domingo, outubro 03, 2004

O Código da Vinci Descodificado - Simon Cox

Há uns meses atrás publiquei a minha crítica de ”O Código da Vinci”, e como este livro despertou muita atenção em Portugal, o Dracul (o criador deste blog) pediu-me para fazer a crítica de um dos vários livros que se baseia nele, “O Código da Vinci Descodificado”.

Como muitos que leram "O Código da Vinci", ao acabar de ler este livro, fui à Internet para verificar os factos, e tentar descobrir o que era ficção e o que não era. "O Código da Vinci Descodificado" faz isso mesmo – mas extensamente. Para quem quiser saber tudo acerca de cada ocorrência do livro original, ou a origem dos nomes das várias personagens, este é o livro a comprar. Mas, para outros que só queiram ter uma ideia do que Dan Brown utilizou como facto/ficção (como imagino que seja a maioria) sugiro apenas que leiam o artigo neste site: http://www.crisismagazine.com/september2003/feature1.htm. Dará uma outra visão do livro original.

“O Código da Vinci Descodificado – O Guia Não Autorizado dos Factos por Detrás da Ficção”, de Simon Cox (Trad. Maria João Freire de Andrade), 4ª Edição, Publicações Europa-América, 2004, pvp: 12,90 €.

sexta-feira, outubro 01, 2004

Comunicado

A gerência deste estabelecimento vem por este meio assegurar que, apesar dos fracos sinais de vida dados nas últimas semanas, o mesmo continua vivo e (espera-se) de boa saúde. Continuamos abertos (salvo seja) a visitas, comentários e colaborações, na esperança de um futuro melhor (e de um mundo melhor), em que o tempo (e o €) chegue para todas as encomendas (até para ir passar um mês à Islândia). Enquanto isso cá vamos andando, umas vezes melhor, outras pior, na paz do senhor, e da senhora.

Obrigado pela preferência :)

segunda-feira, setembro 27, 2004

sexta-feira, setembro 24, 2004

O Encantador de Palavras

A menina apareceu grávida de um gavião.
Veio falou para a mãe: O gavião me desmoçou.
A mãe disse: Você vai parir uma árvore para
a gente comer goiaba nela.
E comeram goiaba.
Naquele tempo de dantes não havia limites
para ser.
Se a gente falasse a partir de um córrego
a gente pegava murmúrios.
Não havia comportamento de estar.
Urubus conversavam auroras.
Pessoas viraram árvore.
Pedras viraram rouxinóis.
Depois veio a ordem das coisas e as pedras
têm que rolar seu destino de pedra para o resto
dos tempos.
Só as palavras não foram castigadas com
a ordem natural das coisas.
As palavras continuam com seus deslimites.

Manoel de Barros

quarta-feira, setembro 01, 2004

Rikardo Arregi



CONVERSAS ENTRE AMIGOS

Quando, a meio de uma conversa entre amigos,
chega o acostumado momento das recordações,
e nos seus lábios ressuscita em claro-escuros
a flor seca do passado, penso surpreendido
que os clássicos tinham razão
quando escreveram com tal subtileza os seus belos tópicos
acerca da fugacidade do tempo,
e sacode-me com violência
a inutilidade destas repetições.

A fugacidade do tempo
não é coisa que me assombre,
mais estranho seria
deter a ordem das horas;
mas ouvir questões
que nos velhos livros já eram velhas
repetidas de forma torpe e presumidamente nova
é coisa que me assusta.


LAGUNEN ARTEKO SOLASETAN

Lagunen arteko solasetan
oroipenen une ohikoa
ailegatzen, eta ezpainetan
iraganaren lore iharra
ilun-argi berpizten denean,
pentsatzen dut harriturik
arrazoi zutela klasikoek
denboraren ihesari buruz,
haien topiko ederrez,
hain sotil izkiriatzean,
eta bortizki barneratzen zait
errepikapen hauen hutsala.

Denboraren iheskortasunak
ez nau asko liluratzen
bitxioaga bailitzateke
orenen ordena gelditzea,
baina zaharren libutuetan
jadanik zaharrak ziren kezkak
manera trakets uste berrian
entzuteak izutzen nau.

Periférica

sexta-feira, agosto 20, 2004

Linguagem Seinfeld

«Ainda não consigo acreditar que este livro está numa livraria. Adoro livrarias. Uma livraria é uma das poucas certezas que temos de que as pessoas ainda pensam. E gosto da forma como separam ficção e não-ficção. Dito de outra forma, dum lado põem as pessoas que estão a mentir e do outro as que não estão a mentir. Era assim que o mundo devia ser.

