segunda-feira, maio 24, 2004

a minha Feira ontem

ontem a Feira trouxe-me António Dacosta, em "A Cal dos Muros" (Assírio & Alvim):

«Percorro em ti o que de ti sei
Agora vão pássaro em voo
Espelho de escuras sombras e lago
Idêntico à ovelha que roda
No círculo que a fecha em si

Entre ti e mim despenhados das águas
Que dos montes aos montes tornam
Entre ti e mim uma ilha
......................»
(pág. 93)


No stand 118, do alfarrabista Arquimedes, foi Eugénio de Andrade que veio até mim:

«O verde dos bambus mais altos é azul
ou então é o céu que pousa nos seus ramos»


Quem também andou por lá foi Ondjaki, a dar autógrafos e dois dedos da conversa perto dos stands da Caminho. Em "Bom Dia Camaradas" ouve-se assim:

«Acordei outra vez bem-disposto, porque eu adorava ir aos comícios, aos desfiles.
Bom dia, camarada pai!, disse a brincar, porque o camarada António ainda não tinha chegado. Bom dia, camarada filho!, respondeu-me, bem-disposto como sempre de manhã ele estava. Já havia leite aquecido, a mesa tinha sido posta na noite anterior, abri a janela grande da sala, e assim a claridade entrou naquele espaço, como se fosse alguém desconhecido que entra num sítio também desconhecido e tivesse aquela curiosidade de espreitar.»
(pág. 77)


quem também viaja diariamente pela feira é o J, com encontro marcado no Keine Problem.

domingo, maio 23, 2004

Destaques de hoje na Feira do Livro de Lisboa

António Jorge Gonçalves e Nuno Artur Silva estarão hoje nos stands da Asa a partir das 16 horas para autografar a trilogia de Filipe Seems: "Ana" (que hoje é livro do dia no stand 54), "A História do Tesouro Perdido" e o recente "A Tribo dos Sonhos Cruzados".

A adaptação teatral desta trilogia de banda desenhada continua em cena no Teatro Aberto até ao próximo dia 28. O espectáculo começa sempre às 22 horas e está em cena de 4ª a Sábado.


A Relógio d'Água apresenta uma boa selecção de livros do dia: "Contos" (de Oscar Wilde), "Contos" (Virginia Woolf), "Antologia Poética" (Federico García Lorca) e "Tempo de Incerteza" (António Barreto), todos a preços mais acessíveis que em outros dias de feira.



«Tomei o comboio na estação de Castanheira, depois que o Calhau deixou de abraçar. Foi ele que me trouxe no carro de bois de D. Estefânia, em cuja casa, como se sabe, me talharam o destino. Minha mãe veio ainda à igreja, pela madrugada, ver-me partir; mas sentindo-me tão distante como se eu fosse preso, como se eu já pertencesse a um mundo que não era o seu - mal me falou.»

Assim começa a «Manhã Submersa», de Vergílio Ferreira, livro do dia no stand 140, da Bertrand.


No stand 177, das edições Quasi, podemos encontrar Caetano Veloso, com "Letra Só", um conjunto de letras das suas canções, e "Verdade Tropical", que hoje se encontra a livro do dia.


E terminamos a ronda de hoje no stand 99, da Gradiva, onde os indispensáveis Calvin & Hobbes têm sempre presença assegurada. "O Indispensável de Calvin & Hobbes" é livro do dia, para felicidade de miúdos e graúdos.


Boas leituras!

sábado, maio 22, 2004

A Grande Enciclopédia do Conhecimento Obsoleto


O aviso vem um pouco em cima da hora, mas fica aqui a nota: decorre hoje na livraria Ler Devagar, a partir das 23 horas, uma sessão de lançamento do 4º volume da série de bd "A Pior Banda do Mundo", da autoria de José Carlos Fernandes.

"A Grande Enciclopédia do Conhecimento Obsoleto" segue-se aos três primeiros volumes ("O Quiosque da Utopia", "O Museu Nacional do Acessório e do Irrelevante" e "As Ruínas de Babel"), que trouxeram ao autor o reconhecimento público que já lhe era devido.

