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sexta-feira, junho 22, 2012

Esquinas e quedas

post de José Mário Silva, publicado no Bibliotecário de Babel


Prémio Nacional de Poesia
Autor: Nuno Moura
Editora: Mia Soave
N.º de páginas: 44
ISBN: 978-989-97215-1-7
Ano de publicação: 2012

Nuno Moura é um dos elementos mais desalinhadamente activos da poesia portuguesa contemporânea. Ex-jogador de pólo aquático, ex-publicitário, tem sido um declamador todo-o-terreno de versos seus e de outros – a solo, em dupla (COPO, com Paulo Condessa) ou em grupo (Ventilan) –, além de responsável por projectos editoriais arriscados, sempre à margem dos circuitos estabelecidos. Depois da Mariposa Azual, fundou recentemente a Mia Soave – assumidamente uma «editora de vão de escada», que se estreou a publicar um livro de poemas de Alberto Pimenta (Reality Show ou a alegoria das cavernas, acompanhado por um CD com temas originais de Ana Deus e Alexandre Soares).
Agora, em Prémio Nacional de Poesia, igualmente com um disco de bónus (14 temas musicados por José Ferreira, a partir de textos antigos de Nuno Moura, ditos pelo próprio ou cantados por Beatriz Nunes, a nova voz do Madredeus), volta a prevalecer a dimensão oral desta escrita: «O que aqui se lê em silêncio foi escrito para ser lido ao vivo.» Performativa e surrealizante, a prosa poética de Nuno Moura é um mecanismo imparável de sabotagem e rebeldia, um exercício de liberdade livre em doses generosas.
«Entre o pensamento e a fala, dentro do dicionário completo de sons, dois amantes abraçam-se.» O resto é caos, espalhafato, provocação (farpas a rodos; tiro ao alvo a tudo o que mexe, de musas a críticos), uma energia que muitas vezes acende a página, mas outras vezes se dissipa, palavrosa, no abismo da escrita automática. É um poema «de esquinas e de quedas», sempre a fugir, desobediente, «rasando o canteiro cheio de terra e de folhas». Com ele, diz o poeta, «as miúdas vão voltar a gritar nos recitais». Esperemos que sim.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

sábado, março 12, 2011

chegou hoje

«A literatura da segunda metade do século XX é um campo bastante batido e pareceria improvável que houvesse ainda obras-primas à espera de serem descobertas nas línguas mais importantes, intensamente patrulhadas. E, no entanto, há cerca de dez anos, vasculhando num caixote de livros de bolso no exterior de uma livraria da Charing Cross Road, em Londres, deparei precisamente com um desses livros, Verão em Baden-Baden, que eu incluiria entre as obras mais belas, exaltantes e originais do que há de melhor num século de ficção e de paraficção.
As razões da obscuridade do livro não são difíceis de supor. Para começar, o autor não era um escritor profissional. Leonid Tsípkin (1926-82) era médico - na verdade, um conhecido investigador na área da medicina, que publicou perto de uma centena de artigos em publicações científicas na União Soviética e no estrangeiro. Mas - abandonem-se quaisquer comparações com Tchekov e Bulgakov - este escritor-médico russo nunca viu uma única página da sua obra literária publicada em vida.
(...)
Em princípios de Março de 1982, Tsípkin foi falar com o chefe do serviço de vistos de Moscovo, que lhe disse: «Senhor doutor, o senhor nunca será autorizado a emigrar.» A 15 de Março, uma segunda-feira, Sergei Drozdov informou Tsípkin de que a partir desse dia deixaria de pertencer ao Instituto. Nesse mesmo dia, o filho de Tsípkin, que fazia uma pós-graduação em Harvard, telefonara para Moscovo a anunciar que no sábado anterior o pai passara a ser finalmente um autor publicado. Azary Messerer conseguira que um semanário de emigrados russos de Nova Iorque, Novaya Gazeta, aceitasse Verão em Baden-Baden, que seria publicado em folhetim. O primeiro episódio, ilustrado com algumas fotografias de Tsípkin, fora publicado no dia 13 de Março.
Na manhã do sábado seguinte, 20 de Março, dia em que fazia sessenta e seis anos, Tsípkin sentou-se à secretária para continuar a tradução para russo de um texto médico inglês - traduzir era uma das poucas maneiras de ganhar a vida que restavam aos refuseniks (cidadãos soviéticos, normalmente judeus, a quem tinham recusado vistos de saída e que tinham sido despedidos dos empregos). Subitamente sentiu-se mal (um ataque de coração), deitou-se, chamou pela mulher e morreu. Tinha sido um autor de ficção publicado durante sete dias exactamente.»