- Olá, sou o Jerry Seinfeld. Sou ficção.
- Eu sei.
- Como é que sabe?
- Porque eu sou não-ficção.

Também acho as livrarias um laxante maravilhoso. Não sei por que razão. Não sei se é do silêncio ou se é por haver lá tantas coisas para ler, mas quando se entra numa livraria há qualquer coisa que acontece. Acho que deviam tirar alguns corredores e pôr umas casas de banho bonitas para homens e senhoras ao fundo, e então as livrarias passariam a ser um sítio fantástico para se visitar.
Acho que o maior problema das livrarias é terem pouco espaço ao pé das caixas para vender coisas. Devem achar que é a única zona de vendas realmente boa. Devem pensar: «A única maneira de nos livrarmos deste livro é aproveitar quando os clientes têm o dinheiro na mão.» Porque não dão uma caixa registadora a cada empregado e os mandam seguir cada cliente? Quando vissem alguém pegar num livro, iam por trás, abriam a máquina, «cha-ching», e o cliente voltava-se e dizia: «Bem, como já abriu a caixa...»

Acho que o principal concorrente do livro é o vídeo porque, por uma razão qualquer, as pessoas pensam que têm de chegar a casa com um bloco rectangular de uma coisa qualquer, cujo fim desconhecem. A grande vantagem do livro é que é muito fácil de rebobinar. Basta fechá-lo e estamos outra vez no princípio.

Deve ser frustante trabalhar numa livraria. Vêem uma pessoa entrar, passar lá duas horas e sair sem levar nada. Devem ter vontade de explodir - dar um empurrão no cliente, quando sai, e dizer-lhe: «Então, já sabe tudo? Não precisa de nada daqui? Deve haver alguma coisa aqui em que pelo menos esteja interessado. Afinal, porque é que entrou aqui? Não precisamos de si, sabe?»

Afinal, bem vistas as coisas, uma livraria é isso mesmo. É uma loja «mais esperta do que você». E é por isso que as pessoas se sentem intimidadas - porque, para entrarem numa livraria, têm de admitir que há qualquer coisa que não sabem.

E o pior de tudo é que nem sequer sabemos onde é que ela está. Entramos numa livraria e temos de perguntar: «Onde é que está isto? Onde é que está aquilo? Não só me faltam conhecimentos, como não sei onde hei-de ir arranjá-los.» Por isso, ao entrar numa livraria, estamos a admitir perante toda a gente que não somos lá muito espertos.

É impressionante. A sério.»

da introdução do livro Linguagem Seinfeld, de Jerry Seinfeld (trad. Maria do Carmo Figueira), Gradiva, 4ª edição (Lisboa, Julho 2004), nº 1 da colecção «E agora, para algo completamente diferente», 139 pág., pvp: 11€


Diogo, esta é para ti :)

sábado, agosto 14, 2004

Adivinha quem (Oinc! Oinc!) voltou

No Minimercado Bob
- Papel ou plástico?
- Cheque.
- Tem de escolher.
- Cheque.
- Cheque o quê?
- Vou pagar com cheque.
- O que é que isso me interessa?
- A mim também não. Você é que está sempre a perguntar.
- Porque você não responde.
- Eu estou a responder... Não tenho dinheiro nem cartão de crédito.
- E...?
- E... Nem papel... Nem plástico...
- Seu porco bronco!! Não lhe estou a perguntar como é que vai pagar!! Estou-lhe a perguntar onde é que quer que eu lhe ponha as compras!
- Num saco.

Pérolas a Porcos 2 - Nem Tanto Nem Tão Porco, Stephan Pastis (trad. Jorge Lima), Bizâncio, 125 pág., pvp: 12,50€.

Mais sarcástico que nunca, mais corrosivo, mais estúpido, mais porco!

É o regresso do ano. Ocasião para dizer: nem tanto ao mar, nem tanto ao chiqueiro.

Diz o rato:
- Achas que há uma razão para te acontecerem coisas más na vida?
- Acho... sou estúpido.



