sexta-feira, abril 29, 2005

Feira do Livro de Braga

Com a preciosa ajuda da nossa repórter Cláudia Silva, aqui ficam algumas fotos da Feira do Livro de Braga, que fechou as portas no passado dia 17.
Até para o ano!







domingo, abril 24, 2005

Feira do Livro de Coimbra

A Feira do Livro de Coimbra, inaugurada na passada 5ª feira, estará aberta até ao dia 8 de Maio, com abertura sempre marcada para as 15h00 e fecho às 23h00 (dias úteis) ou 24h00 (Sábados, Domingos e feriados).

A Feira está de regresso à Praça da República, mesmo às portas da Universidade e do Teatro Académico Gil Vicente, onde se podem encontrar várias dezenas de editores e livreiros, em representação de muitas editoras nacionais e estrangeiras.

Resta acrescentar que não é preciso preocuparmo-nos com a chuva, já que o espaço da feira está totalmente coberto por uma tenda gigante.

Ainda temos 2 semanas de feira, boas leituras :)

quarta-feira, abril 20, 2005

Zapping: Anomalias

Onde vais?

A primeira palavra que ouvi
na minha vida
foi «onde vais?»
Num aposento sentados
em sacos de milho
eu e minha mãe.

Tinha apenas um ano
e não sabia ainda
o que eram as palavras
e onde me poderiam levar.

Tonino Guerra(1920)
História para uma noite de calmaria(trad.de Mário Rui de Oliveira)

terça-feira, abril 19, 2005

Cadernos de Temuco - Pablo Neruda

DA MINHA VIDA DE ESTUDANTE

Sinos, sinos. Tocam os sinos
e todos os sons povoam o ar.
Sinos, sinos. As notas distantes
têm do gemido o dolente vibrar...

Passam os dias! O amanhã chegará.
O amanhã passará sem luz e sem ruído!
E as luminosas quimeras humanas!
E os gozos sempre, sempre prometidos!

Amanhã, amanhã! Os olhos cansados
há muito tempo já que estão fechados
e húmidos e tristes de tanto esperar!

Não toquem os tristes sinos distantes!
(Os dias passam como os sinos
tocam, tocam. Depressa deixam de tocar.)

Cadernos de Temuco, de Pablo Neruda (prólogo de Víctor Farías; tradução e notas de Albano Martins), edicão Campo das Letras (Maio de 2004), 251 págs., pvp: 16,80€

AQUELE

Porque era um rapaz bom e resignado
e tão tristemente costumava passar
sob o teu olhar, porque um amargurado
coração vias atrás do seu olhar...

tu nunca o amaste. Sonho dourado
que com brancas asas se vê adejar
foste para o pobre rapaz esquecido
com sua grande mágoa: tristeza de amar...

Mas no bulício das tuas alegrias
ou no fatigado rodar dos teus dias
amargos, tu nunca poderás encontrar

o grande carinho daquele ignorado
coração que sempre ficou amargurado
pela mágoa grande de amar, de amar...



Estávamos em 1919. Pablo Neruda tinha 15 anos.

sábado, abril 02, 2005

começa hoje a Feira do Livro de Braga



Abrem hoje, às 15 horas, as portas da 14ª edição da Feira do Livro de Braga, que este ano conta com a participação de 58 editores, livreiros e outras organizações associadas, distribuídos por cerca de 70 stands.

Durante estas duas semanas muitos autores passarão pelo Parque de Exposições de Braga para debates e conversas sobre temas como o jornalismo ou a nova ficção espanhola, para recitais de poesia, apresentações de livros e outras iniciativas.

O destaque inicial vai para o debate que acontece amanhã às 16h00 sobre a Nova Ficção Portuguesa, onde estarão presentes três autores de culto dos residentes desta casa: Gonçalo M. Tavares, Frederico Lourenço e José Luís Peixoto.

O pilha esteve presente na edição anterior, que deu direito a reportagem publicada a 13/03/04, e contamos também poder apresentar em breve algumas fotografias da edição que hoje começa.

