os dentes contra a casca de bétula. Mas o enxofre que se desprendeu do fósforo entrou-lhe pelas narinas e para os pulmões, fazendo-o tossir espasmodicamente. O fósforo caiu na neve e apagou-se.»

do conto "A Fogueira" ("To Build a Fire"), de Jack London

Já o 12º livro de Jack London a ser editado na Antígona, "A Fogueira e outros contos" (trad. Ana Barradas) traz-nos 9 histórias com destaque para esse duelo entre um homem e o frio do Alaska. Editado no mês passado, com 218 páginas e um preço de editor de 15€.

domingo, julho 11, 2004

Os Textos de Sophia

Por se ter falado há pouco tempo em Sophia de Mello Breyner, embora por uma situação menos feliz, lembrei-me dos seus contos infantis e de um em particular que sempre gostei muito: "A Fada Oriana"

Confesso, no entanto, que retiro, hoje, uma leitura bem diferente daquela que tirei quando li este livro nos meus tempos de menina. Intriga-me qual é, de facto, a verdadeira moral da história do conto escrito em 1958.

Senão vejamos:

- Primeiro, temos uma fada que para cumprir uma promessa à Rainha das Fadas (a de cuidar de uma floresta), ajuda altruisticamente todos os seres dessa floresta, fazendo por eles coisas que eles não estão para se dar ao trabalho de fazerem sozinhos.

- Depois, quando ela pensa um pouquinho em si própria, tudo se desmorona na floresta. Está bem, que esse "pouquinho" durou uma Primavera, um Verão e um Inverno inteiros, mas isso não é desculpa! Para resultar em termos literários tinha de ser assim!

- Por causa disso, e porque faltou à sua promessa (que nem sequer lhe devia ter sido imposta, in the first place), é castigada de forma cruel e exagerada: são-lhe retiradas as asas e a varinha de condão, não podendo assim ajudar quem precisa, de forma mágica.

-Quando se apercebe que a floresta está num pandemónio e todos os seus seres fugiram ou para a cidade ou para as montanhas, sente-se culpada e passa por uma provação física desumana que vai desde pés ensaguentados até ao abandono total por parte dos seus supostos amigos, a quem levou uma vida a ajudar, e que agora deixaram de acreditar nela.

-Como se não bastasse a Rainha das Fadas (sua superior hierárquica), torna a fazer-lhe exigências para que ela possa readquirir as asas e varinha de condão.

-Finalmente, e apenas quando se esquece de si própria, para ajudar outrém (atira-se para um abismo esquecendo-se que não tem asas para salvar uma velhinha cega que caía a pique por ali adentro) é que volta a ser a Fada Oriana com asas e varinha de condão que lhe são restituidas naquele momento, pelo seu acto heróico e altruísta.

Ou seja, a mensagem que se passa é:

- se tens de trabalhar até à exaustão para agradar a gregos e troianos, em troco de nada, não fazes mais que a tua obrigação.

-se prometes uma coisa, não podes pensar em ti própria por uns momentos, caso contrário és brutalmente castigada.

-se não cumpres os objectivos que te são impostos, ou deixas de ser ou fazer aquilo que os outros esperam de ti, perdes todos os teus amigos, não podes contar com a ajuda de ninguém e se possível ainda te lixam mais um bocado.

-como se tudo isto não bastasse ainda sentes que tudo isso acontece por tua culpa.

-os superiores hierárquicos exigem o que querem de ti e se possível ainda te arranjam mais afazeres que aqueles que já não consegues dar conta à partida. Ou seja, só servem para empatar.

-para recuperares a tua dignidade, tens primeiro de cair fundo no "abismo", levantar-te sozinha, para então voltares a fazer tudo da mesma forma.

-estas frases, apesar de estarem no feminino também se aplicam aos homens.(esta nota já não se extrai da história; é apenas um apontamento pessoal!)

Moral da História:

-se és gaja e não tens superpoderes, estás lixada!
-o ser humano adora milagres e a lei do menor esforço.
-se aparece feito não perguntes quem fez. Mas se algo está por fazer atira logo as culpas para outro.
-sê tu mesmo, desde que isso seja o que os outros esperam de ti.
-apenas quando estás num aperto é que descobres quem são os teus verdadeiros amigos.
-os chefes só servem para empatar.


Por tudo isto a minha opinião sobre a obra de Sophia de Mello Breyner, ficou fortalecida, pois se através de um simples conto infantil, se demonstra a condição humana em geral e a da mulher em particular desta forma, leva-me a crer que toda a sua obra deve ser lida nas entrelinhas.

E fica aqui a promessa de reler todos os seus contos infantis para tentar perceber que outras interessantes conclusões se poderão retirar. Até lá, me aguardem!!!!


A Fada Oriana, Sophia de Melo Breyner Andresen, Figueirinhas, Outubro de 2003, 77 pág.

Lá Longe, A Paz. A Guerra em histórias e poemas

Quantas vezes já vimos nos noticiários cenas de guerra, apenas para fazer zapping? Este livro, esta antologia de histórias e poemas centrados na dualidade guerra/paz, oferece uma perspectiva diferente. É um olhar mais directo aos horrores da guerra, geralmente contados na primeira pessoa pelos protagonistas, que são muitas vezes jovens e crianças simplesmente a reagir aos acontecimentos. Um dos exemplos é Serge, um rapazinho judeu que sobrevive aos horrores dos campos de concentração por saber tocar violino (aos músicos era dado tratamento especial nos campos de concentração, por entreterem os guardas), e que corajosamente salva o pai da câmara de gás:

“- Pára! (...) Mendelssohn [compositor judeu] é proibido.
- Proibido? Porquê?
Serge não compreende. Mendelssohn é o seu compositor favorito. A sua música é tão viva, tão cheia de sentimento.
(...)
Incrível. À sua frente está o homem que apenas umas poucas horas antes condenara o pai [à morte] com um único gesto indiferente. (...)
- Toca lá qualquer coisinha.
A distracção! Serge pensa no canal. Saltar ou morrer. Aqui, uma única nota desafinada podia significar o fim.
(...)
- Herr Kramer, se me permite, queria pedir uma coisa – grita Serge (...) – O meu papá... eh... pai é também um bom músico.
- So? Onde está? Qual é o instrumento que toca?
- Na barraca 148, Herr Lagerfuhrer. Esta manhã foi seleccionado [para a câmara de gás] e levado pelo Sonderkommando. É um excelente pianista.
- Hmmm... Piano. Vamos a ver.”


