"(...) Creio que havíeis de gostar do Castanheiro que encontrei, ao dar um passeio. Inesperadamente, chamou a minha atenção - e pensei que os Céus estavam em flor.
Há também, no Pomar, um barulho, que não faz barulho - que eu dou a ouvir às pessoas -(...)
Emily Dickinson, carta a T.W.Higginson, Agosto de 1862
...e também não é por roubar um pássaro ou um livro, que logo dá aos amigos, que o Alba tem as mãos sujas. chartapaciu@gmail.com
quinta-feira, março 31, 2005
quarta-feira, março 30, 2005
Feira à vista!
Já há datas para a Feira do Livro de Lisboa (de 25 de Maio a 13 de Junho) e para a Feira do Livro do Porto (de 25 de Maio a 12 de Junho). Ambas começam numa Quarta-feira, com a Feira do Porto a terminar num Domingo, e Lisboa a gozar o Feriado Municipal para ver a Feira prolongar-se por mais um dia.
Se não nos virmos antes, até lá :)
Se não nos virmos antes, até lá :)
terça-feira, março 29, 2005
A Sombra do Vento - Carlos Ruiz Zafón
O Bairro do Amor e as Panascas de Bacalhau deram o mote. Aqui fica uma série de pistas para descobrir ou melhor explorar o mundo de A Sombra do Vento.
Panascas de Bacalhau: "(...) há livros que são um corpo, uma história que nos aprisiona de onde não se conseguem retirar palavras ou frases, por se sentir que essa separação prejudicaria a história."
O Bairro do Amor: "Não quero desvendar muito da história, por isso adianto apenas que envolve um escritor desaparecido, um livro amaldiçoado, identidades dúbias, perseguições e inevitavelmente desencontros amorosos, intrigas e muito mistério."
Objetiva: "A Sombra do Vento é uma narrativa de ritmo eletrizante, escrita em uma prosa ora poética, ora irônica. O enredo mistura gêneros como o romance de aventuras de Alexandre Dumas, a novela gótica de Edgar Allan Poe e os folhetins amorosos de Victor Hugo. Ambientado na Barcelona franquista da primeira metade do século XX, entre os últimos raios de luz do modernismo e as trevas do pós-guerra, o romance de Zafón é uma obra sedutora, comovente e impossível de largar. Além de ser uma grandiosa homenagem ao poder místico dos livros, é um verdadeiro triunfo da arte de contar histórias."
"Girando la trama del texto en torno al hallazgo de un libro olvidado, las concomitancias con `El nombre de la rosa´, uno de los grandes éxitos editoriales de los años 80 son innegables. Pero eso no cuenta. En opinión de Rosales, el éxito se debe “al acierto con el que se ha aproximado a temas universales como el amor el misterio o la pérdida de la inocencia”. Se trata al cabo de cómo se nos cuenta, no de qué se nos cuenta. “La sombra del viento” es una celebración de la narración que entusiasma a los lectores. “Estamos ante un relato apasionante” escribe uno de ellos, David Pelegrín, en las críticas que los lectores mandan a la página Web de la Casa del libro."
"'La sombra del viento', con millón y medio de copias vendidas en todo el mundo, se sitúa en la Barcelona de los años 50 y tiene como protagonista a un niño que se convierte en adulto al tiempo que investiga una novela recuperada del Cementerio de los Libros."

Página oficial do livro, com entrada directa numa busca pelos cinco últimos exemplares de "A Sombra do Vento"...

A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón, publicado pela Dom Quixote (2004), pvp: 22€.
P.S.: Agora sim, de volta. Sejam bem-vindos.
Panascas de Bacalhau: "(...) há livros que são um corpo, uma história que nos aprisiona de onde não se conseguem retirar palavras ou frases, por se sentir que essa separação prejudicaria a história."
O Bairro do Amor: "Não quero desvendar muito da história, por isso adianto apenas que envolve um escritor desaparecido, um livro amaldiçoado, identidades dúbias, perseguições e inevitavelmente desencontros amorosos, intrigas e muito mistério."
Objetiva: "A Sombra do Vento é uma narrativa de ritmo eletrizante, escrita em uma prosa ora poética, ora irônica. O enredo mistura gêneros como o romance de aventuras de Alexandre Dumas, a novela gótica de Edgar Allan Poe e os folhetins amorosos de Victor Hugo. Ambientado na Barcelona franquista da primeira metade do século XX, entre os últimos raios de luz do modernismo e as trevas do pós-guerra, o romance de Zafón é uma obra sedutora, comovente e impossível de largar. Além de ser uma grandiosa homenagem ao poder místico dos livros, é um verdadeiro triunfo da arte de contar histórias."
"Girando la trama del texto en torno al hallazgo de un libro olvidado, las concomitancias con `El nombre de la rosa´, uno de los grandes éxitos editoriales de los años 80 son innegables. Pero eso no cuenta. En opinión de Rosales, el éxito se debe “al acierto con el que se ha aproximado a temas universales como el amor el misterio o la pérdida de la inocencia”. Se trata al cabo de cómo se nos cuenta, no de qué se nos cuenta. “La sombra del viento” es una celebración de la narración que entusiasma a los lectores. “Estamos ante un relato apasionante” escribe uno de ellos, David Pelegrín, en las críticas que los lectores mandan a la página Web de la Casa del libro."
"'La sombra del viento', con millón y medio de copias vendidas en todo el mundo, se sitúa en la Barcelona de los años 50 y tiene como protagonista a un niño que se convierte en adulto al tiempo que investiga una novela recuperada del Cementerio de los Libros." 
Página oficial do livro, com entrada directa numa busca pelos cinco últimos exemplares de "A Sombra do Vento"...

A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón, publicado pela Dom Quixote (2004), pvp: 22€.
P.S.: Agora sim, de volta. Sejam bem-vindos.
quinta-feira, março 03, 2005
quarta-feira, fevereiro 16, 2005
A Noite do Oráculo - Paul Auster (um ano de pilha vol.7)
«Se decidi atravessar a rua e entrar na loja, deve ter sido porque, secretamente, queria recomeçar a trabalhar - sem o saber, sem ter consciência da fome que se tinha vindo a acumular dentro de mim. Não tinha escrito nada desde que saíra do hospital em Maio - nem uma só frase, nem uma só palavra - e não sentira a menor inclinação nesse sentido. E eis que agora, sem mais nem menos, ao fim de quatro meses de apatia e silêncio, metia na cabeça que tinha de abastecer-me de um sortido completo de artigos novinhos em folha: canetas e lápis novos, um caderno novo, borrachas novas, cargas novas para as canetas, pastas e blocos novos, enfim, tudo novo.
(...)
Fosse porque o trânsito na Court Street teria parado nesse preciso momento, ou o porque o vidro laminado da montra seria extremamente espesso, a verdade é que, quando meti pelo primeiro corredor a fim de esquadrinhar a loja, apercebi-me subitamente da tranquilidade que ali reinava. Eu era o primeiro cliente do dia e o silêncio era tão denso, tão pronunciado, que conseguia ouvir a lapiseira do homem arranhando o papel atrás de mim. Hoje, quando me ponho a pensar naquela manhã, o som da lapiseira é sempre a primeira coisa que me ocorre. Admitindo que a história que vou contar faz algum sentido, estou em crer que foi aí que ela começou - no espaço daqueles breves segundos, quando o único som que restava no mundo era o som daquela lapiseira arranhando o papel.» págs. 9 e 10
O mestre da narrativa "matrioska" regressa com mais uma obra que fala de escritores, de editores, de pessoas que vivem de e para os livros. Mais uma vez os enredos e as circunstâncias são intrigantes e engenhosos.
Cada página representa uma porta, e cada porta sugere outra porta, fechadas umas, entreabertas outras, a despertar a curiosidade.
Os ambientes escorrem mistério e sortilégio. Os personagens são prova de um profundo conhecimento da natureza humana.
A escrita tem uma qualidade irrepreensível, que a tradução não afecta.
A leitura é aconselhada.