Editados pela Devir, os quatro volumes da série podem ser encontrados no stand 17 infanto-juvenil, da Feira do Livro de Lisboa.

Esta imagem foi retirada da edição on-line da revista Periférica, que na sua última edição em papel, faz a pré-publicação deste livro, com a história "A Insuspeitada Beleza do Teorema de Tutte".

quinta-feira, maio 20, 2004

Começam as Festas de todos os Livros



Chegou a altura do ano em que decorrem em simultâneo as Feiras do Livro de Lisboa e do Porto, semanas em que ir ao encontro aos livros adquire um significado completamente diferente.

Já com um dia de vida, a edição deste ano da Feira do Livro do Porto está de portas abertas até ao feriado de 10 de Junho, num total de 22 dias em que a festa se fará no Pavilhão Rosa Mota. Nas páginas oficiais podemos encontrar uma lista das editoras representadas, bem como a agenda do dia, sempre preenchida com vários lançamentos e sessões de autógrafos, e também a sempre desejada lista de livros do dia.



A Feira do Livro de Lisboa começa apenas amanhã e dura até 6 de Junho, num total de 17 dias de festa no Parque Eduardo VII.

Aqui no pilha-livros acompanharemos mais de perto o certame lisboeta, e faremos destaques e crónicas diárias sempre que possível.

Juntem-se a nós na grande festa das palavras, dos passeios, dos sorrisos e dos livros :)



Foto (Feira do Livro de Lisboa de 2003): Dracul

quarta-feira, maio 19, 2004

A Campo das Letras comemora 10 anos de vida

A editora Campo das Letras comemora durante este mês de Maio dez anos de existência.

Depois de ter inaugurado no início do mês uma nova página na internet, que continua disponível em http://www.campo-letras.pt, esta efeméride é hoje assinalada com uma sessão comemorativa, que terá lugar na Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, cidade em que esta editora está sediada.

O espectáculo desta noite terá por base o “Recitativo dos Livros do Deserto”, um texto criado por Pedro Eiras, que será interpretado por João Pedro Vaz (actor) e Helena Caspurro (piano e voz) e que tem início às 21h30.

Também inserida nas comemorações está a edição do livro “10 Contos com Livro Dentro”, uma colectânea de contos originais com um tema em comum: o livro. Os 10 autores participantes têm já livros publicados pela Campo das Letras: Arsénio Mota, Francisco Duarte Mangas, Gonçalo M. Tavares, José Viale Moutinho, Julieta Monginho, Luís Naves, Manuel Córrego, Manuel Jorge Marmelo, Miguel Miranda e Sérgio Luís de Carvalho.

Já com 858 títulos editados até ao momento, são agora anunciadas cinco novas colecções:

- A colecção CAMPO DAS ALTERNATIVAS integrará várias séries temáticas: A Questão Social e Os Géneros do Género (ambas dirigidas por Miguel Vale de Almeida), Outros Olhares (Clara Alvarez), Direitos Humanos (Ana Prata), Desarmamento: Necessidade ou Utopia? (Carlota Lopes da Silva), Exclusões e Mitos Urbanos (João Fatela) e Ecologia e Direitos dos Animais (João Carlos Alvim).

- A colecção CAMPO DAS REVOLUÇÕES será dirigida por João Carlos Alvim e os primeiros títulos previstos para edição retratam alguns aspectos das revoluções Francesa, Bolchevique e Americana.

- A colecção OS LIVROS E A HISTÓRIA trará até nós livros que se transformaram eles próprios em parte da história, tal a sua importância no nosso panorama cultural, político e social. Com direcção de João Carlos Alvim, deverão sair em breve “A Traição dos Intelectuais” (Julien Brenda), “Os Condenados da Terra” (Franz Fannon) e “Discursos à Nação Alemã” (Johann Gottlieb Fichte).