Consultem os links abaixo para mais informações, nomeadamente a agenda cultural, passem por lá, e boas leituras.

Links:
Parque de Exposições de Braga
O Portal da Cidade
Exhibitions, Conferences & Trade Shows Worldwide
The Publishers Association

P.S.: Obrigado pela dica, booklover. Queres ser uma das vozes do pilha, nesta edição da Feira?

sexta-feira, abril 01, 2005

Emily Dickinson

«Escritos entre a turbulência e a incandescência, os poemas de Emily Dickinson acompanham uma existência atormentada e enigmática. Nunca reunidos em vida, com excepção de esporádicas edições em revistas ou jornais, por vezes alterando a sua singular pontuação, só em 1890, quatro anos depois da sua morte, sai o volume dos Poemas organizado por Mabel Loomis Todd e T.W. Higginson, com um êxito que leva a onze reedições até ao fim de 1892. Trata-se, como é evidente, de uma selecção feita sobre os quase dois mil poemas (a edição de R.W. Franklin, The poems of Emily Dickinson, Belknap-Harvard University Press, 1999, agrupa 1789 poemas) que Emily Dickinson deixou, organizados em 40 cadernos, além de cerca de quinze conjuntos não agrupados - aos quais se devem somar as centenas de poemas (variantes ou não) que dava ou enviava a amigos e familiares. Graças à irmã Lavinia, e à primeira editora, Mabel Todd, esse espólio, guardado numa caixa, pôde ser salvo e objecto de sucessivas edições e organizações, já que o agrupamento nos cadernos não é cronológico, obedecendo possivelmente a uma lógica pessoal que, com o abandono de um projecto de publicação, foi perdendo toda a coerência. Daí que cada editor siga um critério diferente, sendo o cronológico o menos óbvio, dada a dispersão temática em que induz.»

Nuno Júdice (na introdução incluída na edição da Cotovia apresentada abaixo)


Esta é a minha carta ao mundo e outros poemas, de Emily Dickinson (trad. Cecília Rego Pinheiro), editado pela Assírio & Alvim (06/1997), colecção Gato Maltês nº33, 72 págs, pvp: 6€, ISBN 9723704250. Edição bilingue em português e inglês.



Poemas e Cartas (antologia para um recital), de Emily Dickinson (Tradução e introdução de Nuno Júdice, revista por Ana Luísa Amaral; uma antologia organizada por Nuno Vieira de Almeida), editado pela Cotovia (2000), 190 págs., pvp: 14€, ISBN 9728423594. Edição bilingue em português e inglês.








Bilhetinhos com Poemas, de Emily Dickinson (tradução de Ana Fontes, prefácio de A. Joaquim), editado pela Colares (1995), 85 págs., ISBN 9728099517, pvp: 8,38€.









Oitenta Poemas de Emily Dickinson, de Emily Dickinson (tradução e apresentação de Jorge de Sena), editado pela Edições 70 (1979), ISBN 9724400050. Edição bilingue em português e inglês. Edição esgotada.

quinta-feira, março 31, 2005

Zapping: ar líquido 2

"(...) Creio que havíeis de gostar do Castanheiro que encontrei, ao dar um passeio. Inesperadamente, chamou a minha atenção - e pensei que os Céus estavam em flor.
Há também, no Pomar, um barulho, que não faz barulho - que eu dou a ouvir às pessoas -(...)

Emily Dickinson, carta a T.W.Higginson, Agosto de 1862

quarta-feira, março 30, 2005

Feira à vista!

Já há datas para a Feira do Livro de Lisboa (de 25 de Maio a 13 de Junho) e para a Feira do Livro do Porto (de 25 de Maio a 12 de Junho). Ambas começam numa Quarta-feira, com a Feira do Porto a terminar num Domingo, e Lisboa a gozar o Feriado Municipal para ver a Feira prolongar-se por mais um dia.

Se não nos virmos antes, até lá :)

terça-feira, março 29, 2005

A Sombra do Vento - Carlos Ruiz Zafón

O Bairro do Amor e as Panascas de Bacalhau deram o mote. Aqui fica uma série de pistas para descobrir ou melhor explorar o mundo de A Sombra do Vento.