«Engoli os quatro comprimidos que tomava todas as manhãs ao pequeno-almoço, bebi algum café, comi uns bocados de torrada, e, depois, encaminhei-me até ao fundo do corredor e abri a porta do quarto de trabalho. A minha ideia era continuar com a história até à hora de almoço. Nessa altura, sairia e faria uma nova visita à loja de Chang - não só para procurar a fita adesiva de Grace, mas também para comprar os cadernos portugueses que ainda houvesse na loja, fosse qual fosse a cor da capa. Não tinha a menor importância se não fossem azuis. Preto, vermelho e castanho serviam perfeitamente, e eu queria ter o maior número possível de cadernos à minha disposição. Não para já, talvez, mas para ficar com uma reserva para futuros projectos, e, quanto mais adiasse o meu regresso à loja de Chang, maiores eram as hipóteses de que os cadernos desaparecessem.
Até então, escrever no caderno azul não me proporcionara outra coisa senão prazer, uma sensação louca, sublime, de plenitude. As palavras saíam de mim como se eu estivesse a fazer um ditado, a transcrever frases ditas por uma voz que falava na linguagem cristalina dos sonhos, dos pesadelos, dos pensamentos libertos de toda e qualquer peia. Contudo, na manhã do dia 20 de Setembro, dois dias após o dia em questão, essa voz calou-se subitamente. Abri o caderno e, quando olhei para a página que tinha à minha frente, dei-me conta de que estava perdido, de que já não sabia o que estava a fazer.» pág.93

A Noite do Oráculo, de Paul Auster (trad. José Vieira de Lima), da Asa, 201 págs., pvp: 15,00 €
Astianax volta a escrever sobre os seus livros do ano, desta vez convidando-nos a entrar no mundo de Paul Auster.
Links:
site oficial do autor
Oracle Night
Paul Auster Meetup Groups
Lisboa Paul Auster Meetup Group
Book Reviews
Book Reporter
Claque
DN Online
(...)
Fosse porque o trânsito na Court Street teria parado nesse preciso momento, ou o porque o vidro laminado da montra seria extremamente espesso, a verdade é que, quando meti pelo primeiro corredor a fim de esquadrinhar a loja, apercebi-me subitamente da tranquilidade que ali reinava. Eu era o primeiro cliente do dia e o silêncio era tão denso, tão pronunciado, que conseguia ouvir a lapiseira do homem arranhando o papel atrás de mim. Hoje, quando me ponho a pensar naquela manhã, o som da lapiseira é sempre a primeira coisa que me ocorre. Admitindo que a história que vou contar faz algum sentido, estou em crer que foi aí que ela começou - no espaço daqueles breves segundos, quando o único som que restava no mundo era o som daquela lapiseira arranhando o papel.» págs. 9 e 10
O mestre da narrativa "matrioska" regressa com mais uma obra que fala de escritores, de editores, de pessoas que vivem de e para os livros. Mais uma vez os enredos e as circunstâncias são intrigantes e engenhosos.
Cada página representa uma porta, e cada porta sugere outra porta, fechadas umas, entreabertas outras, a despertar a curiosidade.
Os ambientes escorrem mistério e sortilégio. Os personagens são prova de um profundo conhecimento da natureza humana.
A escrita tem uma qualidade irrepreensível, que a tradução não afecta.
A leitura é aconselhada.
«Engoli os quatro comprimidos que tomava todas as manhãs ao pequeno-almoço, bebi algum café, comi uns bocados de torrada, e, depois, encaminhei-me até ao fundo do corredor e abri a porta do quarto de trabalho. A minha ideia era continuar com a história até à hora de almoço. Nessa altura, sairia e faria uma nova visita à loja de Chang - não só para procurar a fita adesiva de Grace, mas também para comprar os cadernos portugueses que ainda houvesse na loja, fosse qual fosse a cor da capa. Não tinha a menor importância se não fossem azuis. Preto, vermelho e castanho serviam perfeitamente, e eu queria ter o maior número possível de cadernos à minha disposição. Não para já, talvez, mas para ficar com uma reserva para futuros projectos, e, quanto mais adiasse o meu regresso à loja de Chang, maiores eram as hipóteses de que os cadernos desaparecessem.
Até então, escrever no caderno azul não me proporcionara outra coisa senão prazer, uma sensação louca, sublime, de plenitude. As palavras saíam de mim como se eu estivesse a fazer um ditado, a transcrever frases ditas por uma voz que falava na linguagem cristalina dos sonhos, dos pesadelos, dos pensamentos libertos de toda e qualquer peia. Contudo, na manhã do dia 20 de Setembro, dois dias após o dia em questão, essa voz calou-se subitamente. Abri o caderno e, quando olhei para a página que tinha à minha frente, dei-me conta de que estava perdido, de que já não sabia o que estava a fazer.» pág.93

A Noite do Oráculo, de Paul Auster (trad. José Vieira de Lima), da Asa, 201 págs., pvp: 15,00 €
Astianax volta a escrever sobre os seus livros do ano, desta vez convidando-nos a entrar no mundo de Paul Auster.
Links:
site oficial do autor
Oracle NightPaul Auster Meetup Groups
Lisboa Paul Auster Meetup Group
Book Reviews
Book Reporter
Claque
DN Online
sexta-feira, fevereiro 11, 2005
UM CATÁLOGO DE SONHOS - José Carlos Fernandes
«"Um Catálogo de Sonhos" foi realizado em 1995 e publicado pela Pedranocharco em 1996, mas muito poucos exemplares foram vistos em circulação - há quem atribua este desaparecimento inopinado dos livros à mão dos Illuminati da Baviera. Outras teorias defendem que foi a CIA que procedeu à aquisição e destruição de (praticamente) toda a edição. Esta segunda hipótese ganhou mais credibilidade recentemente, com a divulgação de um relatório confidencial dos serviços secretos norte-americanos que sugere que José Carlos Fernandes será apenas o testa-de-ferro de uma equipa de argumentistas e desenhadores sediada em Chongjin, na Coreia do Norte, cujo objectivo é provocar a derrocada da civilização ocidental.
Refira-se ainda que, nos últimos meses, alguns dos raros coleccionadores que possuiam exemplares da primeira edição de "Um Catálogo de Sonhos" faleceram durante o sono, devido a causas não apuradas, e que os ditos exemplares
desapareceram sem deixar rasto.»
Um Catálogo de Sonhos, de José Carlos Fernandes, editado pela Devir, 2004, pvp: 8,00€
«- Não respondeu à minha pergunta...
- As suas perguntas são estranhas...
- Suponho que sim... as perguntas de quem só se lembra do seu próprio nome devem parecer estranhas aos outros...»
O pilha saúda efusivamente mais uma reedição dum livro de José Carlos Fernandes.
Refira-se ainda que, nos últimos meses, alguns dos raros coleccionadores que possuiam exemplares da primeira edição de "Um Catálogo de Sonhos" faleceram durante o sono, devido a causas não apuradas, e que os ditos exemplares
desapareceram sem deixar rasto.»Um Catálogo de Sonhos, de José Carlos Fernandes, editado pela Devir, 2004, pvp: 8,00€
«- Não respondeu à minha pergunta...
- As suas perguntas são estranhas...
- Suponho que sim... as perguntas de quem só se lembra do seu próprio nome devem parecer estranhas aos outros...»
O pilha saúda efusivamente mais uma reedição dum livro de José Carlos Fernandes.
domingo, fevereiro 06, 2005
Obras Completas I. Escritos autobiográficos y cartas - Edith Stein (um ano de pilha vol.6)
Primeiro de cinco volumes que reunirão os escritos de Edith Stein (ou freira carmelita Santa Teresa Benedita da Cruz, a filósofa alemã que em 1933, aos 42 anos, entrou para o convento Carmelo de Colónia), esta obra foi editada recentemente pela Editorial Monte Carmelo, de Espanha.
Cláudia Silva já aqui deixou uma das suas escolhas, Sharon e a minha sogra, mas refere-se a este livro que agora aqui apresentamos como o mais importante de 2004: "O relato comovente da filósofa e assistente de Husserl, os seus anos na universidade... Infelizmente, os editores portugueses não parecem muito interessados na filósofa que se tornou carmelita."
Foi por isso uma agradável surpresa ver o destaque dado a Edith Stein no Mil Folhas desta semana:
«Uma freira carmelita, companheira de Edith Stein, resume o que distingue esta judia que depois se fez baptizar como católica e professou como carmelita: "Na vida de Edith Stein, o homem moderno vê reflectido o seu próprio destino, com as suas revoluções ideológicas, com o seu afastamento de Deus, a sua ânsia de verdade e amor redentor de Deus", escreve Theresia a Matre Dei, en "Edith Stein - En Busca de Dios".»
