segunda-feira, novembro 21, 2005

José Cardoso Pires, nos livros e à conversa

Porque terminei há pouco a leitura de O Delfim, aqui ficam algumas pistas para entrar no caminho de José Cardoso Pires.

«Toda a nostalgia, toda a melancolia, todos os chavões normalmente associados ao povo português se encontram no romance, quer no período referente à ditadura, quer no relato do 25 de Abril e na euforia anárquica pós-revolução. Por retratar magistralmente estes três períodos, de uma forma leve mas acutilante, revelando os traços comuns da alma portuguesa, vale a pena ler este romance.»
escreve pns sobre Alexandra Alpha no Citador


«Muito para além das considerações ideológicas está o homem. José Cardoso Pires sempre assumiu, de forma transparente e simples, a existência sob a forma da descontracção e da autenticidade. Por esse motivo, terminamos esta breve nótula de homenagem com Cardoso Pires visto por Cardoso Pires, num excerto do auto-retrato Fumar ao espelho:

"Aos cinquenta anos dei por mim a fumar ao espelho e a perguntar E agora, José. Fumar ao espelho, qualquer José sabe isso, é confrontarmo-nos com o nosso rosto mais quotidiano e mais pensado. (...) Aqui tens, José, o homem que te interroga. Que te fuma e te duvida. Que te acredita. E com esta me despeço, adeus, até outro dia, e que a terra nos seja leve por muitos anos e bons neste lugar e nesta companhia. Pá, apaga-me essas rugas. Riscam o espelho, não vês ?"»
escreve Luís Miguel Oliveira de Barros Cardoso, em José Cardoso Pires: Um Delfim da Escrita Dialéctica e Transparente


«Esta sua "Lisboa" é uma geografia sentimental de sítios. Pelos quais, curiosamente, a sua vida não passa. É por pudor?

Talvez. Mas no meu livro "A Cavalo no Diabo" falo nisso: na Almirante Reis, nos imperadores do Chile, nos bailes, na Lisboa nocturna, a minha vida. Neste livro quis fazer outra coisa: uma espécie de levantamento que desse, com toda a sinceridade, o modo como sinto Lisboa. E é aí que o livro me parece muito diferente da Lisboa convencional do Tejo que é bonito, etc. Há ainda muitas coisas que faltam e que espero trabalhar numa próxima edição: a sintaxe lisboeta. Está abordada, mas não aprofundada. E os cheiros...»
o próprio, sobre Lisboa, Livro de Bordo



Esta 3ª feira, 22 de Novembro, traz-se de novo à conversa a obra de José Cardoso Pires, na livraria Almedina do Atrium Saldanha, em Lisboa. A partir das 18h30, realiza-se uma tertúlia sobre a obra deste autor português, 80 anos depois do seu nascimento, com a presença dos professores Petar Petrov, Eunice Cabral e Maria Lúcia Lepecki, e de todos aqueles que nela queiram participar.

Boas leituras, boas conversas :)

terça-feira, novembro 08, 2005

Lars Saabye Christensen em Lisboa

Lars Saabye Christensen, autor de Herman, está em Lisboa para promover a recente edição portuguesa de Beatles, o seu segundo livro a ser traduzido em Portugal, ambos pela Cavalo de Ferro. O autor estará presente numa sessão de autógrafos na livraria Almedina do Atrium Saldanha, em Lisboa, na próxima 5ª feira, 10 de Novembro, a partir das 18h00.


Originalmente editado em 1984, já foram vendidos mais de 200 mil exemplares de Beatles na Noruega, o país natal do autor.


