sábado, janeiro 29, 2005

Budapeste - Chico Buarque (um ano de pilha vol.5)

«Kriska se despiu inesperadamente, e eu nunca tinha visto corpo tão branco em minha vida. Era tão branca toda a sua pele que eu não saberia como pegá-la, onde instalar as minhas mãos. Branca, branca, branca, eu dizia, bela, bela, bela, era pobre o meu vocabulário. Depois de contemplá-la um tanto, desejei apenas roçar seus seios, seus pequenos mamilos rosados, mas eu ainda não tinha aprendido a pedir as coisas. Nem ousaria dar um passo sem o seu consentimento, sendo Kriska uma amante da disciplina. Nas primeiras aulas me fazia passar sede, porque eu falava água, água, água, sem acertar a prosódia. Os pães de abóbora, um dia trouxe à sala uma fornada deles, passou-os fumegantes sob o meu nariz e jogou tudo fora, porque eu não soube denominá-los. Mas antes de fixar e de pronunciar direito as palavras de um idioma, é claro que a gente já começa a distingui-las, capta seu sentido: mesa, café, telefone, distraída, amarelo, suspirar, espaguete à bolonhesa, janela, peteca, alegria, um, dois, três, nove, dez, música, vinho, vestido de algodão, cócegas, maluco, e um dia descobri que Kriska gostava de ser beijada no cangote. Aí ela tirou pela cabeça o vestido tipo maria-mijona, não tinha nada por baixo, e fiquei desnorteado com tamanha brancura. Por um segundo imaginei que ela não fosse uma mulher para se tocar aqui ou ali, mas que me desafiasse a tocar de uma só vez a pele inteira. Até receei que naquele segundo ela dissesse: me possui, me faz o amor, me come, me fode, me estraçalha, como será que as húngaras dizem essas coisas? Mas ela ficou quieta, o olhar perdido, não sei se comovida pelo meu olhar passeando no seu corpo, ou pelo meu falar pausado no idioma dela, branca, bela, bela, branca, branca, bela, branca. E eu também me comovia, sabendo que em breve conheceria suas intimidades e, com igual ou maior volúpia, o nome delas.» págs. 41 e 42

Estava a ler esta passagem, e logo me veio à memória outra amante, colombiana, que inaugurou esta antologia.

José Costa é um homem dividido entre duas línguas, o português e o húngaro. Entre o Rio de Janeiro onde José vive com Vanda e é um escritor fantasma (daqueles que tanto escrevem auto-biografias como discursos), e Budapeste, onde é um homem à procura de algo para o qual não encontra palavras.

Assim como nós, divididos entre duas línguas, a do português de Chico Buarque, em que o livro está escrito, e o português deste lado do Atlântico, que estranha "telefone celular", "boteco" e "debochar".

«Viajei trinta horas com o pensamento em branco, e quando pedi para dormir em casa, a Vanda nada me perguntou, me serviu uma sopa e alinhou meus cabelos. Foi aí que, despojado de amor-próprio, engravidei a Vanda.
Já com uma barriguinha e cheia de caprichos, a Vanda resolveu programar nossa sempre adiada lua-de-mel. Seria em Nova Iorque, durante seu mês de férias na televisão, mas eu estava sem graça de pedir nova licença ao Álvaro. A Vanda bateu pé, me meteu em brios, me fez ver que eu não era um empregado dele, era seu sócio quase meio a meio. Sentei-me com o Álvaro, mostrei-lhe meu novo laptop, falei da inflexibilidade das mulheres em geral, no fim das contas ele me deixou à vontade para viajar, até ficou de me dar um guia de bons endereços em Manhattan. E aproveitou para dizer que dentro em pouco, se eu não me importasse, ele provavelmente iria terceirizar algumas das minhas tarefas. Só fui entender direito esse negócio na volta da lua-de-mel, ao encontrar um jovem redator instalado numa mesa defronte à minha, e meia dúzia de artigos seus enquadrados nas paredes.» pág. 25

Uma vez uma amiga minha disse-me que preferia ler contos porque não gostava de todo o processo de construção das personagens. Esta história parece um imenso conto, no qual Chico Buarque apenas introduz na narrativa os episódios que a fazem avançar no caminho que José Costa tem de percorrer.

«Naquele momento talvez se mortificasse por não estar de mãos dadas comigo, levantando vôo para Budapeste. Ignorava que para Budapeste, no fundo, penso que não a convidaria, se não estivesse seguro de que voaria só.» pág. 38


Budapeste, de Chico Buarque, da Dom Quixote, 3ª edição de Novembro de 2004 (1ª edição de Fevereiro de 2004), 135 págs., pvp: 11 €.