O artigo refere a bibliografia da autora disponível em Portugal, assim como uma biografia publicada em Itália:
- As mais belas páginas de Edite Stein / Edições Carmelo / 112 págs. / 4,00€
- Edite Stein: modelo de mulher cristã / de F. Javier Sancho Fermín / Edições Carmelo / 128 págs. / 4,00€
- Edith Stein - Uma síntese dramática do séc. XX / de Mário Vaz / Edições Carmelo / 168 págs. / 6,00€
- Edith Stein - Imolação por Amor / de Eduardo Gil de Muro / editora Apostolato da Oração (Braga) / 184 págs.
- Edith Stein - La passione per la verità / de Angela Ales Bello / Edizioni Messaggero Padova / 144 págs. / 11,00€
Ao que podemos acrescentar "O Mistério do Natal", editado pela Rei dos Livros em 1999, com 70 páginas e um pvp de 5,24€.
Obras Completas I. Escritos autobiográficos y cartas, de Edith Stein (org. Julen Urkiza e F. Javier Sancho), da Monte Carmelo, 1766 págs., pvp: 63,50€
Ainda do Mil Folhas:
«Nos seus escritos, Edith evidencia a sua recusa absoluta do nazismo mas recusa, como Etty Hillesum, uma lógica de vingança: "O amor, na sua máxima realização, abarca o conhecimento. É ao mesmo tempo passivo e acto livre. (...) O amor é o mais livre que há, porque não dispõe só de uma emoção isolada, mas do conjunto do próprio eu, da própria pessoa... o amor deve ser sempre o dom de si, para que seja um amor autêntico."»
Cláudia Silva já aqui deixou uma das suas escolhas, Sharon e a minha sogra, mas refere-se a este livro que agora aqui apresentamos como o mais importante de 2004: "O relato comovente da filósofa e assistente de Husserl, os seus anos na universidade... Infelizmente, os editores portugueses não parecem muito interessados na filósofa que se tornou carmelita."
Foi por isso uma agradável surpresa ver o destaque dado a Edith Stein no Mil Folhas desta semana:
«Uma freira carmelita, companheira de Edith Stein, resume o que distingue esta judia que depois se fez baptizar como católica e professou como carmelita: "Na vida de Edith Stein, o homem moderno vê reflectido o seu próprio destino, com as suas revoluções ideológicas, com o seu afastamento de Deus, a sua ânsia de verdade e amor redentor de Deus", escreve Theresia a Matre Dei, en "Edith Stein - En Busca de Dios".»
O artigo refere a bibliografia da autora disponível em Portugal, assim como uma biografia publicada em Itália:
- As mais belas páginas de Edite Stein / Edições Carmelo / 112 págs. / 4,00€
- Edite Stein: modelo de mulher cristã / de F. Javier Sancho Fermín / Edições Carmelo / 128 págs. / 4,00€
- Edith Stein - Uma síntese dramática do séc. XX / de Mário Vaz / Edições Carmelo / 168 págs. / 6,00€
- Edith Stein - Imolação por Amor / de Eduardo Gil de Muro / editora Apostolato da Oração (Braga) / 184 págs.
- Edith Stein - La passione per la verità / de Angela Ales Bello / Edizioni Messaggero Padova / 144 págs. / 11,00€
Ao que podemos acrescentar "O Mistério do Natal", editado pela Rei dos Livros em 1999, com 70 páginas e um pvp de 5,24€.
Obras Completas I. Escritos autobiográficos y cartas, de Edith Stein (org. Julen Urkiza e F. Javier Sancho), da Monte Carmelo, 1766 págs., pvp: 63,50€
Ainda do Mil Folhas:
«Nos seus escritos, Edith evidencia a sua recusa absoluta do nazismo mas recusa, como Etty Hillesum, uma lógica de vingança: "O amor, na sua máxima realização, abarca o conhecimento. É ao mesmo tempo passivo e acto livre. (...) O amor é o mais livre que há, porque não dispõe só de uma emoção isolada, mas do conjunto do próprio eu, da própria pessoa... o amor deve ser sempre o dom de si, para que seja um amor autêntico."»
sábado, janeiro 29, 2005
Budapeste - Chico Buarque (um ano de pilha vol.5)
«Kriska se despiu inesperadamente, e eu nunca tinha visto corpo tão branco em minha vida. Era tão branca toda a sua pele que eu não saberia como pegá-la, onde instalar as minhas mãos. Branca, branca, branca, eu dizia, bela, bela, bela, era pobre o meu vocabulário. Depois de contemplá-la um tanto, desejei apenas roçar seus seios, seus pequenos mamilos rosados, mas eu ainda não tinha aprendido a pedir as coisas. Nem ousaria dar um passo sem o seu consentimento, sendo Kriska uma amante da disciplina. Nas primeiras aulas me fazia passar sede, porque eu falava água, água, água, sem acertar a prosódia. Os pães de abóbora, um dia trouxe à sala uma fornada deles, passou-os fumegantes sob o meu nariz e jogou tudo fora, porque eu não soube denominá-los. Mas antes de fixar e de pronunciar direito as palavras de um idioma, é claro que a gente já começa a distingui-las, capta seu sentido: mesa, café, telefone, distraída, amarelo, suspirar, espaguete à bolonhesa, janela, peteca, alegria, um, dois, três, nove, dez, música, vinho, vestido de algodão, cócegas, maluco, e um dia descobri que Kriska gostava de ser beijada no cangote. Aí ela tirou pela cabeça o vestido tipo maria-mijona, não tinha nada por baixo, e fiquei desnorteado com tamanha brancura. Por um segundo imaginei que ela não fosse uma mulher para se tocar aqui ou ali, mas que me desafiasse a tocar de uma só vez a pele inteira. Até receei que naquele segundo ela dissesse: me possui, me faz o amor, me come, me fode, me estraçalha, como será que as húngaras dizem essas coisas? Mas ela ficou quieta, o olhar perdido, não sei se comovida pelo meu olhar passeando no seu corpo, ou pelo meu falar pausado no idioma dela, branca, bela, bela, branca, branca, bela, branca. E eu também me comovia, sabendo que em breve conheceria suas intimidades e, com igual ou maior volúpia, o nome delas.» págs. 41 e 42
Estava a ler esta passagem, e logo me veio à memória outra amante, colombiana, que inaugurou esta antologia.
José Costa é um homem dividido entre duas línguas, o português e o húngaro. Entre o Rio de Janeiro onde José vive com Vanda e é um escritor fantasma (daqueles que tanto escrevem auto-biografias como discursos), e Budapeste, onde é um homem à procura de algo para o qual não encontra palavras.
Assim como nós, divididos entre duas línguas, a do português de Chico Buarque, em que o livro está escrito, e o português deste lado do Atlântico, que estranha "telefone celular", "boteco" e "debochar".
«Viajei trinta horas com o pensamento em branco, e quando pedi para dormir em casa, a Vanda nada me perguntou, me serviu uma sopa e alinhou meus cabelos. Foi aí que, despojado de amor-próprio, engravidei a Vanda.
Já com uma barriguinha e cheia de caprichos, a Vanda resolveu programar nossa sempre adiada lua-de-mel. Seria em Nova Iorque, durante seu mês de férias na televisão, mas eu estava sem graça de pedir nova licença ao Álvaro. A Vanda bateu pé, me meteu em brios, me fez ver que eu não era um empregado dele, era seu sócio quase meio a meio. Sentei-me com o Álvaro, mostrei-lhe meu novo laptop, falei da inflexibilidade das mulheres em geral, no fim das contas ele me deixou à vontade para viajar, até ficou de me dar um guia de bons endereços em Manhattan. E aproveitou para dizer que dentro em pouco, se eu não me importasse, ele provavelmente iria terceirizar algumas das minhas tarefas. Só fui entender direito esse negócio na volta da lua-de-mel, ao encontrar um jovem redator instalado numa mesa defronte à minha, e meia dúzia de artigos seus enquadrados nas paredes.» pág. 25
Uma vez uma amiga minha disse-me que preferia ler contos porque não gostava de todo o processo de construção das personagens. Esta história parece um imenso conto, no qual Chico Buarque apenas introduz na narrativa os episódios que a fazem avançar no caminho que José Costa tem de percorrer.
