sábado, março 11, 2006

"era bonito ver, aqui no Saldanha, chover Montanhas Mágicas"

«Dois dias de viagem apartam um homem - e especialmente um jovem que ainda não criou raízes firmes na vida - do seu mundo quotidiano, de tudo quanto costuma considerar os seus interesses, cuidados e projectos; apartam-no muito mais do que esse jovem imaginava no fiacre que o levava à estação. O espaço que, girando e fugindo, se punha de permeio entre ele e a estação de origem, desenrolou forças que geralmente se julgam privilégio do tempo; de hora em hora o espaço determina transformações íntimas, muito parecidas com aquelas que o tempo origina, mas que, de certo modo, as ultrapassam.
Tal qual o tempo, o espaço gera o olvido; fá-lo porém, desligando a pessoa humana das suas contingências e pondo-a num estado livre, primitivo; chega até mesmo a transformar, num só golpe, um pedante ou um burguesote numa espécie de vagabundo. Dizem que o tempo é como o rio Lete; mas também o ar de paragens longínquas representa uma poção semelhante, e o seu efeito, posto que menos radical, não deixa de ser mais rápido.»
pág.8

Depois de uma busca de vários meses, eis que de repente começaram a aparecer exemplares da Montanha Mágica: dois deles em segunda mão, de um vendedor que não tinha bem a noção dos livros que tinha, e outro ainda novo, duma livraria do Entroncamento que não o tinha conseguido vender... Nas conversas que se têm seguido, imaginámos: "era bonito ver, aqui no Saldanha, chover Montanhas Mágicas".

Esta imagem é do exemplar que ficou cá em casa, que para além do distinto cheiro a velho, tem uma dedicatória de 23/12/1958.

Na próxima tertúlia já teremos mais exemplares :)

quinta-feira, março 09, 2006

Montra...

Pois, isto é quando se pode e não quando se quer. A ideia foi boa, mas quando o tempo não estica... Por aqui vamos falando de livros e tudo o resto, estejam eles na montra ou não...

«no papel, as palavras escondidas, as nuvens.
dizes não posso ser o mundo hoje, esqueces que
tu és o mundo. dizes não posso, e eu gostava que
soubesses sempre que um lamento dentro de mim
te repete. abro o papel dobrado e abro a noite
no céu. as árvores são distantes, as palavras
e talvez a música, a terra é distante no
papel dobrado que me entregas escondido
na mão.»
pág. 79

A Criança em Ruínas, de José Luís Peixoto, editado pela Quasi em Setembro de 2001 (5ª edição, Novembro de 2003).


NO AZUL ÁRABE DE SAMARCANDA

«Um domingo, no azul árabe de Samrcanda, Amid Aka viu caminhar ao seu encontro dois forasteiros. Vinham ao fundo da avenida e, seguramente, procuravam chegar à sua loja, famosa pelas melancias que se comem durante o tempo em que as areias de deslocam. Num dado momento, os dois viraram em direcção do seu alpendre de madeira que cobre, de sombra, algumas mesas. No lavatório, apoiado contra o muro externo, lavaram as mãos. Amid Aka foi buscar duas melancias à loja fresca. Quando regressou, sob o alpendre, viu que um dos dois homens já não estava. Ao pousar as melancias, diante do que ficara, pergunta-lhe a razão pela qual seu amigo se ausentara. O homem fixou-o, com o rosto envolto numa expressão de perda. Limpou a fronte, coberta por gotas de suor, e, exausto, levantou-se da mesa dando sinais de partir. Mas antes disse: «Desde há algum tempo que todos me vêem na companhia de alguém». E afastou-se, pesaroso, caminhando ao longo da avenida coberta de pó.»
pág. 82

Histórias para uma Noite de Calmaria (Il Polverone - Storie per una Notte Quieta), de Tonino Guerra (tradução de Mário Rui de Oliveira), editado pela Assírio & Alvim em Novembro de 2002.