- João Caraça dirigirá a colecção CIÊNCIA E VIDA, que espera editar em breve “Que Futuro? Ciência e Sustentabilidade” (Filipe Duarte Santos), “Consciência do Corpo” (António Manuel Pinto do Amaral Coutinho) e “Pedagogia e Neuropsicologia” (Alexandre Castro Caldas e Berta Bustorff Silva).

- Finalmente, a Campo das Letras vai proceder à reedição das OBRAS DE JACINTO DO PRADO COELHO, já que a grande maioria delas está esgotada há vários anos. Com a organização de Maria João Reynaud, esta iniciativa será também responsável pela edição de alguns volumes de “Dispersos”.

segunda-feira, maio 17, 2004

ARRANHA-CÉUS - Jacinto Lucas Pires

«JÚLIO CÉSAR: Fazes-me um grande favor?

BARMAN: Depende.

JÚLIO CÉSAR (sentando-se ao balcão): Esta música...

BARMAN (interrompendo-o): Se há uma palavra que eu odeio, é “depende”. “Depende”... É uma palavra capaz de tornar uma conversa interessante numa coisa mole, sem coluna vertebral, sem força, sem nada...

JÚLIO CÉSAR: Não te sabia tão filosófico.

BARMAN: Deformação profissional... Uísque, cerveja?

JÚLIO CÉSAR: Vinho tinto.

BARMAN: Não te sabia tão filosófico.

JÚLIO CÉSAR (sorrindo): Um dia não são dias...»
(págs. 68 e 69)

Continuamos nos palcos, desta vez com uma peça escrita por Jacinto Lucas Pires e editada pela Cotovia em 1999, que viria a ser interpretada no Teatro Nacional de S. João, no mesmo ano, com encenação de Ricardo Pais. (a página)

Júlio César é um jovem com uma carreira profissional dividida entre os Ovos Rodrigues e a loja de perucas, uma vida amorosa cheia de equívocos e desencontros, e com uns amigos muito peculiares. Para além disso, tem uma aversão a palavrões que o metem nas mais curiosas situações...

Pormenor curioso nesta história são as músicas que Júlio César e Dores cantam um com o outro (e um ao outro), dessa mítica banda, os Wafers... Quem? Os Wafers, que criaram os grandes sucessos “Lying” e “Miss Police Woman” :) Mais pormenores sobre esta banda criada para a peça no site mp2000.

Em suma, só posso acrescentar que gostei muito, e que me deu muita pena de não a ter visto em palco...

Arranha-Céus, de Jacinto Lucas Pires, da Cotovia, 1ª edição (1999), 120 pág., pvp: €9,98

«A rua do Vendedor de castanhas, de tarde. Chove, Júlio César protege-se debaixo do guarda-chuva do carrinho do Vendedor. Vão passando pessoas.
(...)
VENDEDOR: ...O cágado chamava-se Pascoal. “Pascoal, olha a tua casa nova. É muito bonitinha, não é? Hã? Não achas?” ... A minha Rute... Penso sempre nela quando chove. (Breve pausa) A vida é mesmo uma merda.

JÚLIO CÉSAR: Não diga isso.

Pausa

VENDEDOR: ...Sim, tem razão. Há coisas boas...

JÚLIO CÉSAR: Não, é que eu não suporto palavrões.

VENDEDOR: ...Como?

JÚLIO CÉSAR: Fazem-me nervos...

VENDEDOR: Peço desculpa, foi sem intenção. (Pausa) Não há maneira de parar...

JÚLIO CÉSAR: O quê?

VENDEDOR (a apontar em frente): ... A chuva.

JÚLIO CÉSAR: Pois é.»
(págs. 74 a 76)

domingo, maio 16, 2004

O AMOR DE LONGE - Amin Maalouf

«JAUFRÉ:
A mulher que eu desejo está tão longe, tão longe,
Que nunca os meus braços se fecharão em volta dela.
(...)
É graciosa e humilde e virtuosa e doce,
Corajosa e tímida, resistente e frágil,
Princesa com coração de camponesa, camponesa com coração de princesa,
Com voz ardente cantará as minhas canções...
(...)

