terça-feira, julho 27, 2004

Feiras até Sábado

No cenário habitual do Mercado da Ribeira decorre, desde o passado dia 8, a 1ª Exposição Feira do Papel Velho e das Velharias. Nela pode encontrar-se uma grande colecção de livros que normalmente só está disponível em alfarrabistas, mas também muitos postais e fotografias antigas, jornais que relatam os tempos pós-revolução e outros bem mais antigos, e muitas outras preciosidades. Para além disso, destaque para a presença de muitos títulos antigos da Ulmeiro, entre os quais uma colecção de obras de Agostinho da Silva.

«Dos fados que a mim me movem
sou voluntário instrumento
se fosse solteiro e jovem
te pedia em casamento
sem vontade de casar
que o mais fundo sentimento
é este amor de te amar
o qual amor de te amar
ao que mais quer é à vida
e ao sonho que é te adorar
mais sonhada que vivida.»

em Uns poemas de Agostinho



Também já habituais são as feiras realizadas na Gare do Oriente, com organização da Caminho Divulgação. Desta feita o mote são as férias e assim desde o dia 8 que ali se está a realizar a 2ª Feira do Livro de Verão. Entre as 10h e as 23h ali poderemos encontrar alguns fundos de catálogo de muitas editoras nacionais, bem como títulos mais recentes, todos com um desconto mínimo de 20% sobre o preço de editor.

sábado, julho 24, 2004

“O Diário da Nossa Paixão” de Nicholas Sparks

Num lar de terceira idade, um homem de idade lê uma história a uma senhora também de idade, todos os dias. É sempre a mesma história, a paixão de Noah e Allie, um rapaz simples e uma rapariga de boas famílias, que se apaixonam perdidamente na adolescência, mas a interferência dos pais dela resulta numa separação previsível. Quinze anos depois, quando eles se encontram de novo, ele já possui cicatrizes provocadas pela Segunda Guerra Mundial, e ela está noiva de outro homem. Ela encanta-se então com a inocência e com o poeta que ela encontra dentro dele, e ele apaixona-se pela artista que ela é. A história de Noah e Allie é banal, uma história de amor como tantas outras… Mas o velhote insiste em contar-lhe a mesma história todos os dias, porque ela esquece-se dela todas as noites, por ter a doença de Alzheimer. Mas há dias que a memória não lhe falha tanto, e em que a história lhe parece terrivelmente familiar… Talvez porque o rapaz simples da história lhe lembre alguém que lhe foi muito importante na vida… Ou simplesmente talvez por encontrar um poeta dentro do velhote contador de histórias.

            Quero salientar aos leitores que não sou de maneira alguma uma pessoa que adore ler romances românticos e que chora no final, mas este livro realmente é comovente. É uma história de amor intemporal num cenário deslumbrante: Nova Berna, uma cidadezinha no sul dos E.U.A.. O autor descreve as paixões dos protagonistas de tal modo que é possível sentir os medos, inseguranças, excitação, contentamento, e obviamente o amor que eles sentem um pelo outro, primeiro no ardor da adolescência, passando pela incerteza na fase de adultos, terminando na maturidade na velhice. Sparks percebe que a relação entre um casal muda consoante a fase da vida em que se encontra, pelo que a interacção entre Noah e Allie é realista, e por isso, muito comovente. É sem dúvida um dos melhores e apaixonantes livros de Nicholas Sparks. Para finalizar, gostaria de deixar a nota de que o autor baseou esta história na relação dos sogros, que estiveram juntos durante quase 60 anos. Nos dias de hoje, é algo incrível!

 
O Diário da Nossa Paixão”, Nicholas Sparks (Trad. Helena Barbas), Ed. Presença, 4ª Edição, 1999, 159 págs. Preço: 12,47 €
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terça-feira, julho 20, 2004

diz assim O Guardador de Rebanhos

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

(...)
 
Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa
Que tem que ver com haver gente que pensa...
 
(...)
 
Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras à ideia
E não precisar dum corredor
Do pensamento para as palavras.
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.

segunda-feira, julho 19, 2004

Novidade: Jack London

«Depois de alguma manipulação, lá conseguiu pôr o molho de fósforos entre os punhos das mãos enluvadas. Segurando-os deste modo, levou-os à boca. Fazendo um grande esforço, e entre estalidos do gelo em volta dos lábios, conseguiu abrir a boca. Recolheu a mandíbula inferior e avançou a superior, arreganhou o lábio superior com cujos dentes tentou separar um fósforo. Conseguiu agarrar num, que deixou cair no regaço. Foi inútil, não conseguia chegar-lhe. Depois descobriu uma forma. Apanhou-o com os dentes e riscou a perna com ele. Fê-lo vinte vezes até conseguir acendê-lo. Quando o ateou, segurou-o com os dentes contra a casca de bétula. Mas o enxofre que se desprendeu do fósforo entrou-lhe pelas narinas e para os pulmões, fazendo-o tossir espasmodicamente. O fósforo caiu na neve e apagou-se.»

do conto "A Fogueira" ("To Build a Fire"), de Jack London

Já o 12º livro de Jack London a ser editado na Antígona, "A Fogueira e outros contos" (trad. Ana Barradas) traz-nos 9 histórias com destaque para esse duelo entre um homem e o frio do Alaska. Editado no mês passado, com 218 páginas e um preço de editor de 15€.

domingo, julho 11, 2004

Os Textos de Sophia

Por se ter falado há pouco tempo em Sophia de Mello Breyner, embora por uma situação menos feliz, lembrei-me dos seus contos infantis e de um em particular que sempre gostei muito: "A Fada Oriana"

Confesso, no entanto, que retiro, hoje, uma leitura bem diferente daquela que tirei quando li este livro nos meus tempos de menina. Intriga-me qual é, de facto, a verdadeira moral da história do conto escrito em 1958.

Senão vejamos:

- Primeiro, temos uma fada que para cumprir uma promessa à Rainha das Fadas (a de cuidar de uma floresta), ajuda altruisticamente todos os seres dessa floresta, fazendo por eles coisas que eles não estão para se dar ao trabalho de fazerem sozinhos.

- Depois, quando ela pensa um pouquinho em si própria, tudo se desmorona na floresta. Está bem, que esse "pouquinho" durou uma Primavera, um Verão e um Inverno inteiros, mas isso não é desculpa! Para resultar em termos literários tinha de ser assim!

- Por causa disso, e porque faltou à sua promessa (que nem sequer lhe devia ter sido imposta, in the first place), é castigada de forma cruel e exagerada: são-lhe retiradas as asas e a varinha de condão, não podendo assim ajudar quem precisa, de forma mágica.

-Quando se apercebe que a floresta está num pandemónio e todos os seus seres fugiram ou para a cidade ou para as montanhas, sente-se culpada e passa por uma provação física desumana que vai desde pés ensaguentados até ao abandono total por parte dos seus supostos amigos, a quem levou uma vida a ajudar, e que agora deixaram de acreditar nela.

-Como se não bastasse a Rainha das Fadas (sua superior hierárquica), torna a fazer-lhe exigências para que ela possa readquirir as asas e varinha de condão.

-Finalmente, e apenas quando se esquece de si própria, para ajudar outrém (atira-se para um abismo esquecendo-se que não tem asas para salvar uma velhinha cega que caía a pique por ali adentro) é que volta a ser a Fada Oriana com asas e varinha de condão que lhe são restituidas naquele momento, pelo seu acto heróico e altruísta.

Ou seja, a mensagem que se passa é:

- se tens de trabalhar até à exaustão para agradar a gregos e troianos, em troco de nada, não fazes mais que a tua obrigação.

-se prometes uma coisa, não podes pensar em ti própria por uns momentos, caso contrário és brutalmente castigada.

-se não cumpres os objectivos que te são impostos, ou deixas de ser ou fazer aquilo que os outros esperam de ti, perdes todos os teus amigos, não podes contar com a ajuda de ninguém e se possível ainda te lixam mais um bocado.