sábado, fevereiro 11, 2006

Apresentação da Noite - Al Berto

- é noite
- dentro do meu coração de papel

- é noite
- dissolve-se um desastre um inesperado suicídio

- é noite por cima do mar redondo

- é noite
- em redor da memória que me dá sede

- é noite
- calemo-nos um momento

- calemo-nos

- calemo-nos todos
- vai chegar o inverno
- acendamos as luzes e olhemo-nos como fazem determinadas flores ao morrer do dia
- dobram-se para dentro da seiva e cismam
- um sono de ave que só a elas pertence

- esqueçamos também o tempo
- que se ilumine o coral e se abram de par em par as pálpebras exaustas do medo
- são horas de alucinação

- horas de janelas abertas
- horas amor
- de fingir que nos amámos
de Al Berto

Apresentação da Noite foi originalmente publicada em 1985, "incluída no volume de textos para teatro Novos Autores, nº 32 da colecção Repertório da Sociedade Portuguesa de Autores", nos 60 anos dessa cooperativa. Foi representada pela primeira vez no dia 25 de Fevereiro de 1985, no Auditório Frederico Freitas. E chegou esta semana novamente às livrarias, pela mão da Assírio & Alvim.

«Apresentação da Noite nasceu, a um dado momento, da necessidade de tornar audível esse silêncio onde se perde todo e qualquer desejo de escrever.»
diz Al Berto, na introdução

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Montra: semana 06/06 - parte 2

«If you want to read what is absolutely, certainly true about Mozart, this book may be a disappointment, because the story of what has happened to him since his death has irretrievably coloured that simple tale. But at the moment that marks a quarter of millenium since Mozart was born, the most we can do, given the infinite variety of possibilities in his music, is to provide some context - to help us hear Mozart's music freshly, and make of it what we will. Each listener will have a different reaction, just as every performer reinterprets him: here are some guides around that amazing output; from them, create your own Mozart.»
pág.4

«Mozart is like a mistress who is always serious and often sad, but whose very sadness is a fascination, discovering ever deeper springs of love.»
Stendhal (pág. 15)

The Faber Pocket Guide to Mozart, de Nicholas Kenyon, editado pela Faber & Faber em Setembro de 2005.


«- Parece-me que o senhor não percebeu mas acontece que não me apetece falar consigo.
- Porquê? - perguntou o desconhecido, num tom desenvolto.
- Porque estou a ler.
- Não está, não.
- Desculpe?
- O senhor não está a ler. Talvez pense que está a ler mas leitura não é isso.
- Oiça, não me apetece mesmo nada ouvir considerações profundas acerca da leitura. O senhor irrita-me. Mesmo que não estivesse a ler, não ia querer falar consigo.
- Vê-se logo quando alguém está a ler. As pessoas que lêem, que lêem a sério, não estão aqui. E o senhor está aqui.
- Nem imagina como lamento estar aqui! Sobretudo desde que o senhor apareceu.
- Pois é, a vida é cheia destes pequenos desacertos que a tornam complicada. Mais do que os problemas metafísicos, são as contrariedades insignificantes que marcam o absurdo da existência.»
págs. 9 e 10

A Cosmética do Inimigo (Cosmétique de l'ennemi), de Amélie Nothomb (trad. Fernanda Barão), editado pela Bizâncio em Maio de 2002.


«Que brando jeito aquele: como se sorrisse perante a agitação, a fantasia, a loucura e a graça de um grupo de crianças que brinca. Mas do que eu gostava sobretudo era da repousada segurança com que Teresinha cruzava as mãos sobre o vestido; ali, conversando e ouvindo as outras, e as mãos cruzadas, descansando uma na outra, como se apenas em si mesmas pudessem repousar.
Como nos conhecíamos de um ou dois domingos em que a tinha esperado com Carlinhos, fazia-lhe um cumprimento e passava. As outras tinham quase sempre um ar que se ligava ao da manhã, mais parado e melancólico nos de chuvinha e nevoeiro ou a um tempo arrepiado e vivo naquele agudo frio de céu azul que o Porto dá às vezes. Mas as mais bonitas para as ver eram as manhãs de Abril: não por elas, devo dizer; mas porque me davam um excelente fundo de lembrança que me tornava mais alegre e audacioso o voo riscado das andorinhas sobre o céu. Mulher complica a vida da gente, não é? O que não sucede com as andorinhas.»
págs. 50 e 51

Herta Teresinha Joan, de Agostinho da Silva, editado pela Cotovia em Maio de 1990.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Montra: semana 06/06

Segunda semana de montra, com um dia de atraso e incompleta.

