terça-feira, julho 27, 2004

Feiras até Sábado

No cenário habitual do Mercado da Ribeira decorre, desde o passado dia 8, a 1ª Exposição Feira do Papel Velho e das Velharias. Nela pode encontrar-se uma grande colecção de livros que normalmente só está disponível em alfarrabistas, mas também muitos postais e fotografias antigas, jornais que relatam os tempos pós-revolução e outros bem mais antigos, e muitas outras preciosidades. Para além disso, destaque para a presença de muitos títulos antigos da Ulmeiro, entre os quais uma colecção de obras de Agostinho da Silva.

«Dos fados que a mim me movem
sou voluntário instrumento
se fosse solteiro e jovem
te pedia em casamento
sem vontade de casar
que o mais fundo sentimento
é este amor de te amar
o qual amor de te amar
ao que mais quer é à vida
e ao sonho que é te adorar
mais sonhada que vivida.»

em Uns poemas de Agostinho



Também já habituais são as feiras realizadas na Gare do Oriente, com organização da Caminho Divulgação. Desta feita o mote são as férias e assim desde o dia 8 que ali se está a realizar a 2ª Feira do Livro de Verão. Entre as 10h e as 23h ali poderemos encontrar alguns fundos de catálogo de muitas editoras nacionais, bem como títulos mais recentes, todos com um desconto mínimo de 20% sobre o preço de editor.

sábado, julho 24, 2004

“O Diário da Nossa Paixão” de Nicholas Sparks

Num lar de terceira idade, um homem de idade lê uma história a uma senhora também de idade, todos os dias. É sempre a mesma história, a paixão de Noah e Allie, um rapaz simples e uma rapariga de boas famílias, que se apaixonam perdidamente na adolescência, mas a interferência dos pais dela resulta numa separação previsível. Quinze anos depois, quando eles se encontram de novo, ele já possui cicatrizes provocadas pela Segunda Guerra Mundial, e ela está noiva de outro homem. Ela encanta-se então com a inocência e com o poeta que ela encontra dentro dele, e ele apaixona-se pela artista que ela é. A história de Noah e Allie é banal, uma história de amor como tantas outras… Mas o velhote insiste em contar-lhe a mesma história todos os dias, porque ela esquece-se dela todas as noites, por ter a doença de Alzheimer. Mas há dias que a memória não lhe falha tanto, e em que a história lhe parece terrivelmente familiar… Talvez porque o rapaz simples da história lhe lembre alguém que lhe foi muito importante na vida… Ou simplesmente talvez por encontrar um poeta dentro do velhote contador de histórias.

            Quero salientar aos leitores que não sou de maneira alguma uma pessoa que adore ler romances românticos e que chora no final, mas este livro realmente é comovente. É uma história de amor intemporal num cenário deslumbrante: Nova Berna, uma cidadezinha no sul dos E.U.A.. O autor descreve as paixões dos protagonistas de tal modo que é possível sentir os medos, inseguranças, excitação, contentamento, e obviamente o amor que eles sentem um pelo outro, primeiro no ardor da adolescência, passando pela incerteza na fase de adultos, terminando na maturidade na velhice. Sparks percebe que a relação entre um casal muda consoante a fase da vida em que se encontra, pelo que a interacção entre Noah e Allie é realista, e por isso, muito comovente. É sem dúvida um dos melhores e apaixonantes livros de Nicholas Sparks. Para finalizar, gostaria de deixar a nota de que o autor baseou esta história na relação dos sogros, que estiveram juntos durante quase 60 anos. Nos dias de hoje, é algo incrível!

 
O Diário da Nossa Paixão”, Nicholas Sparks (Trad. Helena Barbas), Ed. Presença, 4ª Edição, 1999, 159 págs. Preço: 12,47 €
.

terça-feira, julho 20, 2004

diz assim O Guardador de Rebanhos

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

(...)
 
Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa
Que tem que ver com haver gente que pensa...
 
(...)
 
Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras à ideia
E não precisar dum corredor
Do pensamento para as palavras.
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.

segunda-feira, julho 19, 2004

Novidade: Jack London

«Depois de alguma manipulação, lá conseguiu pôr o molho de fósforos entre os punhos das mãos enluvadas. Segurando-os deste modo, levou-os à boca. Fazendo um grande esforço, e entre estalidos do gelo em volta dos lábios, conseguiu abrir a boca. Recolheu a mandíbula inferior e avançou a superior, arreganhou o lábio superior com cujos dentes tentou separar um fósforo. Conseguiu agarrar num, que deixou cair no regaço. Foi inútil, não conseguia chegar-lhe. Depois descobriu uma forma. Apanhou-o com os dentes e riscou a perna com ele. Fê-lo vinte vezes até conseguir acendê-lo. Quando o ateou, segurou-o com os dentes contra a casca de bétula. Mas o enxofre que se desprendeu do fósforo entrou-lhe pelas narinas e para os pulmões, fazendo-o tossir espasmodicamente. O fósforo caiu na neve e apagou-se.»

do conto "A Fogueira" ("To Build a Fire"), de Jack London

Já o 12º livro de Jack London a ser editado na Antígona, "A Fogueira e outros contos" (trad. Ana Barradas) traz-nos 9 histórias com destaque para esse duelo entre um homem e o frio do Alaska. Editado no mês passado, com 218 páginas e um preço de editor de 15€.

domingo, julho 11, 2004

Lá Longe, A Paz. A Guerra em histórias e poemas

Quantas vezes já vimos nos noticiários cenas de guerra, apenas para fazer zapping? Este livro, esta antologia de histórias e poemas centrados na dualidade guerra/paz, oferece uma perspectiva diferente. É um olhar mais directo aos horrores da guerra, geralmente contados na primeira pessoa pelos protagonistas, que são muitas vezes jovens e crianças simplesmente a reagir aos acontecimentos. Um dos exemplos é Serge, um rapazinho judeu que sobrevive aos horrores dos campos de concentração por saber tocar violino (aos músicos era dado tratamento especial nos campos de concentração, por entreterem os guardas), e que corajosamente salva o pai da câmara de gás:

“- Pára! (...) Mendelssohn [compositor judeu] é proibido.
- Proibido? Porquê?
Serge não compreende. Mendelssohn é o seu compositor favorito. A sua música é tão viva, tão cheia de sentimento.
(...)
Incrível. À sua frente está o homem que apenas umas poucas horas antes condenara o pai [à morte] com um único gesto indiferente. (...)
- Toca lá qualquer coisinha.
A distracção! Serge pensa no canal. Saltar ou morrer. Aqui, uma única nota desafinada podia significar o fim.
(...)
- Herr Kramer, se me permite, queria pedir uma coisa – grita Serge (...) – O meu papá... eh... pai é também um bom músico.
- So? Onde está? Qual é o instrumento que toca?
- Na barraca 148, Herr Lagerfuhrer. Esta manhã foi seleccionado [para a câmara de gás] e levado pelo Sonderkommando. É um excelente pianista.
- Hmmm... Piano. Vamos a ver.”


(em A Orquestra, de Roger Vanhoeck)

O poema seguinte revela a sensação estranha da paz depois de muitos anos de guerra:

“Recebemos heróis à hora do chá
juntos estavam sentados no sofá
não tinham conversa
nenhuma, eu pus-me a olhar a olhar
Até que ficaram envergonhados
Não sabiam o que haviam de fazer
Com uma paz assim.”


(1945, de Judith Herberg)

Esta antologia é composta por vários autores nacionais, nomeadamente Ilse Losa, Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner Andersen, Sérgio Godinho e Alice Vieira, entre outros, além de vários textos de autores estrangeiros muito bem traduzidos. É essencialmente um livro que nos faz reflectir, histórias que mostram os sofrimento provocado pela guerra a pessoas como nós, que felizmente nunca tivemos acesso a essa realidade.


