segunda-feira, agosto 06, 2007

Do Crítico Literário - Diário do Admirador de Lombadas...

Há quanto tempo já não leio um livro? A literatura inteira perdeu-se no tédio das minhas horas. Folheio as páginas, admiro os títulos, aprecio as capas. Tudo o mais me passa ao lado como ao homem casto é indiferente o desejo. A livraria é para mim um Museu. Entro, contente por ser domingo e eu não pagar a entrada - curiosamente é sempre domingo quando entro em livrarias. Contemplo as peças postas e tenho sempre cuidado para não lhes mexer. Se estão de frente penso: «Que capa bonita!», mesmo que o não ache. Porque não compreendo aquela arte, mas se alí está exposta é porque uma autoridade a entendeu e eu respeito sempre a autoridade. Se estão por ordem, na sua prateleira, percebo que estão catalogados, e que o modo correcto de estarem é exactamente assim como estão. E mesmo não alcançando a intenção do autor e o critério que o expositor escolheu, considero, um pouco mais alto, para que à minha volta me ouçam e tudo pareça bem: «Que rica lombada! Que ordem! Que perfeição! O artista estava embrenhado de rigor estético!» E, considerado isto, vou-me embora, agradecendo muito a tolerância e o cuidado aos curadores do Museu.

É também assim que faço com a vida...

quinta-feira, maio 31, 2007

quarta-feira, maio 30, 2007

Zapping: Desmancha-Prazeres

"The most essential gift for a good writer is a built-in, shock-proof, shit detector."
Ernest Hemingway

e

domingo, maio 27, 2007

as casas e o SR.V

O Sr.V gostava de casas como gostava de livros. "na verdade" dizia ele "casas e livros são exactamente a mesma coisa."As janelas são as lombadas e aquilo que se consegue espreitar, por entre os cortinados, o primeiro parágrafo de um capítulo.Se as primeiras frases nos entusiasmam, fechamos o livro e abrimos os olhos.Começamos a imaginar quem vive lá dentro sem nunca sair da cabeça do autor."

"Nem a literatura é só literatura!Tudo é psique!" escreveu o Sr. V, acrescentando logo de seguida:nota 1: relacionar, em ocasião posterior, a palavra psique e a palavra psiché - esse móvel intimo de senhora que faz tanto tempo que não vejo impresso numa página e que fica bem em qualquer habitação distinta" e voltou a fechar o caderno, olhos postos nas chaminés e nas antenas.

"Gosto tanto de janelas iluminadas como de prateleiras arrumadas. Uma pessoa com bom ouvido topa logo, pela arrumação que se vê assim do lado de fora, o tipo de conversas que se tem lá dentro"
"AH! " soltou. "Os livros nas prateleiras são todos bons vizinhos. Hmm, isto das vizinhanças explica porque é que não me gusta a ordem alfabética adoptada nas livrarias. Sei bem que uns autores devem ficar juntinhos a outros, seja qual for a letra de baptismo que lhes calhou em sorte. "

Deu mais uns passos, espreitou aquela varanda. "Um pe ni co numa varanda? Mas porquê? "

segunda-feira, abril 23, 2007

Hoje é Dia Mundial do Livro

«Celebra-se no próximo dia 23 de Abril, Segunda-feira, mais um Dia Mundial do Livro. Para assinalar esta data a Assírio & Alvim convida-o a visitar a sua livraria na Rua Passos Manuel onde, ao longo de todo o dia, poderá adquirir qualquer livro com 50% de desconto*. Histórias de amor, aventuras, rumores de guerra e de paixão, poesia. Leia um livro e dê asas à sua imaginação. Com preços assim, só não o fará se não quiser!


Livraria Assírio & Alvim; Rua Passos Manuel, 67-B, 1150-258 Lisboa. Telefone: 21 358 3030. Horário: das 10h às 13h e das 14h às 19h.

* Promoção válida apenas para livros com mais de 18 meses de publicação, ao abrigo da lei do preço fixo. Esta promoção não é válida para a Feira de Livros Manuseados.»

domingo, abril 15, 2007

Reminiscências: Curta Consideração sobre Drummond:




Carlos Drummond de Andrade é tido como o grande poeta brasileiro, o Fernando Pessoa do Brasil. Como muito da literatura brasileira, eu tenho-o como um poeta menor. Ele escreveu textos lindíssimos. Isto é inegável. «Segredo» é dos melhores poemas que já alguma vez lí. Tem frases de uma beleza incomparável. Era um homem sensível de certo talento. Mas não façam dele o gigante que não é. «No meio do caminho tinha uma pedra… etc.,» tem uma única frase poética:

"nunca esquecerei esse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas…"