(em A Orquestra, de Roger Vanhoeck)

O poema seguinte revela a sensação estranha da paz depois de muitos anos de guerra:

“Recebemos heróis à hora do chá
juntos estavam sentados no sofá
não tinham conversa
nenhuma, eu pus-me a olhar a olhar
Até que ficaram envergonhados
Não sabiam o que haviam de fazer
Com uma paz assim.”


(1945, de Judith Herberg)

Esta antologia é composta por vários autores nacionais, nomeadamente Ilse Losa, Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner Andersen, Sérgio Godinho e Alice Vieira, entre outros, além de vários textos de autores estrangeiros muito bem traduzidos. É essencialmente um livro que nos faz reflectir, histórias que mostram os sofrimento provocado pela guerra a pessoas como nós, que felizmente nunca tivemos acesso a essa realidade.


Lá Longe, a Paz. A guerra em histórias e poemas”; Antologia organizada por Manuela Fonseca e Irene Koenders, Annemie Leysen, Carol Fox; Edições Afrontamento, Lda; 2001; 323 págs.

terça-feira, julho 06, 2004

MORTE NA PRAIA - Agatha Christie

Numa pequena ilha, em plena época balnear, é cometido um assassínio: a sra. Arlena Marshall é encontrada estrangulada pelo amante Patrick e por Emily, uma outra hóspede do único hotel da zona.

“Algo estava a intrigar Emily Brewster. Era como se estivesse a olhar para alguma coisa que conhecia bem, mas na qual havia algum pormenor que lhe parecia errado.
(...)
Ouviu a voz de Patrick – apenas um sussuro amendrontado. Ele ajoelhou-se junto da figura imóvel, tocou-lhe na mão, no braço...
Num arrepiante murmúrio disse:
- Meu Deus ela está morta! Santo Deus, ela foi estangulada... assassinada!”

Cedo se deduz que apenas os hóspedes do hotel é que poderiam ter cometido o assassínio. E agora, a pergunta fica no ar: quem foi? Talvez o marido de Arlena, o capitão Marshall, por ciúme ao descobrir que ela tinha um amante? Mas o capitão tem um álibi. Talvez a esposa do amante de Arlena, a frágil Christina? Mas ela não teria força suficiente para fazer o estrangulamento. E também se suspeita de Linda, a filha adolescente do capitão, que odiava a madrasta, e Rosamund Darley, uma antiga namorada do capitão, que mente durante o depoimento. E quando o assassínio parecia que iria permanecer não resolvido, eis que aparece Poirot, o grande detective belga, que também estava a passar umas férias merecidas na ilha, com uma solução aparentemente fantástica... e verdadeira.

“- O marido insistiu que a vítima não tinha inimigos, mas não posso acreditar nisso! Eu diria que uma senhora como ela faria ... bem, faria alguns inimigos, e dos bons. Que acha, sir?
- Mas oui, tem toda a razão – respondeu Poirot – mas (...) os inimigos de Arlena são todos mulheres. (...) Parece-me pouco plausível que este homicídio tenha sido cometido por uma mulher. Que diz o médico legista?
- Neasden parece convencido de que ela foi estrangulada por um homem....”


Este é um dos melhores livros escritos por Agatha Christie. Existem histórias escritas por esta autora em que se desconfia/descobre o criminoso no meio do livro, mas não este. Depois de verificar os movimentos de um número de suspeitos mais ou menos credíveis no dia do crime, Poirot junta todos os hóspedes (incluindo o assassino) numa sala, e explica como se deu o crime. A solução final é realmente muito engenhosa. Esta história não inclui a personagem do Capitão Hastings, um grande amigo de Poirot, que costuma contar na primeira pessoa os casos que o detective belga resolve, e cuja interacção com este constitui a nota humorística presente nos livros de Poirot (o Capitão Hastings tem a mesma função do Doutor Watson nas histórias de Sherlock Holmes: é o contador de histórias e o homem normal ao lado do homem-génio). Assim, quem ocupa o lugar de Hastings neste livro é o coronel Weston, o polícia encarregue do crime, e também Rosamund Darley, uma das hóspedes do hotel; mas na interacção não se encontra a leveza dos diálogos entre Poirot e Hastings, infelizmente. Mas é sem dúvida uma história bastante interessante e um bom livro para ler nas férias. Nota final: este livro já foi adaptado ao grande ecrãn (uma adaptação feliz), com o grande actor Peter Ustinov a interpretar Poirot.

«Morte na Praia», de Agatha Christie, (trad. José Lourenço), Edições Asa, 1ª Edição, Fevereiro de 2002, 191 págs., pvp: 10€.

texto por Marosifig

quinta-feira, junho 24, 2004

Primeira Vez

Caros leitores, esta é a minha primeira intervenção neste magnífico blog. Por isso apelo à vossa paciência.

Sinto-me um pouco como a personagem do livro que vos trago como sugestão que diz: "Tenho quase um dia, agora.(...)sinto-me como uma espécie de experiência. Sinto-me exactamente uma experiência; é impossível alguém sentir-se mais uma experiência do que eu, por isso começo a suspeitar que é isso que eu sou.(...)Será que a minha posição é segura ou terei de estar atenta a protegê-la?(...)Um instinto dita-me que a eterna vigilância é o preço da supremacia.[Boa frase para alguém tão novo, não?]."