Panascas de Bacalhau: "(...) há livros que são um corpo, uma história que nos aprisiona de onde não se conseguem retirar palavras ou frases, por se sentir que essa separação prejudicaria a história."

O Bairro do Amor: "Não quero desvendar muito da história, por isso adianto apenas que envolve um escritor desaparecido, um livro amaldiçoado, identidades dúbias, perseguições e inevitavelmente desencontros amorosos, intrigas e muito mistério."

Objetiva: "A Sombra do Vento é uma narrativa de ritmo eletrizante, escrita em uma prosa ora poética, ora irônica. O enredo mistura gêneros como o romance de aventuras de Alexandre Dumas, a novela gótica de Edgar Allan Poe e os folhetins amorosos de Victor Hugo. Ambientado na Barcelona franquista da primeira metade do século XX, entre os últimos raios de luz do modernismo e as trevas do pós-guerra, o romance de Zafón é uma obra sedutora, comovente e impossível de largar. Além de ser uma grandiosa homenagem ao poder místico dos livros, é um verdadeiro triunfo da arte de contar histórias."

"Girando la trama del texto en torno al hallazgo de un libro olvidado, las concomitancias con `El nombre de la rosa´, uno de los grandes éxitos editoriales de los años 80 son innegables. Pero eso no cuenta. En opinión de Rosales, el éxito se debe “al acierto con el que se ha aproximado a temas universales como el amor el misterio o la pérdida de la inocencia”. Se trata al cabo de cómo se nos cuenta, no de qué se nos cuenta. “La sombra del viento” es una celebración de la narración que entusiasma a los lectores. “Estamos ante un relato apasionante” escribe uno de ellos, David Pelegrín, en las críticas que los lectores mandan a la página Web de la Casa del libro."



"'La sombra del viento', con millón y medio de copias vendidas en todo el mundo, se sitúa en la Barcelona de los años 50 y tiene como protagonista a un niño que se convierte en adulto al tiempo que investiga una novela recuperada del Cementerio de los Libros."



Página oficial do livro, com entrada directa numa busca pelos cinco últimos exemplares de "A Sombra do Vento"...







A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón, publicado pela Dom Quixote (2004), pvp: 22€.


P.S.: Agora sim, de volta. Sejam bem-vindos.

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

A Noite do Oráculo - Paul Auster (um ano de pilha vol.7)

«Se decidi atravessar a rua e entrar na loja, deve ter sido porque, secretamente, queria recomeçar a trabalhar - sem o saber, sem ter consciência da fome que se tinha vindo a acumular dentro de mim. Não tinha escrito nada desde que saíra do hospital em Maio - nem uma só frase, nem uma só palavra - e não sentira a menor inclinação nesse sentido. E eis que agora, sem mais nem menos, ao fim de quatro meses de apatia e silêncio, metia na cabeça que tinha de abastecer-me de um sortido completo de artigos novinhos em folha: canetas e lápis novos, um caderno novo, borrachas novas, cargas novas para as canetas, pastas e blocos novos, enfim, tudo novo.
(...)
Fosse porque o trânsito na Court Street teria parado nesse preciso momento, ou o porque o vidro laminado da montra seria extremamente espesso, a verdade é que, quando meti pelo primeiro corredor a fim de esquadrinhar a loja, apercebi-me subitamente da tranquilidade que ali reinava. Eu era o primeiro cliente do dia e o silêncio era tão denso, tão pronunciado, que conseguia ouvir a lapiseira do homem arranhando o papel atrás de mim. Hoje, quando me ponho a pensar naquela manhã, o som da lapiseira é sempre a primeira coisa que me ocorre. Admitindo que a história que vou contar faz algum sentido, estou em crer que foi aí que ela começou - no espaço daqueles breves segundos, quando o único som que restava no mundo era o som daquela lapiseira arranhando o papel.» págs. 9 e 10

O mestre da narrativa "matrioska" regressa com mais uma obra que fala de escritores, de editores, de pessoas que vivem de e para os livros. Mais uma vez os enredos e as circunstâncias são intrigantes e engenhosos.
Cada página representa uma porta, e cada porta sugere outra porta, fechadas umas, entreabertas outras, a despertar a curiosidade.
Os ambientes escorrem mistério e sortilégio. Os personagens são prova de um profundo conhecimento da natureza humana.
A escrita tem uma qualidade irrepreensível, que a tradução não afecta.
A leitura é aconselhada.