«Estava deitado à espera que a mãe e o pai se fossem deitar. Se acendesse a luz agora viriam perguntar o que se passava porque conseguiam ver por uma frecha sob a porta a luz acesa. Ouvia a chuva, lá fora, ouvia os comboios a passar a menos de cem metros, entre o meu quarto e a baía de Frogner. Eu sabia perfeitamente para onde iam, mas também não haviam assim tantas linhas por onde escolher. E apesar de não irem para muito longe e de se manterem dentro do país faziam-me sempre pensar em terras distantes, como aquelas suspensas em rolos por cima do quadro da escola, e quando ouvia os comboios pensava em estrelas também, e no Universo, e tudo se esvanecia e eu caía para trás, como que para dentro de mim mesmo, e se eu gritasse vinham a mãe e o pai a correr, e eram como pontinhos pequeninos, lá ao longe, e arrastavam-me de volta. Mas desta vez não gritei. Ouvia os comboios e o zunido do eléctrico a atravessar a Praça Olaf Bull. E misturado com isto tudo estavam as vozes abafadas da mãe e do pai e o rádio sempre ligado e sempre com ópera que me soava tão solitária, mais triste que qualquer outra coisa que eu conhecia, um cantar de outro mundo, um mundo pardo e sem movimento, um cantar frio e morto. E nas paredes à minha volta estavam penduradas fotos de caras que também cantavam, mas não se ouvia um som que fosse, as guitarras e as baterias estavam silenciosas. Rolling Stones, Animals, Dave Clark Five, Hollies, Beatles. Beatles. Fotos dos Beatles. E eu sonhava com Ringo e John e George e Paul. Sonhava que era um deles, que era o Paul McCartney, com a sua cara redonda e olhar melancólico que levava todas as miúdas à berraria descontrolada, sonhava que era canhoto e tocava baixo. Sentei-me de arranque na cama, acordadíssimo. Mas eu sou um deles, pensei em voz alta, e ri. Eu sou um dos Beatles.»
do Capítulo I


Herman, editado originalmente em 1988, foi adaptado ao cinema em 1990, com realizaçao de Erik Gustavson.

«Aquela que parece ser uma história simples sobre uma criança que vive o seu primeiro drama e sofre a primeira rejeição por parte dos que a rodeiam, é um lúcido ensaio sobre a formação da identidade e as relações da criança em formação com a sociedade.»
da página da Cavalo de Ferro

domingo, novembro 06, 2005

The Complete Calvin and Hobbes

Três volumes em capa dura reunidos numa caixa, 1440 páginas, 3160 tiras, todas as aventuras que Calvin e Hobbes viveram estão agora reunidas num só livro.

Recentemente editado pela Andrews McMeel nos E.U.A., com um preço de capa de 150 dólares, já decorrem as negociações para uma edição portuguesa desta obra monumental.

Acreditamos que não será fácil chegar a um consenso, nomeadamente na decisão do preço de venda em Portugal. Daqui, fazemos votos para que se mantenha a apresentação original, em capa dura, para que estes dois personagens que tanto nos marcaram percam de vez essa característica perene do papel de jornal.

Enquanto isso, a CNN foi à procura de Bill Watterson, mas não foi bem sucedida.

O autor que criou sucessivas aventuras de Calvin & Hobbes durante 10 anos, e publicou a última a 31 de Dezembro de 1995, retirou-se desde essa altura para não mais fazer uma aparição pública.

Ainda assim, nessa reportagem podem encontrar-se várias curiosidades acerca de Watterson, incluindo a história de como o autor seguiu o caminho da Banda Desenhada:

«As a child, Watterson knew he would be an astronaut or a cartoonist. "I kept my options open until seventh grade, but when I stopped understanding math and science, my choice was made," he wrote in the introduction to "The Complete Calvin and Hobbes."»

quinta-feira, novembro 03, 2005

The Rough Guide Book of Playlists

Confesso, sou um maníaco por listas. O melhor de, os 10 +, os mais vendidos, os piores, mais ouvidos e mais lidos, top's e etc's, que dizem tudo e acabam por não dizer nada. Mas acho-lhes graça.

Podem até nem traduzir valores ou quantidades, e ser apenas a lista de discos preferidos, os melhores livros, os filmes em que chorei (ou aqueles em que adormeci). Ora, se num só livro (de bolso) juntarmos 500 dessas listas, é o delírio total.

