sexta-feira, abril 07, 2006

Reinventando Drummond I: Música II





Uma coisa triste no fundo da sala.
Disseram-me que era Chopin.


- «Encantador» – respondi secamente; e recostei-me...

O meu interlocutor falou então de um desgaste quotidiano,
Vaticinou que esta vida é uma porção de deveres,
Estabeleceu metereologias e furores de dentro e fora da alma,
Relacionou sistemas e culturas com os calabouços do Homem,
Argumentou que as estrelas são simples candeeiros esquecidos pelos deuses
Quando há muitos anos se deitaram para dormir para sempre...

Constatando, enfadado, que eu nada dizia,
Perguntou caçoando o bigode o que eu achava...

Eu considerei as contas que era preciso pagar,
Os passos que era preciso dar,
As dificuldades…


Tudo parecia tão pesado,
Tão complexo,
Tão inútil...
O que havia a dizer?

Assim,
Enquaderei o Chopin na minha tristeza
E adormeci,
Deixando ao homem do sonho a responsabilidade de pagar todas as dívidas
E ao meu aborrecido interlocutor
O copo de gin semi-vazio
Que talvez guardasse essa resposta
Que eu não soube
Não quis,
Não pude dar…

Memórias IV: Apontamento Sobre a Verdade Oficial:

(Jaime Cortesão)






(Afonso Costa de acordo com uma caricatura de Rafael Bordalo Pinheiro)









(Manuscrito de Memórias da Grande Guerra [A Primeira] de Jaime Cortesão)





a) – Este é o mais ingénuo… (Afonso Costa ad et apud Jaime Cortesão).
– Agradeço-lhe do coração: Não podia dizer-me palavra mais lisonjeira. (Jaime Cortesão, pelo próprio).
b) Há clarividências tão doentes que só nos vale contra elas o estigma da ingenuidade… (Olho Marinho, 03/12/05)

Memórias III: Queixume da alma segundo Rimbaud (Original e tradução):




Oisive jeunesse,
À tout asservie,
Par délicatesse
Jái perdu ma vie…

Juventude alada,
De tudo cativa,
Por ser delicada
Perdi minha vida…
(Lisboa, 19/05/05)

Memórias II: Interpretação da vida segundo um romance de Fiodor Dostoievski:




O crime é o castigo.
(Lisboa, 09/05/05)

Memórias I: Do Principezinho... (Uma Lembrança)

Sentiste hoje, Miguel, como estás velho. A conversa era trivial como qualquer conversa quotidiana. Depois alguém quis subir-lhe o interesse. Começou-se a falar de livros, dos melhores, dos eternos. Le Petit Prince de Saint-Exupéry não podia deixar de ser mencionado.


Os que o leram lembraram os melhores momentos; e falaram, é claro, do elefante dentro da jibóia que os adultos, esses cegos confusos que buscam o coração perdido algures no final da infância, não reconheciam. E eu, muito sério, muito atento (como é meu costume), lembrei o desenho com eles. E só vi um chapéu…
E sabes tu, meu espelho, qual foi a pior descoberta? Também eu busco o meu coração que está perdido, e nem sequer o sabia… (Lisboa, 11/04/05)

quarta-feira, abril 05, 2006

Citizen Kane in Portugal

Culturalmente Correcto, ou como ter Sucesso no mundo da cultura, é a proposta de António Clark Melo que a Mareantes Editora fez chegar às livrarias nestes dias. Aparentemente editado originalmente em inglês sob o título Citizen Kane in Portugal, este livro apresenta-nos uma série de sugestões e conselhos bastante práticos:

«Não é fácil? Vá lá, continue. Pelo menos aqui não seja preguiçoso.
Vire a página e tornar-se-á numa pessoa muito culta!»
pág.8

"Como se referir a algo de que não sabe nada", "Gostar mais de Umberto Eco do que de outros teóricos lusitanos" e "Os jornais que deve mostrar em público (não precisa de os ler!)" são alguns dos capítulos em que se vão sucedendo referências a escritores, livros, filmes, óperas, destinos turísticos, provérbios e demais artimanhas através das quais é possível passar uma imagem de erudito e de pessoa culta na sociedade portuguesa.

Para mim, encaixa perfeitamente nas definições de "livro de balcão", "ensaio humorístico" e "conjunto de tiradas em que Seinfeld encontra a sociedade cultural portuguesa que podiam muito bem ter sido publicadas em mini-fascículos na revista Os Meus Livros". Tem a graça que tem, e à segunda viagem de comboio já não tem tanta assim.