Lá Longe, a Paz. A guerra em histórias e poemas”; Antologia organizada por Manuela Fonseca e Irene Koenders, Annemie Leysen, Carol Fox; Edições Afrontamento, Lda; 2001; 323 págs.

terça-feira, julho 06, 2004

MORTE NA PRAIA - Agatha Christie

Numa pequena ilha, em plena época balnear, é cometido um assassínio: a sra. Arlena Marshall é encontrada estrangulada pelo amante Patrick e por Emily, uma outra hóspede do único hotel da zona.

“Algo estava a intrigar Emily Brewster. Era como se estivesse a olhar para alguma coisa que conhecia bem, mas na qual havia algum pormenor que lhe parecia errado.
(...)
Ouviu a voz de Patrick – apenas um sussuro amendrontado. Ele ajoelhou-se junto da figura imóvel, tocou-lhe na mão, no braço...
Num arrepiante murmúrio disse:
- Meu Deus ela está morta! Santo Deus, ela foi estangulada... assassinada!”

Cedo se deduz que apenas os hóspedes do hotel é que poderiam ter cometido o assassínio. E agora, a pergunta fica no ar: quem foi? Talvez o marido de Arlena, o capitão Marshall, por ciúme ao descobrir que ela tinha um amante? Mas o capitão tem um álibi. Talvez a esposa do amante de Arlena, a frágil Christina? Mas ela não teria força suficiente para fazer o estrangulamento. E também se suspeita de Linda, a filha adolescente do capitão, que odiava a madrasta, e Rosamund Darley, uma antiga namorada do capitão, que mente durante o depoimento. E quando o assassínio parecia que iria permanecer não resolvido, eis que aparece Poirot, o grande detective belga, que também estava a passar umas férias merecidas na ilha, com uma solução aparentemente fantástica... e verdadeira.

“- O marido insistiu que a vítima não tinha inimigos, mas não posso acreditar nisso! Eu diria que uma senhora como ela faria ... bem, faria alguns inimigos, e dos bons. Que acha, sir?
- Mas oui, tem toda a razão – respondeu Poirot – mas (...) os inimigos de Arlena são todos mulheres. (...) Parece-me pouco plausível que este homicídio tenha sido cometido por uma mulher. Que diz o médico legista?
- Neasden parece convencido de que ela foi estrangulada por um homem....”


Este é um dos melhores livros escritos por Agatha Christie. Existem histórias escritas por esta autora em que se desconfia/descobre o criminoso no meio do livro, mas não este. Depois de verificar os movimentos de um número de suspeitos mais ou menos credíveis no dia do crime, Poirot junta todos os hóspedes (incluindo o assassino) numa sala, e explica como se deu o crime. A solução final é realmente muito engenhosa. Esta história não inclui a personagem do Capitão Hastings, um grande amigo de Poirot, que costuma contar na primeira pessoa os casos que o detective belga resolve, e cuja interacção com este constitui a nota humorística presente nos livros de Poirot (o Capitão Hastings tem a mesma função do Doutor Watson nas histórias de Sherlock Holmes: é o contador de histórias e o homem normal ao lado do homem-génio). Assim, quem ocupa o lugar de Hastings neste livro é o coronel Weston, o polícia encarregue do crime, e também Rosamund Darley, uma das hóspedes do hotel; mas na interacção não se encontra a leveza dos diálogos entre Poirot e Hastings, infelizmente. Mas é sem dúvida uma história bastante interessante e um bom livro para ler nas férias. Nota final: este livro já foi adaptado ao grande ecrãn (uma adaptação feliz), com o grande actor Peter Ustinov a interpretar Poirot.

«Morte na Praia», de Agatha Christie, (trad. José Lourenço), Edições Asa, 1ª Edição, Fevereiro de 2002, 191 págs., pvp: 10€.

texto por Marosifig

quinta-feira, junho 17, 2004

MEMÓRIAS DE ADRIANO - Marguerite Yourcenar

Tentei eleger o meu livro preferido de todos os tempos, para começar. Impossível. Cada livro tem uma personalidade própria, pelo que, devido aos meus estados de espírito meteorológicos, tenho com eles uma relação inconstante e imprevisível. Ao fim de algumas horas a matutar, lá consegui reduzir para sete uma lista de dezenas de livros, e de entre esses, finalmente, escolher um.