COMPANHEIROS:
Essa mulher não existe, diz-lho, Peregrino,
Tu que percorreste o mundo, diz-lho!
Essa mulher não existe!

PEREGRINO (sem pressa):
Talvez ela não exista
Mas talvez também ela exista.
Um dia, no Ultramar, eu vi passar uma dama...»
(pág. 19 a 21)

Basta o Peregrino assim falar para que Jaufré, trovador e príncipe de Blaye, se deixe enamorar por uma mulher que nunca viu e de quem nem conhece o nome. Do outro lado do mar, o Peregrino conta a Clémence como há um trovador que a canta e a mais nenhuma outra. Um amor ao longe, no qual cabem todas as dúvidas e certezas, de beleza e desespero.
Libreto de Amin Maalouf para uma ópera composta pela finlandesa Kaija Saariaho, "O Amor de Longe" conta em cinco actos a história de um amor puro, em que não sabemos se a distância separa ou une os dois amantes.

"O Amor de Longe" ("L'amour de loin"), de Amin Maalouf (trad. António Pescada), Difel 2003 (Éditions Grasset & Fasquelle, 2001), 1ª edição, 88 pág., pvp.: €8

«COROS DAS TRIPOLITANAS:
Pois vós, condessa, não sofreis?
(...)
Não sofreis por nunca nunca sentir a sua respiração na vossa pele?

CLÉMENCE (como que surpresa):
Não, por Nosso Senhor, eu não sofro
Talvez que um dia eu sofra, mas pela graça de Deus, não, não sofro ainda
As canções dele são mais do que carícias, e eu não sei se amaria o homem como amo o poeta
Não sei se amaria a sua voz tanto como amo a sua música
Não, por Nosso Senhor, eu não sofro
Sem dúvida sofreria se esperasse esse homem e ele não viesse
Mas eu não o espero
(...)
Eu sou o ultramar do poeta e o poeta é o meu ultramar
Entre as nossas duas margens viajam as palavras ternas
Entre as nossas duas vidas viaja uma música...
Não, por Nosso Senhor, que não sofro
Não, por Nosso Senhor, que não o espero
Não o espero...»
(pág. 54, 55)

Ligações para o texto em francês e em inglês, para o Finnish Music Information Centre e o Forum Opéra.

terça-feira, maio 11, 2004

vamos em passeio

«Estivemos um mês inteiro à janela
com os cotovelos apoiados, a contemplar aquele pedaço de terra
rodeado de sebes. E chegou o verão.
Agora vamos em passeio pelas estradas vazias da aldeia
sem falar e sem olhar um para o outro
como se não fôssemos nós próprios.
Às vezes os lampiões permanecem acesos
até ao meio-dia na praça
porque os do município vizinho
se esquecem de nós
e os candeeiros ao sol
parecem pirilampos enlouquecidos.
As estradas, que calafetadas com pedras
novas faziam escorregar,
são agora suaves tapetes de erva sob nossos passos.
Quando anoitece sentamo-nos no chão
e afagamos a erva das fendas,
rara, como os cabelos de uma cabeça anciã.»

Canto Vigésimo Quinto, de Tonino Guerra (trad. Mário Rui de Oliveira), em "O Mel"

segunda-feira, maio 03, 2004

Mil Folhas: Coraline, Danças com Livros, Herman Hesse e 25 de Abril

A menina Coraline (não é Caroline) continua a impressionar, e desta vez ganhou para o seu criador, Neil Gaiman, o prémio Nebula para a melhor novela (Best Novella) de 2003, atribuído pela Science Fiction and Fantasy Writers of America.

O livro "Coraline e a Porta Secreta" (ed. Presença) continua a dar um cada vez maior reconhecimento público ao autor de "American Gods" e da saga "Sandman".