Dos senhores que nos trouxeram o guia das Teorias da Conspiração, os Top 11 de tudo o que tem a ver com o Chelsea FC ou um mapa da Islândia, chega-nos agora o The Rough Guide Book of Playlists.

A ideia por detrás deste livro é a de que a revolução MP3 fez mudar a nossa maneira de ouvir música (e com razão): há bem pouco tempo, em conversa com amigos 10 anos mais novos, incluí-me na geração discman, e continuo a ter o hábito de escolher, antes de sair de casa, um ou dois álbuns para ouvir durante o dia; eles tinham umas máquinas estranhas com o quinto do tamanho para as quais tinham descarregado músicas, e discutiam o tamanho da memória desses aparelhos. Também cresci com o hábito de fazer compilações, mas a ideia final era gravá-las em cassete, e mais tarde em cd, e assim obter um disco, um objecto final e definitivo. Hoje, é tudo mais mutável.

Como todas as ideias se podem converter em livro, surge este guia de listas de músicas, no qual podemos encontrar selecções de canções de centenas de bandas e músicos, as escolhas de músicos convidados e também compilações associadas aos mais estranhos temas, como por exemplo a lista "Book I read", na qual encontramos "Wrapped up in books", dos Belle & Sebastian, e "I am the sub librarian" dos Piano Magic.

Como amostra, fica aqui a playlist que Tom Waits elaborou para publicação neste livro:

- In the Wee Small Hours of the Morning (de Frank Sinatra, do álbum In the Wee Small Hours)
- Dee's Diner (Colonnel Les Claypool's Fearless Flying Frog Brigade, do álbum Purple Onion)
- The Delivery Man (Elvis Costello and The Imposters, do álbum The Delivery Man)
- I Should Care (Thelonious Monk, do álbum Solo Monk)
- I Just Want to See His Face (Rolling Stones, do álbum Exile on Main Street)
- Jesus Blood (Gavin Bryars, do álbum The Sinking of the Titanic)
- Dirty Old Town (The Pogues, do álbum Run Sodomy and the Lash)
- Lucille (Little Richard, do álbum The Specialty Sessions)
- Circling Pigeons Waltz (Texas-Czech, do álbum Bohemian-Moravian Bands)
- Nessun Dorma (Franco Corelli with the Rome Opera Theatre Orchestra & Chorus)

Nota: este artigo, por razões óbvias, tem direito a dupla publicação.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Debate: Eco

Caro Pedro Lobo

Antes de mais, agradeço a sua visita, os seus comentários e a sua recomendação. Mas temo que esta última possa pecar por tardia: li “A Ilha do Dia Antes” há uns tempos atrás. Não estou de acordo quanto à quantificação que propõe: uma obra mais ou menos literária que outra. Não creio que se trate de um adjectivo assim tão mensurável…
Quanto à racionalização: não considero que a literatura se preste a análises qualitativas do género das que propõe. A abordagem que diz fazer de um modo mais subtil poderá impedi-lo de ler Tolkien, toda a ficção científica (que muitas vezes pode assentar em pressupostos narrativos bastante frágeis, com as excepções muito notáveis de Arthur C. Clarke, Isaac Asimov ou Aldous Huxley), a obra romanceada de muitos filósofos (por exemplo, “Assim falou Zaratustra”, de Nietzsche) ou grande parte dos enormes poetas em prosa (Borges, Pessoa, etc.). O holismo, para mim, resulta apenas da leitura que cada um faz de uma obra. Se a ler realmente, tratar-se-á de um processo global. A leitura é muito mais um processo subjectivo, profundamente projectivo, e que, por ser tão introspectivo, redundará sempre em análises diferente para diferentes leitores. Inclusivamente, até para estados de espírito diferentes do mesmo leitor. Fala dos signos literários, mas são precisamente esses que são passíveis de uma maior projecção. Se lhe falarem de um cão, tenho a certeza que imaginará um exemplar do melhor amigo que, todos estaremos de acordo, pertencerá certamente à espécie referida. Mas será que o cão que o amigo Pedro Lobo imagina é igual ao cão que eu ou qualquer outra pessoa imagina de imediato quando indagada (Pequeno? Grande? Rafeiro? Pastor Alemão?). Com os signos literários passar-se-á precisamente o mesmo. Se não fossem susceptíveis, nem signos seriam!
O conteúdo técnico da obra já foi abordado por João Lobo Antunes (Mil Folhas, 4 de Junho de 2005). Para este neurocirurgião e escritor, a amnésia patenteada por Yambo é altamente improvável de acontecer. Sobretudo, num AVC. Por essa razão lhe digo: se procurar técnica, posso relê-la nos vários manuais que já tive que pesquisar para a minha licenciatura. Tratam de neurologia, neuroquímica, neurobiologia, neurofisiologia, neurofisiologia patológica e outros temas próximos. Certamente que não a procurarei num óptimo romance de Umberto Eco.
Como o Pedro Lobo diz, eu digo que gosto da literatura (não encontro essa frase escrita por mim…). Gosto dela por aquilo que ela é. Permite-me viver a vida da leitura enquanto tal, uma vida diferente em cada volume que abro, vida nova e diferente todos os dias e em cada instante que desejar. Quando leio, estou realmente “noutra”…