PERDIDO NUM LIVRO

«Entrei pela porta de um livro e fechei-me lá dentro com as palavras acesas e as luzes apagadas. A minha mãe deu dez voltas à casa à minha procura. "Onde é que o miúdo se terá metido?" Com medo de ser encontrado, eu saltava das páginas pares para as ímpares e enrodilhava-me, feito bicho-de-conta, entre dois parêntesis ou, por ser muito magro, atrás de um ponto de exclamação.
Era a primeira vez na minha vida que eu me fechava dentro de um livro. Antes já me fechara dentro de um armário, na gaveta de uma cómoda, no sótão e na despensa. Agora, afoito e insensato, dava um passo de gigante no meu aventuroso destino de menino dos assombros, e escondia-me dentro de um livro, disposto a permanecer ali o tempo que fosse necessário até a minha mãe desistir de me procurar e até todos me darem definitiva e irremediavelmente como desparecido.
(...)»
de José Jorge Letria

Antologia do Conto Português Contemporâneo (edição bilingue Português-Búlgaro) / Антология на съвременния португалски разказ, organizado por Petar Petrov, editado pela Five Plus / Пет плюс.


«O papá é livreiro. Adora os livros. Devora-os. É um verdadeiro ogre. Passa todo o dia a ler e às vezes toda a noite. É uma doença incurável, mas que não parece preocupar o nosso médico de família.
Todas as noites, uma nova pilha de livros desembarca lá em casa. Há livros por toda a parte, até nas casas de banho. É uma invasão. Impossível reclamar. Com o papá, os invasores têm sempre razão. Fala com eles como se fossem seres humanos. Inventa nomes para eles e trata-os por «os meus livrinhos». Todos os livros são seus amigos.
Eu não tenho amigos. E não gosto de livros. Por fora, sou parecido com o papá. Mas por dentro, somos dois estranhos.
(...)»
págs. 7 e 8

O bebedor de tinta (Le buveur d'encre), de Éric Sanvoisin e Martin Matje (traduzido por Sofia Empis), editado pela Dinalivro.


HARMÓNICA

«Um músico italiano (ele era da Sicília) escreveu algumas óperas belíssimas: "O Corsário", inspirada num poema de Byron, "A Sonâmbula", etc. Certo dia disse aos amigos:
"Ainda hei-de escrever uma ópera que nos lembre a estupidez e a crueldade humanas." Logo na abertura, o conseguiu. Tinha menos de 30 anos.
Mas que distância há entre um rapaz desses e o nosso repetido Lopes Graça!
Vou comprar outra gaita de beiços. Rádios, nunca mais. Avariam-se todos, pá.»
pág. 146

Hoje e sempre, Sebastião Alba.

Albas, de Sebastião Alba, editado pela Quasi em Outubro de 2003.


«(...)
O sorriso que devassou brevemente o meu rosto não
me pertenceu: porque ninguém o viu antes de ti,
nem o espelho se convenceu jamais a devolver-mo.

(...)
Tu não me pertenceste - e, se uma vez acreditei que
acontecias dentro do meu corpo, das outras vi-te a abraçar a
solidão com tanto ardor que concluí ser a memória quem
te mantinha vivo. (...)»
pág. 63

O Canto do Vento nos Ciprestes, de Maria do Rosário Pedreira, foi editado pela Gótica em Março de 2001.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Zapping: Penguin Most Wanted: Crime

A página da Penguin dedicada à literatura policial.

«Crimewriting Rules, OK…
Part one.


One of the problems writers of crime fiction must deal with is that to speak of ‘crime writers’ – or ‘romantic novelists’ or ‘writers of science fiction’ or, simply, ‘genre’ – hints at limitation. And all too often, this limitation is thought to lie in the general assumption (which is generally true) that crime fiction’s main purpose is to entertain.