A minha leitura de "Budapeste" vai a meio, e estou a adorar. Quem o leu até ao fim foi a leitora (que antes de o ser já o era), que o elegeu como um dos melhores de 2004. Visitante habitual do pilha, a leitora é uma das participantes do blog Leitura Partilhada.

quarta-feira, janeiro 26, 2005

Sharon e a minha sogra - Suad Amiry (um ano de pilha vol.4)

«3 de Abril, 2002
A destruição do centro histórico de Nablus


Estava deitada no sofá da sala de estar, a desfrutar do sossego da hora da sesta da minha sogra. Estava totalmente absorvida pelo estúdio de Vermeer, na minha leitura do Rapariga com Brinco de Pérola, quando olhei de relance para o ecrã de televisão.

Ah... fiquei tão desanimada ao ver, mais uma vez, o símbolo de khabar 'ajel (notícias de última hora) a aparecer no canal de TV. Surge no ecrã o rosto pálido e exausto de Walid al-Omari, correspondente principal de Al-Jazeera, a falar da cidade cercada de Ramallah.

«Crê-se que pelo menos treze pessoas da família Shu'bi tenham falecido sob os escombros da sua casa no bairro de al-Yasmineh, no centro histórico de Nablus. Os seus vizinhos têm andado desesperadamente a tentar resgatá-los, apesar do recolher obrigatório imposto à cidade há já oito dias.» No mesmo tom de seriedade, al-Omari continua:
«Já é o oitavo dia consecutivo de confrontos violentos no centro histórico de Nablus. A resistência armada palestiniana tem conseguido, até agora, impedir o Exército Israelita de avançar pelas vielas estreitas da zona antiga da cidade. Julga-se que terão morrido muitos civis, bem como combatentes palestinianos. Os caças israelitas têm bombardeado a parte antiga da cidade e, por conseguinte, muitos dos edifícios históricos já desabaram. Entre estes encontra-se o Caravan Sari otomano do século XVIII, que as gentes locais denominam al-wakalh al-farroukkyyeh. As fábricas de sabão de Canaã e Nablus foram demolidas para que os tanques israelitas possam passar pelas vielas estreitas do centro histórico de Nablus. A Igreja Ortodoxa, bem como a Mesquita al-Naser, sofreram grandes danos.»

(...)

Comecei a imaginar aquelas belas pirâmides de sabão, de que me recordo desde a infância, a voar pelo ar ao serem atingidas pelos F16. Aqueles cubos de sabão natural, que outrora fizeram parte das composições artísticas mais belas de sempre, e os cubos de pedra históricos, que agora fazem parte de um monte de escombros.

De repente lembrei-me que era nas treze pessoas, presas debaixo dos escombros, todas da mesma família, a família al-Shu'bi, que eu devia estar a pensar. Senti-me bastante envergonhada.

Limpei, com as costas da mão, o nariz e as lágrimas que me caíam pela cara abaixo, e voltei a sentar-me no sofá da sala de estar para ver o resto do noticiário.

O Exército Israelita tinha demolido um total de quatrocentas e vinte aldeias palestinianas; Saris, Bayt Jibrin, Bayt Nattif, 'Allar, Qalunya, al-Walaja, 'Emoas... bem como o bairro de al-Manshyyeh em Jafa, o bairro marroquino na zona antiga de Jerusalém, centenas de casas «clandestinas» na zona leste de Jerusalém, dezenas de casas em Khan Younis, centenas de milhares de oliveiras e palmeiras, agora o bairro al-yasmineh em Nablus e amanhã, quem sabe, o centro histórico da cidade de Hebron.

Sharon, estás a trazer-nos à memória os nossos piores pesadelos.» págs.77 a 79

O quotidiano e as recordações de uma arquitecta e professora universitária palestiniana durante a ocupação israelita ou como, por mais telejornais que vejamos, a nossa compreensão do que se passa não chega a traduzir-se numa compreensão efectiva do que realmente significa viver naquelas circunstâncias.

Sharon e a minha sogra, de Suad Amiry (trad. Sofia Slotboom), da Ambar, Setembro 2004, 119 págs., pvp: 10,82€. Capa da edição italiana, na Giangiacomo Feltrinelli Editore, muito semelhante à da edição portuguesa.


Uma das escolhas do ano para Cláudia Silva, colega de profissão e (espera-se) futura colaboradora regular do pilha, este "Sharon e a minha sogra" é um diário de guerra contado na primeira pessoa, ao mesmo tempo que nos deparamos com as cicatrizes que marcam aquela região há já tantos anos.

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Comemorações

E assim como quem não quer a coisa, por entre comemorações de um ano de vida, chegámos às 5 mil visitas.