E especialmente dedicado aos jogos que já nos deram uma medalha

:)

domingo, agosto 08, 2004

As Aventuras de Sherlock Holmes

Este livro é constituído por doze pequenos contos, em que o grande detective e o seu companheiro Dr. Watson resolvem casos aparentemente sem solução, como por exemplo: a partir de um chapéu velho e de um ganso conseguem descobrir o paradeiro de uma jóia valiosa, roubada poucos dias antes, na "Granada Azul"; tentam lidar com Irene Adler, uma mulher que alegadamente está a chantagear um rei, no “Escândalo na Boémia”; ou ainda, relacionam o estranho emprego de um homem ruivo (transcrever a Enciclopédia Britânica, quatro horas por dia, por um salário extraordinário) com um roubo de um banco, na “Liga dos Cabeças Vermelhas”.

Eu sempre adorei as histórias de Sherlock Holmes (já as li todas!), e diga-se de passagem que foi a partir destas que comecei a apreciar o género policial. Alegadamente o autor baseou-se num dos seus professores de Medicina chamado Joseph Bell (a quem ele dedica este livro), que empregava os mesmos métodos de dedução de Holmes para descobrir o que acontecera com os seus pacientes. Muitos outros autores, incluindo a grande Agatha Christie, basearam-se em Sherlock para criar os seus detectives. Aqui vão duas das frases mais famosas:

“Quando tudo o que for impossivel for eliminado, o resto, mesmo que seja improvável, deve ser a verdade”

“- Há alguma coisa a que queira que eu dê atenção?
- Sim, ao curioso incidente do cão.
- Mas o cão não fez nada!
- Por isso mesmo.”

Nestas doze histórias encontram-se algumas das pessoas que marcaram a vida e carreira de Holmes: Irene Adler, designada por Holmes simplesmente por “a mulher”, a única mulher (ou pessoa) que alguma vez conseguiu enganar Holmes; o inteligentíssimo professor Moriarty, o arqui-inimigo de Holmes, que infelizmente usa todo o seu génio para o mal; Mycroft Holmes, irmão de Sherlock, também ele um génio mas que prefere deixar os “detectivismos” nas mãos do irmão mais novo; os detectives Lastrange e Gregson, da Scotland Yard, que acham os métodos do grande detective no mínimo pouco ortodoxos, mas que no final ficam rendidos com a sua eficácia (ficam também com o crédito dos casos resolvidos, uma vez que Sherlock Holmes não gosta de ficar com os louros); e obviamente o grande Dr. Watson, o grande amigo e companheiro de todas as horas. Se me permitem um desabafo, sempre fui da opinião que os produtores e escritores dos filmes e das séries de TV foram sempre muito injustos com este personagem, fazendo dele um tolo, como se a sua burrice fizesse Holmes mais inteligente por comparação. A verdade é que nos livros ele é essencial porque é ele quem escreve a história – descrevendo os lugares e os personagens com detalhe e sentimento. Claro que quando as histórias foram passadas para o grande e pequeno ecrã, a função de narrador de Dr. Watson já não era necessária, mas não era preciso fazer dele uma personagem quase cómica. É uma pena porque, pensando bem, ele é médico (logo deve ter alguma inteligência), e se fosse tolo Holmes nunca o teria tomado como confidente.

Algo muito interessante é o facto de que enquanto toda a gente adorava Sherlock Holmes, o próprio autor detestava-o – Conan Doyle dizia sempre que o detective era demasiado arrogante para o seu gosto. Por isso, ele pôs Holmes a consumir morfina e cocaína (nessa altura, finais do séc. XIX, eram drogas legais, mas os editores decidiram retirar este vício de Holmes nas edições mais recentes dos contos de Conan Doyle). Mais tarde, farto da adoração do público, matou o detective no conto “O Problema Final”, após um confronto com o arqui-inimigo Professor Moriarty. Os seus leitores não quiseram acreditar, e a revista Strand, que publicava os contos de Sherlock Holmes, teve de persuadir Conan Doyle a ressuscitá-lo. Depois de muita pressão, este cedeu, e Sherlock voltou a viver no “Problema da Casa Vazia”.

Acho também que “As Aventuras de Sherlock Holmes” é recomendável para aqueles que não têm o hábito de leitura, por ser uma colectânea de pequenos contos. Para aqueles que preferem histórias mais longas, recomendo o famosíssimo “Cão dos Baskervilles” (publicado pela mesma editora). Deixem o “Estudo em Escarlate” para último lugar: é a primeira novela com a personagem de Sherlock Holmes e conta o início da amizade entre este e Watson, mas o autor quando a escreveu era ainda jovem e estava a aprender, e por isso a história não é nem forte nem tem as características das seguintes. Este livro foi publicado pela editora Europa-América.