All fiction seeks to be entertaining, I suppose, but there’s a distinct notion that genre fiction stops there: that entertainment is its be-all. The larger problem is that because crime fiction is sometimes thought of in this way, it’s easy for the best in the genre to be judged – in general terms – by the standards of the worst. In truth, of course, ‘crime-writer’ no more sums up the individual novelist in terms of ability than the term ‘suburban housewife’ tells us all we need to know about the hidden lives of millions of women.
(...)»
por David Lawrence

terça-feira, janeiro 31, 2006

segunda-feira, janeiro 30, 2006

ainda João Miguel Fernandes Jorge

O comboio-correio das 10 da noite partia da
minha terra para Lisboa. Fui tantas vezes
com o meu pai levar as cartas. Esperávamos
na gare. Se havia chuva ouvíamos o apito
quando passava à Granja vindo de Óbidos e

depois de correr o vale de S. Mamede.
O que mais me seduzia era o seu peso o negro
da máquina o movimento do êmbolo a nuvem de vapor
correndo toda a gare. Chegava entre videiras e
pântanos. O chefe da estação de

bandeirinha verde dava o sinal de entrada. Era
o intenso barulho os ferros da travagem
o bater das portas as carruagens verdes
enegrecidas, os castanhos wagons. Máquinas de
carvão, a diesel depois. O degrau de madeira ao

longo da carruagem, a romano nas portas I, II e
III.
Anos depois, já de mim se dizia «um homenzinho»
viajei nesse comboio das 10. Partia de
Coimbra, às cinco horas. Pelos campos do Mondego

a água, a matéria do ferro, confundi
com o caos. Reconheço neste comboio a forma
obscura, a intuição ridícula das imagens. A noite
corria de mistura com a triste lâmpada do
corredor, benefício do mistério, fogo fechado pela
trovoada sobre os campos do arroz, sobre o pinhal
de Leiria.
Viajava em segunda. Vinha para casa no natal.
Eu tinha um emblema, vermelho e branco dos suíços,
na lapela do sobretudo. O meu irmão, as mãos
gretadas das frieiras sob umas luvas azuis. No

banco em frente,
uma professora de geografia rezava o terço
atenta à formação do espírito científico nascente.
Descolorido amor humano,
fornalha de comboio, coração das coisas a noite
corria fora e dentro da carruagem verde.

Meu pai estava na gare.
A longa fita de cabedal para fechar, abrir as
janelas. A rede onde pousava as malas.
Os corridos bancos de madeira ficavam na III.
Um guarda republicano cerrava todas as

noites sobre o azul do capote a portinhola.
O traço do comboio separa o céu da terra sob as
estrelas
sob o limite da chama
a arte imita tanta vez a natureza.
de João Miguel Fernandes Jorge


para o Kraak/Peixinho

domingo, janeiro 29, 2006

Montra: semana 05/06

Montra: tentativa de criar o hábito de, uma vez por semana, apresentar livros e autores, histórias e capas, sete de cada vez, com maiores ou menores introduções. Novidades e não só, em português ou nem tanto, aqui ficam as primeiras sete sugestões.

"Marta and Marçal looked at each other doubtfully, and Marçal said cautiously, If I was in your place, and knowing as I do how the Centre works, I wouldn't get my hopes up, Don't forget that he was the one who said he might give me an answer today, Even so, that might have just been talk, the sort of thing they say without really thinking about it, It's not a matter of getting my hopes up, when the power of decision lies in other people's hands, when we can do nothing to move them one way or the other, the only thing left to do is to wait."
pág. 105


The Cave (A Caverna), de José Saramago, tradução de Margaret Jull Costa, editado pela Vintage Books em 2003