«Engoli os quatro comprimidos que tomava todas as manhãs ao pequeno-almoço, bebi algum café, comi uns bocados de torrada, e, depois, encaminhei-me até ao fundo do corredor e abri a porta do quarto de trabalho. A minha ideia era continuar com a história até à hora de almoço. Nessa altura, sairia e faria uma nova visita à loja de Chang - não só para procurar a fita adesiva de Grace, mas também para comprar os cadernos portugueses que ainda houvesse na loja, fosse qual fosse a cor da capa. Não tinha a menor importância se não fossem azuis. Preto, vermelho e castanho serviam perfeitamente, e eu queria ter o maior número possível de cadernos à minha disposição. Não para já, talvez, mas para ficar com uma reserva para futuros projectos, e, quanto mais adiasse o meu regresso à loja de Chang, maiores eram as hipóteses de que os cadernos desaparecessem.
Até então, escrever no caderno azul não me proporcionara outra coisa senão prazer, uma sensação louca, sublime, de plenitude. As palavras saíam de mim como se eu estivesse a fazer um ditado, a transcrever frases ditas por uma voz que falava na linguagem cristalina dos sonhos, dos pesadelos, dos pensamentos libertos de toda e qualquer peia. Contudo, na manhã do dia 20 de Setembro, dois dias após o dia em questão, essa voz calou-se subitamente. Abri o caderno e, quando olhei para a página que tinha à minha frente, dei-me conta de que estava perdido, de que já não sabia o que estava a fazer.» pág.93


A Noite do Oráculo, de Paul Auster (trad. José Vieira de Lima), da Asa, 201 págs., pvp: 15,00 €


Astianax volta a escrever sobre os seus livros do ano, desta vez convidando-nos a entrar no mundo de Paul Auster.


Links:
site oficial do autor
Oracle Night
Paul Auster Meetup Groups
Lisboa Paul Auster Meetup Group
Book Reviews
Book Reporter
Claque
DN Online

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

UM CATÁLOGO DE SONHOS - José Carlos Fernandes

«"Um Catálogo de Sonhos" foi realizado em 1995 e publicado pela Pedranocharco em 1996, mas muito poucos exemplares foram vistos em circulação - há quem atribua este desaparecimento inopinado dos livros à mão dos Illuminati da Baviera. Outras teorias defendem que foi a CIA que procedeu à aquisição e destruição de (praticamente) toda a edição. Esta segunda hipótese ganhou mais credibilidade recentemente, com a divulgação de um relatório confidencial dos serviços secretos norte-americanos que sugere que José Carlos Fernandes será apenas o testa-de-ferro de uma equipa de argumentistas e desenhadores sediada em Chongjin, na Coreia do Norte, cujo objectivo é provocar a derrocada da civilização ocidental.

Refira-se ainda que, nos últimos meses, alguns dos raros coleccionadores que possuiam exemplares da primeira edição de "Um Catálogo de Sonhos" faleceram durante o sono, devido a causas não apuradas, e que os ditos exemplares desapareceram sem deixar rasto.»


Um Catálogo de Sonhos, de José Carlos Fernandes, editado pela Devir, 2004, pvp: 8,00€


«- Não respondeu à minha pergunta...
- As suas perguntas são estranhas...
- Suponho que sim... as perguntas de quem só se lembra do seu próprio nome devem parecer estranhas aos outros...»

O pilha saúda efusivamente mais uma reedição dum livro de José Carlos Fernandes.

domingo, fevereiro 06, 2005

Obras Completas I. Escritos autobiográficos y cartas - Edith Stein (um ano de pilha vol.6)

Primeiro de cinco volumes que reunirão os escritos de Edith Stein (ou freira carmelita Santa Teresa Benedita da Cruz, a filósofa alemã que em 1933, aos 42 anos, entrou para o convento Carmelo de Colónia), esta obra foi editada recentemente pela Editorial Monte Carmelo, de Espanha.