Falo-vos de Eva, trazida pela escrita de Mark Twain em "Excertos dos Diários de Adão e Eva", da Cavalo de Ferro.


Um livro deliciosamente hilariante que relata os pensamentos mais íntimos do primeiro Homem (prático e descomplicado) e da primeira Mulher (romântica e curiosa), no contexto específico do Jardim do Éden, onde tudo é novo e uma descoberta.

Mas também se trata da primeira relação homem-mulher com experiências não muito diferentes das actuais no início de cada relação, em sentido lato, que aos poucos se vai tornando numa relação intima e cúmplice.

Compreende-se, não é? Na altura não havia suecas, italianas, dinamarquesas, etc, para os distrair! Era só 1 homem e 1 mulher! Note-se bem a ênfase na unidade. Se bem que havia muitos animais à volta... Hum... Bem, mas já estou a divagar.

Só para vos aguçar a curiosidade aqui ficam algumas passagens:

Adão

"Segunda-feira. Esta nova criatura de cabelo longo é um valente empecilho. Anda sempre à minha volta e segue-me para todo o lado. Não gosto disto; não estou habituado a ter companhia."

"Terça-feira. Não posso nunca dar nome a nada. O novo ser dá nome a tudo o que aparece antes de eu poder esboçar um protesto. E o pretexto é sempre o mesmo: parece ser aquilo."

"Segunda-feira. O novo ser diz que se chama Eva. Tudo bem.(...)diz que não é um ser, mas uma Ela. Dúvido, mas tanto me faz. O que Ela seja não me faria diferença se Ela se metesse na sua vida e não falasse."

Eva

"Domingo. Durante toda a semana segui-o e tentei travar conhecimento. Tive de ser eu a falar porque ele é tímido, mas isso não me chateia. Ele parecia contente por me ter por ali e eu fartei-me de usar o socializante "nós" porque isso parecia deixá-lo orgulhoso por estar incluído em alguma coisa."

Para quem não conhece a vertente humorista do jornalista que queria ser marinheiro num barco a vapor no Mississipi, este é um excelente livro para conhecer Mark Twain nessa perspectiva.

Por isso, libertem-se da associação do autor a Tom Sawyer e Huck Finn e leiam estes diários.

Aviso já que o final é lindo!

Excertos dos Diários de Adão e Eva, Mark Twain, Cavalo de Ferro, Fevereiro de 2004 (1ª edição), 78 pág.

quinta-feira, junho 17, 2004

MEMÓRIAS DE ADRIANO - Marguerite Yourcenar

Tentei eleger o meu livro preferido de todos os tempos, para começar. Impossível. Cada livro tem uma personalidade própria, pelo que, devido aos meus estados de espírito meteorológicos, tenho com eles uma relação inconstante e imprevisível. Ao fim de algumas horas a matutar, lá consegui reduzir para sete uma lista de dezenas de livros, e de entre esses, finalmente, escolher um.

É um livro que me marcou, quer porque entrou na minha vida no momento certo, quer porque continua a deslumbrar-me, a fascinar-me, a intrigar-me de cada vez que o releio.

O homem mais poderoso do mundo (ao seu tempo) vai-se despindo, diante dos nossos olhos, perante o fantasma de uma morte próxima. Peça a peça, desmonta a sua vida, as suas acções, os seus pensamentos, os seus julgamentos, os seus sentimentos. Conta-nos histórias de guerra e jogos de poder. Histórias de amor e jogos de cama. Fala-nos das glórias e das misérias dos homens, em particular das suas. Fala do horror e da beleza. Diz:

"Acreditei outrora que um certo gosto da beleza substituiria em mim a virtude, saberia imunizar-me contra as solicitações demasiado grosseiras. Mas enganava-me. O amador de beleza acaba por encontrá-la em toda a parte, filão de ouro nos mais ignóbeis veios..." (pág. 19)

E faz-me lembrar Oscar Wilde.

Fala também de livros:

"A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana, assim como as grandes atitudes imóveis das estátuas me ensinaram a apreciar os gestos. Em contrapartida, e posteriormente, a vida fez-me compreender os livros. (...) Adaptar-me-ia muito mal a um mundo sem livros; mas a realidade não está lá, porque eles a não contêm inteira." (pág. 24)

"O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que, pela primeira vez, se lança um olhar inteligente sobre si mesmo: as minhas primeiras pátrias foram os livros." (pág. 34)

Classificar este livro, como aliás, todos os outros, é redutor. Romance histórico? Com certeza. Mas qual é o livro que, mais cedo ou mais tarde, não acaba por sê-lo? Além disso, este livro podia ter sido escrito no séc. II (época em que viveu o protagonista), no séc. XX (quando foi realmente escrito), ou daqui a cem anos, que nem por isso ficava a dever fosse o que fosse à actualidade.

Romance Gay? Pode ser. Mas está escrito no próprio livro: "Um homem que lê, ou que pensa, ou que calcula, pertence à espécie e não ao sexo; nos seus melhores momentos escapa mesmo ao humano." (pág. 57)

Uma autobiografia? Parece, mas não é. Fica-se sem saber se é Marguerite Yourcenar que dá voz ao Imperador Adriano, se é ele que empresta a alma à escritora. Mas chama-se "Memórias de Adriano".