Meus caros amigos, apenas uma frase:

Venham mais cinco :)

quarta-feira, janeiro 19, 2005

Ciclos e Crises no Capitalismo Global - Chris Freeman e Francisco Louçã



Lançamento de "Ciclos e Crises do Capitalismo Global, Das revoluções industriais à revolução da informação", o novo livro de Francisco Louçã e Chris Freeman, editado pela Afrontamento.



A sessão decorrerá amanhã, 20 de Janeiro, a partir das 18h30, na Livraria Almedina do Atrium Saldanha (Lisboa), e contará com a presença de um dos autores, Francisco Louçã.



A obra será apresentada pelo Professor Doutor Lopes da Silva, Reitor da Universidade Técnica de Lisboa.


terça-feira, janeiro 18, 2005

Anjos do Universo - Einar Már Gudmundsson (um ano de pilha vol.3)

«Lembro-me da queda do Muro de Berlim - não por achar o acontecimento importante, ou porque tivesse algo a ver comigo, mas porque me levou a pensar: «Este Muro pode ruir, porém os muros que existem entre mim e o mundo nunca cairão; mantêm-se inquebráveis e firmes, embora ninguém os consiga ver a olho nu.» pág.17

A minha leitura do ano: Anjos do Universo, Einar Már Gudmundsson. Pela facilidade com que deambulamos pelo outro lado do "mundo", pela simplicidade bela dos personagens, e pelos retratos de terras islandesas, que só aumentou a minha vontade de ir até lá.

«- Gugu-gu! Gugu-gu!
Baldvin, Rei do Império Britânico, fala-me na língua dos bebés e eu olho a sua cara, a barba e os olhos pretos, e ele olha longamente para mim; depois, levanta-se e dirige-se à minha mãe.
- Este menino tem anjos a guardá-lo - diz Baldvin, quando os seus olhares se cruzam; e o sorriso dele era tão ingénuo como os raios de sol que dançam no ar.
Muito mais tarde, quando eu, inconsciente, andava pelas ruas desta estranha cidade, encontrei Baldvin, Rei do Império Britânico, então velho e cheio de rugas, debaixo de umas arcadas, na avenida principal - Laugarvegur.
Ele levantou a bengala e olhou-me nos olhos, de um modo tal que, por um instante, fiquei consciente.
- Tu não tens tomado conta dos teus anjos - disse ele, afastando-se depois com um ar muito sério.» pág.36

"Anjos do Universo", de Einar Már Gudmundsson (trad. Gudlaug Rún Margeirsdóttir), Canguru, Abril 2003 (1ª ed.), 238p.

Já tínhamos aqui falado de Anjos do Universo, na altura pilhado pelo J, sócio fundador desta e doutras casas, e vizinho também. É ele que o traz de volta, elegendo-o como a sua melhor leitura em 2004.

«O relógio bate as duas horas.
Ainda não percebi por que não consegui posicionar-me melhor neste caminho escorregadio a que chamam vida, ou por que razão para alguns é uma travessia em linha recta, enquanto outros vagueiam, sem fim, na escuridão dos becos sem saída.» pág.57

O outro lado das coisas, da nossa mente, da realidade, com a terra do frio como cenário.

O livro foi adaptado ao cinema em 2000 e chegou a passar por Portugal, num dos ciclos da Zero em Comportamento, em Lisboa.

Links:
Icelandic Literature
Edda (editora islandesa)
Danny reviews
Angels of the Universe / Icelandic Film Corporation (o filme)
BBC Experimental Review (crítica à banda-sonora do filme)
Englar Alheimsins (a banda-sonora na página dos Sigur Rós)

segunda-feira, janeiro 17, 2005

Corfu - Robert Dessaix (um ano de pilha vol.2)

«Um ou dois dias mais tarde, enquanto folheava o jornal local com as suas bisbilhotices e os seus anúncios de lições de bouzouki e reuniões matinais em volta de um café na igreja anglicana («abertas a pessoas de todas as confissões religiosas»), o minúsculo anúncio de Kester tinha-me chamado a atenção. Aluga-se casa em Gastouri por dois meses, dizia o anúncio. Ocupante ausente em viagem. Renda moderada. À primeira vista, não esclarecia grande coisa. Não havia sequer um número de telefone. Mas aquele Ocupante ausente em viagem seduziu-me, e gostei também da ideia de Gastouri, onde quer que isso ficasse. Aquele nome dizia-me qualquer coisa.» pág.17

Pode ser um livro de viagens, em sentido lato. Começa com a viagem de um homem (lamento, mas não consigo fugir à frase feita!), em busca de si mesmo, do sentido da sua vida, dos seus objectivos, dos seus limites e das suas raízes. Uma viagem que é também uma fuga, cega e desfocada.