«A partir da próxima sexta-feira (e durante todo o fim-de-semana), pelas salas do Convento da Saudação e na livraria Fonte das Letras, em Montemor-o-Novo, haverá a quarta edição do Danças com Livros: uma feira do livro com escritores, actores, realizadores, bailarinos, músicos, artistas plásticos. A abrir, às 18h30, um concerto de Jazz, depois o lançamento do livro "Quase gosto da vida que tenho", de Pedro Paixão, depois a apresentação do livro "Rafael" (na imagem), de Manuel Alegre, apresentação do espectáculo de dança "Casiotone", de Sílvia Real, e finalmente a exibição de uma curta-metragem. Sábado e domingo a agenda é igualmente preenchida por cinema, ateliers, música livros e dança.»



«Como outros sonham ser médicos, carpinteiros ou aviadores, o jovem Hermann Hesse sonhava ser mágico. E, se o desejava ardentemente, porque não haveria de consegui-lo? Tinha todas as condições para isso: os sentidos bem despertos, um ambiente familiar que prezava as forças misteriosas da vida e, sobretudo, uma enorme insatisfação perante aquilo a que costuma designar-se por realidade e que, muitas vezes, não passa da prisão resignada da inteligência. Só mais tarde viria a compreender que a autêntica magia não é a que consiste em transformar o mundo exterior, mas aquela que se aplica à transformação do próprio sujeito. Nessa altura, além de mágico, Hesse era poeta e preparava-se para vir a ser um grande escritor.»

Regina Louro fala-nos de Herman Hesse, no momento em que três dos seus livros chegam às livrarias em novas edições: "O Mágico" (Planeta Editora), "As Mais Belas Histórias" (Editorial Notícias) e "Deambulações Fantásticas" (Difel).


«Alguém faz uma pesquisa sobre o 25 de Abril de 1974 e acerca-se de um adolescente para que este lhe conte o que sabe. Entre uns quantos "bués", lá foi dizendo: "Claro que sei que o 25 de Abril foi quando os militares se meteram nuns tanques e andaram de madrugada pelo Terreiro do Paço. Mas se queres que te explique o que é que eles lá andavam a fazer, isso é que já não sei. À espera do cacilheiro para o Ginjal é que não era, com certeza." Como o 10 de Junho ou o 5 de Outubro, "é feriado e isso é que interessa".»

Entre as ideias dos mais novos e as memórias dos mais velhos, este "Vinte Cinco a Sete Vozes" é um retrato do 25 de Abril construído por Alice Vieira e ilustrado por Filipe Abranches, que conhece agora uma 2ª edição, depois do seu lançamento aquando dos 25 anos da revolução, numa edição da Caminho. Rita Pimenta faz uma apresentação.

quinta-feira, abril 29, 2004

A Livros Cotovia anuncia: ENSAIOS FACETOS e O VÔO DA MADRUGADA

Ensaios Facetos, de Abel Barros Baptista, Livros Cotovia, Ensaio, 148 pp., preço de capa: 12,00 Euros

Em sentido muito lato, chama-se faceto ao que não é sério: um ensaio pode ser faceto sem nada perder de essencial? Sendo análise, averiguação, exame, indagação, procura, o ensaio ganha se além disso for brincalhão ou galhofeiro, gozador ou jocoso, pilhérico ou zombeteiro?

Os textos que compõem este livro acreditam no ensaio genuinamente faceto e, em modalidades diversas, ilustram a possibilidade de o estruturar segundo um princípio de galhofa. A defesa do sentido de humor é hoje uma trivialidade. Mas hoje também, uma batalha provavelmente perdida: a “opinião”, que se basta em ser plausível, prefere o sisudo e aliás confunde-o com profundidade. O humor então prejudica, porque divide, corrói evidências, sugere alternativas, abala familiaridades. Daí que o ensaio, algumas vezes, só se torne ensaio por meio de facécia.