"Memórias de Adriano, seguido de Apontamentos sobre as Memórias de Adriano" (Mémoires d'Hadrien, suivi de Carnets de Notes de Mémoires d'Hadrien, 1974), Marguerite Yourcenar (trad. Maria Lamas), Ulisseia, 12ª edição, Abril 2000, 288 pág.


texto por Astianax

terça-feira, junho 15, 2004

O CÓDIGO DA VINCI - Dan Brown

Robert London é um professor de simbologia de Harvard que, durante uma visita em trabalho a Paris, se envolve numa teia de conspirações perigosas. Ele é acordado pela Polícia de madrugada, porque o provedor do Louvre foi assassinado dentro do próprio museu, e à volta do corpo foram encontrados umas cifras enigmáticas. Robert apercebe-se que a Polícia o considera suspeito principal, e assim, com a ajuda de Sophie Neveu, a neta criptóloga do provedor, inicia uma busca desesperada e cheia de perigos do assassino, ao tentar descobrir o significado real da mensagem cifrada. Os dois, incrédulos, descobrem que esta leva a pistas escondidas nos trabalhos de Da Vinci – pistas visíveis aos olhos de todos, embora bem disfarçados pelo pintor – e que o famoso pintor de Mona Lisa foi membro do Priorado de Sião, uma sociedade secreta que também teve como membros Sir Isaac Newton, Botticelli, Victor Hugo, e mais recentemente, o próprio provedor! No entanto, quanto mais pistas Robert descobre, mais convencido ele fica de que a morte do provedor se deveu a conspirações muito antigas, para manter uma verdade bombástica no segredo dos deuses... E quem é o misterioso Professor, que parece estar sempre um passo à frente na investigação de Robert e de Sophie?


"O Código Da Vinci", de Dan Brown (trad. Mário Dias Correia), Bertrand Editora, 1ª edição (2004), 536 págs., pvp: 17,96€.


Na minha opinião, este livro é simplesmente genial. O ritmo da acção é bastante rápido, os enigmas que levam ao Graal são incrivelmente inteligentes, e existe um número de surpresas e reviravoltas na história até o mistério principal estar resolvido. O autor (Dan Brown) fez sem dúvida uma pesquisa muito extensa na (grande) influência das religiões pagãs no Cristianismo, os primeiros dias desta religião, a lenda do Graal, os Templários e obviamente, na vida e trabalho do artista/cientista Leonardo da Vinci. Para muitos, a teoria alternativa da vida de Jesus, apresentada por Dan Brown, é bastante discutível; mas muitos dos factos revelados no livros são actualmente verdadeiros, e estes elementos estão elaborados na história de tal modo que no final, ficamos a pensar – quanto da história é ficção?

texto por Marosifig

segunda-feira, junho 14, 2004

O PRINCÍPIO DA ATRACÇÃO - Teresa Direitinho

Há umas semanas atrás, chegou um pedido de opinião directamente das Azenhas do Mar, a esta obra de Teresa Direitinho, intitulada "O Princípio da Atracção".

Com a Feira do Livro e muitas outras histórias que se cruzaram ao caminho, o livro lá ficou no topo da pilha, mas sem a atenção prometida e devida. Enquanto esse dia não chega, e para que o pedido não esmoreça por final do prazo de validade, pego nas palavras de Desidério Murcho, que no Mil Folhas da semana passada publicou uma crónica sobre o livro.

As palavras do pilha chegarão num outro dia de sol.

«A Atraente Banalidade da Verdade

Há algo de estranho neste primeiro romance de Teresa Direitinho. Apesar da banalidade da história e da narrativa, e apesar das personagens um tanto ocas, lê-se compulsivamente - como quem lê as memórias francas e muito honestas de uma pessoa sensível mas sem muitas complexidades psicológicas, que sobretudo quer viver feliz num mundo quase infantil. O romance narra de forma directa, sem floreados, e na primeira pessoa, a vida de Laura, dos 13 anos até perto dos 35 - de 1978 a 1999. Talvez a leitura seja compulsiva porque nos vence pela força simples das emoções verdadeiras.

Nada acontece de verdadeiramente extraordinário neste romance. Laura, aos 13 anos, conhece David e Arthur, dois irmãos meio ingleses que vão passar as férias de Verão à propriedade da família no Alentejo. A normal camaradagem de pré-adolescentes livres e saudáveis, longe das grandes cidades, desenvolve-se sem sobressaltos. Entre os três há amizade, partilha, humor e o gosto de viver. Quase parece o idílio dos livros de Enid Blyton. Mas é claro que a paixão está no horizonte e o leitor pergunta-se qual é o desgraçado que vai ficar de fora. A coisa torna-se complicada com a entrada de John, um amigo americano dos irmãos. Agora há dois que ficam de fora.

O romance trata com parcimónia as hesitações amorosas de Laura e a tentativa de manter a amizade com os rapazes. O que ressalta é o enorme bom senso daquela gentinha: entre os 13 e os 18 anos, talvez pareçam sensaborões ao leitor moderno. Contudo, o romance é bastante realista, neste aspecto. Se olharmos para as nossas próprias vidas, não são muito diferentes. E talvez seja este um dos aspectos que tornam a sua leitura compulsiva: não estamos em busca de literatura, mas de uma compreensão alargada da condição humana. Mas, pensando melhor, não é também isso que nos atrai na boa literatura?

Quando chegamos a meio do romance e a protagonista já se apaixonou à vez por dois dos rapazes, conseguindo a proeza de manter a amizade dos outros, começamos a perguntar o que raio poderá acontecer agora. E este é um aspecto que não desilude: o medo de que a história perca direcção e focagem é injustificado. Pelo contrário, o desenrolar da história vai esclarecendo aos poucos o sentido de todo romance: a busca incessante de Laura pela verdade emocional. Ela ama e é amada, apaixona-se e é objecto de paixão, mas quer algo mais: quer verdade.

O romance desenrola-se contra o pano de fundo do Alentejo. Mas a protagonista vive igualmente em Lisboa, visita Londres e o Sul da Inglaterra, vive nos Estados Unidos e visita Áustria e Itália. A música e a ciência, as artes e a literatura estão igualmente presentes. Mas há no uso de todos estes elementos aquela simplicidade banal que caracteriza o romance, e que resulta inesperadamente realista: afinal, para a maior parte das pessoas, todas estas coisas são como adornos para vidas que de outro modo seriam terrivelmente ocas. É como se a angústia, o desespero e o turbilhão que tantas vezes impulsiona a arte e a ciência dos outros fosse uma espécie de bálsamo para espectadores em busca de um sentido morno para as suas vidas banais.