Cláudia Silva já aqui deixou uma das suas escolhas, Sharon e a minha sogra, mas refere-se a este livro que agora aqui apresentamos como o mais importante de 2004: "O relato comovente da filósofa e assistente de Husserl, os seus anos na universidade... Infelizmente, os editores portugueses não parecem muito interessados na filósofa que se tornou carmelita."

Foi por isso uma agradável surpresa ver o destaque dado a Edith Stein no Mil Folhas desta semana:
«Uma freira carmelita, companheira de Edith Stein, resume o que distingue esta judia que depois se fez baptizar como católica e professou como carmelita: "Na vida de Edith Stein, o homem moderno vê reflectido o seu próprio destino, com as suas revoluções ideológicas, com o seu afastamento de Deus, a sua ânsia de verdade e amor redentor de Deus", escreve Theresia a Matre Dei, en "Edith Stein - En Busca de Dios".»


O artigo refere a bibliografia da autora disponível em Portugal, assim como uma biografia publicada em Itália:
- As mais belas páginas de Edite Stein / Edições Carmelo / 112 págs. / 4,00€
- Edite Stein: modelo de mulher cristã / de F. Javier Sancho Fermín / Edições Carmelo / 128 págs. / 4,00€
- Edith Stein - Uma síntese dramática do séc. XX / de Mário Vaz / Edições Carmelo / 168 págs. / 6,00€
- Edith Stein - Imolação por Amor / de Eduardo Gil de Muro / editora Apostolato da Oração (Braga) / 184 págs.
- Edith Stein - La passione per la verità / de Angela Ales Bello / Edizioni Messaggero Padova / 144 págs. / 11,00€

Ao que podemos acrescentar "O Mistério do Natal", editado pela Rei dos Livros em 1999, com 70 páginas e um pvp de 5,24€.



Obras Completas I. Escritos autobiográficos y cartas, de Edith Stein (org. Julen Urkiza e F. Javier Sancho), da Monte Carmelo, 1766 págs., pvp: 63,50€



Ainda do Mil Folhas:
«Nos seus escritos, Edith evidencia a sua recusa absoluta do nazismo mas recusa, como Etty Hillesum, uma lógica de vingança: "O amor, na sua máxima realização, abarca o conhecimento. É ao mesmo tempo passivo e acto livre. (...) O amor é o mais livre que há, porque não dispõe só de uma emoção isolada, mas do conjunto do próprio eu, da própria pessoa... o amor deve ser sempre o dom de si, para que seja um amor autêntico."»

sábado, janeiro 29, 2005

Budapeste - Chico Buarque (um ano de pilha vol.5)

«Kriska se despiu inesperadamente, e eu nunca tinha visto corpo tão branco em minha vida. Era tão branca toda a sua pele que eu não saberia como pegá-la, onde instalar as minhas mãos. Branca, branca, branca, eu dizia, bela, bela, bela, era pobre o meu vocabulário. Depois de contemplá-la um tanto, desejei apenas roçar seus seios, seus pequenos mamilos rosados, mas eu ainda não tinha aprendido a pedir as coisas. Nem ousaria dar um passo sem o seu consentimento, sendo Kriska uma amante da disciplina. Nas primeiras aulas me fazia passar sede, porque eu falava água, água, água, sem acertar a prosódia. Os pães de abóbora, um dia trouxe à sala uma fornada deles, passou-os fumegantes sob o meu nariz e jogou tudo fora, porque eu não soube denominá-los. Mas antes de fixar e de pronunciar direito as palavras de um idioma, é claro que a gente já começa a distingui-las, capta seu sentido: mesa, café, telefone, distraída, amarelo, suspirar, espaguete à bolonhesa, janela, peteca, alegria, um, dois, três, nove, dez, música, vinho, vestido de algodão, cócegas, maluco, e um dia descobri que Kriska gostava de ser beijada no cangote. Aí ela tirou pela cabeça o vestido tipo maria-mijona, não tinha nada por baixo, e fiquei desnorteado com tamanha brancura. Por um segundo imaginei que ela não fosse uma mulher para se tocar aqui ou ali, mas que me desafiasse a tocar de uma só vez a pele inteira. Até receei que naquele segundo ela dissesse: me possui, me faz o amor, me come, me fode, me estraçalha, como será que as húngaras dizem essas coisas? Mas ela ficou quieta, o olhar perdido, não sei se comovida pelo meu olhar passeando no seu corpo, ou pelo meu falar pausado no idioma dela, branca, bela, bela, branca, branca, bela, branca. E eu também me comovia, sabendo que em breve conheceria suas intimidades e, com igual ou maior volúpia, o nome delas.» págs. 41 e 42