Mas vale um post, e isso já é qualquer coisa.

sábado, abril 01, 2006

Pride and Prejudice


Acabei há uns dias de ler em versão mixada Orgulho e Preconceito de Jane Austen, um livro recomendado por um amigo. Passo a explicar:
O dito cavalheiro emprestou-me um exemplar no original, dando-me o exíguo prazo de 5 dias para o acabar, após o qual iríamos hipoteticamente ao cinema ver o filme com o mesmo título, que está agora nas salas. Ou então ao jardim zoológico. Passados os 5 dias, ia eu na página 2, resolvi dirigir-me à Fnac para dar um avanço aos capítulos. Li umas 50 páginas da tradução portuguesa em meia hora e voltei para casa, para o meu quarto, para a versão original, cheia de entusiasmo e curiosidade. Por volta da página 120, não aguentei mais tanta lentidão e abracei a versão portuguesa, que acabei de um trago.
Jane Austen, criticando sarcasticamente os esquemas e os códigos da sociedade inglesa abastada (also known as burguesia) do século XVIII, provoca no leitor essa vontade universal que é a de cuscar, esse desejo terrível de esmiuçarmos a trica do momento, o acidente que origina a acção, o demónio especulativo que nos escraviza a curiosidade e nos revela a verdadeira miséria que é a da natureza humana.
Ironicamente, Elisabeth, personagem principal, (personagem antípoda à da sua própria mãe), a que aparenta ser mais consciente da sua condição e aquela que nos dá uma visão do mundo que será a mais aproximada da da própria autora, acaba por casar bem, ser o orgulho da sua progenitora e a inveja dos vizinhos.
Casar bem e ser a inveja dos vizinhos é o leitmotiv da acção.
Se o meu inglês fosse melhor, compraria certamente o livro que que encontra na fotografia aqui ao lado. Decerto um excelente manual para o estudo da natureza humana e do seu instinto de sobrevivência.
E para finalizar, servir-me-ei duma expressão que há dias me encheu os olhos no Destak, o jornal que mais leio: "Orgulho e Preconceito" pode de facto ser considerado um estudo sobre alpinismo social.

terça-feira, março 28, 2006

It's Sushi Time!




E porque não falar em livros de culinária?

Em livros de... sushi!
É praticamente Verão, a hora mudou e já muitos andam de manga curta e de sabrina calçada. E como alimentar este estado de espírito?

Com cozido à portuguesa?
Feijoada?

No way. Isso era dantes...
E porque os restaurantes são caríssimos e estamos em tempo de crise... é tempo de aprender a fazer sushi!
Para isso, temos dois excelentes manuais que lhe queremos recomendar:

Para iniciados:
Rápido & Saboroso: sushi, da Gama editora.

Para o nível dois:
Sushi, de Barber, Kiniki e Takemura, Hiroki, da editora Civilização.

Arranje as suas espadas de samurai, vá à praça em busca do peixe fresquinho (pode tentar alguns supermercados de renome, mas assim é mais giro), vasculhe os bazares orientais (sim, esses que são às dúzias na sua rua), e deite mãos à obra... mas tenha cuidado para não as decepar.

Finalmente, enjoy! (ou como dizem os japoneses, "Mnham, mnham!")

Ass: Cristina e Helena

quinta-feira, março 23, 2006

Título do Ano 2006: 1ª nomeação

Como Ganhar Uma Fortuna dos Diabos e Ainda Assim Ir Para o Céu, no original, How to Make One Hell of a Profit and Still Get to Heaven, de John Demartini, foi editado recentemente pela editora Pergaminho, inserido na colecção Desenvolvimento Pessoal.

Na apresentação pode ler-se «Este livro vai ajudá-lo a atingir os seus objectivos financeiros, pois apresenta uma forma totalmente nova de compreender e visualizar a natureza dos bens materiais. Os princípios e metodologias aqui explicados permitir-lhe-ão desenvolver uma relação saudável com a riqueza material – e espiritual – que está sempre ao seu alcance».

Mais informação sobre o livro e o autor no seu site pessoal, em drdemartini.com, onde se pode encontrar na página inicial um dos segredos para ganhar uma fortuna dos diabos: «Do you desire to achieve your full potential? Well, now you can through the purchase of Dr. Demartini's books, CDs, & DVDs.»