«Naquele momento talvez se mortificasse por não estar de mãos dadas comigo, levantando vôo para Budapeste. Ignorava que para Budapeste, no fundo, penso que não a convidaria, se não estivesse seguro de que voaria só.» pág. 38
Budapeste, de Chico Buarque, da Dom Quixote, 3ª edição de Novembro de 2004 (1ª edição de Fevereiro de 2004), 135 págs., pvp: 11 €.
A minha leitura de "Budapeste" vai a meio, e estou a adorar. Quem o leu até ao fim foi a leitora (que antes de o ser já o era), que o elegeu como um dos melhores de 2004. Visitante habitual do pilha, a leitora é uma das participantes do blog Leitura Partilhada.
Estava a ler esta passagem, e logo me veio à memória outra amante, colombiana, que inaugurou esta antologia.
José Costa é um homem dividido entre duas línguas, o português e o húngaro. Entre o Rio de Janeiro onde José vive com Vanda e é um escritor fantasma (daqueles que tanto escrevem auto-biografias como discursos), e Budapeste, onde é um homem à procura de algo para o qual não encontra palavras.
Assim como nós, divididos entre duas línguas, a do português de Chico Buarque, em que o livro está escrito, e o português deste lado do Atlântico, que estranha "telefone celular", "boteco" e "debochar".
«Viajei trinta horas com o pensamento em branco, e quando pedi para dormir em casa, a Vanda nada me perguntou, me serviu uma sopa e alinhou meus cabelos. Foi aí que, despojado de amor-próprio, engravidei a Vanda.
Já com uma barriguinha e cheia de caprichos, a Vanda resolveu programar nossa sempre adiada lua-de-mel. Seria em Nova Iorque, durante seu mês de férias na televisão, mas eu estava sem graça de pedir nova licença ao Álvaro. A Vanda bateu pé, me meteu em brios, me fez ver que eu não era um empregado dele, era seu sócio quase meio a meio. Sentei-me com o Álvaro, mostrei-lhe meu novo laptop, falei da inflexibilidade das mulheres em geral, no fim das contas ele me deixou à vontade para viajar, até ficou de me dar um guia de bons endereços em Manhattan. E aproveitou para dizer que dentro em pouco, se eu não me importasse, ele provavelmente iria terceirizar algumas das minhas tarefas. Só fui entender direito esse negócio na volta da lua-de-mel, ao encontrar um jovem redator instalado numa mesa defronte à minha, e meia dúzia de artigos seus enquadrados nas paredes.» pág. 25
Uma vez uma amiga minha disse-me que preferia ler contos porque não gostava de todo o processo de construção das personagens. Esta história parece um imenso conto, no qual Chico Buarque apenas introduz na narrativa os episódios que a fazem avançar no caminho que José Costa tem de percorrer.
«Naquele momento talvez se mortificasse por não estar de mãos dadas comigo, levantando vôo para Budapeste. Ignorava que para Budapeste, no fundo, penso que não a convidaria, se não estivesse seguro de que voaria só.» pág. 38
Budapeste, de Chico Buarque, da Dom Quixote, 3ª edição de Novembro de 2004 (1ª edição de Fevereiro de 2004), 135 págs., pvp: 11 €.
A minha leitura de "Budapeste" vai a meio, e estou a adorar. Quem o leu até ao fim foi a leitora (que antes de o ser já o era), que o elegeu como um dos melhores de 2004. Visitante habitual do pilha, a leitora é uma das participantes do blog Leitura Partilhada.
quarta-feira, janeiro 26, 2005
Sharon e a minha sogra - Suad Amiry (um ano de pilha vol.4)
«3 de Abril, 2002
A destruição do centro histórico de Nablus
Estava deitada no sofá da sala de estar, a desfrutar do sossego da hora da sesta da minha sogra. Estava totalmente absorvida pelo estúdio de Vermeer, na minha leitura do Rapariga com Brinco de Pérola, quando olhei de relance para o ecrã de televisão.
Ah... fiquei tão desanimada ao ver, mais uma vez, o símbolo de khabar 'ajel (notícias de última hora) a aparecer no canal de TV. Surge no ecrã o rosto pálido e exausto de Walid al-Omari, correspondente principal de Al-Jazeera, a falar da cidade cercada de Ramallah.
«Crê-se que pelo menos treze pessoas da família Shu'bi tenham falecido sob os escombros da sua casa no bairro de al-Yasmineh, no centro histórico de Nablus. Os seus vizinhos têm andado desesperadamente a tentar resgatá-los, apesar do recolher obrigatório imposto à cidade há já oito dias.» No mesmo tom de seriedade, al-Omari continua:
«Já é o oitavo dia consecutivo de confrontos violentos no centro histórico de Nablus. A resistência armada palestiniana tem conseguido, até agora, impedir o Exército Israelita de avançar pelas vielas estreitas da zona antiga da cidade. Julga-se que terão morrido muitos civis, bem como combatentes palestinianos. Os caças israelitas têm bombardeado a parte antiga da cidade e, por conseguinte, muitos dos edifícios históricos já desabaram. Entre estes encontra-se o Caravan Sari otomano do século XVIII, que as gentes locais denominam al-wakalh al-farroukkyyeh. As fábricas de sabão de Canaã e Nablus foram demolidas para que os tanques israelitas possam passar pelas vielas estreitas do centro histórico de Nablus. A Igreja Ortodoxa, bem como a Mesquita al-Naser, sofreram grandes danos.»
(...)
Comecei a imaginar aquelas belas pirâmides de sabão, de que me recordo desde a infância, a voar pelo ar ao serem atingidas pelos F16. Aqueles cubos de sabão natural, que outrora fizeram parte das composições artísticas mais belas de sempre, e os cubos de pedra históricos, que agora fazem parte de um monte de escombros.
De repente lembrei-me que era nas treze pessoas, presas debaixo dos escombros, todas da mesma família, a família al-Shu'bi, que eu devia estar a pensar. Senti-me bastante envergonhada.
Limpei, com as costas da mão, o nariz e as lágrimas que me caíam pela cara abaixo, e voltei a sentar-me no sofá da sala de estar para ver o resto do noticiário.
O Exército Israelita tinha demolido um total de quatrocentas e vinte aldeias palestinianas; Saris, Bayt Jibrin, Bayt Nattif, 'Allar, Qalunya, al-Walaja, 'Emoas... bem como o bairro de al-Manshyyeh em Jafa, o bairro marroquino na zona antiga de Jerusalém, centenas de casas «clandestinas» na zona leste de Jerusalém, dezenas de casas em Khan Younis, centenas de milhares de oliveiras e palmeiras, agora o bairro al-yasmineh em Nablus e amanhã, quem sabe, o centro histórico da cidade de Hebron.
Sharon, estás a trazer-nos à memória os nossos piores pesadelos.» págs.77 a 79
O quotidiano e as recordações de uma arquitecta e professora universitária palestiniana durante a ocupação israelita ou como, por mais telejornais que vejamos, a nossa compreensão do que se passa não chega a traduzir-se numa compreensão efectiva do que realmente significa viver naquelas circunstâncias.
Sharon e a minha sogra, de Suad Amiry (trad. Sofia Slotboom), da Ambar, Setembro 2004, 119 págs., pvp: 10,82€. Capa da edição italiana, na Giangiacomo Feltrinelli Editore, muito semelhante à da edição portuguesa.
Uma das escolhas do ano para Cláudia Silva, colega de profissão e (espera-se) futura colaboradora regular do pilha, este "Sharon e a minha sogra" é um diário de guerra contado na primeira pessoa, ao mesmo tempo que nos deparamos com as cicatrizes que marcam aquela região há já tantos anos.
A destruição do centro histórico de Nablus
Estava deitada no sofá da sala de estar, a desfrutar do sossego da hora da sesta da minha sogra. Estava totalmente absorvida pelo estúdio de Vermeer, na minha leitura do Rapariga com Brinco de Pérola, quando olhei de relance para o ecrã de televisão.