Estava a ler esta passagem, e logo me veio à memória outra amante, colombiana, que inaugurou esta antologia.

José Costa é um homem dividido entre duas línguas, o português e o húngaro. Entre o Rio de Janeiro onde José vive com Vanda e é um escritor fantasma (daqueles que tanto escrevem auto-biografias como discursos), e Budapeste, onde é um homem à procura de algo para o qual não encontra palavras.

Assim como nós, divididos entre duas línguas, a do português de Chico Buarque, em que o livro está escrito, e o português deste lado do Atlântico, que estranha "telefone celular", "boteco" e "debochar".

«Viajei trinta horas com o pensamento em branco, e quando pedi para dormir em casa, a Vanda nada me perguntou, me serviu uma sopa e alinhou meus cabelos. Foi aí que, despojado de amor-próprio, engravidei a Vanda.
Já com uma barriguinha e cheia de caprichos, a Vanda resolveu programar nossa sempre adiada lua-de-mel. Seria em Nova Iorque, durante seu mês de férias na televisão, mas eu estava sem graça de pedir nova licença ao Álvaro. A Vanda bateu pé, me meteu em brios, me fez ver que eu não era um empregado dele, era seu sócio quase meio a meio. Sentei-me com o Álvaro, mostrei-lhe meu novo laptop, falei da inflexibilidade das mulheres em geral, no fim das contas ele me deixou à vontade para viajar, até ficou de me dar um guia de bons endereços em Manhattan. E aproveitou para dizer que dentro em pouco, se eu não me importasse, ele provavelmente iria terceirizar algumas das minhas tarefas. Só fui entender direito esse negócio na volta da lua-de-mel, ao encontrar um jovem redator instalado numa mesa defronte à minha, e meia dúzia de artigos seus enquadrados nas paredes.» pág. 25

Uma vez uma amiga minha disse-me que preferia ler contos porque não gostava de todo o processo de construção das personagens. Esta história parece um imenso conto, no qual Chico Buarque apenas introduz na narrativa os episódios que a fazem avançar no caminho que José Costa tem de percorrer.

«Naquele momento talvez se mortificasse por não estar de mãos dadas comigo, levantando vôo para Budapeste. Ignorava que para Budapeste, no fundo, penso que não a convidaria, se não estivesse seguro de que voaria só.» pág. 38


Budapeste, de Chico Buarque, da Dom Quixote, 3ª edição de Novembro de 2004 (1ª edição de Fevereiro de 2004), 135 págs., pvp: 11 €.

A minha leitura de "Budapeste" vai a meio, e estou a adorar. Quem o leu até ao fim foi a leitora (que antes de o ser já o era), que o elegeu como um dos melhores de 2004. Visitante habitual do pilha, a leitora é uma das participantes do blog Leitura Partilhada.

quarta-feira, janeiro 26, 2005

Sharon e a minha sogra - Suad Amiry (um ano de pilha vol.4)

«3 de Abril, 2002
A destruição do centro histórico de Nablus


Estava deitada no sofá da sala de estar, a desfrutar do sossego da hora da sesta da minha sogra. Estava totalmente absorvida pelo estúdio de Vermeer, na minha leitura do Rapariga com Brinco de Pérola, quando olhei de relance para o ecrã de televisão.