"Ora, na cave das suas instalações do Campo de Santa Clara, a editora Arcádia tinha oficinas próprias de acabamento, onde eram metidos em capa os livros brochados (impressos fora e recebidos em folha aberta) e onde mandava o Alfredo, distribuindo trabalho, zelando pelas máquinas, ouvindo queixas, subindo cá acima a dar-lhes voz e fazendo as honras da casa às visitas que se dignavam descer lá abaixo. «Esta profissão enche-me a casa com tantos livros que, outro dia, desfiz-me de um monte deles», explicou uma vez o Alfredo. «E qual foi o critério da escolha?», perguntou perfidamente um visitante. Cândida, a resposta veio assim: «Tudo o que era livro de menos de cinquenta escudos dei-o»..."
pág. 25

Profissões do Livro, de Jorge Manuel Martins, editado pela Verbo em Setembro de 2005


"J'avais seize ans. Je ne possédais rien, ni biens matériels, ni confort spirituel. Je n'avais pas d'ami, pas d'amour, je n'avais rien vécu. Je n'avais pas d'idées, je n'étais pas sûre d'avoir une âme. Mon corps, c'était tout ce que j'avais."

Antichrista, de Amélie Nothomb, foi editado em Portugal pela Asa neste mês de Janeiro, depois de Temor e Tremor e de Dicionário de Nomes Próprios.

Páginas dedicadas a Amélie Nothomb no Complete Review e no Livresse, e uma página dedicada a Antichrista no Series Litteraires.



goyang kaki (Indonesian) relaxing and enjoying oneself as problems are sorted out by others (literally, to swing one's legs)
casarse de penalty (Spanish) to get married after discovering a pregnancy
il giuocare non è male, ma è male il perdere (Italian) there is no harm in playing but gret harm in losing
bodach (Scottish Gaelic) the ghost of an old man that comes down the chimney to terrorize children who have been naughty

The Meaning of Tingo and other extraordinary words from around the world, um quase-dicionário compilado por Adam Jacot de Boinod (que também mantém um blog), editado pela Penguin em 2005.



A Íbis

A íbis, a ave do Egipto
Pousa sempre sobre um pé
O que é
Esquisito.
É uma ave sossegada,
Porque assim não anda nada.
de Fernando Pessoa

Manuela Nogueira, escritora, responsável por esta antologia e sobrinha de Fernando Pessoa: "Lembro-me de lhe pedirmos para fazer de Íbis. Ele punha-se assente numa só perna e dizia: «A Íbis, ave do Egipto...»"

O Melhor do Mundo são as Crianças - antologia de poemas e textos de Fernando Pessoa para a infância, editado pela Assírio & Alvim em Outubro de 1998.


Corpos há que terminam em pleno mar.
São corpos e são manhãs.
São corpos e são agosto atravessados pelo sol
por breves ventos.

Abandonado limite
quem levando aos lábios a chávena de café
retém o gesto o vidro os dedos.
Nostálgico café por horas e horas repetido.
de João Miguel Fernandes Jorge


Antologia Poética 1971-1994, de João Miguel Fernandes Jorge, editado pela Presença em Novembro de 1995.


«O casal inscreve-se no deserto urbano e na solidão dum terceiro cliente do bar, e é sobre isto que repousa o efeito psicológico: embora o quadro deixe reconhecer claramente o meio social, através do contraste entre o bar e as lojas no plano de fundo, é principalmente local de projecção para fantasmas diferentes.»
pág. 80
onde se fala de Nighthawks

Edward Hopper, painter of the loneliness of big-city people

Hopper, de Rolf Günter Renner, editado pela Taschen em 2001



Um livro por dia dá saúde e alegria

domingo, janeiro 08, 2006

As histórias de 2005

Época de balanços, pois então. A edição de ontem do Mil Folhas traz-nos as melhores leituras de 2005 para um conjunto de autores, acrescentada da votação para escolher os melhores livros do ano passado, promovida pelo blog do Livro Aberto, que ainda decorre. Aqui ficam os livros que mais se destacaram.

Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, o Pelida
(mortífera!, que tantas dores trouxe aos Aqueus
e tantas almas valentes de heróis lançou no Hades,
ficando seus corpos como presa para cães e aves
de rapina, enquanto se cumpria a vontade de Zeus),
desde o momento em que primeiro se desentenderam
o Atrida, soberano dos homens, e o divino Aquiles.


