terça-feira, janeiro 31, 2006

segunda-feira, janeiro 30, 2006

ainda João Miguel Fernandes Jorge

O comboio-correio das 10 da noite partia da
minha terra para Lisboa. Fui tantas vezes
com o meu pai levar as cartas. Esperávamos
na gare. Se havia chuva ouvíamos o apito
quando passava à Granja vindo de Óbidos e

depois de correr o vale de S. Mamede.
O que mais me seduzia era o seu peso o negro
da máquina o movimento do êmbolo a nuvem de vapor
correndo toda a gare. Chegava entre videiras e
pântanos. O chefe da estação de

bandeirinha verde dava o sinal de entrada. Era
o intenso barulho os ferros da travagem
o bater das portas as carruagens verdes
enegrecidas, os castanhos wagons. Máquinas de
carvão, a diesel depois. O degrau de madeira ao

longo da carruagem, a romano nas portas I, II e
III.
Anos depois, já de mim se dizia «um homenzinho»
viajei nesse comboio das 10. Partia de
Coimbra, às cinco horas. Pelos campos do Mondego

a água, a matéria do ferro, confundi
com o caos. Reconheço neste comboio a forma
obscura, a intuição ridícula das imagens. A noite
corria de mistura com a triste lâmpada do
corredor, benefício do mistério, fogo fechado pela
trovoada sobre os campos do arroz, sobre o pinhal
de Leiria.
Viajava em segunda. Vinha para casa no natal.
Eu tinha um emblema, vermelho e branco dos suíços,
na lapela do sobretudo. O meu irmão, as mãos
gretadas das frieiras sob umas luvas azuis. No

banco em frente,
uma professora de geografia rezava o terço
atenta à formação do espírito científico nascente.
Descolorido amor humano,
fornalha de comboio, coração das coisas a noite
corria fora e dentro da carruagem verde.

Meu pai estava na gare.
A longa fita de cabedal para fechar, abrir as
janelas. A rede onde pousava as malas.
Os corridos bancos de madeira ficavam na III.
Um guarda republicano cerrava todas as

noites sobre o azul do capote a portinhola.
O traço do comboio separa o céu da terra sob as
estrelas
sob o limite da chama
a arte imita tanta vez a natureza.
de João Miguel Fernandes Jorge


para o Kraak/Peixinho

domingo, janeiro 29, 2006

Montra: semana 05/06

Montra: tentativa de criar o hábito de, uma vez por semana, apresentar livros e autores, histórias e capas, sete de cada vez, com maiores ou menores introduções. Novidades e não só, em português ou nem tanto, aqui ficam as primeiras sete sugestões.

"Marta and Marçal looked at each other doubtfully, and Marçal said cautiously, If I was in your place, and knowing as I do how the Centre works, I wouldn't get my hopes up, Don't forget that he was the one who said he might give me an answer today, Even so, that might have just been talk, the sort of thing they say without really thinking about it, It's not a matter of getting my hopes up, when the power of decision lies in other people's hands, when we can do nothing to move them one way or the other, the only thing left to do is to wait."
pág. 105


The Cave (A Caverna), de José Saramago, tradução de Margaret Jull Costa, editado pela Vintage Books em 2003


"Ora, na cave das suas instalações do Campo de Santa Clara, a editora Arcádia tinha oficinas próprias de acabamento, onde eram metidos em capa os livros brochados (impressos fora e recebidos em folha aberta) e onde mandava o Alfredo, distribuindo trabalho, zelando pelas máquinas, ouvindo queixas, subindo cá acima a dar-lhes voz e fazendo as honras da casa às visitas que se dignavam descer lá abaixo. «Esta profissão enche-me a casa com tantos livros que, outro dia, desfiz-me de um monte deles», explicou uma vez o Alfredo. «E qual foi o critério da escolha?», perguntou perfidamente um visitante. Cândida, a resposta veio assim: «Tudo o que era livro de menos de cinquenta escudos dei-o»..."
pág. 25

Profissões do Livro, de Jorge Manuel Martins, editado pela Verbo em Setembro de 2005


"J'avais seize ans. Je ne possédais rien, ni biens matériels, ni confort spirituel. Je n'avais pas d'ami, pas d'amour, je n'avais rien vécu. Je n'avais pas d'idées, je n'étais pas sûre d'avoir une âme. Mon corps, c'était tout ce que j'avais."