Agradeço as suas palavras e a sua intervenção
Saudações literárias

Nota: Este artigo vem na sequência da crítica ao livro A Misteriosa Chama da Rainha Loana, publicada a 26/10/05 pelo Pedro, e do comentário deixado nesse artigo por Pedro Lobo.

segunda-feira, outubro 31, 2005

Zapping: Palimpsesto

Bem verdade

"Comprar livros seria uma boa coisa se pudéssemos comprar também o tempo para os ler: mas, por norma, a compra de livros é confundida com a apropriação do seu conteúdo."
Arthur Schopenhauer

domingo, outubro 30, 2005

O Senhor Valéry - Gonçalo M. Tavares

«A chávena de café

O senhor Valéry gostava muito de café. Para o senhor Valéry trabalhar e beber café eram a mesma coisa. O seu trabalho, a partir de certa altura, era beber café.
Ele costumava dizer:

- Sem café não consigo trabalhar - e quem o ouvia julgava-o dependente dessa substância para fazer uma outra coisa.

Mas não.
O senhor Valéry explicava:

- Um corpo é tanto mais exacto quanto menos tarefas faz.

E clarificava ainda, exibindo as ideias filosóficas de que tanto se orgulhava:

- Uma causa vale menos do que um efeito e um efeito vale menos do que um acontecimento sem causa.
Por isso ele agia sem pensar nos efeitos da sua acção. Agia porque gostava da acção que fazia. E bastava-lhe.

O senhor Valéry, decidiu, então, desenhar uma chávena de café para provar a sua teoria



Depois de acabar o desenho, ele disse para si próprio:

- Há dias em que não percebo nada de mim.

E como se encontrava confuso, o senhor Valéry decidiu ir beber um outro café.

- É uma maneira de resolver as coisas - pensava.»
páginas 47, 48

O Senhor Valéry, de Gonçalo M. Tavares, Editorial Caminho, Abril 2002, 81 pág., pvp: 11,95€

Depois de O Senhor Valéry, O Senhor Henri, O Senhor Brecht e O Senhor Juarroz, o pilha sabe que está para breve a chegada de mais um senhor a esta família. Estejam atentos.

Até lá, alguém quer ir beber um cafézinho?

domingo, outubro 16, 2005

Quiosque: Biblioteca Europeia + Alexandre O'Neill

Roma recebe Biblioteca Europeia

O centro histórico de Roma albergará, a partir de 2006, a sede da Biblioteca Europeia, que será composta por obras impressas e digitais, com especial atenção às que abordam temáticas ligadas à juventude. A inauguração deverá ocorrer em Abril do próximo ano, quando Montreal passar às cidades de Roma e Turim o título de Capital Mundial do Livro 2006-2007.
in Diário de Notícias 16/10/05