Quem conhece o "Quarteto de Alexandria", de Lawrence Durrell (Ulisseia), reconhece neste romance o mesmo tema: a compreensão da amizade e do amor, daquela amizade funda que partiu da adolescência, daquele amor que desampara e dói. Mas, surpreendentemente, dada a alma fadista nacional, não há neste romance um lado negro: há luz a jorros por todo o lado e a vontade simples da felicidade simples. Olha-se o céu nocturno alentejano povoado de estrelas, mas sente-se apenas a maravilha de se estar vivo, de se ser jovem e de se ter amigos. Esta superficialidade é, de algum modo, chocante. Contudo, é realista.

Este é um romance para quem pertence à geração da autora, e que se revê claramente no tempo histórico retratado. Mas é também um romance especialmente apelativo para os que agora são adolescentes e que poderão aprender com as adolescências de outro tempo. Afinal, os adolescentes estão sempre condenados a ler o que se passa não na sua adolescência, mas na dos que agora são seus pais.

Desidério Murcho, Mil Folhas, Público, 05/06/04»

O Princípio da Atracção, Teresa Direitinho, Oficina do Livro, Agosto 2003 (1ª edição), 396 pág., pvp: 16€

domingo, junho 13, 2004

adivinha quem voltou

foi o Bicho Escala-Estantes, que depois de uma época entre Maio e Setembro do ano passado numa morada muito semelhante, e uma tentativa falhada no weblog, volta agora com mais convivas.
para concordar ou rejeitar, divertir ou chorar. em conversas sempre cheias de livros e livrarias

sexta-feira, junho 11, 2004



até já

quinta-feira, junho 10, 2004

Feira até à meia-noite

«Atravesso a rua com o gosto do ar na língua, o silencioso pousar que me ergue do solo até à copa das árvores, o mar respirado, a sede entre o olhar e o tronco - estendo a mão para a terra, o ar: para rir entre as folhas na rua do ar.»

António Ramos Rosa a Respirar a sombra viva, à sombra de um Plátano.

último dia, véspera dos sorrisos de amanhã

venham daí

quarta-feira, junho 09, 2004

só restam 2 dias de Feira

Parece que alguns orgãos de comunicação social boicotaram a Feira do Livro de Lisboa a ponto de dizerem que esta acabava no Domingo passado. Desinformação, incompetência, ou seja lá o que for, o certo é que nestes dois últimos dias a afluência de pessoas ao Parque Eduardo VII foi claramente menor que nos dias anteriores, e os livros sem pessoas não têm vontade de fazer a festa. Ela vive durante mais dois dias, até à próxima quinta-feira, feriado nacional de 10 de Junho. Venham, juntem-se a nós.


«OS PÉS EM SANGUE

Porque não experimentam deixar-se conduzir pelos próprios pés? Não tenham receio.

Os pés preferem esses caminhos de que ninguém - a não ser as cabras - se serve ainda. Talvez os anime o mesmo espírito dos salmões quando, na altura da desova, procuram as primeiras e definitivas águas.

Não me perguntem onde vos levarão. A única coisa que vos posso assegurar é que se trata de um lugar onde o orvalho é de mil anos.»

Jorge Sousa Braga, O Poeta Nu, à nossa espera, na Fenda.



«Mesmo num filme sério quando a imagem era cortante de beleza
o teu riso ecoava na sala e a gente culta fazia chiu e voltava
a cabeça para trás. Eu, muito envergonhado, jurava para dentro
de mim que nunca mais te levaria ao cinema. Contudo, ao mesmo
tempo, achava graça haver uma pessoa que achava graça a tudo.»

Helder Moura Pereira verte uma Lágrima na Assírio & Alvim.


«Assim, há trinta e cinco anos que precipito os pacotes numa situação desesperada, risco os anos, os meses e os dias, contando quanto falta para nos aposentarmos, a minha prensa e eu; todas as noites trago, na minha pasta, livros para casa, e o meu apartamento, num segundo andar em Holesovice, está repleto de livros, livros apenas: a cave está cheia e o alpendre já não chega, a cozinha, a despensa e a retrete estão cheias, apenas o caminho para a janela e para o fogão estão livres, na retrete há apenas o espaço para me poder sentar; por cima da sanita, à altura de um metro e meio já há traves e pranchas e em cima delas, até ao tecto, erguem-se os livros, quinhentos quilos de livros; chega um único movimento desajeitado ao sentar-me, um levantar imprudente, para tocar na trave mestra, e meia-tonelada de livros se precipitará sobre mim e me esmagará com as calças descidas. Mas como aqui já não se consegue acrescentar nem um só livro, assim, no quarto, em cima de duas cama juntas, mandei pôr traves e pranchas em forma de baldaquim, de um dossel de cama, sobre as quais estão arrumados livros até ao tecto; trouxe duas toneladas de livros para casa durante trinta e cinco anos, e, quando estou a adormecer, duas toneladas de livros como uma falena de dois mil quilos pesam sobre os meus sonhos.»

Bohumil Hrabal vive Uma Solidão Demasiado Ruidosa na Afrontamento.


até logo, no sítio do costume

terça-feira, junho 08, 2004

O JOGO DAS NUVENS - Johann Wolfgang Goethe

"Mas ele, Howard, homem clarividente,
Com a sua doutrina ensinou toda a gente.
O que o céu não retém e o sentido não vê,
Ele primeiro o fixa, e enfim o lê;
Dá forma ao informe, seu domínio estreita,
Com o nome certo - honra lhe seja feita! -
A nuvem sobe, adensa, esgarça, desce,
E o mundo pensa em ti e agradece."
Pág. 80

Como uma reunião de textos que é, este livro separa-se em várias partes. Na primeira, deveras interessante, estão os textos em que Goethe se debruçou sobre a classificação das nuvens, e teorias sobre as suas transformações. No final deste texto damos por nós, inconscientemente a olhar para o céu e a pensar "será stratus? será cirrus?" Quando o nosso entusiasmo está no auge, entramos num entediante díario de formas de nuvens, que custa imenso a passar. Quando estamos à beira de desisitir, somos presenteados com deliciosas poesias.