«Curiosamente, a casa, embora escassamente mobilada, estava longe de parecer vazia. A cozinha, no rés-do-chão, parecia convidar à conversa, a mesa pouco firme como que pedia que se sentassem à sua volta, e o silêncio fresco nos dois quartos de cima parecia estranhamente habitado. Era uma espécie de silêncio confortável e íntimo, o tipo de silêncio em que nos podemos instalar, que nos invade a pouco e pouco no fim de um longo serão com um amigo. Seriam os livros amontoados nas prateleiras feitas em casa que me davam aquela impressão? E. M. Forster, Peer Gynt, Annie Besant, Clive James, a Odisseia e vários números antigos da Time Magazine - para dizer a verdade, uma miscelânea curiosa. Seriam as fotografias emolduradas espalhadas pela casa? As pinturas amadorísticas penduradas bem alto nas paredes? O vago cheiro a cão? Era difícil dizer se a vida vivida naquelas divisões era rica ou mesquinha - não havia simplesmente indícios suficientes.» págs.20 e 21

E no entanto acaba por entrar na vida de um outro homem, um estranho, ausente, quase um fantasma, mas que representa uma espécie de figura tutelar, bem como uma projecção do narrador, como que um duplo desfazado, ao qual se vê estreitamente ligado por um conjunto de circunstâncias comuns.

«Depois do meu encontro com Sissi não consegui regressar à minha carta. Não consegui encontrar inspiração. Sentei-me simplesmente à secretária junto à janela por um bocado e olhei pela colina acima para o palácio branco. Sem pensar, para me distrair, abri a gaveta da secretária aí uns cinco centímetros e espreitei lá para dentro. Por momentos pensei, lembro-me, se seria imoral procurar nas gavetas de outra pessoa sem ser autorizado, mas decidi que não era moral nem imoral em si e abri-a completamente. Cheirava deliciosamente - a papel, a pó, a cola antiga e a lavanda. Eu ia gostar desta gaveta.» pág.36

E é ao vislumbrar e analisar a essência desse indivíduo que acaba por encontrar as suas respostas, e o seu caminho.

«Sob a perfeição de um romance, está subjacente uma sensação que me agrada de uma história em espiral. É uma dupla-hélice: o desejo enrolado à volta da adoração. E assim, na falta de outra palavra para o descrever, o que Kester e Alan tinham, suponho, era um Grande Romance. É raro. E, naturalmente, condenado. Condenado à vulgaridade. A surpresa desaparece - como desaparece de um conto palavroso, por muito divertido que seja. Tal como o desejo. Mas no início, quando inundados de prazer, ficamos espantados com o que acabámos de ver, o conto em espiral está todo na nossa cabeça. Isso é romance.» pág.267

Histórias dentro de histórias dentro de histórias; histórias que se multiplicam, que se encadeiam, que se entrecruzam, que se fragmentam, que se dividem, que correm paralelas, ou nas entrelinhas.

Abordagens que se tornam lugar-comum, graças à banalização da escrita criativa.

Não são muitos os escritores que conseguem emergir da mediocridade da literatura comercial sem fazer concessões à qualidade da escrita, à coerência dos argumentos, à vivacidade da acção, sem cair na intelectualidade pretensiosa, hermética, estéril, sem repudiar um público que espera ser envolvido, cativado, desafiado.

Corfu, de Robert Dessaix, da Gótica, Abril 2004 (edição original: 2001), 306 pág., pvp: 15,00 €

Links:
Picador Australia Reading Group Notes
Trinity College - Steep Stairs Review
An Interview with Robert Dessaix

Desses poucos, Robert Dessaix foi um dos escolhidos de Astianax, colaborador e vizinho do pilha, autor do texto crítico acima publicado, e que ainda voltará à nossa companhia durante esta saga.

Só mais uma frase de "Corfu", a eterna dúvida:
«Uns apertos de mão, a sua mão no meu ombro - será que ficou lá só uma fracção de segundo a mais? - e saíram porta fora.» pág.45

domingo, janeiro 16, 2005

A Amante Colombiana - Lars Gustafsson (um ano de pilha vol.1)

«Finalmente, ao fim de muitos anos, aconteceu uma coisa absolutamente inesperada.
Por vezes uma pequeníssima mudança é o suficiente. Dissemina-se pela trama imensa de recordações e hábitos que é uma pessoa. Irresistivelmente. E muda toda uma vida. Nada há que permaneça. O mundo real não tem recordações. Vem sem etiquetas.» pág.7

Lars Gustafsson é o autor de A Morte de um Apicultor, obra de culto aqui para estes lados, e repete a presença no pilha com A Amante Colombiana. Editado originalmente em 1996, chegou até nós pelas mãos da Asa em Setembro de 2001, mas foi uma das leituras do Pedro (habitual colaborador desta casa) no ano passado, e uma das suas preferidas.