É um livro que me marcou, quer porque entrou na minha vida no momento certo, quer porque continua a deslumbrar-me, a fascinar-me, a intrigar-me de cada vez que o releio.

O homem mais poderoso do mundo (ao seu tempo) vai-se despindo, diante dos nossos olhos, perante o fantasma de uma morte próxima. Peça a peça, desmonta a sua vida, as suas acções, os seus pensamentos, os seus julgamentos, os seus sentimentos. Conta-nos histórias de guerra e jogos de poder. Histórias de amor e jogos de cama. Fala-nos das glórias e das misérias dos homens, em particular das suas. Fala do horror e da beleza. Diz:

"Acreditei outrora que um certo gosto da beleza substituiria em mim a virtude, saberia imunizar-me contra as solicitações demasiado grosseiras. Mas enganava-me. O amador de beleza acaba por encontrá-la em toda a parte, filão de ouro nos mais ignóbeis veios..." (pág. 19)

E faz-me lembrar Oscar Wilde.

Fala também de livros:

"A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana, assim como as grandes atitudes imóveis das estátuas me ensinaram a apreciar os gestos. Em contrapartida, e posteriormente, a vida fez-me compreender os livros. (...) Adaptar-me-ia muito mal a um mundo sem livros; mas a realidade não está lá, porque eles a não contêm inteira." (pág. 24)

"O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que, pela primeira vez, se lança um olhar inteligente sobre si mesmo: as minhas primeiras pátrias foram os livros." (pág. 34)

Classificar este livro, como aliás, todos os outros, é redutor. Romance histórico? Com certeza. Mas qual é o livro que, mais cedo ou mais tarde, não acaba por sê-lo? Além disso, este livro podia ter sido escrito no séc. II (época em que viveu o protagonista), no séc. XX (quando foi realmente escrito), ou daqui a cem anos, que nem por isso ficava a dever fosse o que fosse à actualidade.

Romance Gay? Pode ser. Mas está escrito no próprio livro: "Um homem que lê, ou que pensa, ou que calcula, pertence à espécie e não ao sexo; nos seus melhores momentos escapa mesmo ao humano." (pág. 57)

Uma autobiografia? Parece, mas não é. Fica-se sem saber se é Marguerite Yourcenar que dá voz ao Imperador Adriano, se é ele que empresta a alma à escritora. Mas chama-se "Memórias de Adriano".

"Memórias de Adriano, seguido de Apontamentos sobre as Memórias de Adriano" (Mémoires d'Hadrien, suivi de Carnets de Notes de Mémoires d'Hadrien, 1974), Marguerite Yourcenar (trad. Maria Lamas), Ulisseia, 12ª edição, Abril 2000, 288 pág.


texto por Astianax

terça-feira, junho 15, 2004

O CÓDIGO DA VINCI - Dan Brown

Robert London é um professor de simbologia de Harvard que, durante uma visita em trabalho a Paris, se envolve numa teia de conspirações perigosas. Ele é acordado pela Polícia de madrugada, porque o provedor do Louvre foi assassinado dentro do próprio museu, e à volta do corpo foram encontrados umas cifras enigmáticas. Robert apercebe-se que a Polícia o considera suspeito principal, e assim, com a ajuda de Sophie Neveu, a neta criptóloga do provedor, inicia uma busca desesperada e cheia de perigos do assassino, ao tentar descobrir o significado real da mensagem cifrada. Os dois, incrédulos, descobrem que esta leva a pistas escondidas nos trabalhos de Da Vinci – pistas visíveis aos olhos de todos, embora bem disfarçados pelo pintor – e que o famoso pintor de Mona Lisa foi membro do Priorado de Sião, uma sociedade secreta que também teve como membros Sir Isaac Newton, Botticelli, Victor Hugo, e mais recentemente, o próprio provedor! No entanto, quanto mais pistas Robert descobre, mais convencido ele fica de que a morte do provedor se deveu a conspirações muito antigas, para manter uma verdade bombástica no segredo dos deuses... E quem é o misterioso Professor, que parece estar sempre um passo à frente na investigação de Robert e de Sophie?