Ah... fiquei tão desanimada ao ver, mais uma vez, o símbolo de khabar 'ajel (notícias de última hora) a aparecer no canal de TV. Surge no ecrã o rosto pálido e exausto de Walid al-Omari, correspondente principal de Al-Jazeera, a falar da cidade cercada de Ramallah.
«Crê-se que pelo menos treze pessoas da família Shu'bi tenham falecido sob os escombros da sua casa no bairro de al-Yasmineh, no centro histórico de Nablus. Os seus vizinhos têm andado desesperadamente a tentar resgatá-los, apesar do recolher obrigatório imposto à cidade há já oito dias.» No mesmo tom de seriedade, al-Omari continua:
«Já é o oitavo dia consecutivo de confrontos violentos no centro histórico de Nablus. A resistência armada palestiniana tem conseguido, até agora, impedir o Exército Israelita de avançar pelas vielas estreitas da zona antiga da cidade. Julga-se que terão morrido muitos civis, bem como combatentes palestinianos. Os caças israelitas têm bombardeado a parte antiga da cidade e, por conseguinte, muitos dos edifícios históricos já desabaram. Entre estes encontra-se o Caravan Sari otomano do século XVIII, que as gentes locais denominam al-wakalh al-farroukkyyeh. As fábricas de sabão de Canaã e Nablus foram demolidas para que os tanques israelitas possam passar pelas vielas estreitas do centro histórico de Nablus. A Igreja Ortodoxa, bem como a Mesquita al-Naser, sofreram grandes danos.»
(...)
Comecei a imaginar aquelas belas pirâmides de sabão, de que me recordo desde a infância, a voar pelo ar ao serem atingidas pelos F16. Aqueles cubos de sabão natural, que outrora fizeram parte das composições artísticas mais belas de sempre, e os cubos de pedra históricos, que agora fazem parte de um monte de escombros.
De repente lembrei-me que era nas treze pessoas, presas debaixo dos escombros, todas da mesma família, a família al-Shu'bi, que eu devia estar a pensar. Senti-me bastante envergonhada.
Limpei, com as costas da mão, o nariz e as lágrimas que me caíam pela cara abaixo, e voltei a sentar-me no sofá da sala de estar para ver o resto do noticiário.
O Exército Israelita tinha demolido um total de quatrocentas e vinte aldeias palestinianas; Saris, Bayt Jibrin, Bayt Nattif, 'Allar, Qalunya, al-Walaja, 'Emoas... bem como o bairro de al-Manshyyeh em Jafa, o bairro marroquino na zona antiga de Jerusalém, centenas de casas «clandestinas» na zona leste de Jerusalém, dezenas de casas em Khan Younis, centenas de milhares de oliveiras e palmeiras, agora o bairro al-yasmineh em Nablus e amanhã, quem sabe, o centro histórico da cidade de Hebron.
Sharon, estás a trazer-nos à memória os nossos piores pesadelos.» págs.77 a 79
O quotidiano e as recordações de uma arquitecta e professora universitária palestiniana durante a ocupação israelita ou como, por mais telejornais que vejamos, a nossa compreensão do que se passa não chega a traduzir-se numa compreensão efectiva do que realmente significa viver naquelas circunstâncias.
Sharon e a minha sogra, de Suad Amiry (trad. Sofia Slotboom), da Ambar, Setembro 2004, 119 págs., pvp: 10,82€. Capa da edição italiana, na Giangiacomo Feltrinelli Editore, muito semelhante à da edição portuguesa.
Uma das escolhas do ano para Cláudia Silva, colega de profissão e (espera-se) futura colaboradora regular do pilha, este "Sharon e a minha sogra" é um diário de guerra contado na primeira pessoa, ao mesmo tempo que nos deparamos com as cicatrizes que marcam aquela região há já tantos anos.
sexta-feira, janeiro 21, 2005
Comemorações
E assim como quem não quer a coisa, por entre comemorações de um ano de vida, chegámos às 5 mil visitas.
Meus caros amigos, apenas uma frase:
Venham mais cinco :)
Meus caros amigos, apenas uma frase:
Venham mais cinco :)
quarta-feira, janeiro 19, 2005
Ciclos e Crises no Capitalismo Global - Chris Freeman e Francisco Louçã
Lançamento de "Ciclos e Crises do Capitalismo Global, Das revoluções industriais à revolução da informação", o novo livro de Francisco Louçã e Chris Freeman, editado pela Afrontamento.
A sessão decorrerá amanhã, 20 de Janeiro, a partir das 18h30, na Livraria Almedina do Atrium Saldanha (Lisboa), e contará com a presença de um dos autores, Francisco Louçã.
A obra será apresentada pelo Professor Doutor Lopes da Silva, Reitor da Universidade Técnica de Lisboa.
terça-feira, janeiro 18, 2005
Anjos do Universo - Einar Már Gudmundsson (um ano de pilha vol.3)
«Lembro-me da queda do Muro de Berlim - não por achar o acontecimento importante, ou porque tivesse algo a ver comigo, mas porque me levou a pensar: «Este Muro pode ruir, porém os muros que existem entre mim e o mundo nunca cairão; mantêm-se inquebráveis e firmes, embora ninguém os consiga ver a olho nu.» pág.17
A minha leitura do ano: Anjos do Universo, Einar Már Gudmundsson. Pela facilidade com que deambulamos pelo outro lado do "mundo", pela simplicidade bela dos personagens, e pelos retratos de terras islandesas, que só aumentou a minha vontade de ir até lá.
«- Gugu-gu! Gugu-gu!
Baldvin, Rei do Império Britânico, fala-me na língua dos bebés e eu olho a sua cara, a barba e os olhos pretos, e ele olha longamente para mim; depois, levanta-se e dirige-se à minha mãe.
- Este menino tem anjos a guardá-lo - diz Baldvin, quando os seus olhares se cruzam; e o sorriso dele era tão ingénuo como os raios de sol que dançam no ar.
Muito mais tarde, quando eu, inconsciente, andava pelas ruas desta estranha cidade, encontrei Baldvin, Rei do Império Britânico, então velho e cheio de rugas, debaixo de umas arcadas, na avenida principal - Laugarvegur.
Ele levantou a bengala e olhou-me nos olhos, de um modo tal que, por um instante, fiquei consciente.
- Tu não tens tomado conta dos teus anjos - disse ele, afastando-se depois com um ar muito sério.» pág.36
"Anjos do Universo", de Einar Már Gudmundsson (trad. Gudlaug Rún Margeirsdóttir), Canguru, Abril 2003 (1ª ed.), 238p.
Já tínhamos aqui falado de Anjos do Universo, na altura pilhado pelo J, sócio fundador desta e doutras casas, e vizinho também. É ele que o traz de volta, elegendo-o como a sua melhor leitura em 2004.
«O relógio bate as duas horas.
Ainda não percebi por que não consegui posicionar-me melhor neste caminho escorregadio a que chamam vida, ou por que razão para alguns é uma travessia em linha recta, enquanto outros vagueiam, sem fim, na escuridão dos becos sem saída.» pág.57
O outro lado das coisas, da nossa mente, da realidade, com a terra do frio como cenário.
O livro foi adaptado ao cinema em 2000 e chegou a passar por Portugal, num dos ciclos da Zero em Comportamento, em Lisboa.
Links:
Icelandic Literature
Edda (editora islandesa)
Danny reviews
Angels of the Universe / Icelandic Film Corporation (o filme)
BBC Experimental Review (crítica à banda-sonora do filme)
Englar Alheimsins (a banda-sonora na página dos Sigur Rós)
A minha leitura do ano: Anjos do Universo, Einar Már Gudmundsson. Pela facilidade com que deambulamos pelo outro lado do "mundo", pela simplicidade bela dos personagens, e pelos retratos de terras islandesas, que só aumentou a minha vontade de ir até lá.
«- Gugu-gu! Gugu-gu!
Baldvin, Rei do Império Britânico, fala-me na língua dos bebés e eu olho a sua cara, a barba e os olhos pretos, e ele olha longamente para mim; depois, levanta-se e dirige-se à minha mãe.
- Este menino tem anjos a guardá-lo - diz Baldvin, quando os seus olhares se cruzam; e o sorriso dele era tão ingénuo como os raios de sol que dançam no ar.