-como se tudo isto não bastasse ainda sentes que tudo isso acontece por tua culpa.

-os superiores hierárquicos exigem o que querem de ti e se possível ainda te arranjam mais afazeres que aqueles que já não consegues dar conta à partida. Ou seja, só servem para empatar.

-para recuperares a tua dignidade, tens primeiro de cair fundo no "abismo", levantar-te sozinha, para então voltares a fazer tudo da mesma forma.

-estas frases, apesar de estarem no feminino também se aplicam aos homens.(esta nota já não se extrai da história; é apenas um apontamento pessoal!)

Moral da História:

-se és gaja e não tens superpoderes, estás lixada!
-o ser humano adora milagres e a lei do menor esforço.
-se aparece feito não perguntes quem fez. Mas se algo está por fazer atira logo as culpas para outro.
-sê tu mesmo, desde que isso seja o que os outros esperam de ti.
-apenas quando estás num aperto é que descobres quem são os teus verdadeiros amigos.
-os chefes só servem para empatar.


Por tudo isto a minha opinião sobre a obra de Sophia de Mello Breyner, ficou fortalecida, pois se através de um simples conto infantil, se demonstra a condição humana em geral e a da mulher em particular desta forma, leva-me a crer que toda a sua obra deve ser lida nas entrelinhas.

E fica aqui a promessa de reler todos os seus contos infantis para tentar perceber que outras interessantes conclusões se poderão retirar. Até lá, me aguardem!!!!


A Fada Oriana, Sophia de Melo Breyner Andresen, Figueirinhas, Outubro de 2003, 77 pág.

Lá Longe, A Paz. A Guerra em histórias e poemas

Quantas vezes já vimos nos noticiários cenas de guerra, apenas para fazer zapping? Este livro, esta antologia de histórias e poemas centrados na dualidade guerra/paz, oferece uma perspectiva diferente. É um olhar mais directo aos horrores da guerra, geralmente contados na primeira pessoa pelos protagonistas, que são muitas vezes jovens e crianças simplesmente a reagir aos acontecimentos. Um dos exemplos é Serge, um rapazinho judeu que sobrevive aos horrores dos campos de concentração por saber tocar violino (aos músicos era dado tratamento especial nos campos de concentração, por entreterem os guardas), e que corajosamente salva o pai da câmara de gás:

“- Pára! (...) Mendelssohn [compositor judeu] é proibido.
- Proibido? Porquê?
Serge não compreende. Mendelssohn é o seu compositor favorito. A sua música é tão viva, tão cheia de sentimento.
(...)
Incrível. À sua frente está o homem que apenas umas poucas horas antes condenara o pai [à morte] com um único gesto indiferente. (...)
- Toca lá qualquer coisinha.
A distracção! Serge pensa no canal. Saltar ou morrer. Aqui, uma única nota desafinada podia significar o fim.
(...)
- Herr Kramer, se me permite, queria pedir uma coisa – grita Serge (...) – O meu papá... eh... pai é também um bom músico.
- So? Onde está? Qual é o instrumento que toca?
- Na barraca 148, Herr Lagerfuhrer. Esta manhã foi seleccionado [para a câmara de gás] e levado pelo Sonderkommando. É um excelente pianista.
- Hmmm... Piano. Vamos a ver.”


(em A Orquestra, de Roger Vanhoeck)

O poema seguinte revela a sensação estranha da paz depois de muitos anos de guerra:

“Recebemos heróis à hora do chá
juntos estavam sentados no sofá
não tinham conversa
nenhuma, eu pus-me a olhar a olhar
Até que ficaram envergonhados
Não sabiam o que haviam de fazer
Com uma paz assim.”


(1945, de Judith Herberg)

Esta antologia é composta por vários autores nacionais, nomeadamente Ilse Losa, Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner Andersen, Sérgio Godinho e Alice Vieira, entre outros, além de vários textos de autores estrangeiros muito bem traduzidos. É essencialmente um livro que nos faz reflectir, histórias que mostram os sofrimento provocado pela guerra a pessoas como nós, que felizmente nunca tivemos acesso a essa realidade.