Uma curiosidade final: quando é que o famoso detective disse ao seu amigo “Elementar, meu caro Watson!”? Se respondeu em todos os livros, está enganado: Sherlock NUNCA disse isso a Watson. Esse comentário, assim como o famoso cachimbo e chapéu de Holmes, nunca apareceram nos livros originais de Conan Doyle – só apareceram nas primeiras séries de televisão, e daí ficou a ideia.


Aventuras de Sherlock Holmes”, de Arthur Conan Doyle, editora Matin Claret, 2003, 213 pags, Preço: 5,23 €

Make Like Paper


Leaves are turning brown
all over the ground
leaves make like paper
make like paper sounds







Mark Kozelek

quinta-feira, agosto 05, 2004

e muitas Feiras por todo o Algarve

A Feira do Livro de Portimão está mais uma vez instalada na Zona Riberinha, local que recebe este evento desde 1997. Organizada pela Câmara Municipal de Portimão em colaboração com 3 livreiros locais, a Feira deste ano recebe o público numa área coberta de 400 m2, das 19h30 às 24h00, até 22 de Agosto

A 28ª edição da Feira do Livro da Cidade de Faro também já está aberta ao público. Numa organização da Câmara Municipal, o certame realiza-se até ao próximo dia 15, diariamente de portas abertas das 19h00 às 24h00.

A 3ª Feira do Livro de Vilamoura já decorre nos Jardins do Casino de Vilamoura e aí decorrerá até dia 12 de Agosto. Uma organização do Município de Loulé com o apoio da Delegação Regional da Cultura do Algarve.

A 5ª Feira do Livro de Quarteira, também numa organização do Município de Loulé, decorre de 10 a 21 de Agosto.


Mais informações sobre estas e outras Feiras do Livro por todo o país serão bem recebidas em draculpt@yahoo.com, ou aqui mesmo, no espaço de comentários. Obrigado :)

terça-feira, julho 27, 2004

Feiras até Sábado

No cenário habitual do Mercado da Ribeira decorre, desde o passado dia 8, a 1ª Exposição Feira do Papel Velho e das Velharias. Nela pode encontrar-se uma grande colecção de livros que normalmente só está disponível em alfarrabistas, mas também muitos postais e fotografias antigas, jornais que relatam os tempos pós-revolução e outros bem mais antigos, e muitas outras preciosidades. Para além disso, destaque para a presença de muitos títulos antigos da Ulmeiro, entre os quais uma colecção de obras de Agostinho da Silva.

«Dos fados que a mim me movem
sou voluntário instrumento
se fosse solteiro e jovem
te pedia em casamento
sem vontade de casar
que o mais fundo sentimento
é este amor de te amar
o qual amor de te amar
ao que mais quer é à vida
e ao sonho que é te adorar
mais sonhada que vivida.»

em Uns poemas de Agostinho



Também já habituais são as feiras realizadas na Gare do Oriente, com organização da Caminho Divulgação. Desta feita o mote são as férias e assim desde o dia 8 que ali se está a realizar a 2ª Feira do Livro de Verão. Entre as 10h e as 23h ali poderemos encontrar alguns fundos de catálogo de muitas editoras nacionais, bem como títulos mais recentes, todos com um desconto mínimo de 20% sobre o preço de editor.

sábado, julho 24, 2004

“O Diário da Nossa Paixão” de Nicholas Sparks

Num lar de terceira idade, um homem de idade lê uma história a uma senhora também de idade, todos os dias. É sempre a mesma história, a paixão de Noah e Allie, um rapaz simples e uma rapariga de boas famílias, que se apaixonam perdidamente na adolescência, mas a interferência dos pais dela resulta numa separação previsível. Quinze anos depois, quando eles se encontram de novo, ele já possui cicatrizes provocadas pela Segunda Guerra Mundial, e ela está noiva de outro homem. Ela encanta-se então com a inocência e com o poeta que ela encontra dentro dele, e ele apaixona-se pela artista que ela é. A história de Noah e Allie é banal, uma história de amor como tantas outras… Mas o velhote insiste em contar-lhe a mesma história todos os dias, porque ela esquece-se dela todas as noites, por ter a doença de Alzheimer. Mas há dias que a memória não lhe falha tanto, e em que a história lhe parece terrivelmente familiar… Talvez porque o rapaz simples da história lhe lembre alguém que lhe foi muito importante na vida… Ou simplesmente talvez por encontrar um poeta dentro do velhote contador de histórias.