Ilíada, de Homero (trad. Frederico Lourenço), Cotovia


"When the renowed aviation hero and rabid isolationist Charles A. Lindbergh defeated Franklin Roosevelt by a landslide in the 1940 presidential election, fear invaded every Jewish household in America. Not only had Lindbergh, in a nationwide radio adress, publicly blamed the Jews for selfishly pushing America toward a pointless war with Nazi Germany, but, upon taking office as the thirty-third president of the United States, he negotiated a cordial "understanding" with Adolf Hitler, whose conquest of Europe and whose virulent anti-Semitic policies he appeared to accept without difficulty."

A Conspiração Contra a América, de Philip Roth, Publicações Dom Quixote


Nestas salas escuras, onde vou passando
dias pesados, para cá e para lá ando
à descoberta das janelas. – Uma janela
quando abrir será uma consolação. –
Mas as janelas não se descobrem, ou não hei-de conseguir
descobri-las. E é melhor talvez não as descobrir.
Talvez a luz seja uma nova subjugação.
Quem sabe que novas coisas nos mostrará ela.


Os Poemas, Konstandinos Kavafis (trad. Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis), Relógio d'Água

domingo, dezembro 04, 2005

Gonçalo M. Tavares e o seu bairro

«Três sonhos:
1º sonho de Calvino


Do alto de mais de trinta andares, alguém atira da janela abaixo os sapatos de Calvino e a sua gravata. Calvino não tem tempo para pensar, está atrasado, atira-se também da janela, como que em perseguição. Ainda no ar alcança os sapatos. Primeiro, o direito: calça-o; depois, o esquerdo. No ar, enquanto cai, tenta encontrar a melhor posição para apertar os atacadores. Com o sapato esquerdo falha uma vez, mas volta a repetir, e consegue. Olha para baixo, já se vê o chão. Antes, porém, a gravata; Calvino está de cabeça para baixo e com um puxão brusco a sua mão direita apanha-a no ar e, depois, com os seus dedos apressados, mas certeiros, dá as voltas necessárias para o nó: a gravata está posta. Os sapatos, olha de novo para eles: os atacadores bem apertados; dá o último jeito no nó da gravata, bem a tempo, é o momento: chega ao chão, impecável.»
pág. 9


Como tínhamos aqui referido no final de Outubro, estava para breve a chegada de mais um elemento a este bairro imaginado por Gonçalo M. Tavares. Pois bem, não é apenas um: o senhor Calvino e o senhor Kraus surgem juntos e assim são já seis os vizinhos.

Gonçalo M. Tavares fará o lançamento destes dois títulos, que se vêm juntar à já longa lista de livros de sua autoria, na livraria Almedina do Atrium Saldanha, esta 2ª feira, 5 de Dezembro, pelas 18h30.

No site da Caminho podemos encontrar uma entrevista feita ao autor, construída com perguntas realizadas pelos leitores.

Boas leituras, Boas viagens.

segunda-feira, novembro 28, 2005

Fernando Pessoa, imagens de uma vida

«O presente livro tem o propósito de fornecer mais um elo para o conhecimento de Fernando Pessoa inserido na sua época e constituir mais uma achega para o percurso do poeta, filósofo, desconstrutor dos universos humanos. O poeta múltiplo que procurava a unidade.
(...)

Fernando Pessoa sempre guardou, com determinação, na célebre arca, todos os seus escritos e as cartas dos familiares e amigos. Apesar das várias deambulações pela cidade de Lisboa, onde a perda de outro tipo de bens nunca o preocupou, cuidou da sua obra e zelou pelo valor afectivo das cartas que lhe dirigiram. Este foi o património que, a par dos livros, sempre o acompanhou nas diversas mudanças, forçadas ou voluntárias. São fontes fidedignas para lhe traçar um perfil. Sem esse precioso espólio, este livro não seria possível.

Para além das cartas, a família conserva outros documentos, manuscritos ou impressos, e objectos vários que, não tendo um valor propriamente literário (salvo raras excepções), podem ter algum valor biográfico. Basicamente, procurei reunir algum material susceptível de interessar os leitores e estudiosos de Fernando Pessoa.»