Lá Longe, a Paz. A guerra em histórias e poemas”; Antologia organizada por Manuela Fonseca e Irene Koenders, Annemie Leysen, Carol Fox; Edições Afrontamento, Lda; 2001; 323 págs.

terça-feira, julho 06, 2004

MORTE NA PRAIA - Agatha Christie

Numa pequena ilha, em plena época balnear, é cometido um assassínio: a sra. Arlena Marshall é encontrada estrangulada pelo amante Patrick e por Emily, uma outra hóspede do único hotel da zona.

“Algo estava a intrigar Emily Brewster. Era como se estivesse a olhar para alguma coisa que conhecia bem, mas na qual havia algum pormenor que lhe parecia errado.
(...)
Ouviu a voz de Patrick – apenas um sussuro amendrontado. Ele ajoelhou-se junto da figura imóvel, tocou-lhe na mão, no braço...
Num arrepiante murmúrio disse:
- Meu Deus ela está morta! Santo Deus, ela foi estangulada... assassinada!”

Cedo se deduz que apenas os hóspedes do hotel é que poderiam ter cometido o assassínio. E agora, a pergunta fica no ar: quem foi? Talvez o marido de Arlena, o capitão Marshall, por ciúme ao descobrir que ela tinha um amante? Mas o capitão tem um álibi. Talvez a esposa do amante de Arlena, a frágil Christina? Mas ela não teria força suficiente para fazer o estrangulamento. E também se suspeita de Linda, a filha adolescente do capitão, que odiava a madrasta, e Rosamund Darley, uma antiga namorada do capitão, que mente durante o depoimento. E quando o assassínio parecia que iria permanecer não resolvido, eis que aparece Poirot, o grande detective belga, que também estava a passar umas férias merecidas na ilha, com uma solução aparentemente fantástica... e verdadeira.

“- O marido insistiu que a vítima não tinha inimigos, mas não posso acreditar nisso! Eu diria que uma senhora como ela faria ... bem, faria alguns inimigos, e dos bons. Que acha, sir?
- Mas oui, tem toda a razão – respondeu Poirot – mas (...) os inimigos de Arlena são todos mulheres. (...) Parece-me pouco plausível que este homicídio tenha sido cometido por uma mulher. Que diz o médico legista?
- Neasden parece convencido de que ela foi estrangulada por um homem....”


Este é um dos melhores livros escritos por Agatha Christie. Existem histórias escritas por esta autora em que se desconfia/descobre o criminoso no meio do livro, mas não este. Depois de verificar os movimentos de um número de suspeitos mais ou menos credíveis no dia do crime, Poirot junta todos os hóspedes (incluindo o assassino) numa sala, e explica como se deu o crime. A solução final é realmente muito engenhosa. Esta história não inclui a personagem do Capitão Hastings, um grande amigo de Poirot, que costuma contar na primeira pessoa os casos que o detective belga resolve, e cuja interacção com este constitui a nota humorística presente nos livros de Poirot (o Capitão Hastings tem a mesma função do Doutor Watson nas histórias de Sherlock Holmes: é o contador de histórias e o homem normal ao lado do homem-génio). Assim, quem ocupa o lugar de Hastings neste livro é o coronel Weston, o polícia encarregue do crime, e também Rosamund Darley, uma das hóspedes do hotel; mas na interacção não se encontra a leveza dos diálogos entre Poirot e Hastings, infelizmente. Mas é sem dúvida uma história bastante interessante e um bom livro para ler nas férias. Nota final: este livro já foi adaptado ao grande ecrãn (uma adaptação feliz), com o grande actor Peter Ustinov a interpretar Poirot.

«Morte na Praia», de Agatha Christie, (trad. José Lourenço), Edições Asa, 1ª Edição, Fevereiro de 2002, 191 págs., pvp: 10€.

texto por Marosifig