"O Código Da Vinci", de Dan Brown (trad. Mário Dias Correia), Bertrand Editora, 1ª edição (2004), 536 págs., pvp: 17,96€.


Na minha opinião, este livro é simplesmente genial. O ritmo da acção é bastante rápido, os enigmas que levam ao Graal são incrivelmente inteligentes, e existe um número de surpresas e reviravoltas na história até o mistério principal estar resolvido. O autor (Dan Brown) fez sem dúvida uma pesquisa muito extensa na (grande) influência das religiões pagãs no Cristianismo, os primeiros dias desta religião, a lenda do Graal, os Templários e obviamente, na vida e trabalho do artista/cientista Leonardo da Vinci. Para muitos, a teoria alternativa da vida de Jesus, apresentada por Dan Brown, é bastante discutível; mas muitos dos factos revelados no livros são actualmente verdadeiros, e estes elementos estão elaborados na história de tal modo que no final, ficamos a pensar – quanto da história é ficção?

texto por Marosifig

segunda-feira, junho 14, 2004

O PRINCÍPIO DA ATRACÇÃO - Teresa Direitinho

Há umas semanas atrás, chegou um pedido de opinião directamente das Azenhas do Mar, a esta obra de Teresa Direitinho, intitulada "O Princípio da Atracção".

Com a Feira do Livro e muitas outras histórias que se cruzaram ao caminho, o livro lá ficou no topo da pilha, mas sem a atenção prometida e devida. Enquanto esse dia não chega, e para que o pedido não esmoreça por final do prazo de validade, pego nas palavras de Desidério Murcho, que no Mil Folhas da semana passada publicou uma crónica sobre o livro.

As palavras do pilha chegarão num outro dia de sol.

«A Atraente Banalidade da Verdade

Há algo de estranho neste primeiro romance de Teresa Direitinho. Apesar da banalidade da história e da narrativa, e apesar das personagens um tanto ocas, lê-se compulsivamente - como quem lê as memórias francas e muito honestas de uma pessoa sensível mas sem muitas complexidades psicológicas, que sobretudo quer viver feliz num mundo quase infantil. O romance narra de forma directa, sem floreados, e na primeira pessoa, a vida de Laura, dos 13 anos até perto dos 35 - de 1978 a 1999. Talvez a leitura seja compulsiva porque nos vence pela força simples das emoções verdadeiras.

Nada acontece de verdadeiramente extraordinário neste romance. Laura, aos 13 anos, conhece David e Arthur, dois irmãos meio ingleses que vão passar as férias de Verão à propriedade da família no Alentejo. A normal camaradagem de pré-adolescentes livres e saudáveis, longe das grandes cidades, desenvolve-se sem sobressaltos. Entre os três há amizade, partilha, humor e o gosto de viver. Quase parece o idílio dos livros de Enid Blyton. Mas é claro que a paixão está no horizonte e o leitor pergunta-se qual é o desgraçado que vai ficar de fora. A coisa torna-se complicada com a entrada de John, um amigo americano dos irmãos. Agora há dois que ficam de fora.

O romance trata com parcimónia as hesitações amorosas de Laura e a tentativa de manter a amizade com os rapazes. O que ressalta é o enorme bom senso daquela gentinha: entre os 13 e os 18 anos, talvez pareçam sensaborões ao leitor moderno. Contudo, o romance é bastante realista, neste aspecto. Se olharmos para as nossas próprias vidas, não são muito diferentes. E talvez seja este um dos aspectos que tornam a sua leitura compulsiva: não estamos em busca de literatura, mas de uma compreensão alargada da condição humana. Mas, pensando melhor, não é também isso que nos atrai na boa literatura?