Antichrista, de Amélie Nothomb, foi editado em Portugal pela Asa neste mês de Janeiro, depois de Temor e Tremor e de Dicionário de Nomes Próprios.

Páginas dedicadas a Amélie Nothomb no Complete Review e no Livresse, e uma página dedicada a Antichrista no Series Litteraires.



goyang kaki (Indonesian) relaxing and enjoying oneself as problems are sorted out by others (literally, to swing one's legs)
casarse de penalty (Spanish) to get married after discovering a pregnancy
il giuocare non è male, ma è male il perdere (Italian) there is no harm in playing but gret harm in losing
bodach (Scottish Gaelic) the ghost of an old man that comes down the chimney to terrorize children who have been naughty

The Meaning of Tingo and other extraordinary words from around the world, um quase-dicionário compilado por Adam Jacot de Boinod (que também mantém um blog), editado pela Penguin em 2005.



A Íbis

A íbis, a ave do Egipto
Pousa sempre sobre um pé
O que é
Esquisito.
É uma ave sossegada,
Porque assim não anda nada.
de Fernando Pessoa

Manuela Nogueira, escritora, responsável por esta antologia e sobrinha de Fernando Pessoa: "Lembro-me de lhe pedirmos para fazer de Íbis. Ele punha-se assente numa só perna e dizia: «A Íbis, ave do Egipto...»"

O Melhor do Mundo são as Crianças - antologia de poemas e textos de Fernando Pessoa para a infância, editado pela Assírio & Alvim em Outubro de 1998.


Corpos há que terminam em pleno mar.
São corpos e são manhãs.
São corpos e são agosto atravessados pelo sol
por breves ventos.

Abandonado limite
quem levando aos lábios a chávena de café
retém o gesto o vidro os dedos.
Nostálgico café por horas e horas repetido.
de João Miguel Fernandes Jorge


Antologia Poética 1971-1994, de João Miguel Fernandes Jorge, editado pela Presença em Novembro de 1995.


«O casal inscreve-se no deserto urbano e na solidão dum terceiro cliente do bar, e é sobre isto que repousa o efeito psicológico: embora o quadro deixe reconhecer claramente o meio social, através do contraste entre o bar e as lojas no plano de fundo, é principalmente local de projecção para fantasmas diferentes.»
pág. 80
onde se fala de Nighthawks

Edward Hopper, painter of the loneliness of big-city people

Hopper, de Rolf Günter Renner, editado pela Taschen em 2001



Um livro por dia dá saúde e alegria

domingo, janeiro 08, 2006

As histórias de 2005

Época de balanços, pois então. A edição de ontem do Mil Folhas traz-nos as melhores leituras de 2005 para um conjunto de autores, acrescentada da votação para escolher os melhores livros do ano passado, promovida pelo blog do Livro Aberto, que ainda decorre. Aqui ficam os livros que mais se destacaram.

Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, o Pelida
(mortífera!, que tantas dores trouxe aos Aqueus
e tantas almas valentes de heróis lançou no Hades,
ficando seus corpos como presa para cães e aves
de rapina, enquanto se cumpria a vontade de Zeus),
desde o momento em que primeiro se desentenderam
o Atrida, soberano dos homens, e o divino Aquiles.


Ilíada, de Homero (trad. Frederico Lourenço), Cotovia


"When the renowed aviation hero and rabid isolationist Charles A. Lindbergh defeated Franklin Roosevelt by a landslide in the 1940 presidential election, fear invaded every Jewish household in America. Not only had Lindbergh, in a nationwide radio adress, publicly blamed the Jews for selfishly pushing America toward a pointless war with Nazi Germany, but, upon taking office as the thirty-third president of the United States, he negotiated a cordial "understanding" with Adolf Hitler, whose conquest of Europe and whose virulent anti-Semitic policies he appeared to accept without difficulty."

A Conspiração Contra a América, de Philip Roth, Publicações Dom Quixote


Nestas salas escuras, onde vou passando
dias pesados, para cá e para lá ando
à descoberta das janelas. – Uma janela
quando abrir será uma consolação. –
Mas as janelas não se descobrem, ou não hei-de conseguir
descobri-las. E é melhor talvez não as descobrir.
Talvez a luz seja uma nova subjugação.
Quem sabe que novas coisas nos mostrará ela.