Abel Barros Baptista nasceu em 1955. Professor da Universidade Nova de Lisboa, publicou diversos ensaios literários (entre os mais recentes: Autobibliografias, 1998, Grande Prémio de Ensaio Literário da APE, A Infelicidade pela Bibliografia, 2001 e Coligação de Avulsos, 2003). Organizou o volume A Cidade e as Serras. Uma Revisão (2002). É director-adjunto da revista Colóquio/Letras. Publicou, com Gustavo Rubim, o romance Importa-se de me emprestar o barroco? (2003).


O Vôo da Madrugada, de Sérgio Sant’Anna, Livros Cotovia, Ficção Brasileira, 240 pp., preço de capa: 14,00 Euros

Sérgio Sant’Anna nasceu no Rio de Janeiro em 1941. É autor de, entre outros livros: O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro, Junk-Box, A senhorita Simpson, Breve história do espírito, O monstro, e Um crime delicado. Foi distinguido com três prémios Jabuti. O Vôo da Madrugada (publicado no Brasil em Setembro de 2003) recebeu o prémio de conto da Associação de Críticos de Arte de São Paulo e é o livro que inaugura a edição em Portugal deste autor.

Notória na obra de Sérgio Sant’Anna, a experimentação formal apresenta-se aqui na tentativa de realizar um conto abstracto, na exploração de temas obscuros, no impulso criativo depois de um internamento hospitalar ou na esperança de uma personagem – o Gorila – em encontrar estratégias inusuais, e incompreendidas, de comunicação e consolo. A solidão persegue as personagens destes contos de forma desesperada, a ponto de fazê-las pensar em pôr termo à existência; essa obsessão pelo desfecho da vida associa-se a uma forte carga erótica.

Os contornos inovadores desta escrita são dados pela oscilação entre a voz do narrador e do próprio escritor, como acontece nas belas invocações da memória do autor ou nos três magníficos contos finais, em que ficção e ensaio se conjugam para especular sobre o papel do olhar na representação da nudez da mulher na pintura, defendendo uma arte ligada de forma íntima à vida.


textos de promoção aos livros, divulgados pela Livros Cotovia

segunda-feira, abril 26, 2004

Feira do Livro Barato, em Cascais até 2 de Maio

Já aberta ao público desde o passado dia 22, a Feira do Livro Barato de Cascais decorre até ao próximo Domingo, das 15h às 22h.

A Feira que em anos passados se realizou numa tenda instalada no Jardim Visconde da Luz, passou este ano para a Cidadela de Cascais, por determinação da Câmara Municipal, que ali quer implementar um novo centro cultural.

Mais uma vez organizada pela Solipa, nesta Feira pode encontrar-se uma grande variedade de livros nacionais e estrangeiros, entre saldos, fins de edição e novidades.

domingo, abril 25, 2004

o problema do sexo

«Para um homem da sua idade, cinquenta e dois anos, tem resolvido bastante bem, segundo ele, o problema do sexo. Nas tardes de quinta-feira vai de carro até Green Point. Pontualmente, às duas da tarde, carrega na campainha da entrada para a Windsor Mansions, diz o nome e entra. À sua espera, à porta do 113, está Soraya. Dirige-se directamente para o quarto, que tem um cheiro agradável e uma iluminação suave, e despe-se. Soraya da casa de banho, deixa cair o robe e, deslizante, deita-se na cama a seu lado. - Tiveste saudades minhas? - pergunta ela. - Tenho sempre saudades tuas - responde ele. Acaricia-lhe o corpo cor de mel no qual o sol não deixou marca; estende-a e beija-lhe os seios; fazem amor.»

É só a mim que este 1º capítulo de "Desgraça", de J. M. Coetzee, faz lembrar o filme "Intimidade", de Patrice Chéreau?

sexta-feira, abril 23, 2004

FEIRA DO LIVRO DE COIMBRA até 9 de Maio

Desde ontem que decorre mais uma edição da Feira do Livro de Coimbra, e que irá estar aberta ao público até ao próximo dia 9.

A Feira é constituída por 53 expositores, que entre si disponibilizam milhares de livros de 250 editoras, nacionais e estrangeiras.