Quando chegamos a meio do romance e a protagonista já se apaixonou à vez por dois dos rapazes, conseguindo a proeza de manter a amizade dos outros, começamos a perguntar o que raio poderá acontecer agora. E este é um aspecto que não desilude: o medo de que a história perca direcção e focagem é injustificado. Pelo contrário, o desenrolar da história vai esclarecendo aos poucos o sentido de todo romance: a busca incessante de Laura pela verdade emocional. Ela ama e é amada, apaixona-se e é objecto de paixão, mas quer algo mais: quer verdade.

O romance desenrola-se contra o pano de fundo do Alentejo. Mas a protagonista vive igualmente em Lisboa, visita Londres e o Sul da Inglaterra, vive nos Estados Unidos e visita Áustria e Itália. A música e a ciência, as artes e a literatura estão igualmente presentes. Mas há no uso de todos estes elementos aquela simplicidade banal que caracteriza o romance, e que resulta inesperadamente realista: afinal, para a maior parte das pessoas, todas estas coisas são como adornos para vidas que de outro modo seriam terrivelmente ocas. É como se a angústia, o desespero e o turbilhão que tantas vezes impulsiona a arte e a ciência dos outros fosse uma espécie de bálsamo para espectadores em busca de um sentido morno para as suas vidas banais.

Quem conhece o "Quarteto de Alexandria", de Lawrence Durrell (Ulisseia), reconhece neste romance o mesmo tema: a compreensão da amizade e do amor, daquela amizade funda que partiu da adolescência, daquele amor que desampara e dói. Mas, surpreendentemente, dada a alma fadista nacional, não há neste romance um lado negro: há luz a jorros por todo o lado e a vontade simples da felicidade simples. Olha-se o céu nocturno alentejano povoado de estrelas, mas sente-se apenas a maravilha de se estar vivo, de se ser jovem e de se ter amigos. Esta superficialidade é, de algum modo, chocante. Contudo, é realista.

Este é um romance para quem pertence à geração da autora, e que se revê claramente no tempo histórico retratado. Mas é também um romance especialmente apelativo para os que agora são adolescentes e que poderão aprender com as adolescências de outro tempo. Afinal, os adolescentes estão sempre condenados a ler o que se passa não na sua adolescência, mas na dos que agora são seus pais.

Desidério Murcho, Mil Folhas, Público, 05/06/04»

O Princípio da Atracção, Teresa Direitinho, Oficina do Livro, Agosto 2003 (1ª edição), 396 pág., pvp: 16€

domingo, junho 13, 2004

adivinha quem voltou

foi o Bicho Escala-Estantes, que depois de uma época entre Maio e Setembro do ano passado numa morada muito semelhante, e uma tentativa falhada no weblog, volta agora com mais convivas.
para concordar ou rejeitar, divertir ou chorar. em conversas sempre cheias de livros e livrarias

sexta-feira, junho 11, 2004



até já

quinta-feira, junho 10, 2004

Feira até à meia-noite

«Atravesso a rua com o gosto do ar na língua, o silencioso pousar que me ergue do solo até à copa das árvores, o mar respirado, a sede entre o olhar e o tronco - estendo a mão para a terra, o ar: para rir entre as folhas na rua do ar.»

António Ramos Rosa a Respirar a sombra viva, à sombra de um Plátano.

último dia, véspera dos sorrisos de amanhã

venham daí

quarta-feira, junho 09, 2004

só restam 2 dias de Feira

Parece que alguns orgãos de comunicação social boicotaram a Feira do Livro de Lisboa a ponto de dizerem que esta acabava no Domingo passado. Desinformação, incompetência, ou seja lá o que for, o certo é que nestes dois últimos dias a afluência de pessoas ao Parque Eduardo VII foi claramente menor que nos dias anteriores, e os livros sem pessoas não têm vontade de fazer a festa. Ela vive durante mais dois dias, até à próxima quinta-feira, feriado nacional de 10 de Junho. Venham, juntem-se a nós.