O Jogo das Nuvens, Johann Wolfgang Goethe, selecção tradução, prefácio e notas de João Barrento, Assírio & Alvim, 2003, 108 páginas

"Se a região superior, com a sua energia dissecante, capaz de absorver e dissolver em si a água, vence a disputa, estas massas concentradas dissolvem-se e desfiam-se nas pontas superiores, elevam-se em flocos e nós vemo-las como cirrus que acabam por desaparecer no espaço infinito. Mas se for a região inferior a vencer, a zona mais propícia a atrair a si a mais densa humidade e a mostrá-la em gotas sensíveis, então a base horizontal do cumulus desce, a nuvem alarga-se e forma um stratus, fica parada ou anda, alternadamente, e acaba por cair na terra sob a forma de chuva, fenómeno que, conjuntamente com o anterior, recebe o nome de nimbus." pág. 75

Este é um livro que certamente agradará a quem estiver realmente interessado em saber mais sobre os jogos que as nuvens brincam por cima das nossas cabeças. Para os meros curiosos, saltem as partes que não interessam!

domingo, junho 06, 2004

o último fim-de-semana na Feira

Relembro que a Feira foi prolongada por mais 4 dias, o que a vai levar até ao próximo dia 10 de Junho, feriado nacional. Apesar da extensão do programa, hoje é o último Domingo em que haverá livros no Parque este ano, e como tal espera-se muita gente a passear cima abaixo com livros na mão :)

Domingo na Feira, abre a caça ao autógrafo:

- José Abrantes, autor das aventuras do gato Zu, estará no Pavilhão dos Pequenos Editores entre as 15h30 e as 16h30 para autografar as suas duas novas aventuras, "O Crocodilo Chorão" e "Os Anos da Rita", editadas pela Polvo.

- A partir das 16h00 estarão Vasco Graça Moura ("O Enigma de Zulmira")e Pedro Paixão ("Quase Gosto da Vida que Tenho") nos pavilhões 140-142 da Bertrand/Quetzal, Manuel Dias ("Queridos Matadores") no 186 da Miosótis, Manuela Ribeiro nos 134-136 da Ambar, Rosa Lobato de Faria nos 52-55 da Asa, Rui Zink ("Dádiva Divina"), António Lobo Antunes ("Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo") e Rosa Aneiros nos 70-74 da Dom Quixote, Natália Bebiano da Providência ("2+2=11") nos 98-100 da Gradiva e Fátima Ribeiro de Medeiros ("Do Fruto à Raiz") no 158 da Gailivro.

- Às 17 horas realiza-se no auditório 1 a apresentação do livro "Trânsitos de Vénus", da autoria de Nuno Crato, Fernando Reis e Luís Tirapicos, numa edição da Gradiva.

- Ainda às 17h, sessão de autógrafos com Maria Amélia Lemos Alves, no pavilhão 115 da Livraria Municipal. Às 18h é Possidónio Cachapa que estará na Oficina do Livro (9 e 11) e às 18h30 Manuela Nogueira estará no pavilhão 69 da Assírio & Alvim.

- 18h30 é a hora marcada para um Encontro com Escritores, uma conversa entre Maria João Seixas e António Mega Ferreira e todos os presentes, no Auditório 1.

- O livro "Resistência", de Rosa Aneiros e publicado pela Dom Quixote, terá uma sessão de lançamento no Auditório 2, a partir das 19 horas.

- Ainda no Auditório 2, mas a partir das 21h30, decorrerá a apresentação do livro "Carreiras de Saída da Toxicodependência", de Manuel Sommer, editado pela Climepsi.

sexta-feira, junho 04, 2004

Diários do Torga

Os Diários do Torga. Todos os fascículos velhinhos (16, julgo) condensados em dois consideráveis volumes pela D. Quixote. Dão muito menos jeito para ler na cama ou na praia ;)

O passar dos dias, dos meses, dos anos, da vida. De um homem que foi muito grande em tudo o que fez. As artes médicas para salvar vidas e as artes da escrita para delas cuidar.

Com isso ganhará quem pegar nestes registos, onde se sente o pulsar de um coração gigantesco. E o granito a escurecer com o tempo, também.

Não é um diário. É um diário dos dias em que ele terá sentido a grande necessidade de partilhar o que lhe ia na alma.

Há relatos de dias seguidos e, por vezes, meses de ausência. Mas sempre todos muito a tempo.


Diários para ler e pensar...

quarta-feira, junho 02, 2004

olhós destaques da Feira pra hoje!

António Coimbra de Matos vai estar hoje à conversa na Feira do Livro de Lisboa, numa sessão promovida pela editora Climepsi. O autor de "A Depressão", "O Desespero", "Adolescência", "Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica" e "Mais Amor Menos Doença" estará no Auditório 2 a partir das 18 horas.



Quem passar pelo pavilhão da Cavalo de Ferro (191) a partir das 21h00, poderá entrar no mundo da poesia pela mão de Czeslaw Milosz e de Wislawa Szymborska. "Alguns gostam de poesia" (hoje a livro do dia) é uma antologia de poesia polaca, em edição bilingue, que serve de base à leitura de poesia que alguns poderão gozar esta noite.


Às 21h30 o Auditório 1 recebe o debate O Futuro do Livro / Os Livros do Futuro. Com moderação de Isabel Coutinho, estarão à conversa José Afonso Furtado, José Magalhães e Libório Silva.