Os Poemas, Konstandinos Kavafis (trad. Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis), Relógio d'Água

domingo, dezembro 04, 2005

Gonçalo M. Tavares e o seu bairro

«Três sonhos:
1º sonho de Calvino


Do alto de mais de trinta andares, alguém atira da janela abaixo os sapatos de Calvino e a sua gravata. Calvino não tem tempo para pensar, está atrasado, atira-se também da janela, como que em perseguição. Ainda no ar alcança os sapatos. Primeiro, o direito: calça-o; depois, o esquerdo. No ar, enquanto cai, tenta encontrar a melhor posição para apertar os atacadores. Com o sapato esquerdo falha uma vez, mas volta a repetir, e consegue. Olha para baixo, já se vê o chão. Antes, porém, a gravata; Calvino está de cabeça para baixo e com um puxão brusco a sua mão direita apanha-a no ar e, depois, com os seus dedos apressados, mas certeiros, dá as voltas necessárias para o nó: a gravata está posta. Os sapatos, olha de novo para eles: os atacadores bem apertados; dá o último jeito no nó da gravata, bem a tempo, é o momento: chega ao chão, impecável.»
pág. 9


Como tínhamos aqui referido no final de Outubro, estava para breve a chegada de mais um elemento a este bairro imaginado por Gonçalo M. Tavares. Pois bem, não é apenas um: o senhor Calvino e o senhor Kraus surgem juntos e assim são já seis os vizinhos.

Gonçalo M. Tavares fará o lançamento destes dois títulos, que se vêm juntar à já longa lista de livros de sua autoria, na livraria Almedina do Atrium Saldanha, esta 2ª feira, 5 de Dezembro, pelas 18h30.

No site da Caminho podemos encontrar uma entrevista feita ao autor, construída com perguntas realizadas pelos leitores.

Boas leituras, Boas viagens.

segunda-feira, novembro 28, 2005

Fernando Pessoa, imagens de uma vida

«O presente livro tem o propósito de fornecer mais um elo para o conhecimento de Fernando Pessoa inserido na sua época e constituir mais uma achega para o percurso do poeta, filósofo, desconstrutor dos universos humanos. O poeta múltiplo que procurava a unidade.
(...)

Fernando Pessoa sempre guardou, com determinação, na célebre arca, todos os seus escritos e as cartas dos familiares e amigos. Apesar das várias deambulações pela cidade de Lisboa, onde a perda de outro tipo de bens nunca o preocupou, cuidou da sua obra e zelou pelo valor afectivo das cartas que lhe dirigiram. Este foi o património que, a par dos livros, sempre o acompanhou nas diversas mudanças, forçadas ou voluntárias. São fontes fidedignas para lhe traçar um perfil. Sem esse precioso espólio, este livro não seria possível.

Para além das cartas, a família conserva outros documentos, manuscritos ou impressos, e objectos vários que, não tendo um valor propriamente literário (salvo raras excepções), podem ter algum valor biográfico. Basicamente, procurei reunir algum material susceptível de interessar os leitores e estudiosos de Fernando Pessoa.»

Quem o diz é Manuela Nogueira, escritora, sobrinha de Fernando Pessoa, no livro Fernando Pessoa - Imagens de uma Vida, editado pela Assírio & Alvim, e que é o motivo de mais uma tertúlia a realizar na Livraria Almedina do Atrium Saldanha, em Lisboa, esta 3ª feira, 29 de Novembro, pelas 19 horas.

Um dia antes da passagem dos 70 anos da morte do autor, revisita-se a sua vida, as suas memórias e as suas palavras num encontro em que a convidada especial é Manuela Nogueira, mas aberto a todos os que gostam de uma boa conversa.

segunda-feira, novembro 21, 2005

José Cardoso Pires, nos livros e à conversa

Porque terminei há pouco a leitura de O Delfim, aqui ficam algumas pistas para entrar no caminho de José Cardoso Pires.