            Quero salientar aos leitores que não sou de maneira alguma uma pessoa que adore ler romances românticos e que chora no final, mas este livro realmente é comovente. É uma história de amor intemporal num cenário deslumbrante: Nova Berna, uma cidadezinha no sul dos E.U.A.. O autor descreve as paixões dos protagonistas de tal modo que é possível sentir os medos, inseguranças, excitação, contentamento, e obviamente o amor que eles sentem um pelo outro, primeiro no ardor da adolescência, passando pela incerteza na fase de adultos, terminando na maturidade na velhice. Sparks percebe que a relação entre um casal muda consoante a fase da vida em que se encontra, pelo que a interacção entre Noah e Allie é realista, e por isso, muito comovente. É sem dúvida um dos melhores e apaixonantes livros de Nicholas Sparks. Para finalizar, gostaria de deixar a nota de que o autor baseou esta história na relação dos sogros, que estiveram juntos durante quase 60 anos. Nos dias de hoje, é algo incrível!

 
O Diário da Nossa Paixão”, Nicholas Sparks (Trad. Helena Barbas), Ed. Presença, 4ª Edição, 1999, 159 págs. Preço: 12,47 €
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terça-feira, julho 20, 2004

diz assim O Guardador de Rebanhos

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

(...)
 
Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa
Que tem que ver com haver gente que pensa...
 
(...)
 
Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras à ideia
E não precisar dum corredor
Do pensamento para as palavras.
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.

segunda-feira, julho 19, 2004

Novidade: Jack London

«Depois de alguma manipulação, lá conseguiu pôr o molho de fósforos entre os punhos das mãos enluvadas. Segurando-os deste modo, levou-os à boca. Fazendo um grande esforço, e entre estalidos do gelo em volta dos lábios, conseguiu abrir a boca. Recolheu a mandíbula inferior e avançou a superior, arreganhou o lábio superior com cujos dentes tentou separar um fósforo. Conseguiu agarrar num, que deixou cair no regaço. Foi inútil, não conseguia chegar-lhe. Depois descobriu uma forma. Apanhou-o com os dentes e riscou a perna com ele. Fê-lo vinte vezes até conseguir acendê-lo. Quando o ateou, segurou-o com os dentes contra a casca de bétula. Mas o enxofre que se desprendeu do fósforo entrou-lhe pelas narinas e para os pulmões, fazendo-o tossir espasmodicamente. O fósforo caiu na neve e apagou-se.»

do conto "A Fogueira" ("To Build a Fire"), de Jack London

Já o 12º livro de Jack London a ser editado na Antígona, "A Fogueira e outros contos" (trad. Ana Barradas) traz-nos 9 histórias com destaque para esse duelo entre um homem e o frio do Alaska. Editado no mês passado, com 218 páginas e um preço de editor de 15€.

domingo, julho 11, 2004

Lá Longe, A Paz. A Guerra em histórias e poemas

Quantas vezes já vimos nos noticiários cenas de guerra, apenas para fazer zapping? Este livro, esta antologia de histórias e poemas centrados na dualidade guerra/paz, oferece uma perspectiva diferente. É um olhar mais directo aos horrores da guerra, geralmente contados na primeira pessoa pelos protagonistas, que são muitas vezes jovens e crianças simplesmente a reagir aos acontecimentos. Um dos exemplos é Serge, um rapazinho judeu que sobrevive aos horrores dos campos de concentração por saber tocar violino (aos músicos era dado tratamento especial nos campos de concentração, por entreterem os guardas), e que corajosamente salva o pai da câmara de gás:

“- Pára! (...) Mendelssohn [compositor judeu] é proibido.
- Proibido? Porquê?
Serge não compreende. Mendelssohn é o seu compositor favorito. A sua música é tão viva, tão cheia de sentimento.
(...)
Incrível. À sua frente está o homem que apenas umas poucas horas antes condenara o pai [à morte] com um único gesto indiferente. (...)
- Toca lá qualquer coisinha.
A distracção! Serge pensa no canal. Saltar ou morrer. Aqui, uma única nota desafinada podia significar o fim.
(...)
- Herr Kramer, se me permite, queria pedir uma coisa – grita Serge (...) – O meu papá... eh... pai é também um bom músico.
- So? Onde está? Qual é o instrumento que toca?
- Na barraca 148, Herr Lagerfuhrer. Esta manhã foi seleccionado [para a câmara de gás] e levado pelo Sonderkommando. É um excelente pianista.
- Hmmm... Piano. Vamos a ver.”