«É certo que era feia. Era feia. Era francamente feia. Mas, como ele sempre dissera a si próprio, era feia de uma maneira interessante. E quanto mais se olhava para ela, mais interessante. O perfil direito e anguloso, com um nariz comprido, os seios pequenos e lisos (que talvez emanassem calor; os seios pequenos e lisos às vezes emanam um calor surpreendente), os olhos, escuros como poços negros e profundos numa velha ruína do deserto. O conjunto era de facto muito interessante, mas ele nunca tivera tempo para lhe prestar muita atenção. E na verdade nunca observara nada disto antes daquela manhã de Outubro, esplendorosa e límpida.
Ela vinha sempre às segundas e sextas. Era o combinado.» pág.9

Serenidade nórdica, fotogenia sueca, sensualidade latina, pragmatismo europeu; e o valor que a vida (de todos e de cada um) tem lá para os reinos do Norte.
Quase se arrancam as páginas com a voracidade com que se lê.

«Estava bem, estava esmagadoramente bem. Estava tudo bem.
Mas havia também qualquer coisa de desagradável. Esta passagem de uma forma habitual de se relacionar com uma pessoa para outra. Como por acaso, tinha dado o salto de um quase desconhecimento para uma espécie de conhecimento profundo. Tinha saltado por cima de tudo o que se encontrava entre as duas coisas. E esse «entre» era grande como os oceanos e os continentes. Ao mesmo tempo, era justamente o desconhecimento que se tornava aliciante. Dava-lhe um pouco a sensação de se preencher com o conteúdo de outra pessoa. Ou de, por um momento, entregar o seu próprio conteúdo, já por demais conhecido, a alguém totalmente desconhecido.
- Eleonora - disse ele, passando a mão gentilmente, numa carícia, de um seio para o outro - Eleonora, o que é que tem tanta graça?
- O señor Dick foi o primeiro homem que me tocou.
- Que te tocou?
Não ousou pedir-lhe uma tradução. Não estava certo de ter compreendido.
Mas Eleonora repetiu, agora com um sorriso radioso e uma luz suave nos olhos castanhos, água profunda, húmus líquido onde parecia brilhar por vezes um reflexo do sol, aquilo que tinha dito:
- O senõr Dick foi o primeiro homem na vida que me tocou.» pág.62


A Amante Colombiana, de Lars Gustafsson (trad. Ana Diniz), edições Asa, Setembro 2001, 160 pág., pvp:3,50€ (preço Azul Asa)


Damos assim início a um balanço, a um revisitar de livros e histórias num ritmo (quase) diário, para acompanhar ao longo das próximas semanas. No entretanto, continuamos com a porta aberta a sugestões e opiniões, acrescentos e comentários aos livros que foram e aos que hão-de vir.

Apenas uma nota: para minha alegria, num já alargado conjunto de escolhas que chegaram até cá, nenhum livro é referido por mais que uma vez. Ainda bem :)

Até já!

quinta-feira, dezembro 30, 2004

Os livros das nossas vidas

«Uma das razões pela qual há tão poucos de nós a agir, em vez de reagir, reside no facto de estarmos continuamente a sufocar os nossos impulsos mais profundos. Posso ilustrar esta ideia escolhendo, por exemplo, a maneira como a maioria de nós lê. Se se trata de um livro que nos entusiasma e nos estimula o pensamento, lemo-lo a correr. Ficamos impacientes por saber aonde vai aquilo levar; queremos captar, possuir a mensagem oculta. Repetidamente, nesses livros, tropeçamos numa frase, numa passagem, por vezes num capítulo inteiro, de tal modo estimulante e provocador que mal entendemos o que estamos a ler, de tal modo o nosso espírito fica sobrecarregado de pensamentos e associações que nada têm a ver com a obra. É raro interrompermos a leitura a fim de nos darmos ao luxo de desfrutar os nossos próprios pensamentos! Não, abafamos e suprimimos as nossas ideias, pensando poder retomá-las mais tarde, depois de termos acabado o livro. Claro que nunca o fazemos. Como seria melhor e mais sensato, mais instrutivo e enriquecedor, se seguíssemos a passo de caracol! Que importa se levássemos um ano, em vez de uns quantos dias, a acabar o livro?

«Mas não tenho tempo para ler assim!», objectar-me-ão. «Tenho outras coisas para fazer. Tenho deveres e responsabilidades.»