Ler e ouvir O´Neill

Poesias e Outras Bizarrias é o título das sessões de leitura que o grupo de teatro Artistas Unidos tem vindo a realizar na Casa Fernando Pessoa. No final da tarde do dia 18, o autor proposto é Alexandre O'Neill, o poeta português que fez da crítica, da ironia e do humor negro a essência da sua obra.
A leitura será feita pelos actores Miguel Borges, João Meireles, Gonçalo Waddington e Américo Silva, em colaboração com a companhia Tá Safo. Para as próximas sessões estão já escolhidos os autores: Armando Silva Carvalho, António Ramos Rosa e Gonçalo M. Tavares.
Lisboa, Casa Fernando Pessoa, 18 de Outubro, 18h30
Informações: 213913270
in Notícias Magazine 16/10/05

sexta-feira, setembro 23, 2005

O Delfim - José Cardoso Pires

«Tomás, o Avô, deitou contas às cinzas e pôs-se a construir a casa sobre as velhas cavalariças que tinham escapado ao incêndio. Teve de fazê-la mais pequenas, imagine-se o desgosto. Dois andares, escada de pedra no pátio de entrada, varanda corrida, hoje sem grades e apenas três potes gigantescos a guardá-la. «Grades para quê, se não há crianças?» perguntava o Engenheiro quando decidiu transformar a sala grande num estúdio de longas vidraças, aberto sobre o terraço. E assim a casa ficava mais ligada ao vale, mais devassada por ele. Mais triste no inverno, quando a chuva saltitava no cimento da varanda, fustigada pela ventania.

O estúdio. Tudo disposto como na noite das apresentações: cobres nas paredes, uma espingarda antiga em cima da lareira. Eu, caçador em visita, Maria das Mercês no lugar que lhe é próprio (sentada no chão, entre revistas - Elle, Horoscope, Flama), o marido estendido no maple e com um braço pendurado para a bebida que repousa em cima do tapete. Música de fundo, e do gira-discos


Retrato de José Cardoso Pires a tinta da china por Júlio Pomar, 1949
in Fotobiografia de José Cardoso Pires, Inês Pedrosa, Pub. Dom Quixote, p.33



O Delfim, de José Cardoso Pires, editado pelas Publicações Dom Quixote, pvp: 15€ (edição normal) e 5,99€ (edição de bolso)


e o filme, realizado por Fernando Lopes

quarta-feira, setembro 07, 2005

Zapping: Borboletas na barriga



«O meu almoço nos dias de trabalho, mais que ser importante pelo reconforto do estômago, é um momento privilegiado para desligar-me das obrigações. Por isso, levo o tupperware, sento-me assim debaixo da árvores num parque cheio de imigrantes ilegais, velhos pervertidos e marginais (ok, talvez não seja assim tão mau). Escolho o banco menos sujo pela praga nojenta que são os pombos da cidade, como a minha refeição frugal e atiro-me ao livro do momento»
escrito por M

sexta-feira, agosto 26, 2005

Chama que chama à leitura

AVC: deve ser a doença mais assustadora. Sentir que já não dispomos de todos os recursos que nos permitem disfrutar a vida tal como sempre a conhecemos, sentir que a mente está ela própria doente, incapaz e
deficiente...

São especulações absurdas, provavelmente. Qualquer doença deve ser terrível na pele, corpo e espírito de quem padece. Mas confesso que esse tal de AVC me dá uns calafrios...



Gianbattista Bodoni teve um. Não o tipógrafo do século XVIII, mas o protagonista deste livro. O tipógrafo não sei. Não procurei o que
caracterizou a sua vida.

Quando sai do coma provocado pela doença, perguntam-lhe pelo seu nome. Não se recorda, e o seu médico diz-lho. A resposta pronta de Yambo (é como ganha vida no livro) é que poderia ser Napoleão Bonaparte, já que foi contemporâneo de Bodoni! Ah, o carácter do homem!!

Assim se fica com uma primeira ideia dos estragos que a doença lhe terá provocado. O passado lá está, muito desvanecido, enquanto o presente vai primar pela ausência... características típicas da doença, julgo.