Estão previstas também algumas actividades paralelas, como a realização de concertos, e no dia 1 de Maio haverá poesia na baixa da cidade, com poetas a declamar os seus poemas pelas ruas e cafés.

Localização: Rua Engº Jorge Anjinho, na Solum.

Horário:
Domingo a 5ª feira - das 15h às 23h
6ª feira e Sábado - das 15h às 24h

quarta-feira, abril 21, 2004

BRAM STOKER (1847 - 1912)

Count Vlad, Bram Stoker e Henry Irving

Bram Stoker morreu aos 64 anos de idade, fez ontem 92 anos. Apesar de ser o autor de uma dúzia de romances, três colecções de contos e quatro livros não ficcionais, Stoker é conhecido quase exclusivamente por Dracula, publicado em 1897. O romance trouxe pouca fama ou fortuna a Stoker durante a sua vida, e no último ano ele ganhou tão pouco com a sua escrita que teve de se candidatar a um piedoso subsídio ao Fundo Literário Real. Nem a violência erótica do livro levantou sobrancelhas, apesar de Ghosts, de Ibsen, que foi publicado nesse mesmo ano e era muito mais suave, ter causado furor por abordar o tema das doenças venéreas. Os críticos da época, talvez relutantes em denotar o subtexto psicossexual com medo da auto-condenação, optaram por classificar Dracula como uma obra popular, de objectivos comerciais; os críticos contemporâneos lêem o livro como um “léxico sexual genuíno de tabus Victorianos”, ou como “uma espécie de desafio de wrestling incestuoso, necrófilo, oral-anal-sadístico, tudo misturado”, ou “sexo sem genitais, sexo sem confusão, sexo sem responsabilidade, sexo sem culpa, sexo sem amor - melhor ainda, sexo sem qualquer registo”.

Ondas de histeria vampírica varreram a Europa ao longo do Séc. XVIII, e na altura em que Stoker teve a sua vez com as lendas, já elas tinham sido trabalhadas por Goethe, Coleridge, Byron, Southey, Dumas e outros. O primeiro romance Inglês da linha vampírica foi The Vampire, de John Polidori, escrito em 1819, a partir do fragmento de uma história desenvolvida por Byron, de quem Polidori era médico particular. (O romance de Polidori é por demais relembrado como a resposta a uma das clássicas perguntas em jogos de conhecimento literário: Qual foi a outra história de terror que teve a sua génese na noite literária do Lago Genebra partilhada por Byron e pelos Shelleys?) Apesar de haver um subtexto de sexualidade reprimida, confusa e depravada em muita da literatura de vampiros, alguns biógrafos acreditam que o interesse de Stoker no tema veio menos das lendas do que da sua vida privada, especificamente da sua complexa relação com o famoso actor Henry Irving. Stoker era o agente e companheiro de há longa data de Irving, apaixonado ao ponto de ponto de ter dado ao seu filho o nome de Irving Noel Stoker. Dracula, nesta linha de raciocínio, é uma miscelânea de transferência homoerótica.

Mais tradicional e menos subliminar é a ideia de que o herói de Stoker deriva da sua pesquisa de um príncipe de Wallachia (antigo principado, agora anexado na Roménia) do Séc. XV, Conde Vlad Tepes, ou Vlad o Empalador, filho de Vlad Dracul. Esta ligação é aparentemente errónea: Stoker ia chamar ao seu romance “Conde Wampyr” até à sua pesquisa o ter levado a acreditar, não muito correctamente, que «Dracula» significava «Demónio» na língua Wallachiana. Daí, embora o autor conhecesse pouco ou nada do histórico Vlad, ou da Transilvânia, o livro levou a que ambos fossem consumidos pelo império vampírico. Até há alguns anos atrás, o governo Romeno tinha planos para construir o “Parque Drácula” na cidade medieval de Sighisoara, local de nascimento do Conde Vlad; protestos de estudiosos do vampirismo, defensores da história Romena e activistas anti-Disney levaram a que o projecto fosse mudado para a zona de Bucareste.