É precisamente àqueles que falam assim que estas palavras se destinam. Quem receia negligenciar os seus deveres lendo vagarosa e ponderadamente, cultivando os seus próprios pensamentos, irá negligenciar os seus deveres de qualquer maneira, e por motivos piores. Talvez o nosso destino seja perder o emprego, a mulher, a casa. Se a leitura de um livro nos pode agitar tão profundamente, a ponto de nos fazer esquecer as nossas responsabilidades, é porque estas últimas não têm grande significado para nós. Nesse caso, tínhamos responsabilidades maiores. Se tivéssemos confiado nos nossos impulsos íntimos, teríamos seguido até um terreno mais firme, no qual ficaríamos numa posição de vantagem. Mas tivemos medo de uma voz que murmurasse: «Volta aqui! Bate a esta porta! Entra!» Tivemos medo de nos vermos despojados e abandonados: Pensámos em segurança em vez de pensarmos numa nova vida, em novos domínios de aventura e de exploração.

Este é um mero exemplo do que pode acontecer, ou não acontecer, ao lermos um livro. Se o aplicarmos às múltiplas oportunidades que a vida constantemente nos oferece, será fácil ver por que motivo os homens não são capazes, não só de se tornarem heróis, mas mesmo simples indivíduos. A forma como lemos um livro é a mesma forma como lemos a vida. Maeterlink, a quem me referi há pouco, escreve com tanta profundidade e de uma maneira tão atraente sobre insectos, flores, estrelas, sobre o próprio espaço, como sobre os homens e as mulheres. Para ele, o mundo é um todo contínuo, interactivo e intermutável. Não há muros nem barreiras. Não há morte em nenhum lugar. Um momento do tempo é tão rico e completo como dez milhares de anos. Na verdade, trata-se de uma forma de pensar magnífica!»


O pilha fez um ano de vida no passado dia 21, e entre períodos mais férteis e outros de pousio, por aqui se tem falado muito de livros, do mundo que os rodeia, das pessoas que neles vivem.

Quem aqui em cima fala é Henry Miller, excerto de "Os Livros da Minha Vida", o livro que mais me marcou neste 2004, neste ano de pilha.

O desafio aqui fica: quais os vossos livros deste ano? Editados em 2004 (ou não), a descoberta de um autor, de uma colecção de livros, de uma editora, o que mais vos marcou neste ano de livros pilhados (oferecidos e partilhados) pode ser depositado no espaço de comentários mesmo aqui por baixo, ou enviado para a nossa nova morada: pilhalivros@yahoo.com.

Até já :)

quarta-feira, dezembro 15, 2004

A Terrível Impostura

Porque a verdade tem muitas versões



A Terrível Impostura, de Thierry Meyssan, da Frenesi, 240 páginas, pvp: 15€

conversas com Agostinho da Silva

A.S. - (...)
Bem, mas o que é que Camões diz? Camões diz que se pode, ao mesmo tempo, estar-se preso no Tempo e no Espaço mas pairar acima desses dois condicionalismos com uma noção de Eternidade e com uma noção de não-Espaço, de se poder dominar tudo quanto é o universo do Espaço. Estar lá e ele estar cá, deste lado.

V.M. - Mas quando pode acontecer isso?
A.S. - Quando o Homem é capaz, ou por inspiração alheia ou, vamos lá dizer, pela cabeça dele, de produzir uma obra que pode ser uma obra de literatura, como Camilo; pode ser uma obra científica, como uma nova teoria da Física; ou até uma ideia mística de qualquer espécie de religião que também paira no Eterno.
Quando encontramos um grande poema, quando deparamos com uma grande teoria científica ou um grande arrebatamento místico, isso é da Eternidade e do não-espacial. Tanto é grego como é português, tanto é português como é chinês...
Voltemos, pois, a Camilo Castelo Branco e digamos que o seu destino era esse, de escrever para comer.
Em primeiro lugar, era assim tão ruim?
Existe outra maneira de ver a coisa, dizendo assim: provavelmente se Camilo fosse rico ele tinha-se abandonado ao jogo do bilhar, ou dedicado a namorar meninas ou entreter-se a andar à pancada e não se tinha aplicado a escrever como escreveu.
Não temos a certeza de que as condições a que um homem é submetido na sua vida ou num certo ponto da História não seja a mesma coisa que faz com que espremamos a pasta dos dentes para poder lavar os dentes.

V.M. - O mesmo caso pode-se colocar para Fernando Pessoa?
A.S. - Se Pessoa tivesse sido rico, com amigos e com família, bem instalado numa casa, em lugar de andar errante e de comer pessimamente, será que teria produzido a poesia, os heterónimos, a prosa e o pensamento que produziu?
Nós apenas sabemos o que aconteceu pois aquilo que teria acontecido nunca sabemos. Em História, apenas aquilo que sucedeu é passível de análise e de discussão e o que não sucedeu é uma fantasia e uma lição que nós podemos ter mas sem a certeza de ancorar em Terra.
O Camilozinho teve, por exemplo, por destino o ser obrigado a escrever e ele cumpriu esse destino, o destino de ter fome, o de ter dificuldades sociais, mas ao mesmo tempo em cada livro que escrevia, ou em quase todos os livros que escreveu, ele pairou acima do seu destino.
Hoje o que importa para um homem que leia Camilo e não esteja interessado na sua biografia, não são propriamente as desgraças sucedidas a Camilo mas a beleza extraordinária que ele era capaz de colocar num livro.