E, com um tal nome, que profissão é que o nosso homem teria escolhido? Livreiro! Alfarrabista, mais precisamente!! Lidar com a fase final dos objectos tipografados. Trabalho lindo, aquele que trata dos livros.

Ora... um livreiro, com um AVC que lhe poupou parte das memórias antigas e lhe subtraiu a maioria das recentes deve ter umas histórias estranhas e interessantes para contar...

E não é que tem?!!!

A vida de Yambo torna-se, em algumas partes, uma tentativa obcecada de reconstrução do seu passado. Vai para uma casa onde passou grande parte da infância e da adolescência, para além de alguns períodos da sua vida adulta, onde o espera um espólio enormíssimo de muito do que tinha sido editado em Itália nos últimos 60 anos, a par de alguns objectos bem mais antigos.

Há livros do Mickey (Topolino é muito mais giro!), brochuras do partido fascista, jornais da época, PILHAS DE LIVROS, recortes, cartas, etc... (muito grande, este etc!)

Ao longo do livro deparamo-nos com situações curiosas. Às pilhas, também. Yambo tem uma assistente lindíssima que o trata de um modo muito carinhoso. Claro que esse facto vai desencadear uma tempestade de perguntas na cabeça do pobre homem: será que somos amantes? Será que já nos tocámos? Será que a amo? Será que terá sido sempre assim, um jogo de insinuações e uma amizade cúmplice? Será que...? E mais trovoada do mesmo género...

Em suma...

Eis um livro para quem gosta de livros, para quem adora ler, para quem devora caracteres. Mesmo quem tem PILHAS DE LIVROS vai adorar esta leitura e notar que este é extremamente especial.


Ah, um pormenor: escrito por Umberto Eco...

A Misteriosa Chama da Rainha Loana, de Umberto Eco, editado pela Difel, 424 páginas, pvp: 25€

quinta-feira, agosto 11, 2005

Este mundo e todos os outros

Bill Bryson, um contador de peripécias extremamente engraçado, arrisca-se num mundo que pouco ou nada lhe diz, povoado por criaturas estranhas com nomes como quark, muão, isótopo, supernova, neutrino, estrela de neutrões e muitos outros da mesma índole. Eu é que não queria viver num mundo assim, bolas!

Uma Breve História de Quase Tudo é o resultado das deambulações de Bryson nessas estranhas andanças. E o resultado do resultado é um livro de divulgação científica sobre quase tudo!

Bryson, um ignorante de ciência assumido, consegue provar-nos que, fazendo as perguntas certas, por mais idiotas que nos possam parecer (não há perguntas estúpidas, mas respostas estúpidas, não é assim?), às pessoas que lhes conseguem dar respostas satisfatórias (claro que os destinatários eram todos PhD, MSc, MD e por aí fora), consegue-se saber um pouco de quase tudo.

Depois, misturando tudo com o humor e ironia de Bryson, mais o seu inegável talento para descrições minuciosas hilariantes, consegue-se a façanha de se estar a ler textos sobre coisas intrincadíssimas e soltar ocasionais gargalhadas e muitos esgares de riso!

Há um outro livro de Bryson em que o leitor é advertido para não efectuar a sua leitura em locais públicos, porque vai correr o risco de emitir sons guturais que colocarão todos os olhos dos presentes sobre si.

Faço a mesma advertência para esta obra.


Ciência mesmo a sério, mesmo a brincar!

quarta-feira, agosto 10, 2005

Ilusões do passado

Depois de um género revisitado, revisito um autor: Paul Auster.

O Livro das Ilusões trouxe-me de volta o autor que eu conhecera há uns 7 ou 8 anos, com o magnífico Palácio da Lua, editado então pela Presença.


Este Livro das Ilusões é uma narrativa sobre a vida e obra de um realizador de filmes mudos, Hector Mann, que desaparecera muitos anos atrás sem deixar qualquer rasto.

Até ao dia em que alguém se decidiu a estudar a sua obra.