Este é o poema. A pedra e o caminho repetidos ad nauseam são traços pessoais válidos, mas erros da literatura. O poema, porém, que o é a custo, tornou-se um marco na Poesia Lusófona, seja lá isso o que fôr. Mas o que motivou o poema da pedra? O que obrigou Drummond a essa interminável repetição? Que espécie de desespero não literário (e o desespero é, por norma, literário – a literatura sempre apreciou uma boa tragédia) assolou o poeta ocasional que era Drummond, de modo a que ele arruinasse as duas linhas supra-citadas com um simples calhau repousado num qualquer percurso?
É evidente que o caminho era a vida do poeta e o calhau em questão um obstáculo intransponível ou uma tragédia pessoal, naquele momento, inultrapassável ou com a qual o sujeito poético (como é do agrado das academias) não se conformava. Mas vingar-se no leitor inocente para lhe impôr de modo tão cru o calhau da sua dôr pessoal, não será demasiado egoísta, mesmo por parte de um autor aclamado?
De acordo com certas interpretações, a pedra no meio do caminho confunde-se, de algum modo, com o Destino, tendo este, por sua vez, ditado a morte de um filho de Drummond. Ora, quem acredita no Destino, afirma que, nessa inevitabilidade entediante, há um propósito superior inquestionável e interrompível, com um sentido demasiado grande para a limitada compreensão humana. Como é porém possível que, 2000 anos depois da barbárie das civilizações que nos precederam, continue a haver quem entenda ser justificável, de acordo com uma visão superior, o sacrifício de Isac? Não será consolação demasiado cobarde para o espírito atormentado pela dôr pessoal?
Eu que não acredito no Destino, que digo que a vida não é um caminho mas uma partida de xadrês e que sou eu que movimento as minhas peças em direção ao derradeiro xeque-mate (e com quem jogo senão comigo mesmo? Sim, estou condenado a vencer-me mas esse é o prazer do jogo e só assim ele se torna possível), eu sinto, inexplicável e paradoxalmente, embrenhada, entre tantas certezas, esta confusão tão característica de mim mesmo: de que lado estou quando jogo as peças? Como lidar com as minhas escolhas na esquizofrenia das minhas personalidades? Quando o acaso ou o erro me torturam, e os desgostos se acumulam sobre o corpo, como viver tudo isso? Como recuperar a peça perdida, ou, na linguagem de Drummond, como passar além da pedra que nos impede ou nos espanta o caminho? A pergunta é uma incógnita a que só a circunstância particular do que se vive poderá responder. Porque nenhuma realidade, nenhum problema é passível a generalizações. É por querer generalizar as suas soluções que o homem falha a resposta a todos os seus problemas. E se, por hipótese, eu falhar a reparação do erro? Errar ao corrigir um erro já cometido, não será o cúmulo da incapacidade? E quantas vezes falhamos a correcção anterior! A nossa vida é então uma sequência de jogadas ou de passos em falso. Assim, no meu tabuleiro de xadrês, a derrota é garantida para qualquer um dos lados do tabuleiro, e no caminho de Drummond haverá sempre uma pedra a impedir a passagem, que se multiplica noutras pedras suas iguais e se hiperboliza numa pedra maior até se tornar num rochedo intransponível. Que força de Homem, interior ou exterior, pode derrubar um rochedo? Onde está o mito de Hercules nessas horas? É neste momento de contemplação da derrota que eu tenho pena das minhas limitações de mortal e, consequentemente, de mim mesmo. E, por força dessas desilusões, vou-me tornando cada vez mais insensível.
Julgo então que foi neste espírito de crescente insensibilidade, que eu encarei, Drummond, a revelação de ser, a pedra que assombrou o teu caminho, o teu filho nado-morto. Também aqui tive pena. Mas não me parece que fosse essa a tua vontade. Nem tampouco a minha. A minha pena por ti não te consola nem me torna a mim em alguém melhor. Pelo contrário. Tu tornas-te ridículo e patético e eu torno-me vil por te dar a entender, por meio da minha pena, que sou melhor do que tu. Assim, eu passo a ser a pedra no meio do teu caminho, e tu a assombração permanente da minha própria derrota. Tu com o teu rochedo intransponível, eu com a ameaça constante de um mate que não desejo.
O maior inconveniente da dôr é termos de vivê-la contra a nossa vontade. O Destino dá a ilusão de um desígnio. O meu egoísmo dá-lhe a ilusão de uma escolha. O melhor seria ignorares a tua pedra e eu ignorar o meu jogo, esquecer as suas regras, ignorar que o Rei pode ser posto em cheque e perder o jogo.
É esta, creio eu, a prova de que não existe um Destino: Se ignorarmos todas as regras por que, normalmente, se regem as coisas, podemos criar um Universo paralelo em que somos nós que decidimos o resultado dos dados: O Deus que nos tornaremos passará a brincar às probabilidades por saber de antemão o resultado. É nessa quebra que reside a verdadeira poesia.
Quando deixáste de falar directamente da pedra para dizeres que não te esquecerias dela, foi quando efectivamente te esqueceste dela e a tua escrita respirou como um poema. Depois o nome da pedra voltou para amordaçar a poesia.
Não existe pedra, não existe caminho, tu passas por todo o lado. E eu não vivo em nenhum tabuleiro, não sei o que é um Rei, uma torre é um bloco de cimento onde as princesas sobem para apreciar a paisagem, tudo é fácil e belo, o dicionário de línguas não contempla o que poderia ter sido a palavra: xadrês… Este é o poema.