(das páginas 35 a 37)

conversas com Agostinho da Silva, por Victor Mendanha, da Pergaminho, Novembro de 1994 (10ª reimpressão, 2002), 123 páginas, pvp: 6,50€

terça-feira, dezembro 14, 2004

Autobiografia sumária

Não acha que escrever textos cómicos é uma actividade muito triste? Talvez seja porque dá imenso trabalho ter graça. Concorda?

Sim, mas - até por pudor - não gostaria de fazer a rábula do humorista angustiado.
Há um poema da Adília Lopes que se chama "Autobiografia sumária". São só três linhas:

Os meus gatos
gostam de brincar
com as minhas baratas

Sempre achei que isto era uma bela metáfora sobre o processo de fazer humor: aquilo que em nós é felino, perspicaz e arguto, põe-se a brincar com o que temos de mais obscuro e repelente. Uma vez perguntei à Adília Lopes se era isso que ela tinha querido dizer com o poema. Ela respondeu: "Não. O que se passa é que eu, às vezes, tenho baratas na cozinha, e os meus gatos gostam muito de brincar com elas."
Toma que é para não te armares em esperto.


excerto da entrevista de Leonor Pinhão a Ricardo Araújo Pereira, publicada na revista os meus livros nº 22, de Dezembro 2004.


O pilha sugere a Obra completa de Adília Lopes (e as incompletas também) e os anúncios do Montepio Geral.

domingo, dezembro 12, 2004

O MAR, A MÃE - Marie Darrieussecq

"O Mar, A Mãe pode ser considerado como o "negativo" do romance anterior da autora, O Nascimento dos Fantasmas, no qual um marido desaparece quando sai para comprar pão. Se nesse texto a descrição se ocupa das emoções da mulher face a essa ausência inesperada, no presente livro é o próprio desaparecimento que invade todos os limites da narrativa, consagrando-se como figura de primeiro plano."

Quando li estas palavras, e como já tinha lido "O Nascimento dos Fantasmas", pensei: "olha, até que é uma boa ideia". Má ideia foi ter comprado o livro.

A acção decorre num extrema confusão, sem um fio condutor. O aparecimento dos personagens surgem sem qualquer introdução, e como não há diálogos, lemos as primeiras linhas de cada parágrafo a tentar adivinhar quem está a pensar o quê. Durante todo o livro não nos é dado a conhecer o estado de espírito e os sentimentos da personagem principal (a desaparecida), e terminamos o livro sem perceber o porquê desta fuga. Igualmente mal explorados são os outros dois personagens principais (a filha da desaparecida e o detective), que teriam muito a dizer ao verem-se inseridos nesta história. A escritora limita-se a descrever o que as personagens veêm, e as pessoas que conhecem, mas a desorganização da escrita é incómoda e, por vezes, irritante.

Se alguém quiser pegar na ideia desta história (que ainda me parece boa), tente ser um bocadinho mais exigente consigo próprio.

"O Mar, A Mãe", de Marie Darieussecq (tradução de Maria do Rosário Mendes), 1ª Edição (2001), Edições Asa, 95 págs., pvp: 2.50€

quarta-feira, dezembro 08, 2004

Prendas de Natal

Dizia assim um vendedor de uma editora num destes dias:
- Quantos mais Natais andaremos a vender os mesmos livros?
Há aqueles livros que vendem o ano inteiro, mas que têm um lugar cativo nas compras de todos os portugueses, assim que nos começamos a sentir como um velhinho de barbas brancas vestido de robe vermelho.

Gabriel García Márquez, Nicholas Sparks, Luis Sepúlveda, "O Perfume" (Patrick Süskind), "As Velas Ardem Até ao Fim" (Sándor Márai), "Equador" (Miguel Sousa Tavares) e outros que tais, são as escolhas óbvias de quem quer oferecer espírito natalício em forma de livro. Na dúvida, oferece-se algo de que todos (?) gostam.

E aí, este Natal, há algo novo. Poderia pensar-se que o fenómeno estava gasto, que já todos tinham lido, que não haveria um único português sem um exemplar em casa. Estava enganado. Na dúvida, oferece-se "O Código Da Vinci". Saem mais depressa do que entram e não há outro "best-seller" que lhe faça frente.