(em A Orquestra, de Roger Vanhoeck)

O poema seguinte revela a sensação estranha da paz depois de muitos anos de guerra:

“Recebemos heróis à hora do chá
juntos estavam sentados no sofá
não tinham conversa
nenhuma, eu pus-me a olhar a olhar
Até que ficaram envergonhados
Não sabiam o que haviam de fazer
Com uma paz assim.”


(1945, de Judith Herberg)

Esta antologia é composta por vários autores nacionais, nomeadamente Ilse Losa, Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner Andersen, Sérgio Godinho e Alice Vieira, entre outros, além de vários textos de autores estrangeiros muito bem traduzidos. É essencialmente um livro que nos faz reflectir, histórias que mostram os sofrimento provocado pela guerra a pessoas como nós, que felizmente nunca tivemos acesso a essa realidade.


Lá Longe, a Paz. A guerra em histórias e poemas”; Antologia organizada por Manuela Fonseca e Irene Koenders, Annemie Leysen, Carol Fox; Edições Afrontamento, Lda; 2001; 323 págs.

terça-feira, julho 06, 2004

MORTE NA PRAIA - Agatha Christie

Numa pequena ilha, em plena época balnear, é cometido um assassínio: a sra. Arlena Marshall é encontrada estrangulada pelo amante Patrick e por Emily, uma outra hóspede do único hotel da zona.

“Algo estava a intrigar Emily Brewster. Era como se estivesse a olhar para alguma coisa que conhecia bem, mas na qual havia algum pormenor que lhe parecia errado.
(...)
Ouviu a voz de Patrick – apenas um sussuro amendrontado. Ele ajoelhou-se junto da figura imóvel, tocou-lhe na mão, no braço...
Num arrepiante murmúrio disse:
- Meu Deus ela está morta! Santo Deus, ela foi estangulada... assassinada!”

Cedo se deduz que apenas os hóspedes do hotel é que poderiam ter cometido o assassínio. E agora, a pergunta fica no ar: quem foi? Talvez o marido de Arlena, o capitão Marshall, por ciúme ao descobrir que ela tinha um amante? Mas o capitão tem um álibi. Talvez a esposa do amante de Arlena, a frágil Christina? Mas ela não teria força suficiente para fazer o estrangulamento. E também se suspeita de Linda, a filha adolescente do capitão, que odiava a madrasta, e Rosamund Darley, uma antiga namorada do capitão, que mente durante o depoimento. E quando o assassínio parecia que iria permanecer não resolvido, eis que aparece Poirot, o grande detective belga, que também estava a passar umas férias merecidas na ilha, com uma solução aparentemente fantástica... e verdadeira.

“- O marido insistiu que a vítima não tinha inimigos, mas não posso acreditar nisso! Eu diria que uma senhora como ela faria ... bem, faria alguns inimigos, e dos bons. Que acha, sir?
- Mas oui, tem toda a razão – respondeu Poirot – mas (...) os inimigos de Arlena são todos mulheres. (...) Parece-me pouco plausível que este homicídio tenha sido cometido por uma mulher. Que diz o médico legista?
- Neasden parece convencido de que ela foi estrangulada por um homem....”


Este é um dos melhores livros escritos por Agatha Christie. Existem histórias escritas por esta autora em que se desconfia/descobre o criminoso no meio do livro, mas não este. Depois de verificar os movimentos de um número de suspeitos mais ou menos credíveis no dia do crime, Poirot junta todos os hóspedes (incluindo o assassino) numa sala, e explica como se deu o crime. A solução final é realmente muito engenhosa. Esta história não inclui a personagem do Capitão Hastings, um grande amigo de Poirot, que costuma contar na primeira pessoa os casos que o detective belga resolve, e cuja interacção com este constitui a nota humorística presente nos livros de Poirot (o Capitão Hastings tem a mesma função do Doutor Watson nas histórias de Sherlock Holmes: é o contador de histórias e o homem normal ao lado do homem-génio). Assim, quem ocupa o lugar de Hastings neste livro é o coronel Weston, o polícia encarregue do crime, e também Rosamund Darley, uma das hóspedes do hotel; mas na interacção não se encontra a leveza dos diálogos entre Poirot e Hastings, infelizmente. Mas é sem dúvida uma história bastante interessante e um bom livro para ler nas férias. Nota final: este livro já foi adaptado ao grande ecrãn (uma adaptação feliz), com o grande actor Peter Ustinov a interpretar Poirot.

«Morte na Praia», de Agatha Christie, (trad. José Lourenço), Edições Asa, 1ª Edição, Fevereiro de 2002, 191 págs., pvp: 10€.

texto por Marosifig