«Toda a nostalgia, toda a melancolia, todos os chavões normalmente associados ao povo português se encontram no romance, quer no período referente à ditadura, quer no relato do 25 de Abril e na euforia anárquica pós-revolução. Por retratar magistralmente estes três períodos, de uma forma leve mas acutilante, revelando os traços comuns da alma portuguesa, vale a pena ler este romance.»
escreve pns sobre Alexandra Alpha no Citador


«Muito para além das considerações ideológicas está o homem. José Cardoso Pires sempre assumiu, de forma transparente e simples, a existência sob a forma da descontracção e da autenticidade. Por esse motivo, terminamos esta breve nótula de homenagem com Cardoso Pires visto por Cardoso Pires, num excerto do auto-retrato Fumar ao espelho:

"Aos cinquenta anos dei por mim a fumar ao espelho e a perguntar E agora, José. Fumar ao espelho, qualquer José sabe isso, é confrontarmo-nos com o nosso rosto mais quotidiano e mais pensado. (...) Aqui tens, José, o homem que te interroga. Que te fuma e te duvida. Que te acredita. E com esta me despeço, adeus, até outro dia, e que a terra nos seja leve por muitos anos e bons neste lugar e nesta companhia. Pá, apaga-me essas rugas. Riscam o espelho, não vês ?"»
escreve Luís Miguel Oliveira de Barros Cardoso, em José Cardoso Pires: Um Delfim da Escrita Dialéctica e Transparente


«Esta sua "Lisboa" é uma geografia sentimental de sítios. Pelos quais, curiosamente, a sua vida não passa. É por pudor?

Talvez. Mas no meu livro "A Cavalo no Diabo" falo nisso: na Almirante Reis, nos imperadores do Chile, nos bailes, na Lisboa nocturna, a minha vida. Neste livro quis fazer outra coisa: uma espécie de levantamento que desse, com toda a sinceridade, o modo como sinto Lisboa. E é aí que o livro me parece muito diferente da Lisboa convencional do Tejo que é bonito, etc. Há ainda muitas coisas que faltam e que espero trabalhar numa próxima edição: a sintaxe lisboeta. Está abordada, mas não aprofundada. E os cheiros...»
o próprio, sobre Lisboa, Livro de Bordo



Esta 3ª feira, 22 de Novembro, traz-se de novo à conversa a obra de José Cardoso Pires, na livraria Almedina do Atrium Saldanha, em Lisboa. A partir das 18h30, realiza-se uma tertúlia sobre a obra deste autor português, 80 anos depois do seu nascimento, com a presença dos professores Petar Petrov, Eunice Cabral e Maria Lúcia Lepecki, e de todos aqueles que nela queiram participar.

Boas leituras, boas conversas :)

terça-feira, novembro 08, 2005

Lars Saabye Christensen em Lisboa

Lars Saabye Christensen, autor de Herman, está em Lisboa para promover a recente edição portuguesa de Beatles, o seu segundo livro a ser traduzido em Portugal, ambos pela Cavalo de Ferro. O autor estará presente numa sessão de autógrafos na livraria Almedina do Atrium Saldanha, em Lisboa, na próxima 5ª feira, 10 de Novembro, a partir das 18h00.


Originalmente editado em 1984, já foram vendidos mais de 200 mil exemplares de Beatles na Noruega, o país natal do autor.


«Estava deitado à espera que a mãe e o pai se fossem deitar. Se acendesse a luz agora viriam perguntar o que se passava porque conseguiam ver por uma frecha sob a porta a luz acesa. Ouvia a chuva, lá fora, ouvia os comboios a passar a menos de cem metros, entre o meu quarto e a baía de Frogner. Eu sabia perfeitamente para onde iam, mas também não haviam assim tantas linhas por onde escolher. E apesar de não irem para muito longe e de se manterem dentro do país faziam-me sempre pensar em terras distantes, como aquelas suspensas em rolos por cima do quadro da escola, e quando ouvia os comboios pensava em estrelas também, e no Universo, e tudo se esvanecia e eu caía para trás, como que para dentro de mim mesmo, e se eu gritasse vinham a mãe e o pai a correr, e eram como pontinhos pequeninos, lá ao longe, e arrastavam-me de volta. Mas desta vez não gritei. Ouvia os comboios e o zunido do eléctrico a atravessar a Praça Olaf Bull. E misturado com isto tudo estavam as vozes abafadas da mãe e do pai e o rádio sempre ligado e sempre com ópera que me soava tão solitária, mais triste que qualquer outra coisa que eu conhecia, um cantar de outro mundo, um mundo pardo e sem movimento, um cantar frio e morto. E nas paredes à minha volta estavam penduradas fotos de caras que também cantavam, mas não se ouvia um som que fosse, as guitarras e as baterias estavam silenciosas. Rolling Stones, Animals, Dave Clark Five, Hollies, Beatles. Beatles. Fotos dos Beatles. E eu sonhava com Ringo e John e George e Paul. Sonhava que era um deles, que era o Paul McCartney, com a sua cara redonda e olhar melancólico que levava todas as miúdas à berraria descontrolada, sonhava que era canhoto e tocava baixo. Sentei-me de arranque na cama, acordadíssimo. Mas eu sou um deles, pensei em voz alta, e ri. Eu sou um dos Beatles.»
do Capítulo I


Herman, editado originalmente em 1988, foi adaptado ao cinema em 1990, com realizaçao de Erik Gustavson.