Muito mais tarde, quando eu, inconsciente, andava pelas ruas desta estranha cidade, encontrei Baldvin, Rei do Império Britânico, então velho e cheio de rugas, debaixo de umas arcadas, na avenida principal - Laugarvegur.
Ele levantou a bengala e olhou-me nos olhos, de um modo tal que, por um instante, fiquei consciente.
- Tu não tens tomado conta dos teus anjos - disse ele, afastando-se depois com um ar muito sério.» pág.36
"Anjos do Universo", de Einar Már Gudmundsson (trad. Gudlaug Rún Margeirsdóttir), Canguru, Abril 2003 (1ª ed.), 238p.
Já tínhamos aqui falado de Anjos do Universo, na altura pilhado pelo J, sócio fundador desta e doutras casas, e vizinho também. É ele que o traz de volta, elegendo-o como a sua melhor leitura em 2004.
«O relógio bate as duas horas.
Ainda não percebi por que não consegui posicionar-me melhor neste caminho escorregadio a que chamam vida, ou por que razão para alguns é uma travessia em linha recta, enquanto outros vagueiam, sem fim, na escuridão dos becos sem saída.» pág.57
O outro lado das coisas, da nossa mente, da realidade, com a terra do frio como cenário.
O livro foi adaptado ao cinema em 2000 e chegou a passar por Portugal, num dos ciclos da Zero em Comportamento, em Lisboa.
Links:
Icelandic Literature
Edda (editora islandesa)
Danny reviews
Angels of the Universe / Icelandic Film Corporation (o filme)
BBC Experimental Review (crítica à banda-sonora do filme)
Englar Alheimsins (a banda-sonora na página dos Sigur Rós)
segunda-feira, janeiro 17, 2005
Corfu - Robert Dessaix (um ano de pilha vol.2)
«Um ou dois dias mais tarde, enquanto folheava o jornal local com as suas bisbilhotices e os seus anúncios de lições de bouzouki e reuniões matinais em volta de um café na igreja anglicana («abertas a pessoas de todas as confissões religiosas»), o minúsculo anúncio de Kester tinha-me chamado a atenção. Aluga-se casa em Gastouri por dois meses, dizia o anúncio. Ocupante ausente em viagem. Renda moderada. À primeira vista, não esclarecia grande coisa. Não havia sequer um número de telefone. Mas aquele Ocupante ausente em viagem seduziu-me, e gostei também da ideia de Gastouri, onde quer que isso ficasse. Aquele nome dizia-me qualquer coisa.» pág.17
Pode ser um livro de viagens, em sentido lato. Começa com a viagem de um homem (lamento, mas não consigo fugir à frase feita!), em busca de si mesmo, do sentido da sua vida, dos seus objectivos, dos seus limites e das suas raízes. Uma viagem que é também uma fuga, cega e desfocada.
«Curiosamente, a casa, embora escassamente mobilada, estava longe de parecer vazia. A cozinha, no rés-do-chão, parecia convidar à conversa, a mesa pouco firme como que pedia que se sentassem à sua volta, e o silêncio fresco nos dois quartos de cima parecia estranhamente habitado. Era uma espécie de silêncio confortável e íntimo, o tipo de silêncio em que nos podemos instalar, que nos invade a pouco e pouco no fim de um longo serão com um amigo. Seriam os livros amontoados nas prateleiras feitas em casa que me davam aquela impressão? E. M. Forster, Peer Gynt, Annie Besant, Clive James, a Odisseia e vários números antigos da Time Magazine - para dizer a verdade, uma miscelânea curiosa. Seriam as fotografias emolduradas espalhadas pela casa? As pinturas amadorísticas penduradas bem alto nas paredes? O vago cheiro a cão? Era difícil dizer se a vida vivida naquelas divisões era rica ou mesquinha - não havia simplesmente indícios suficientes.» págs.20 e 21
E no entanto acaba por entrar na vida de um outro homem, um estranho, ausente, quase um fantasma, mas que representa uma espécie de figura tutelar, bem como uma projecção do narrador, como que um duplo desfazado, ao qual se vê estreitamente ligado por um conjunto de circunstâncias comuns.
«Depois do meu encontro com Sissi não consegui regressar à minha carta. Não consegui encontrar inspiração. Sentei-me simplesmente à secretária junto à janela por um bocado e olhei pela colina acima para o palácio branco. Sem pensar, para me distrair, abri a gaveta da secretária aí uns cinco centímetros e espreitei lá para dentro. Por momentos pensei, lembro-me, se seria imoral procurar nas gavetas de outra pessoa sem ser autorizado, mas decidi que não era moral nem imoral em si e abri-a completamente. Cheirava deliciosamente - a papel, a pó, a cola antiga e a lavanda. Eu ia gostar desta gaveta.» pág.36
E é ao vislumbrar e analisar a essência desse indivíduo que acaba por encontrar as suas respostas, e o seu caminho.
«Sob a perfeição de um romance, está subjacente uma sensação que me agrada de uma história em espiral. É uma dupla-hélice: o desejo enrolado à volta da adoração. E assim, na falta de outra palavra para o descrever, o que Kester e Alan tinham, suponho, era um Grande Romance. É raro. E, naturalmente, condenado. Condenado à vulgaridade. A surpresa desaparece - como desaparece de um conto palavroso, por muito divertido que seja. Tal como o desejo. Mas no início, quando inundados de prazer, ficamos espantados com o que acabámos de ver, o conto em espiral está todo na nossa cabeça. Isso é romance.» pág.267
Histórias dentro de histórias dentro de histórias; histórias que se multiplicam, que se encadeiam, que se entrecruzam, que se fragmentam, que se dividem, que correm paralelas, ou nas entrelinhas.
Abordagens que se tornam lugar-comum, graças à banalização da escrita criativa.
Não são muitos os escritores que conseguem emergir da mediocridade da literatura comercial sem fazer concessões à qualidade da escrita, à coerência dos argumentos, à vivacidade da acção, sem cair na intelectualidade pretensiosa, hermética, estéril, sem repudiar um público que espera ser envolvido, cativado, desafiado.
Corfu, de Robert Dessaix, da Gótica, Abril 2004 (edição original: 2001), 306 pág., pvp: 15,00 €
Links:
Picador Australia Reading Group Notes
Trinity College - Steep Stairs Review
An Interview with Robert Dessaix
Desses poucos, Robert Dessaix foi um dos escolhidos de Astianax, colaborador e vizinho do pilha, autor do texto crítico acima publicado, e que ainda voltará à nossa companhia durante esta saga.
Só mais uma frase de "Corfu", a eterna dúvida:
«Uns apertos de mão, a sua mão no meu ombro - será que ficou lá só uma fracção de segundo a mais? - e saíram porta fora.» pág.45
Pode ser um livro de viagens, em sentido lato. Começa com a viagem de um homem (lamento, mas não consigo fugir à frase feita!), em busca de si mesmo, do sentido da sua vida, dos seus objectivos, dos seus limites e das suas raízes. Uma viagem que é também uma fuga, cega e desfocada.
«Curiosamente, a casa, embora escassamente mobilada, estava longe de parecer vazia. A cozinha, no rés-do-chão, parecia convidar à conversa, a mesa pouco firme como que pedia que se sentassem à sua volta, e o silêncio fresco nos dois quartos de cima parecia estranhamente habitado. Era uma espécie de silêncio confortável e íntimo, o tipo de silêncio em que nos podemos instalar, que nos invade a pouco e pouco no fim de um longo serão com um amigo. Seriam os livros amontoados nas prateleiras feitas em casa que me davam aquela impressão? E. M. Forster, Peer Gynt, Annie Besant, Clive James, a Odisseia e vários números antigos da Time Magazine - para dizer a verdade, uma miscelânea curiosa. Seriam as fotografias emolduradas espalhadas pela casa? As pinturas amadorísticas penduradas bem alto nas paredes? O vago cheiro a cão? Era difícil dizer se a vida vivida naquelas divisões era rica ou mesquinha - não havia simplesmente indícios suficientes.» págs.20 e 21
E no entanto acaba por entrar na vida de um outro homem, um estranho, ausente, quase um fantasma, mas que representa uma espécie de figura tutelar, bem como uma projecção do narrador, como que um duplo desfazado, ao qual se vê estreitamente ligado por um conjunto de circunstâncias comuns.