Ah... fiquei tão desanimada ao ver, mais uma vez, o símbolo de khabar 'ajel (notícias de última hora) a aparecer no canal de TV. Surge no ecrã o rosto pálido e exausto de Walid al-Omari, correspondente principal de Al-Jazeera, a falar da cidade cercada de Ramallah.

«Crê-se que pelo menos treze pessoas da família Shu'bi tenham falecido sob os escombros da sua casa no bairro de al-Yasmineh, no centro histórico de Nablus. Os seus vizinhos têm andado desesperadamente a tentar resgatá-los, apesar do recolher obrigatório imposto à cidade há já oito dias.» No mesmo tom de seriedade, al-Omari continua:
«Já é o oitavo dia consecutivo de confrontos violentos no centro histórico de Nablus. A resistência armada palestiniana tem conseguido, até agora, impedir o Exército Israelita de avançar pelas vielas estreitas da zona antiga da cidade. Julga-se que terão morrido muitos civis, bem como combatentes palestinianos. Os caças israelitas têm bombardeado a parte antiga da cidade e, por conseguinte, muitos dos edifícios históricos já desabaram. Entre estes encontra-se o Caravan Sari otomano do século XVIII, que as gentes locais denominam al-wakalh al-farroukkyyeh. As fábricas de sabão de Canaã e Nablus foram demolidas para que os tanques israelitas possam passar pelas vielas estreitas do centro histórico de Nablus. A Igreja Ortodoxa, bem como a Mesquita al-Naser, sofreram grandes danos.»

(...)

Comecei a imaginar aquelas belas pirâmides de sabão, de que me recordo desde a infância, a voar pelo ar ao serem atingidas pelos F16. Aqueles cubos de sabão natural, que outrora fizeram parte das composições artísticas mais belas de sempre, e os cubos de pedra históricos, que agora fazem parte de um monte de escombros.

De repente lembrei-me que era nas treze pessoas, presas debaixo dos escombros, todas da mesma família, a família al-Shu'bi, que eu devia estar a pensar. Senti-me bastante envergonhada.

Limpei, com as costas da mão, o nariz e as lágrimas que me caíam pela cara abaixo, e voltei a sentar-me no sofá da sala de estar para ver o resto do noticiário.

O Exército Israelita tinha demolido um total de quatrocentas e vinte aldeias palestinianas; Saris, Bayt Jibrin, Bayt Nattif, 'Allar, Qalunya, al-Walaja, 'Emoas... bem como o bairro de al-Manshyyeh em Jafa, o bairro marroquino na zona antiga de Jerusalém, centenas de casas «clandestinas» na zona leste de Jerusalém, dezenas de casas em Khan Younis, centenas de milhares de oliveiras e palmeiras, agora o bairro al-yasmineh em Nablus e amanhã, quem sabe, o centro histórico da cidade de Hebron.

Sharon, estás a trazer-nos à memória os nossos piores pesadelos.» págs.77 a 79

O quotidiano e as recordações de uma arquitecta e professora universitária palestiniana durante a ocupação israelita ou como, por mais telejornais que vejamos, a nossa compreensão do que se passa não chega a traduzir-se numa compreensão efectiva do que realmente significa viver naquelas circunstâncias.

Sharon e a minha sogra, de Suad Amiry (trad. Sofia Slotboom), da Ambar, Setembro 2004, 119 págs., pvp: 10,82€. Capa da edição italiana, na Giangiacomo Feltrinelli Editore, muito semelhante à da edição portuguesa.


Uma das escolhas do ano para Cláudia Silva, colega de profissão e (espera-se) futura colaboradora regular do pilha, este "Sharon e a minha sogra" é um diário de guerra contado na primeira pessoa, ao mesmo tempo que nos deparamos com as cicatrizes que marcam aquela região há já tantos anos.

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Comemorações

E assim como quem não quer a coisa, por entre comemorações de um ano de vida, chegámos às 5 mil visitas.

Meus caros amigos, apenas uma frase:

Venham mais cinco :)