«Repetidas vezes fizemos eco dos apelos dos moradores da Brandoa, a cidade-satélite "à margem da lei", a cidade de prédios construídos sem alvará, a cidade sem água, sem luz e de ruas calcetadas a lama».

Uma notícia de jornal sobre a Brandoa de 1969 não será um retrato fiel da que se vive hoje, mas relembra-nos das suas origens e evolução, de que o presente ainda é uma coabitação diária do confronto rural-urbano, com prédios novos a serem construídos constantemente, enquanto a horta do terreno ao lado resiste por mais uns meses.

O paradigma dos não-lugares, um retrato de Diogo Lopes e Nuno Cera, os subúrbios de centros comerciais labirínticos, urbanizações de T1's com lareira, estações de serviço como pontos de encontro preferenciais.
"Cimêncio", para encontrar na Fenda, pavilhão 159.


Miguelanxo Prado mostra-nos, melhor que ninguém, o quão delirante é esta vida do quotidiano, entre funcionários públicos, machismos e lutas de aparências. Enfim, tudo o que passa pelo traço de Prado e nos diz que a monotonia é tudo menos definitiva, tudo depende do ponto de vista.

"A Vida é um Delírio", livro do dia no pavilhão 54, da Asa.

terça-feira, junho 01, 2004

meme da frase, dizem eles

que o meu amigo J retransmitiu. pego na deixa, estico a ideia e mostro um bocadinho da minha Feira. é assim:

1.Grab the nearest book
2.Open the book on page 23
3.Find the fifth sentence
4.Post the text of the sentence in your journal along with these instructions


«Abandonando por todos os lados a prancha de madeira, os tentáculos escapavam, sinuosos, em todas as direcções; percorriam a superfície do lavadouro, ultrapassavam os obstáculos, voltavam a juntar-se e sobrepunham-se aqui e ali.»

Entre Paris, a Hipotenusa, e de volta a Paris, Jean-Philippe Toussaint consegue falar-nos de uns polacos muito entretidos a esfolar um polvo. Este cenário, obviamente, só poderia encontrar-se num livro intitulado "O Banho" ("La Salle de Bain"). Escrito por Jean-Philippe Toussaint, e para encontrar, obviamente também, na banca duma editora chamada Fenda.


«Neste ponto da minha vida olho para trás e fico horrorizada com a quantidade de papel que gastei. Deve haver com certeza um lugar no inferno para as pessoas que escrevinharam tanto como eu.»

Pior que quem escrevinha, é quem lê os escrevinhanços, e espalha pilhas de livros por tudo aquilo a que chama casa. Pior que isso é passear pelos parques e jardins e ver folhas de letras e letras em vez de folhas. Pior pior pior é gostar.
"A História de Murasaki" é-nos contada por Liza Dalby num livro da Gótica (à nossa espera nas bancas da Difel).


«O senhor Valéry olhou, então, para os pés, e batendo na cabeça, exclamou:
- Que disparate!»

Mas afinal, eles (os sapatos e os pés) estavam certos, ao contrário dos disparatados (que andavam sempre a apontar-lhe os dedos), que tiveram de se contentar em andar com sapatos iguais nos dois pés, o que, convenhamos, é um bocado monótono para quem o faz desde que aprendeu a andar (e antes até, acho eu, que já não me lembro).
Onde está O Senhor Valéry? Essa é fácil, na Caminho, caminhando até chegar ao Parque dos livros.

Té amanhã

domingo, maio 30, 2004

os livros ao Parque

"Em defesa da localização da Feira do Livro de Lisboa no Parque Eduardo VII" surgiu um livrinho com textos de Autores diversos, apoiado por várias editoras, em que o sentimento geral é bem expresso por este título de Jacinto Lucas Pires: "Não Tirem os Livros dos Dias de Sol do Parque Eduardo VII".
Vamos no entanto hoje destacar aqui as palavras de Jorge Silva Melo, relembrando que a Feira só agora entrou na 2ª semana, e que foi prolongada por mais 4 dias, permitindo ao Parque receber os livros e as pessoas que neles viajam até dia feriado de 10 de Junho.

«Eu só gosto do Parque Eduardo VII em Maio, nunca lá vou noutra altura. Mas gosto de subir e de descer, sobretudo ao sábado e ao domingo, com gente que nunca vi nas livrarias, gente que mexe em livros, dicionários tantas vezes, livros do dia, livros mais baratos, gente, tanta gente, fico sempre com a sensação que há pessoas, que os livros servem as pessoas, que os editores são gente honesta que quer um mundo melhor, gosto de coleccionar os catálogos, de marcar com cruzinha os livros a comprar, de nem sequer comprar esses mas outros que me aparecem, esquecidos, de encontrar livros insuspeitos que nem sabia estarem editados, gosto de pedir autógrafos, há muitos anos foi lá que falei com a Maria Judite de Carvalho e lhe disse quanto a admirava, gosto de ver os escritores sentados, gosto dos altifalantes a anunciarem escritores e descontos, gosto das farturas que ainda o ano passado engorduraram um livro de poesia acabadinho de comprar e até carote, não me tirem a rua dos livros ao sol, não me fechem a Feira do Livro, deixem-me, uma vez por ano, passear pelo Parque Eduardo VII de todos os jacarandás, ao cair da noite, pela fresca, deixem-me encontrar os amigos, são cada vez menos!, deixem-me queixar-me de já não ter dinheiro, nem espaço em casa para mais papelada, deixem-me voltar para casa com quilos de sacos, deixem-me a minha Feira do Livro onde ela é, é onde todos os anos eu respiro um mundo que talvez fosse maior, com mais gente, mais livros, histórias, poesias, gente a subir e a descer aos sábados à tarde, com tanto calor. E um dia gostava de filmar, porque não filmar a descoberta do amor entre um rapaz de uma barraquinha de livros em segunda mão e uma jovem escritora neurasténica, rapariga loira com as suas singularidades. Ou vice-versa, em Maio, no Parque Eduardo VII.»