Sugestões para os próximos nomeados poderão ser enviadas para o e-mail acima.
Boas leituras :)

sábado, março 18, 2006

Zapping: Livros Difíceis

«Em 1597, Miguel de Cervantes foi preso em Sevilha, porque tinha algumas dívidas. Foi na prisão, onde permaneceu por três meses, que começou a escrever Dom Quixote de la Mancha.»

sábado, março 11, 2006

"era bonito ver, aqui no Saldanha, chover Montanhas Mágicas"

«Dois dias de viagem apartam um homem - e especialmente um jovem que ainda não criou raízes firmes na vida - do seu mundo quotidiano, de tudo quanto costuma considerar os seus interesses, cuidados e projectos; apartam-no muito mais do que esse jovem imaginava no fiacre que o levava à estação. O espaço que, girando e fugindo, se punha de permeio entre ele e a estação de origem, desenrolou forças que geralmente se julgam privilégio do tempo; de hora em hora o espaço determina transformações íntimas, muito parecidas com aquelas que o tempo origina, mas que, de certo modo, as ultrapassam.
Tal qual o tempo, o espaço gera o olvido; fá-lo porém, desligando a pessoa humana das suas contingências e pondo-a num estado livre, primitivo; chega até mesmo a transformar, num só golpe, um pedante ou um burguesote numa espécie de vagabundo. Dizem que o tempo é como o rio Lete; mas também o ar de paragens longínquas representa uma poção semelhante, e o seu efeito, posto que menos radical, não deixa de ser mais rápido.»
pág.8

Depois de uma busca de vários meses, eis que de repente começaram a aparecer exemplares da Montanha Mágica: dois deles em segunda mão, de um vendedor que não tinha bem a noção dos livros que tinha, e outro ainda novo, duma livraria do Entroncamento que não o tinha conseguido vender... Nas conversas que se têm seguido, imaginámos: "era bonito ver, aqui no Saldanha, chover Montanhas Mágicas".

Esta imagem é do exemplar que ficou cá em casa, que para além do distinto cheiro a velho, tem uma dedicatória de 23/12/1958.

Na próxima tertúlia já teremos mais exemplares :)

quinta-feira, março 09, 2006

Montra...

Pois, isto é quando se pode e não quando se quer. A ideia foi boa, mas quando o tempo não estica... Por aqui vamos falando de livros e tudo o resto, estejam eles na montra ou não...

«no papel, as palavras escondidas, as nuvens.
dizes não posso ser o mundo hoje, esqueces que
tu és o mundo. dizes não posso, e eu gostava que
soubesses sempre que um lamento dentro de mim
te repete. abro o papel dobrado e abro a noite
no céu. as árvores são distantes, as palavras
e talvez a música, a terra é distante no
papel dobrado que me entregas escondido
na mão.»
pág. 79

A Criança em Ruínas, de José Luís Peixoto, editado pela Quasi em Setembro de 2001 (5ª edição, Novembro de 2003).


NO AZUL ÁRABE DE SAMARCANDA

«Um domingo, no azul árabe de Samrcanda, Amid Aka viu caminhar ao seu encontro dois forasteiros. Vinham ao fundo da avenida e, seguramente, procuravam chegar à sua loja, famosa pelas melancias que se comem durante o tempo em que as areias de deslocam. Num dado momento, os dois viraram em direcção do seu alpendre de madeira que cobre, de sombra, algumas mesas. No lavatório, apoiado contra o muro externo, lavaram as mãos. Amid Aka foi buscar duas melancias à loja fresca. Quando regressou, sob o alpendre, viu que um dos dois homens já não estava. Ao pousar as melancias, diante do que ficara, pergunta-lhe a razão pela qual seu amigo se ausentara. O homem fixou-o, com o rosto envolto numa expressão de perda. Limpou a fronte, coberta por gotas de suor, e, exausto, levantou-se da mesa dando sinais de partir. Mas antes disse: «Desde há algum tempo que todos me vêem na companhia de alguém». E afastou-se, pesaroso, caminhando ao longo da avenida coberta de pó.»
pág. 82

Histórias para uma Noite de Calmaria (Il Polverone - Storie per una Notte Quieta), de Tonino Guerra (tradução de Mário Rui de Oliveira), editado pela Assírio & Alvim em Novembro de 2002.