das páginas 39 e 46 de Ao Mesmo Tempo, de Susan Sontag, editado pela Quetzal em 2011

Verão em Baden-Baden, de Leonid Tsípkin, foi editado pela Gótica em 2003

sábado, fevereiro 26, 2011

já cá canta

«João nunca tirou uma lasca que se veja de Conceição, os seus alvos há muito que são outros, mais testosterona, menos sapatos de salto alto (tem dias), mais arre-macho, menos mala-do-sport-billy-com-tudo-lá-dentro. É um gosto com alicerces bem fincados no subsolo da Cidade, das suas vidas mais ou menos normais, pelo menos da superfície para cima. Corria o ano de mil nove e oitenta, assim mesmo, por extenso e à laia de bagaceira que muito se consome pelas nossas bandas, e na mesma semana em que se despedaçava em Camarate o avião do nosso descontentamento abria o Trumps ao Príncipe Real, geografia cujos pontos cardeais troçam do Norte e preferem o Blush, e assim sucessivamente, como afirmava o velhote dos filmes sobre pentelhos.»
pág. 25

quarta-feira, julho 21, 2010

Renascer (Diários e Apontamentos 1947-1963) - Susan Sontag

«É superficial encarar um diário apenas como um receptáculo dos pensamentos privados e secretos de cada um - como um confidente surdo, mudo e analfabeto. No diário não só me exprimo de uma forma mais aberta do que faria com qualquer pessoa, mas crio-me a mim própria. O diário é um veículo para o meu sentido de individualidade. Representa-me como emocional e espiritualmente independente. Em consequência (infelizmente) não é um registo simples da minha vida diária - e em muitos casos - oferece uma alternativa a ela.»

Muito em breve, numa livraria perto de si.

terça-feira, agosto 18, 2009

terça-feira, abril 21, 2009

15 de Setembro é já amanhã

O novo Dan Brown estará aí muito a tempo do Natal. Mas não deixeis para amanhã o que podeis fazer hoje: cinco milhões de exemplares desaparecem num lusco-fusco.

sexta-feira, abril 17, 2009

O fim de um mito

O mito de que a edição da Montanha Mágica publicada na Livros do Brasil estava esgotada, permitiu fazer muitas vendas (por cima e por baixo do balcão) com um gostinho especial. Mas todos sabíamos que um dia isso iria acabar. Diz que é a 30 de Maio, pelas mãos da Dom Quixote (o que também já se previa). Mesmo assim, gosto mais da outra capa: não duvido que esta nova edição terá grande impacto na imprensa e nas próprias livrarias, mas a anterior continuará a ser a mais desejada...

quarta-feira, março 11, 2009

Amor e Ódio - Filipe Nunes Vicente

XXXVI
Ao contrário do que se diz, estamos a criar gerações de gente rija. Prometemos amor e carinho e depois oferecemos instituições, psicólogos, avós, amas. Desde cedo ficam habituados a horários e adaptações – ontem na mãe, hoje no pai, amanhã no ATL até às nove da noite. Desenvencilham-se bem, os gaiatos. Como raramente têm irmãos, habituaram-se a ter por companhia tamagotchis electrónicos e amigos virtuais.
Esperem pela retribuição.