«Aquela que parece ser uma história simples sobre uma criança que vive o seu primeiro drama e sofre a primeira rejeição por parte dos que a rodeiam, é um lúcido ensaio sobre a formação da identidade e as relações da criança em formação com a sociedade.»
da página da Cavalo de Ferro

domingo, novembro 06, 2005

The Complete Calvin and Hobbes

Três volumes em capa dura reunidos numa caixa, 1440 páginas, 3160 tiras, todas as aventuras que Calvin e Hobbes viveram estão agora reunidas num só livro.

Recentemente editado pela Andrews McMeel nos E.U.A., com um preço de capa de 150 dólares, já decorrem as negociações para uma edição portuguesa desta obra monumental.

Acreditamos que não será fácil chegar a um consenso, nomeadamente na decisão do preço de venda em Portugal. Daqui, fazemos votos para que se mantenha a apresentação original, em capa dura, para que estes dois personagens que tanto nos marcaram percam de vez essa característica perene do papel de jornal.

Enquanto isso, a CNN foi à procura de Bill Watterson, mas não foi bem sucedida.

O autor que criou sucessivas aventuras de Calvin & Hobbes durante 10 anos, e publicou a última a 31 de Dezembro de 1995, retirou-se desde essa altura para não mais fazer uma aparição pública.

Ainda assim, nessa reportagem podem encontrar-se várias curiosidades acerca de Watterson, incluindo a história de como o autor seguiu o caminho da Banda Desenhada:

«As a child, Watterson knew he would be an astronaut or a cartoonist. "I kept my options open until seventh grade, but when I stopped understanding math and science, my choice was made," he wrote in the introduction to "The Complete Calvin and Hobbes."»

quinta-feira, novembro 03, 2005

The Rough Guide Book of Playlists

Confesso, sou um maníaco por listas. O melhor de, os 10 +, os mais vendidos, os piores, mais ouvidos e mais lidos, top's e etc's, que dizem tudo e acabam por não dizer nada. Mas acho-lhes graça.

Podem até nem traduzir valores ou quantidades, e ser apenas a lista de discos preferidos, os melhores livros, os filmes em que chorei (ou aqueles em que adormeci). Ora, se num só livro (de bolso) juntarmos 500 dessas listas, é o delírio total.

Dos senhores que nos trouxeram o guia das Teorias da Conspiração, os Top 11 de tudo o que tem a ver com o Chelsea FC ou um mapa da Islândia, chega-nos agora o The Rough Guide Book of Playlists.

A ideia por detrás deste livro é a de que a revolução MP3 fez mudar a nossa maneira de ouvir música (e com razão): há bem pouco tempo, em conversa com amigos 10 anos mais novos, incluí-me na geração discman, e continuo a ter o hábito de escolher, antes de sair de casa, um ou dois álbuns para ouvir durante o dia; eles tinham umas máquinas estranhas com o quinto do tamanho para as quais tinham descarregado músicas, e discutiam o tamanho da memória desses aparelhos. Também cresci com o hábito de fazer compilações, mas a ideia final era gravá-las em cassete, e mais tarde em cd, e assim obter um disco, um objecto final e definitivo. Hoje, é tudo mais mutável.

Como todas as ideias se podem converter em livro, surge este guia de listas de músicas, no qual podemos encontrar selecções de canções de centenas de bandas e músicos, as escolhas de músicos convidados e também compilações associadas aos mais estranhos temas, como por exemplo a lista "Book I read", na qual encontramos "Wrapped up in books", dos Belle & Sebastian, e "I am the sub librarian" dos Piano Magic.