«OS PÉS EM SANGUE

Porque não experimentam deixar-se conduzir pelos próprios pés? Não tenham receio.

Os pés preferem esses caminhos de que ninguém - a não ser as cabras - se serve ainda. Talvez os anime o mesmo espírito dos salmões quando, na altura da desova, procuram as primeiras e definitivas águas.

Não me perguntem onde vos levarão. A única coisa que vos posso assegurar é que se trata de um lugar onde o orvalho é de mil anos.»

Jorge Sousa Braga, O Poeta Nu, à nossa espera, na Fenda.



«Mesmo num filme sério quando a imagem era cortante de beleza
o teu riso ecoava na sala e a gente culta fazia chiu e voltava
a cabeça para trás. Eu, muito envergonhado, jurava para dentro
de mim que nunca mais te levaria ao cinema. Contudo, ao mesmo
tempo, achava graça haver uma pessoa que achava graça a tudo.»

Helder Moura Pereira verte uma Lágrima na Assírio & Alvim.


«Assim, há trinta e cinco anos que precipito os pacotes numa situação desesperada, risco os anos, os meses e os dias, contando quanto falta para nos aposentarmos, a minha prensa e eu; todas as noites trago, na minha pasta, livros para casa, e o meu apartamento, num segundo andar em Holesovice, está repleto de livros, livros apenas: a cave está cheia e o alpendre já não chega, a cozinha, a despensa e a retrete estão cheias, apenas o caminho para a janela e para o fogão estão livres, na retrete há apenas o espaço para me poder sentar; por cima da sanita, à altura de um metro e meio já há traves e pranchas e em cima delas, até ao tecto, erguem-se os livros, quinhentos quilos de livros; chega um único movimento desajeitado ao sentar-me, um levantar imprudente, para tocar na trave mestra, e meia-tonelada de livros se precipitará sobre mim e me esmagará com as calças descidas. Mas como aqui já não se consegue acrescentar nem um só livro, assim, no quarto, em cima de duas cama juntas, mandei pôr traves e pranchas em forma de baldaquim, de um dossel de cama, sobre as quais estão arrumados livros até ao tecto; trouxe duas toneladas de livros para casa durante trinta e cinco anos, e, quando estou a adormecer, duas toneladas de livros como uma falena de dois mil quilos pesam sobre os meus sonhos.»

Bohumil Hrabal vive Uma Solidão Demasiado Ruidosa na Afrontamento.


até logo, no sítio do costume

terça-feira, junho 08, 2004

O JOGO DAS NUVENS - Johann Wolfgang Goethe

"Mas ele, Howard, homem clarividente,
Com a sua doutrina ensinou toda a gente.
O que o céu não retém e o sentido não vê,
Ele primeiro o fixa, e enfim o lê;
Dá forma ao informe, seu domínio estreita,
Com o nome certo - honra lhe seja feita! -
A nuvem sobe, adensa, esgarça, desce,
E o mundo pensa em ti e agradece."
Pág. 80

Como uma reunião de textos que é, este livro separa-se em várias partes. Na primeira, deveras interessante, estão os textos em que Goethe se debruçou sobre a classificação das nuvens, e teorias sobre as suas transformações. No final deste texto damos por nós, inconscientemente a olhar para o céu e a pensar "será stratus? será cirrus?" Quando o nosso entusiasmo está no auge, entramos num entediante díario de formas de nuvens, que custa imenso a passar. Quando estamos à beira de desisitir, somos presenteados com deliciosas poesias.