«Depois do meu encontro com Sissi não consegui regressar à minha carta. Não consegui encontrar inspiração. Sentei-me simplesmente à secretária junto à janela por um bocado e olhei pela colina acima para o palácio branco. Sem pensar, para me distrair, abri a gaveta da secretária aí uns cinco centímetros e espreitei lá para dentro. Por momentos pensei, lembro-me, se seria imoral procurar nas gavetas de outra pessoa sem ser autorizado, mas decidi que não era moral nem imoral em si e abri-a completamente. Cheirava deliciosamente - a papel, a pó, a cola antiga e a lavanda. Eu ia gostar desta gaveta.» pág.36
E é ao vislumbrar e analisar a essência desse indivíduo que acaba por encontrar as suas respostas, e o seu caminho.
«Sob a perfeição de um romance, está subjacente uma sensação que me agrada de uma história em espiral. É uma dupla-hélice: o desejo enrolado à volta da adoração. E assim, na falta de outra palavra para o descrever, o que Kester e Alan tinham, suponho, era um Grande Romance. É raro. E, naturalmente, condenado. Condenado à vulgaridade. A surpresa desaparece - como desaparece de um conto palavroso, por muito divertido que seja. Tal como o desejo. Mas no início, quando inundados de prazer, ficamos espantados com o que acabámos de ver, o conto em espiral está todo na nossa cabeça. Isso é romance.» pág.267
Histórias dentro de histórias dentro de histórias; histórias que se multiplicam, que se encadeiam, que se entrecruzam, que se fragmentam, que se dividem, que correm paralelas, ou nas entrelinhas.
Abordagens que se tornam lugar-comum, graças à banalização da escrita criativa.
Corfu, de Robert Dessaix, da Gótica, Abril 2004 (edição original: 2001), 306 pág., pvp: 15,00 €
Links:
Picador Australia Reading Group Notes
Trinity College - Steep Stairs Review
An Interview with Robert Dessaix
Desses poucos, Robert Dessaix foi um dos escolhidos de Astianax, colaborador e vizinho do pilha, autor do texto crítico acima publicado, e que ainda voltará à nossa companhia durante esta saga.
Só mais uma frase de "Corfu", a eterna dúvida:
«Uns apertos de mão, a sua mão no meu ombro - será que ficou lá só uma fracção de segundo a mais? - e saíram porta fora.» pág.45
domingo, janeiro 16, 2005
A Amante Colombiana - Lars Gustafsson (um ano de pilha vol.1)
«Finalmente, ao fim de muitos anos, aconteceu uma coisa absolutamente inesperada.
Por vezes uma pequeníssima mudança é o suficiente. Dissemina-se pela trama imensa de recordações e hábitos que é uma pessoa. Irresistivelmente. E muda toda uma vida. Nada há que permaneça. O mundo real não tem recordações. Vem sem etiquetas.» pág.7
Lars Gustafsson é o autor de A Morte de um Apicultor, obra de culto aqui para estes lados, e repete a presença no pilha com A Amante Colombiana. Editado originalmente em 1996, chegou até nós pelas mãos da Asa em Setembro de 2001, mas foi uma das leituras do Pedro (habitual colaborador desta casa) no ano passado, e uma das suas preferidas.
«É certo que era feia. Era feia. Era francamente feia. Mas, como ele sempre dissera a si próprio, era feia de uma maneira interessante. E quanto mais se olhava para ela, mais interessante. O perfil direito e anguloso, com um nariz comprido, os seios pequenos e lisos (que talvez emanassem calor; os seios pequenos e lisos às vezes emanam um calor surpreendente), os olhos, escuros como poços negros e profundos numa velha ruína do deserto. O conjunto era de facto muito interessante, mas ele nunca tivera tempo para lhe prestar muita atenção. E na verdade nunca observara nada disto antes daquela manhã de Outubro, esplendorosa e límpida.
Ela vinha sempre às segundas e sextas. Era o combinado.» pág.9
Serenidade nórdica, fotogenia sueca, sensualidade latina, pragmatismo europeu; e o valor que a vida (de todos e de cada um) tem lá para os reinos do Norte.
Quase se arrancam as páginas com a voracidade com que se lê.
«Estava bem, estava esmagadoramente bem. Estava tudo bem.
Mas havia também qualquer coisa de desagradável. Esta passagem de uma forma habitual de se relacionar com uma pessoa para outra. Como por acaso, tinha dado o salto de um quase desconhecimento para uma espécie de conhecimento profundo. Tinha saltado por cima de tudo o que se encontrava entre as duas coisas. E esse «entre» era grande como os oceanos e os continentes. Ao mesmo tempo, era justamente o desconhecimento que se tornava aliciante. Dava-lhe um pouco a sensação de se preencher com o conteúdo de outra pessoa. Ou de, por um momento, entregar o seu próprio conteúdo, já por demais conhecido, a alguém totalmente desconhecido.
- Eleonora - disse ele, passando a mão gentilmente, numa carícia, de um seio para o outro - Eleonora, o que é que tem tanta graça?
- O señor Dick foi o primeiro homem que me tocou.
- Que te tocou?
Não ousou pedir-lhe uma tradução. Não estava certo de ter compreendido.
Mas Eleonora repetiu, agora com um sorriso radioso e uma luz suave nos olhos castanhos, água profunda, húmus líquido onde parecia brilhar por vezes um reflexo do sol, aquilo que tinha dito:
- O senõr Dick foi o primeiro homem na vida que me tocou.» pág.62
A Amante Colombiana, de Lars Gustafsson (trad. Ana Diniz), edições Asa, Setembro 2001, 160 pág., pvp:3,50€ (preço Azul Asa)
Damos assim início a um balanço, a um revisitar de livros e histórias num ritmo (quase) diário, para acompanhar ao longo das próximas semanas. No entretanto, continuamos com a porta aberta a sugestões e opiniões, acrescentos e comentários aos livros que foram e aos que hão-de vir.
Apenas uma nota: para minha alegria, num já alargado conjunto de escolhas que chegaram até cá, nenhum livro é referido por mais que uma vez. Ainda bem :)
Até já!
Por vezes uma pequeníssima mudança é o suficiente. Dissemina-se pela trama imensa de recordações e hábitos que é uma pessoa. Irresistivelmente. E muda toda uma vida. Nada há que permaneça. O mundo real não tem recordações. Vem sem etiquetas.» pág.7
Lars Gustafsson é o autor de A Morte de um Apicultor, obra de culto aqui para estes lados, e repete a presença no pilha com A Amante Colombiana. Editado originalmente em 1996, chegou até nós pelas mãos da Asa em Setembro de 2001, mas foi uma das leituras do Pedro (habitual colaborador desta casa) no ano passado, e uma das suas preferidas.
«É certo que era feia. Era feia. Era francamente feia. Mas, como ele sempre dissera a si próprio, era feia de uma maneira interessante. E quanto mais se olhava para ela, mais interessante. O perfil direito e anguloso, com um nariz comprido, os seios pequenos e lisos (que talvez emanassem calor; os seios pequenos e lisos às vezes emanam um calor surpreendente), os olhos, escuros como poços negros e profundos numa velha ruína do deserto. O conjunto era de facto muito interessante, mas ele nunca tivera tempo para lhe prestar muita atenção. E na verdade nunca observara nada disto antes daquela manhã de Outubro, esplendorosa e límpida.
Ela vinha sempre às segundas e sextas. Era o combinado.» pág.9
Serenidade nórdica, fotogenia sueca, sensualidade latina, pragmatismo europeu; e o valor que a vida (de todos e de cada um) tem lá para os reinos do Norte.
Quase se arrancam as páginas com a voracidade com que se lê.
«Estava bem, estava esmagadoramente bem. Estava tudo bem.
Mas havia também qualquer coisa de desagradável. Esta passagem de uma forma habitual de se relacionar com uma pessoa para outra. Como por acaso, tinha dado o salto de um quase desconhecimento para uma espécie de conhecimento profundo. Tinha saltado por cima de tudo o que se encontrava entre as duas coisas. E esse «entre» era grande como os oceanos e os continentes. Ao mesmo tempo, era justamente o desconhecimento que se tornava aliciante. Dava-lhe um pouco a sensação de se preencher com o conteúdo de outra pessoa. Ou de, por um momento, entregar o seu próprio conteúdo, já por demais conhecido, a alguém totalmente desconhecido.