sábado, fevereiro 11, 2006

Apresentação da Noite - Al Berto

- é noite
- dentro do meu coração de papel

- é noite
- dissolve-se um desastre um inesperado suicídio

- é noite por cima do mar redondo

- é noite
- em redor da memória que me dá sede

- é noite
- calemo-nos um momento

- calemo-nos

- calemo-nos todos
- vai chegar o inverno
- acendamos as luzes e olhemo-nos como fazem determinadas flores ao morrer do dia
- dobram-se para dentro da seiva e cismam
- um sono de ave que só a elas pertence

- esqueçamos também o tempo
- que se ilumine o coral e se abram de par em par as pálpebras exaustas do medo
- são horas de alucinação

- horas de janelas abertas
- horas amor
- de fingir que nos amámos
de Al Berto

Apresentação da Noite foi originalmente publicada em 1985, "incluída no volume de textos para teatro Novos Autores, nº 32 da colecção Repertório da Sociedade Portuguesa de Autores", nos 60 anos dessa cooperativa. Foi representada pela primeira vez no dia 25 de Fevereiro de 1985, no Auditório Frederico Freitas. E chegou esta semana novamente às livrarias, pela mão da Assírio & Alvim.

«Apresentação da Noite nasceu, a um dado momento, da necessidade de tornar audível esse silêncio onde se perde todo e qualquer desejo de escrever.»
diz Al Berto, na introdução

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Montra: semana 06/06 - parte 2

«If you want to read what is absolutely, certainly true about Mozart, this book may be a disappointment, because the story of what has happened to him since his death has irretrievably coloured that simple tale. But at the moment that marks a quarter of millenium since Mozart was born, the most we can do, given the infinite variety of possibilities in his music, is to provide some context - to help us hear Mozart's music freshly, and make of it what we will. Each listener will have a different reaction, just as every performer reinterprets him: here are some guides around that amazing output; from them, create your own Mozart.»
pág.4

«Mozart is like a mistress who is always serious and often sad, but whose very sadness is a fascination, discovering ever deeper springs of love.»
Stendhal (pág. 15)

The Faber Pocket Guide to Mozart, de Nicholas Kenyon, editado pela Faber & Faber em Setembro de 2005.


«- Parece-me que o senhor não percebeu mas acontece que não me apetece falar consigo.
- Porquê? - perguntou o desconhecido, num tom desenvolto.
- Porque estou a ler.
- Não está, não.
- Desculpe?
- O senhor não está a ler. Talvez pense que está a ler mas leitura não é isso.
- Oiça, não me apetece mesmo nada ouvir considerações profundas acerca da leitura. O senhor irrita-me. Mesmo que não estivesse a ler, não ia querer falar consigo.
- Vê-se logo quando alguém está a ler. As pessoas que lêem, que lêem a sério, não estão aqui. E o senhor está aqui.
- Nem imagina como lamento estar aqui! Sobretudo desde que o senhor apareceu.
- Pois é, a vida é cheia destes pequenos desacertos que a tornam complicada. Mais do que os problemas metafísicos, são as contrariedades insignificantes que marcam o absurdo da existência.»
págs. 9 e 10

A Cosmética do Inimigo (Cosmétique de l'ennemi), de Amélie Nothomb (trad. Fernanda Barão), editado pela Bizâncio em Maio de 2002.


«Que brando jeito aquele: como se sorrisse perante a agitação, a fantasia, a loucura e a graça de um grupo de crianças que brinca. Mas do que eu gostava sobretudo era da repousada segurança com que Teresinha cruzava as mãos sobre o vestido; ali, conversando e ouvindo as outras, e as mãos cruzadas, descansando uma na outra, como se apenas em si mesmas pudessem repousar.
Como nos conhecíamos de um ou dois domingos em que a tinha esperado com Carlinhos, fazia-lhe um cumprimento e passava. As outras tinham quase sempre um ar que se ligava ao da manhã, mais parado e melancólico nos de chuvinha e nevoeiro ou a um tempo arrepiado e vivo naquele agudo frio de céu azul que o Porto dá às vezes. Mas as mais bonitas para as ver eram as manhãs de Abril: não por elas, devo dizer; mas porque me davam um excelente fundo de lembrança que me tornava mais alegre e audacioso o voo riscado das andorinhas sobre o céu. Mulher complica a vida da gente, não é? O que não sucede com as andorinhas.»
págs. 50 e 51

Herta Teresinha Joan, de Agostinho da Silva, editado pela Cotovia em Maio de 1990.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Montra: semana 06/06

Segunda semana de montra, com um dia de atraso e incompleta.