Como amostra, fica aqui a playlist que Tom Waits elaborou para publicação neste livro:

- In the Wee Small Hours of the Morning (de Frank Sinatra, do álbum In the Wee Small Hours)
- Dee's Diner (Colonnel Les Claypool's Fearless Flying Frog Brigade, do álbum Purple Onion)
- The Delivery Man (Elvis Costello and The Imposters, do álbum The Delivery Man)
- I Should Care (Thelonious Monk, do álbum Solo Monk)
- I Just Want to See His Face (Rolling Stones, do álbum Exile on Main Street)
- Jesus Blood (Gavin Bryars, do álbum The Sinking of the Titanic)
- Dirty Old Town (The Pogues, do álbum Run Sodomy and the Lash)
- Lucille (Little Richard, do álbum The Specialty Sessions)
- Circling Pigeons Waltz (Texas-Czech, do álbum Bohemian-Moravian Bands)
- Nessun Dorma (Franco Corelli with the Rome Opera Theatre Orchestra & Chorus)

Nota: este artigo, por razões óbvias, tem direito a dupla publicação.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Debate: Eco

Caro Pedro Lobo

Antes de mais, agradeço a sua visita, os seus comentários e a sua recomendação. Mas temo que esta última possa pecar por tardia: li “A Ilha do Dia Antes” há uns tempos atrás. Não estou de acordo quanto à quantificação que propõe: uma obra mais ou menos literária que outra. Não creio que se trate de um adjectivo assim tão mensurável…
Quanto à racionalização: não considero que a literatura se preste a análises qualitativas do género das que propõe. A abordagem que diz fazer de um modo mais subtil poderá impedi-lo de ler Tolkien, toda a ficção científica (que muitas vezes pode assentar em pressupostos narrativos bastante frágeis, com as excepções muito notáveis de Arthur C. Clarke, Isaac Asimov ou Aldous Huxley), a obra romanceada de muitos filósofos (por exemplo, “Assim falou Zaratustra”, de Nietzsche) ou grande parte dos enormes poetas em prosa (Borges, Pessoa, etc.). O holismo, para mim, resulta apenas da leitura que cada um faz de uma obra. Se a ler realmente, tratar-se-á de um processo global. A leitura é muito mais um processo subjectivo, profundamente projectivo, e que, por ser tão introspectivo, redundará sempre em análises diferente para diferentes leitores. Inclusivamente, até para estados de espírito diferentes do mesmo leitor. Fala dos signos literários, mas são precisamente esses que são passíveis de uma maior projecção. Se lhe falarem de um cão, tenho a certeza que imaginará um exemplar do melhor amigo que, todos estaremos de acordo, pertencerá certamente à espécie referida. Mas será que o cão que o amigo Pedro Lobo imagina é igual ao cão que eu ou qualquer outra pessoa imagina de imediato quando indagada (Pequeno? Grande? Rafeiro? Pastor Alemão?). Com os signos literários passar-se-á precisamente o mesmo. Se não fossem susceptíveis, nem signos seriam!
O conteúdo técnico da obra já foi abordado por João Lobo Antunes (Mil Folhas, 4 de Junho de 2005). Para este neurocirurgião e escritor, a amnésia patenteada por Yambo é altamente improvável de acontecer. Sobretudo, num AVC. Por essa razão lhe digo: se procurar técnica, posso relê-la nos vários manuais que já tive que pesquisar para a minha licenciatura. Tratam de neurologia, neuroquímica, neurobiologia, neurofisiologia, neurofisiologia patológica e outros temas próximos. Certamente que não a procurarei num óptimo romance de Umberto Eco.
Como o Pedro Lobo diz, eu digo que gosto da literatura (não encontro essa frase escrita por mim…). Gosto dela por aquilo que ela é. Permite-me viver a vida da leitura enquanto tal, uma vida diferente em cada volume que abro, vida nova e diferente todos os dias e em cada instante que desejar. Quando leio, estou realmente “noutra”…

Agradeço as suas palavras e a sua intervenção
Saudações literárias

Nota: Este artigo vem na sequência da crítica ao livro A Misteriosa Chama da Rainha Loana, publicada a 26/10/05 pelo Pedro, e do comentário deixado nesse artigo por Pedro Lobo.

segunda-feira, outubro 31, 2005

Zapping: Palimpsesto

Bem verdade

"Comprar livros seria uma boa coisa se pudéssemos comprar também o tempo para os ler: mas, por norma, a compra de livros é confundida com a apropriação do seu conteúdo."
Arthur Schopenhauer

domingo, outubro 30, 2005

O Senhor Valéry - Gonçalo M. Tavares

«A chávena de café

O senhor Valéry gostava muito de café. Para o senhor Valéry trabalhar e beber café eram a mesma coisa. O seu trabalho, a partir de certa altura, era beber café.
Ele costumava dizer:

- Sem café não consigo trabalhar - e quem o ouvia julgava-o dependente dessa substância para fazer uma outra coisa.