- Eleonora - disse ele, passando a mão gentilmente, numa carícia, de um seio para o outro - Eleonora, o que é que tem tanta graça?
- O señor Dick foi o primeiro homem que me tocou.
- Que te tocou?
Não ousou pedir-lhe uma tradução. Não estava certo de ter compreendido.
Mas Eleonora repetiu, agora com um sorriso radioso e uma luz suave nos olhos castanhos, água profunda, húmus líquido onde parecia brilhar por vezes um reflexo do sol, aquilo que tinha dito:
- O senõr Dick foi o primeiro homem na vida que me tocou.» pág.62
A Amante Colombiana, de Lars Gustafsson (trad. Ana Diniz), edições Asa, Setembro 2001, 160 pág., pvp:3,50€ (preço Azul Asa)
Damos assim início a um balanço, a um revisitar de livros e histórias num ritmo (quase) diário, para acompanhar ao longo das próximas semanas. No entretanto, continuamos com a porta aberta a sugestões e opiniões, acrescentos e comentários aos livros que foram e aos que hão-de vir.
Apenas uma nota: para minha alegria, num já alargado conjunto de escolhas que chegaram até cá, nenhum livro é referido por mais que uma vez. Ainda bem :)
Até já!
quinta-feira, dezembro 30, 2004
Os livros das nossas vidas
«Uma das razões pela qual há tão poucos de nós a agir, em vez de reagir, reside no facto de estarmos continuamente a sufocar os nossos impulsos mais profundos. Posso ilustrar esta ideia escolhendo, por exemplo, a maneira como a maioria de nós lê. Se se trata de um livro que nos entusiasma e nos estimula o pensamento, lemo-lo a correr. Ficamos impacientes por saber aonde vai aquilo levar; queremos captar, possuir a mensagem oculta. Repetidamente, nesses livros, tropeçamos numa frase, numa passagem, por vezes num capítulo inteiro, de tal modo estimulante e provocador que mal entendemos o que estamos a ler, de tal modo o nosso espírito fica sobrecarregado de pensamentos e associações que nada têm a ver com a obra. É raro interrompermos a leitura a fim de nos darmos ao luxo de desfrutar os nossos próprios pensamentos! Não, abafamos e suprimimos as nossas ideias, pensando poder retomá-las mais tarde, depois de termos acabado o livro. Claro que nunca o fazemos. Como seria melhor e mais sensato, mais instrutivo e enriquecedor, se seguíssemos a passo de caracol! Que importa se levássemos um ano, em vez de uns quantos dias, a acabar o livro?
«Mas não tenho tempo para ler assim!», objectar-me-ão. «Tenho outras coisas para fazer. Tenho deveres e responsabilidades.»
É precisamente àqueles que falam assim que estas palavras se destinam. Quem receia negligenciar os seus deveres lendo vagarosa e ponderadamente, cultivando os seus próprios pensamentos, irá negligenciar os seus deveres de qualquer maneira, e por motivos piores. Talvez o nosso destino seja perder o emprego, a mulher, a casa. Se a leitura de um livro nos pode agitar tão profundamente, a ponto de nos fazer esquecer as nossas responsabilidades, é porque estas últimas não têm grande significado para nós. Nesse caso, tínhamos responsabilidades maiores. Se tivéssemos confiado nos nossos impulsos íntimos, teríamos seguido até um terreno mais firme, no qual ficaríamos numa posição de vantagem. Mas tivemos medo de uma voz que murmurasse: «Volta aqui! Bate a esta porta! Entra!» Tivemos medo de nos vermos despojados e abandonados: Pensámos em segurança em vez de pensarmos numa nova vida, em novos domínios de aventura e de exploração.
Este é um mero exemplo do que pode acontecer, ou não acontecer, ao lermos um livro. Se o aplicarmos às múltiplas oportunidades que a vida constantemente nos oferece, será fácil ver por que motivo os homens não são capazes, não só de se tornarem heróis, mas mesmo simples indivíduos. A forma como lemos um livro é a mesma forma como lemos a vida. Maeterlink, a quem me referi há pouco, escreve com tanta profundidade e de uma maneira tão atraente sobre insectos, flores, estrelas, sobre o próprio espaço, como sobre os homens e as mulheres. Para ele, o mundo é um todo contínuo, interactivo e intermutável. Não há muros nem barreiras. Não há morte em nenhum lugar. Um momento do tempo é tão rico e completo como dez milhares de anos. Na verdade, trata-se de uma forma de pensar magnífica!»
O pilha fez um ano de vida no passado dia 21, e entre períodos mais férteis e outros de pousio, por aqui se tem falado muito de livros, do mundo que os rodeia, das pessoas que neles vivem.
Quem aqui em cima fala é Henry Miller, excerto de "Os Livros da Minha Vida", o livro que mais me marcou neste 2004, neste ano de pilha.
O desafio aqui fica: quais os vossos livros deste ano? Editados em 2004 (ou não), a descoberta de um autor, de uma colecção de livros, de uma editora, o que mais vos marcou neste ano de livros pilhados (oferecidos e partilhados) pode ser depositado no espaço de comentários mesmo aqui por baixo, ou enviado para a nossa nova morada: pilhalivros@yahoo.com.
Até já :)
«Mas não tenho tempo para ler assim!», objectar-me-ão. «Tenho outras coisas para fazer. Tenho deveres e responsabilidades.»
É precisamente àqueles que falam assim que estas palavras se destinam. Quem receia negligenciar os seus deveres lendo vagarosa e ponderadamente, cultivando os seus próprios pensamentos, irá negligenciar os seus deveres de qualquer maneira, e por motivos piores. Talvez o nosso destino seja perder o emprego, a mulher, a casa. Se a leitura de um livro nos pode agitar tão profundamente, a ponto de nos fazer esquecer as nossas responsabilidades, é porque estas últimas não têm grande significado para nós. Nesse caso, tínhamos responsabilidades maiores. Se tivéssemos confiado nos nossos impulsos íntimos, teríamos seguido até um terreno mais firme, no qual ficaríamos numa posição de vantagem. Mas tivemos medo de uma voz que murmurasse: «Volta aqui! Bate a esta porta! Entra!» Tivemos medo de nos vermos despojados e abandonados: Pensámos em segurança em vez de pensarmos numa nova vida, em novos domínios de aventura e de exploração.
Este é um mero exemplo do que pode acontecer, ou não acontecer, ao lermos um livro. Se o aplicarmos às múltiplas oportunidades que a vida constantemente nos oferece, será fácil ver por que motivo os homens não são capazes, não só de se tornarem heróis, mas mesmo simples indivíduos. A forma como lemos um livro é a mesma forma como lemos a vida. Maeterlink, a quem me referi há pouco, escreve com tanta profundidade e de uma maneira tão atraente sobre insectos, flores, estrelas, sobre o próprio espaço, como sobre os homens e as mulheres. Para ele, o mundo é um todo contínuo, interactivo e intermutável. Não há muros nem barreiras. Não há morte em nenhum lugar. Um momento do tempo é tão rico e completo como dez milhares de anos. Na verdade, trata-se de uma forma de pensar magnífica!»
O pilha fez um ano de vida no passado dia 21, e entre períodos mais férteis e outros de pousio, por aqui se tem falado muito de livros, do mundo que os rodeia, das pessoas que neles vivem.
Quem aqui em cima fala é Henry Miller, excerto de "Os Livros da Minha Vida", o livro que mais me marcou neste 2004, neste ano de pilha.
O desafio aqui fica: quais os vossos livros deste ano? Editados em 2004 (ou não), a descoberta de um autor, de uma colecção de livros, de uma editora, o que mais vos marcou neste ano de livros pilhados (oferecidos e partilhados) pode ser depositado no espaço de comentários mesmo aqui por baixo, ou enviado para a nossa nova morada: pilhalivros@yahoo.com.
Até já :)
quarta-feira, dezembro 15, 2004
A Terrível Impostura
Porque a verdade tem muitas versões
A Terrível Impostura, de Thierry Meyssan, da Frenesi, 240 páginas, pvp: 15€
A Terrível Impostura, de Thierry Meyssan, da Frenesi, 240 páginas, pvp: 15€
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