Adaptado de um texto de Steve King, publicado no Today in Literature.

domingo, abril 18, 2004

Mil Folhas: Manuel Alegre, "Herman", Rui Araújo, João Ramalho Santos

Manuel Alegre dá uma entrevista a Helena Vasconcelos, directora da revista "Storm", a propósito da recente edição de "Rafael", o seu último livro, publicado pela Dom Quixote.

«Eu era mais camuseano - lia "o Estrangeiro" e dava para meses, para noites de conversa. A Cultura era quase um processo orgânico, passava a fazer parte de nós, não era algo como hoje em dia em que se lêem "abrégés" disto e daquilo. Os filmes - os Fellinis, os Viscontis, os Bergmans eram vistos vezes sem conta, ficávamos noites e noites à conversa...
E as pessoas também viviam através desses mesmos livros, desses mesmos livros, tal como Rafael?
Sim, é por isso que Rafael se desdobra em muitos dessas personagens porque o processo era quase de osmose, na nossa apreensão do mundo. O Rilke, por exemplo, era uma espécie de religião.»


Também Lars Saabye Christensen falou ao Mil Folhas desta semana, num artigo de Maria José Oliveira. O tempo é ainda de promoção do seu "Herman", que recentemente foi traduzido para português pela Cavalo de Ferro, e de que já tínhamos falado aqui no pilha-livros.

«"Herman" está dividido em três capítulos - Outono, Inverno e Primavera (por esta ordem). O escritor explica que esta foi uma "forma de estruturar o livro", mas a escolha das estações do ano têm correspondência directa com os estados de alma do protagonista. Por isso, explica o autor, "acaba na Primavera porque logo a seguir, no Verão, Herman encontra o mundo e transforma-se numa criança mais forte". "Fiquei muito contente com isso", acrescenta o escritor, como se o rumo da personagem lhe tivesse escapado das mãos.»


"Escrevo para não me meter nos copos, para não dar em doido", ou de como Rui Araújo reagiu à sua saída da RTP, após 4 anos na "prateleira". Este é já o seu segundo livro, segunda incursão nos meandros do romance policial. Entrevista conduzida por Isabel Braga, que também faz uma análise da obra.

«Podem não existir polícias exactamente iguais a este, mas, certamente, se Rui Araújo não tivesse conhecido de perto os verdadeiros agentes da Judiciária, não teria sido capaz de criar estas personagens a um tempo exóticas e previsíveis, extraordinariamente humanas, em suma. Ao conhecê-los, pensa-se que não hão-de estar muito longe da realidade e Rui Araújo chegou a elas impelido pelo seu lado de jornalista.»


Na edição on-line não o podemos encontrar, mas ao inquérito desta semana responde João Ramalho Santos, biólogo, professor universitário e crítico de BD, e que merece aqui destaque por (pelo menos) 3 razões.
O último livro que ofereceu foi "Vincent e Van Gogh", de Gradimir Smudja, editado pela Witloof.
A arrumação de livros é feita «por géneros e temas. Ou em pilhas que apenas parecem caóticas para observadores menos atentos...»
E será que consegue escolher o livro da sua vida? «Evidentemente. Parece que o estou a ler agora. Mas nunca me recordo do título. Nem dos autores. Temos muitas vidas, é o que (também) nos vale...»

sexta-feira, abril 16, 2004

Martin Page recebe prémio literário

Há uns tempos atrás falámos aqui do livro "Como Me Tornei Estúpido". Hoje, sai a notícia de que com essa obra, na qual a personagem principal procura a estupidificação como caminho para a felicidade, o seu autor, Martin Page, ganhou o prémio Euregio-Schüler 2004.

De realçar o facto de o júri ser constituído por mais de 300 jovens europeus (e não por um colectivo de especialistas), o que só pode querer dizer que aquele é de facto o caminho certo :)

Publicado em Portugal pela Asa, podemos ler a notícia completa no Diário Digital.