Boas viagens, boas leituras :)

sábado, maio 29, 2004

Fim-de-semana na Feira

A Feira do Livro de Lisboa encontra o fim-de-semana e este traz-lhe múltiplas sessões de autógrafos, para encher o Parque Eduardo VII de escritores e dos seus leitores:

Manuel Paula estará junto aos pavilhões da Gradiva (98 a 100) a partir das 16 horas para assinar o seu livro "Lisboa Gráfica", no qual se pode ler estas palavras do autor:

«Existe uma arte que, embora visível, fica escondida pela rotina do olhar e pela pressa do dia a dia. Dá-la a ver foi a tarefa que me propus. Este trabalho chama a atenção para o imenso património gráfico de Lisboa, vertente ignorada da sua personalidade. Ao recolher em livro imagens dos grafismos da cidade, sublinho elementos esquecidos pela cultura oficial e homenageio um conjunto de artistas artesãos que com o lápis, o pincel e o cinzel desenharam, pintaram, gravaram e emolduraram, com belos efeitos, fachadas, portas, umbrais e bandeiras, enriquecendo a capital.»


À mesma hora, e também na Gradiva, estará Nuno Crato a autografar os seus três livros, o recente "Trânsitos de Vénus" (em co-autoria com Fernando Reis e Luís Tirapicos), "Zodíaco" e "Eclipses" (em co-autoria com António Magalhães, António Cidadão e Pedro Ré).



Continuando o excelente programa que a Gradiva nos proporciona para esta tarde, Eduardo Lourenço estará junto aos pavilhões 98 a 100 para assinar a sua vastíssima obra, com destaque para o recente "Destroços - O Gibão de Mestre Gil e Outros Ensaios", onde se pode ler:

«Em consonância com a visão bíblica da vida como milícia, escrever à margem do puro canto, entrar na batalha das opiniões, das crenças, da ideologia de uma época, por conta do presente ou do passado (ou mesmo do futuro), é ceder à inevitável tentação polémica inscrita no coração dos homens, da sua vida como combate de que a Cultura, mesmo a mais sublimante, é apenas máscara ou imaginário refúgio. Caí nela e não estou arrependido.»


Romana Petri, autora de "A Senhora dos Açores", um dos primeiros livros publicados pela Cavalo de Ferro, estará hoje no pavilhão 191 às 18 horas para autografar este e "Case Venie", recentemente editado.

A partir das 21 horas decorrerá no Auditório 2 a apresentação de "Pequenas Grandes Infâmias", um dos últimos títulos editados pela Cavalo de Ferro, à qual se seguirá uma sessão de autógrafos com o autor, Panos Karnezis, junto ao pavilhão da editora.


Uma última nota para o concerto desta noite: Gabriel Gomes, Pedro Sotiry e Vitor Bandeira apresentam o projecto Tjak a partir das 22 horas, no Auditório 1.

Boas viagens, bom fim-de-semana :)

quinta-feira, maio 27, 2004

Feira: O'Neill, Vian, estrelas, Wolverine e Mia.

«Na primeira parte desta edição apresentamos duas entrevistas concedidas por Alexandre O’Neill aos jornalistas Adelino Gomes e Joaquim Furtado, em 1983, transmitidas no programa semanal «Ler para Crer», patrocinado pelo Instituto Português do Livro, na Onda Média da Rádio Comercial, além duma conversa gravada em casa do Poeta, em 1986, que deveria constar de uma Antologia da sua obra poética que então organizávamos, num projecto entretanto interrompido. Guardadas até agora em registos magnéticos pessoais, fixámos os respectivos textos e anotámo-los de modo a contextualizar as afirmações de Alexandre O’Neill e a tornar tão abrangente quanto possível a sua leitura.

Para dar a conhecer, ou para relembrar, alguns dos pontos de vista de Alexandre O’Neill através das suas próprias palavras, considerámos, na segunda parte da edição, 14 entrevistas concedidas pelo Poeta a outros tantos jornalistas portugueses, publicadas em jornais e revistas, entre 1960 e 1985.

Dentre as respostas dadas por Alexandre O’Neill aos seus entrevistadores, escolhemos as que julgámos passíveis de uma organização por temas: poesia; surrealismo; «parentescos» poéticos; publicidade; sociedade e consumo; crítica; e vária.»

Alexandre O'Neill está a hoje a livro do dia no stand 10, da Editorial Notícias. Este texto foi retirado da página do Instituto Camões.


«Levar uma pancada na cabeça não é nada. Ser drogado duas vezes seguidas na mesma noite é desagradável mas vá lá... Mas sair para apanhar ar e acordar num quarto desconhecido com uma mulher, os dois com a roupa de Adão e Eva, isso é que já é um bocado forte de mais. Quanto ao que me aconteceu a seguir...» isso só indo ao stand 103, da Relógio d'Água, e perguntar ao senhor Boris Vian, que declara, hoje e sempre, "Morte aos Feios".



Conto estrelas em ti
dezassete vozes,
dezassete modos
de escrever poesia
para crianças e jovens.

no stand 16 infanto-juvenil, da Campo das Letras.




Não tão infantil quanto isso, a viagem de Wolverine ao Japão e ao lar ancestral de Mariko Yashida.
Um magnífico livro de George Pratt, hoje a livro do dia nos stands 188 e 17 infanto-juvenil da Devir.





No stand 87, da Caminho, é Mia Couto quem nos aparece em livro do dia, com "A Varanda do Frangipani", que já vai na 7ª edição.

«A narrativa de A Varanda do Frangipani decorre na Fortaleza de S. Nicolau, algures em Moçambique. A fortaleza há muito que deixou de ser reduto de defesa e ocupação estrangeira para se transformar num asilo de velhos.»