Quem o diz é Manuela Nogueira, escritora, sobrinha de Fernando Pessoa, no livro Fernando Pessoa - Imagens de uma Vida, editado pela Assírio & Alvim, e que é o motivo de mais uma tertúlia a realizar na Livraria Almedina do Atrium Saldanha, em Lisboa, esta 3ª feira, 29 de Novembro, pelas 19 horas.

Um dia antes da passagem dos 70 anos da morte do autor, revisita-se a sua vida, as suas memórias e as suas palavras num encontro em que a convidada especial é Manuela Nogueira, mas aberto a todos os que gostam de uma boa conversa.

segunda-feira, novembro 21, 2005

José Cardoso Pires, nos livros e à conversa

Porque terminei há pouco a leitura de O Delfim, aqui ficam algumas pistas para entrar no caminho de José Cardoso Pires.

«Toda a nostalgia, toda a melancolia, todos os chavões normalmente associados ao povo português se encontram no romance, quer no período referente à ditadura, quer no relato do 25 de Abril e na euforia anárquica pós-revolução. Por retratar magistralmente estes três períodos, de uma forma leve mas acutilante, revelando os traços comuns da alma portuguesa, vale a pena ler este romance.»
escreve pns sobre Alexandra Alpha no Citador


«Muito para além das considerações ideológicas está o homem. José Cardoso Pires sempre assumiu, de forma transparente e simples, a existência sob a forma da descontracção e da autenticidade. Por esse motivo, terminamos esta breve nótula de homenagem com Cardoso Pires visto por Cardoso Pires, num excerto do auto-retrato Fumar ao espelho:

"Aos cinquenta anos dei por mim a fumar ao espelho e a perguntar E agora, José. Fumar ao espelho, qualquer José sabe isso, é confrontarmo-nos com o nosso rosto mais quotidiano e mais pensado. (...) Aqui tens, José, o homem que te interroga. Que te fuma e te duvida. Que te acredita. E com esta me despeço, adeus, até outro dia, e que a terra nos seja leve por muitos anos e bons neste lugar e nesta companhia. Pá, apaga-me essas rugas. Riscam o espelho, não vês ?"»
escreve Luís Miguel Oliveira de Barros Cardoso, em José Cardoso Pires: Um Delfim da Escrita Dialéctica e Transparente


«Esta sua "Lisboa" é uma geografia sentimental de sítios. Pelos quais, curiosamente, a sua vida não passa. É por pudor?

Talvez. Mas no meu livro "A Cavalo no Diabo" falo nisso: na Almirante Reis, nos imperadores do Chile, nos bailes, na Lisboa nocturna, a minha vida. Neste livro quis fazer outra coisa: uma espécie de levantamento que desse, com toda a sinceridade, o modo como sinto Lisboa. E é aí que o livro me parece muito diferente da Lisboa convencional do Tejo que é bonito, etc. Há ainda muitas coisas que faltam e que espero trabalhar numa próxima edição: a sintaxe lisboeta. Está abordada, mas não aprofundada. E os cheiros...»
o próprio, sobre Lisboa, Livro de Bordo



Esta 3ª feira, 22 de Novembro, traz-se de novo à conversa a obra de José Cardoso Pires, na livraria Almedina do Atrium Saldanha, em Lisboa. A partir das 18h30, realiza-se uma tertúlia sobre a obra deste autor português, 80 anos depois do seu nascimento, com a presença dos professores Petar Petrov, Eunice Cabral e Maria Lúcia Lepecki, e de todos aqueles que nela queiram participar.

Boas leituras, boas conversas :)

terça-feira, novembro 08, 2005

Lars Saabye Christensen em Lisboa

Lars Saabye Christensen, autor de Herman, está em Lisboa para promover a recente edição portuguesa de Beatles, o seu segundo livro a ser traduzido em Portugal, ambos pela Cavalo de Ferro. O autor estará presente numa sessão de autógrafos na livraria Almedina do Atrium Saldanha, em Lisboa, na próxima 5ª feira, 10 de Novembro, a partir das 18h00.