LXX
O miúdo tem dez anos. Sai de casa às oito, chega às seis, lancha e vai aprender línguas ou futebol. Volta a chegar às oito (mas da noite), toma banho, janta bem, estuda qualquer coisa (três vulgatas optimistas). São 23h. Talvez internet, talvez telemóvel; adeus pai, adeus mãe.
Não brinca, não respira. E amanhã é outro dia.
Como é que daqui vai sair um cidadão é coisa que me transcende.

do blogue Mar Salgado, e do livro, publicado na Quetzal

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

segunda-feira, junho 30, 2008

«se eu der um murro, não é assim»

«[João Céu e Silva] Não pára o livro para ver um jogo do Benfica?
[António Lobo Antunes] Não, já não. Tenho muita pena.
[JCS] Mas teve conhecimento do murro do Scolari?
[ALA} É-me completamente indiferente. Não acho normal nem anormal, é-me indiferente. Nem sei de deu o murro... Vi na televisão, foi uma patetice e não comento patetices.
[JCS] Uma patetice de quem?
[ALA] Eu não sei o que se passou. Vi o homem estender a mão mas aquilo nem me pareceu um murro, porque se eu der um murro não é assim.»
pág. 587
de uma entrevista publicada no DN de 30/09/2007

Entrevistas com António Lobo Antunes 1979-2007 Confissões do Trapeiro, uma edição de Ana Paula Arnaut para as Edições Almedina, é apresentado esta terça-feira, 1 de Julho, às 18h00, na Almedina do Atrium Saldanha, por Carlos Reis. No dia 14, a sessão repete-se na livraria do Estádio Cidade de Coimbra, a partir das 18h30.

quarta-feira, março 19, 2008

O Que Está Escrito Nas Estrelas (Anos I & II)



«Porque se submetem os homens mais facilmente ao jugo das estrelas do que ao jugo da razão? Porque não há quem não queira libertar-se do tremendo fardo de ter de fazer escolhas, das mais simples e comezinhas às mais complexas e ponderosas.
Tome-se um singelo exemplo. Como deverá proceder quem se veja confrontado com a alternativa de comprar um colar de pérolas para uma amante ou de investir essa mesma quantia em acções de uma respeitada firma petrolífera? Quem se reja pela razão passará em claro noites intermináveis, sopesando as vantagens e desvantagens de uma e outra opção, consultando os registos históricos das cotações no mercado de crude, extrapolando o crescimento económico das potências asiáticas, ponderando a instabilidade no Médio Oriente, lutando por obter uma equivalência entre dividendos bolsistas e a quantidade de prazer adicional facultada por uma amante satisfeita. Bem vistas as coisas, não irão os eventuais dividendos de uma e outra opção dissipar-se no tormento da escolha? Quantos não sentiram vacilar a sanidade perante a estrénua prova de incessantemente escolher entre múltiplos caminhos? É a esse suplício permanente que este livro, de fácil consulta e profusamente ilustrado, o vai poupar, permitindo decisões lestas e sem remorsos nas mais diversas áreas da vida, amor e negócios.
E por que razão são as previsões aqui contidas mais dignas de crédito do que as prometidas pelos horóscopos que pululam nas páginas da imprensa e pelos consultórios de videntes e médiuns que se fazem anunciar nas caixas de correio? Porque são as únicas que aliam as sabedorias ancestrais aos mais modernos conhecimentos científicos, numa Visão Holístico-Sincrética do Cosmos®. José Carlos Fernandes concebeu, desenvolveu e patenteou a Grande Perspectiva Futuroscópica Integrada® e a Análise Escatológica de Variáveis Indexadas®, métodos que permitem determinar com incomparável grau de fiabilidade os acontecimentos futuros.
As Edições tinta-da-china e os herdeiros do autor declinam, porém, quaisquer responsabilidades no que toca ao cumprimento ou incumprimento das previsões.»

quinta-feira, março 13, 2008

Os Milagres do Anticristo



«A história começa em Roma, no tempo do imperador Augusto, no exacto momento em que este se prepara para ordenar a construção de um novo templo consagrado a si próprio. Uma visão adverte-o de um futuro culto que a sua cidade dedicará a Cristo, e o templo é consagrado a este novo Salvador do mundo. O ícone que o representa atravessa séculos e lugares. A sua réplica, feita por um viajante, chega a uma pequena aldeia no monte Etna, onde começa a fazer milagres até se descobrir a sua identidade profana.»