PERDIDO NUM LIVRO

«Entrei pela porta de um livro e fechei-me lá dentro com as palavras acesas e as luzes apagadas. A minha mãe deu dez voltas à casa à minha procura. "Onde é que o miúdo se terá metido?" Com medo de ser encontrado, eu saltava das páginas pares para as ímpares e enrodilhava-me, feito bicho-de-conta, entre dois parêntesis ou, por ser muito magro, atrás de um ponto de exclamação.
Era a primeira vez na minha vida que eu me fechava dentro de um livro. Antes já me fechara dentro de um armário, na gaveta de uma cómoda, no sótão e na despensa. Agora, afoito e insensato, dava um passo de gigante no meu aventuroso destino de menino dos assombros, e escondia-me dentro de um livro, disposto a permanecer ali o tempo que fosse necessário até a minha mãe desistir de me procurar e até todos me darem definitiva e irremediavelmente como desparecido.
(...)»
de José Jorge Letria

Antologia do Conto Português Contemporâneo (edição bilingue Português-Búlgaro) / Антология на съвременния португалски разказ, organizado por Petar Petrov, editado pela Five Plus / Пет плюс.


«O papá é livreiro. Adora os livros. Devora-os. É um verdadeiro ogre. Passa todo o dia a ler e às vezes toda a noite. É uma doença incurável, mas que não parece preocupar o nosso médico de família.
Todas as noites, uma nova pilha de livros desembarca lá em casa. Há livros por toda a parte, até nas casas de banho. É uma invasão. Impossível reclamar. Com o papá, os invasores têm sempre razão. Fala com eles como se fossem seres humanos. Inventa nomes para eles e trata-os por «os meus livrinhos». Todos os livros são seus amigos.
Eu não tenho amigos. E não gosto de livros. Por fora, sou parecido com o papá. Mas por dentro, somos dois estranhos.
(...)»
págs. 7 e 8

O bebedor de tinta (Le buveur d'encre), de Éric Sanvoisin e Martin Matje (traduzido por Sofia Empis), editado pela Dinalivro.


HARMÓNICA

«Um músico italiano (ele era da Sicília) escreveu algumas óperas belíssimas: "O Corsário", inspirada num poema de Byron, "A Sonâmbula", etc. Certo dia disse aos amigos:
"Ainda hei-de escrever uma ópera que nos lembre a estupidez e a crueldade humanas." Logo na abertura, o conseguiu. Tinha menos de 30 anos.
Mas que distância há entre um rapaz desses e o nosso repetido Lopes Graça!
Vou comprar outra gaita de beiços. Rádios, nunca mais. Avariam-se todos, pá.»
pág. 146

Hoje e sempre, Sebastião Alba.

Albas, de Sebastião Alba, editado pela Quasi em Outubro de 2003.


«(...)
O sorriso que devassou brevemente o meu rosto não
me pertenceu: porque ninguém o viu antes de ti,
nem o espelho se convenceu jamais a devolver-mo.

(...)
Tu não me pertenceste - e, se uma vez acreditei que
acontecias dentro do meu corpo, das outras vi-te a abraçar a
solidão com tanto ardor que concluí ser a memória quem
te mantinha vivo. (...)»
pág. 63

O Canto do Vento nos Ciprestes, de Maria do Rosário Pedreira, foi editado pela Gótica em Março de 2001.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Zapping: Penguin Most Wanted: Crime

A página da Penguin dedicada à literatura policial.

«Crimewriting Rules, OK…
Part one.


One of the problems writers of crime fiction must deal with is that to speak of ‘crime writers’ – or ‘romantic novelists’ or ‘writers of science fiction’ or, simply, ‘genre’ – hints at limitation. And all too often, this limitation is thought to lie in the general assumption (which is generally true) that crime fiction’s main purpose is to entertain.

All fiction seeks to be entertaining, I suppose, but there’s a distinct notion that genre fiction stops there: that entertainment is its be-all. The larger problem is that because crime fiction is sometimes thought of in this way, it’s easy for the best in the genre to be judged – in general terms – by the standards of the worst. In truth, of course, ‘crime-writer’ no more sums up the individual novelist in terms of ability than the term ‘suburban housewife’ tells us all we need to know about the hidden lives of millions of women.
(...)»
por David Lawrence