O Jogo das Nuvens, Johann Wolfgang Goethe, selecção tradução, prefácio e notas de João Barrento, Assírio & Alvim, 2003, 108 páginas

"Se a região superior, com a sua energia dissecante, capaz de absorver e dissolver em si a água, vence a disputa, estas massas concentradas dissolvem-se e desfiam-se nas pontas superiores, elevam-se em flocos e nós vemo-las como cirrus que acabam por desaparecer no espaço infinito. Mas se for a região inferior a vencer, a zona mais propícia a atrair a si a mais densa humidade e a mostrá-la em gotas sensíveis, então a base horizontal do cumulus desce, a nuvem alarga-se e forma um stratus, fica parada ou anda, alternadamente, e acaba por cair na terra sob a forma de chuva, fenómeno que, conjuntamente com o anterior, recebe o nome de nimbus." pág. 75

Este é um livro que certamente agradará a quem estiver realmente interessado em saber mais sobre os jogos que as nuvens brincam por cima das nossas cabeças. Para os meros curiosos, saltem as partes que não interessam!

domingo, junho 06, 2004

o último fim-de-semana na Feira

Relembro que a Feira foi prolongada por mais 4 dias, o que a vai levar até ao próximo dia 10 de Junho, feriado nacional. Apesar da extensão do programa, hoje é o último Domingo em que haverá livros no Parque este ano, e como tal espera-se muita gente a passear cima abaixo com livros na mão :)

Domingo na Feira, abre a caça ao autógrafo:

- José Abrantes, autor das aventuras do gato Zu, estará no Pavilhão dos Pequenos Editores entre as 15h30 e as 16h30 para autografar as suas duas novas aventuras, "O Crocodilo Chorão" e "Os Anos da Rita", editadas pela Polvo.

- A partir das 16h00 estarão Vasco Graça Moura ("O Enigma de Zulmira")e Pedro Paixão ("Quase Gosto da Vida que Tenho") nos pavilhões 140-142 da Bertrand/Quetzal, Manuel Dias ("Queridos Matadores") no 186 da Miosótis, Manuela Ribeiro nos 134-136 da Ambar, Rosa Lobato de Faria nos 52-55 da Asa, Rui Zink ("Dádiva Divina"), António Lobo Antunes ("Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo") e Rosa Aneiros nos 70-74 da Dom Quixote, Natália Bebiano da Providência ("2+2=11") nos 98-100 da Gradiva e Fátima Ribeiro de Medeiros ("Do Fruto à Raiz") no 158 da Gailivro.

- Às 17 horas realiza-se no auditório 1 a apresentação do livro "Trânsitos de Vénus", da autoria de Nuno Crato, Fernando Reis e Luís Tirapicos, numa edição da Gradiva.

- Ainda às 17h, sessão de autógrafos com Maria Amélia Lemos Alves, no pavilhão 115 da Livraria Municipal. Às 18h é Possidónio Cachapa que estará na Oficina do Livro (9 e 11) e às 18h30 Manuela Nogueira estará no pavilhão 69 da Assírio & Alvim.

- 18h30 é a hora marcada para um Encontro com Escritores, uma conversa entre Maria João Seixas e António Mega Ferreira e todos os presentes, no Auditório 1.

- O livro "Resistência", de Rosa Aneiros e publicado pela Dom Quixote, terá uma sessão de lançamento no Auditório 2, a partir das 19 horas.

- Ainda no Auditório 2, mas a partir das 21h30, decorrerá a apresentação do livro "Carreiras de Saída da Toxicodependência", de Manuel Sommer, editado pela Climepsi.

sexta-feira, junho 04, 2004

Diários do Torga

Os Diários do Torga. Todos os fascículos velhinhos (16, julgo) condensados em dois consideráveis volumes pela D. Quixote. Dão muito menos jeito para ler na cama ou na praia ;)

O passar dos dias, dos meses, dos anos, da vida. De um homem que foi muito grande em tudo o que fez. As artes médicas para salvar vidas e as artes da escrita para delas cuidar.

Com isso ganhará quem pegar nestes registos, onde se sente o pulsar de um coração gigantesco. E o granito a escurecer com o tempo, também.

Não é um diário. É um diário dos dias em que ele terá sentido a grande necessidade de partilhar o que lhe ia na alma.

Há relatos de dias seguidos e, por vezes, meses de ausência. Mas sempre todos muito a tempo.


Diários para ler e pensar...