(Lisboa, 29/11/99)

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Zapping: cadernos - amf

«Íamos de férias e deixávamos a casa sozinha. Lembro-me de pensar no que faria sem nós. Havia quem voltasse para dizer adeus uma última vez. Mas a casa igual. De qualquer forma despedíamo-nos para que se lembrasse e dizíamos não deixe a nossa casa sozinha mãe, o nosso quarto, diga adeus, despeça-se, despeça-se depressa antes que se esqueça.»
por amf

sábado, janeiro 06, 2007

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Zapping: A a Z



Na penumbra da sala, um candeeiro
ocupa o centro do teu mundo.

Lês a vida pelo livro que seguras
na mão, aberto na mesma página.

Pelos vidros da janela, um resto de azul
esvai-se com a noite que chega.

Mas não vês o mundo, lá fora,
nem ouves nada do que se passa.

As flores murcharam na jarra,
o sofá continua vazio.

E lês a mesma página de sempre,
para que também a tua vida não mude.
por Nuno Júdice

sexta-feira, novembro 24, 2006

Lançamento, este Sábado, 25 de Novembro

«a partir das 15h e até quando a luz o permitir, terá lugar, na Livraria Almedina do Saldanha, em Lisboa, uma Cerimónia Ritual de Destruição de Livros de BD. A destruição será levada a cabo com a ajuda de pincéis, lápis de cor, marcadores e outras ferramentas igualmente letais e de efeito perdurável; no papel de Sumos-Sacerdotes Sacrificadores estará uma dupla de Abomináveis Homens Sem Sombra, o iníquo José Carlos Fernandes e o obnóxio Luís Henriques. O pretexto para este ritual é o recente lançamento do "Tratado de Umbrografia", volume inaugural das "Black Box Stories", série que se adivinha longa, molesta e funesta. No final será sorteado um rinoceronte entre os presentes. À saída, os participantes na cerimónia deverão certificar-se de que levam consigo as suas próprias sombras.»

sábado, novembro 18, 2006

Zapping: Beco das Imagens

«REQUISIÇÕES

Linha vermelha, escadas rolantes e sol nos Olivais. Devolver os livros da quinzena passada e requisitar mais cinco. E agradecer à Bedeteca por disponibilizar um fundo bibliográfico muito simpático, onde há 'históricos', 'clássicos' e 'teóricos' de várias espécies e onde não faltam as novidades que nunca chegam às livrarias de cá ou os autores menos comercializáveis. E tudo de borla; basta mostrar o cartãozinho das BLX (que também não custa nada) e tratar bem as 'espécies' que se trazem para casa. Hoje vieram estes. Daqui a duas semanas há mais.»
texto de Sara Figueiredo Costa

quinta-feira, outubro 05, 2006

Vamos ao Teatro?

«Esta é a história de um homem decepcionado, um cão velho que mia, uma máquina do tempo, um Uapiti que se deixa caçar, e outras dezassete personagens com diferentes ideias sobre o que é a felicidade.
Sob um céu demasiado baixo, uma solução que nos estralhaça vale mais do que qualquer incerteza?»

Adaptação do texto de Boris Vian, Erva Vermelha estará na Sala Estúdio do Teatro da Trindade de 13 de Outubro a 5 de Novembro, incluída na Trilogia do Cão (O Morto e a Máquina está em cena até 8 de Outubro, Timbuktu a partir de 11 de Novembro).

Mais informações na página do Teatro da Trindade.

quarta-feira, julho 19, 2006

terça-feira, julho 18, 2006

Zapping: La république des livres



«Nul besoin d'être collectionneur, bibliophile ou fétichiste pour éprouver l'irrépressible désir de caresser les pages de ce livre. Douce, vertigineuse et enivrante doit en être la sensation. Cela ne s'explique pas. La chose en question n'est autre que le premier recueil des pièces de Shakespeare jamais publié, en 1623 soit sept ans après sa mort. La Nuit des rois, Macbeth, Comme il vous plaira, Songe d'une nuit d'été, Peine d'amours perdues, La Mégère apprivoisée... Considéré comme "le plus important" opus de la littérature anglaise, il était la propriété d'une des plus anciennes bibliothèques municipales anglaises, celle du Dr William's, à Bloomsbury, qui veillait dessus depuis 1716. Or comme elle avait urgemment besoin de fonds pour ne pas péricliter, elle s'est résolue à céder son trésor.»