Mas não.
O senhor Valéry explicava:

- Um corpo é tanto mais exacto quanto menos tarefas faz.

E clarificava ainda, exibindo as ideias filosóficas de que tanto se orgulhava:

- Uma causa vale menos do que um efeito e um efeito vale menos do que um acontecimento sem causa.
Por isso ele agia sem pensar nos efeitos da sua acção. Agia porque gostava da acção que fazia. E bastava-lhe.

O senhor Valéry, decidiu, então, desenhar uma chávena de café para provar a sua teoria



Depois de acabar o desenho, ele disse para si próprio:

- Há dias em que não percebo nada de mim.

E como se encontrava confuso, o senhor Valéry decidiu ir beber um outro café.

- É uma maneira de resolver as coisas - pensava.»
páginas 47, 48

O Senhor Valéry, de Gonçalo M. Tavares, Editorial Caminho, Abril 2002, 81 pág., pvp: 11,95€

Depois de O Senhor Valéry, O Senhor Henri, O Senhor Brecht e O Senhor Juarroz, o pilha sabe que está para breve a chegada de mais um senhor a esta família. Estejam atentos.

Até lá, alguém quer ir beber um cafézinho?

domingo, outubro 16, 2005

Quiosque: Biblioteca Europeia + Alexandre O'Neill

Roma recebe Biblioteca Europeia

O centro histórico de Roma albergará, a partir de 2006, a sede da Biblioteca Europeia, que será composta por obras impressas e digitais, com especial atenção às que abordam temáticas ligadas à juventude. A inauguração deverá ocorrer em Abril do próximo ano, quando Montreal passar às cidades de Roma e Turim o título de Capital Mundial do Livro 2006-2007.
in Diário de Notícias 16/10/05


Ler e ouvir O´Neill

Poesias e Outras Bizarrias é o título das sessões de leitura que o grupo de teatro Artistas Unidos tem vindo a realizar na Casa Fernando Pessoa. No final da tarde do dia 18, o autor proposto é Alexandre O'Neill, o poeta português que fez da crítica, da ironia e do humor negro a essência da sua obra.
A leitura será feita pelos actores Miguel Borges, João Meireles, Gonçalo Waddington e Américo Silva, em colaboração com a companhia Tá Safo. Para as próximas sessões estão já escolhidos os autores: Armando Silva Carvalho, António Ramos Rosa e Gonçalo M. Tavares.
Lisboa, Casa Fernando Pessoa, 18 de Outubro, 18h30
Informações: 213913270
in Notícias Magazine 16/10/05

sexta-feira, setembro 23, 2005

O Delfim - José Cardoso Pires

«Tomás, o Avô, deitou contas às cinzas e pôs-se a construir a casa sobre as velhas cavalariças que tinham escapado ao incêndio. Teve de fazê-la mais pequenas, imagine-se o desgosto. Dois andares, escada de pedra no pátio de entrada, varanda corrida, hoje sem grades e apenas três potes gigantescos a guardá-la. «Grades para quê, se não há crianças?» perguntava o Engenheiro quando decidiu transformar a sala grande num estúdio de longas vidraças, aberto sobre o terraço. E assim a casa ficava mais ligada ao vale, mais devassada por ele. Mais triste no inverno, quando a chuva saltitava no cimento da varanda, fustigada pela ventania.

O estúdio. Tudo disposto como na noite das apresentações: cobres nas paredes, uma espingarda antiga em cima da lareira. Eu, caçador em visita, Maria das Mercês no lugar que lhe é próprio (sentada no chão, entre revistas - Elle, Horoscope, Flama), o marido estendido no maple e com um braço pendurado para a bebida que repousa em cima do tapete. Música de fundo, e do gira-discos


Retrato de José Cardoso Pires a tinta da china por Júlio Pomar, 1949
in Fotobiografia de José Cardoso Pires, Inês Pedrosa, Pub. Dom Quixote, p.33



O Delfim, de José Cardoso Pires, editado pelas Publicações Dom Quixote, pvp: 15€ (edição normal) e 5,99€ (edição de bolso)


e o filme, realizado por Fernando Lopes