Um homem, Zimmler, desfeito por três mortes muito próximas, limitando-se a anular os dias que vai (sobre)vivendo com doses maciças de álcool, servindo-se de tudo o que estiver ao seu alcance para se anestesiar e embotar os sentidos durante meses consecutivos, começa a rir com vontade ao ver um dos filmes velhinhos de Mann. A curiosidade vence a prostração e decide-se a saber quem tinha sido o homem que destapara a sua câmara de inércia e desespero.

Foi o abrir da caixinha de Pandora: as situações sucedem-se, o ritmo do livro e de leitura torna-se bastante elevado, as situações do passado revelam-se muito presentes e prementes, as aproximações e afastamentos de personagens bastante brutais. Mesmo à Paul Auster!

Às vezes sabe mesmo bem um bocadinho de ilusão...

Aqui fica uma sugestão para um fim-de-semana ocioso ou para os super finais de tarde de Verão.

Boas leituras :)

domingo, agosto 07, 2005

Lembrando a Feira

À Corto Maltese

D'abalada o Mar Salgado
Atravesso à Exupéry,
Voo mar encapelado
- o teu último álibi.
Em Veneza há um tesouro,
Fábula muito glosada...

"Não desvies polegada"
Disse a voz do bom agouro
Que entre as Célticas guardada
Estavas tu, ruiva adorada.
Minha linda, linda Inês.
Sobe ao palco é a tua vez
F.


P.S. Este ano, a Feira do Livro de Lisboa brindou-nos com poemas espalhados por todo o recinto, nos quais pudemos testemunhar a devoção de F. por Inês.

Foto: J

quinta-feira, agosto 04, 2005

Alfarrabista: A Abertura no Jogo de Xadrez

«Nada seria tão enganador para o xadrezista como tentar memorizar as incontáveis linhas de jogo das aberturas e considerar este caudal teórico como uma arma infalível para a vitória. Pondo de lado que seria necessário possuir uma memória monstruosa para isso, e mesmo conseguindo obter este recurso, dar-se-ia frequentemente o caso de se perderem partidas que na abertura nos eram favoráveis, mas que, ao "sairmos do livro", nos apresentam uma série de problemas para cuja solução não nos ajudam aqueles conhecimentos. Então a amargura que a derrota nos produza será maior, dado que o nosso caudal teórico não serviu para outra coisa senão para pôr mais a descoberto a nossa inferioridade.»
pág.13

A Abertura no Jogo de Xadrez (El Espiritu de la Apertura), de Ricardo Aguilera, das Edições 70, Setembro de 1978 (ed. original: 1968)

Este livro fazia parte da extinta Colecção Solário, cujos editores descreviam assim:
«Tendo por base a ideia de publicar livros para os tempos livres, esta colecção pretende também corresponder às necessidades e solicitações da vida quotidiana. Obras de cunho ligeiro, dedicadas preferencialmente a jogos e passatempos em família ou de reuniões sociais, alternarão com outras de carácter menos circunstancial. As intenções declaradamente lúdicas de alguns títulos não colidem com o rigor e a exigência postos na escolha de outras obras, de carácter vincadamente prático, constituindo uma resposta satisfatória aos pequenos e grandes desafios da vida moderna.»

Antes deste livro, já outros quatro tinham sido publicados, nomeadamente:
- Os Mistérios da Mão;
- Venha Jogar Connosco;
- Manual de Cultura Física;
- O Prazer de Estar em Forma;

e estava já previsto para publicação o sexto, Jogos do "Playboy".

Este último seria um dos "declaradamente lúdicos" ou um dedicado às "reuniões sociais"?

Boas partidas :)

P.S.: E assim se inicia mais uma colecção aqui no pilha, a do Alfarrabista, que apenas lê livros do tempo da avózinha, com folhas amarelas e muito cheiro a mofo.

segunda-feira, agosto 01, 2005

A morte de dois jornais

As imagens d'A Capital e d'O Comércio do Porto no post de 26 de Julho não aparecem, e as ligações para os seus sites não funcionam, porque os jornais foram encerrados no passado Domingo.

Parabéns.