Originalmente editado em 1984, já foram vendidos mais de 200 mil exemplares de Beatles na Noruega, o país natal do autor.


«Estava deitado à espera que a mãe e o pai se fossem deitar. Se acendesse a luz agora viriam perguntar o que se passava porque conseguiam ver por uma frecha sob a porta a luz acesa. Ouvia a chuva, lá fora, ouvia os comboios a passar a menos de cem metros, entre o meu quarto e a baía de Frogner. Eu sabia perfeitamente para onde iam, mas também não haviam assim tantas linhas por onde escolher. E apesar de não irem para muito longe e de se manterem dentro do país faziam-me sempre pensar em terras distantes, como aquelas suspensas em rolos por cima do quadro da escola, e quando ouvia os comboios pensava em estrelas também, e no Universo, e tudo se esvanecia e eu caía para trás, como que para dentro de mim mesmo, e se eu gritasse vinham a mãe e o pai a correr, e eram como pontinhos pequeninos, lá ao longe, e arrastavam-me de volta. Mas desta vez não gritei. Ouvia os comboios e o zunido do eléctrico a atravessar a Praça Olaf Bull. E misturado com isto tudo estavam as vozes abafadas da mãe e do pai e o rádio sempre ligado e sempre com ópera que me soava tão solitária, mais triste que qualquer outra coisa que eu conhecia, um cantar de outro mundo, um mundo pardo e sem movimento, um cantar frio e morto. E nas paredes à minha volta estavam penduradas fotos de caras que também cantavam, mas não se ouvia um som que fosse, as guitarras e as baterias estavam silenciosas. Rolling Stones, Animals, Dave Clark Five, Hollies, Beatles. Beatles. Fotos dos Beatles. E eu sonhava com Ringo e John e George e Paul. Sonhava que era um deles, que era o Paul McCartney, com a sua cara redonda e olhar melancólico que levava todas as miúdas à berraria descontrolada, sonhava que era canhoto e tocava baixo. Sentei-me de arranque na cama, acordadíssimo. Mas eu sou um deles, pensei em voz alta, e ri. Eu sou um dos Beatles.»
do Capítulo I


Herman, editado originalmente em 1988, foi adaptado ao cinema em 1990, com realizaçao de Erik Gustavson.

«Aquela que parece ser uma história simples sobre uma criança que vive o seu primeiro drama e sofre a primeira rejeição por parte dos que a rodeiam, é um lúcido ensaio sobre a formação da identidade e as relações da criança em formação com a sociedade.»
da página da Cavalo de Ferro

domingo, novembro 06, 2005

The Complete Calvin and Hobbes

Três volumes em capa dura reunidos numa caixa, 1440 páginas, 3160 tiras, todas as aventuras que Calvin e Hobbes viveram estão agora reunidas num só livro.

Recentemente editado pela Andrews McMeel nos E.U.A., com um preço de capa de 150 dólares, já decorrem as negociações para uma edição portuguesa desta obra monumental.

Acreditamos que não será fácil chegar a um consenso, nomeadamente na decisão do preço de venda em Portugal. Daqui, fazemos votos para que se mantenha a apresentação original, em capa dura, para que estes dois personagens que tanto nos marcaram percam de vez essa característica perene do papel de jornal.

Enquanto isso, a CNN foi à procura de Bill Watterson, mas não foi bem sucedida.

O autor que criou sucessivas aventuras de Calvin & Hobbes durante 10 anos, e publicou a última a 31 de Dezembro de 1995, retirou-se desde essa altura para não mais fazer uma aparição pública.

Ainda assim, nessa reportagem podem encontrar-se várias curiosidades acerca de Watterson, incluindo a história de como o autor seguiu o caminho da Banda Desenhada:

«As a child, Watterson knew he would be an astronaut or a cartoonist. "I kept my options open until seventh grade, but when I stopped understanding math and science, my choice was made," he wrote in the introduction to "The Complete Calvin and Hobbes."»