Pode perguntar-se «Será que o Código DaVinci já vendeu mais exemplares do que o Código Civil?». Faltava a edição ilustrada (já aí está), mas ainda falta uma edição para crianças, agendas, livros de receitas, colecções de cromos, banda-desenhada, e porque não, "O Código Da Vinci para Advogados e Juízes". Se não vendeu mais que o Código Civil, para lá caminha rapidamente, com uma pequena ajuda do Pai Natal.

segunda-feira, novembro 29, 2004

HISTÓRIAS DE 1 MINUTO (VOL. 1) - István Örkény

Informação

"Há já catorze anos que está sentado à entrada de um postigo. As pessoas só lhe dirigem dois tipos de perguntas.
- Onde ficam os escritórios da Montex?
Ele responde:
- Primeiro andar, à esquerda.
A segunda pergunta é:
- Onde fica a Empresa Transformadora dos Desperdícios de Resinas?
A esta ele responde:
- Segundo andar, segunda porta à direita.
Há catorze anos que nunca se engana, toda a gente tem recebido a informação correcta. Uma vez, porém aconteceu que uma senhora se dirigiu ao postigo e lhe fez uma das perguntas habituais:
- Pode fazer o favor de me dizer onde é a Montex?
E ele, nessa única vez, alongou os olhos e disse assim:
- Todos nós vimos do nada e à merda do nada vamos voltar.
A senhora apresentou queixa. A queixa foi examinada, discutida e depois arquivada.
E de facto, não era assim tão grave."

Contos de 1 minuto (Vol. 1), de István Örkény (tradução de Piroska Felkai), 1ª edição (2004), Cavalo de Ferro, 155 págs., pvp: 15€

Durante a minha incessante busca e descoberta da literatura húngara (que não é assim tão escassa, traduzida para português), dei por mim a esperar 12 longos e exasperantes meses pela edição deste livro. A Ficções deu mais uma facadinha na angústia com a publicação de um dos contos no Ficções de Comer. Mas a espera valeu a pena. Sendo uma colectânea de contos, é difícil descrever o livro como um todo. Örkeny salta do simples para o absurdo, do grotesco para o romântico, havendo apenas dois pontos em comum nas suas histórias: um é a ausência de "moral da história"; o outro é a fantástica capacidade de deixar o leitor a pensar "mas o que é que ele quis dizer com isto?". A sua escrita deixa margem de manobra para o leitor tirar as suas próprias conclusões. Este, se estiver "desatento" vai dar por si a divagar mentalmente, por horas a fio. Sim, porque, de um minuto, estes contos têm apenas a sua leitura.

Os nossos filhos

"Era uma vez uma viúva velhinha e essa viúva tinha dois belos filhos. Um, o mais velho, empregou-se num navio cuja primeira viagem o levou ao Oceano Pacífico. O que lhe aconteceu, ninguém pode dizer, porque desapareceu no mar sem deixar vestígios.
O mais novo ficou em casa. Mas uma vez, quando a sua mãe o mandou comprar vermicida (a farmácia, que é a sétima casa a seguir à sua), nunca mais voltou. Também ele desapareceu para sempre.
Esta é a realidade dos factos. Mas nos contos as viúvas costumam ter três filhos. É sempre o terceiro que consegue o seu lugar ao sol."

sábado, novembro 20, 2004

ROSA DO MUNDO - 2001 poemas para o futuro

(Mito da criação)

No princípio existia uma enorme gota de leite.
Então chegou Doondari e criou a pedra.
A pedra criou o ferro;
E o ferro criou o fogo;
E o fogo criou a água;
E a água criou o ar.
Então Doondari desceu pela segunda vez.
Juntou os cinco elementos
E moldou-os num homem,
Mas o homem era orgulhoso.
Então Doondari criou a cegueira e a cegueira derrotou o homem.
Mas quando a cegueira se tornou demasiado orgulhosa,
Doondari criou o sono, e o sono derrotou a cegueira;
Mas quando o sono se tornou demasiado orgulhoso,
Doondari criou a preocupação, e a preocupação derrotou o sono;
Mas quando a preocupação se tornou demasiado orgulhosa,
Doondari criou a morte, e a morte derrotou a preocupação.
Quando a morte se tornou demasiado orgulhosa,
Doondari desceu pela terceira vez.
E ele veio como Gueno, o Eterno,
E Gueno derrotou a morte.
trad. Vasco David


Esta saga disfarçada de poema vem do Mali, e entre ela e o que se segue estão 1999 poemas para o futuro, naquele que é um dos objectos mais bonitos que se podem encontrar nas livrarias.
Objecto de desejo claro está, até porque tão monumental obra tem um preço condizente. Mas para quem nunca tenha concretizado essa vontade, aqui fica a sugestão: só até ao final do ano, a Assírio & Alvim disponibiliza estas 1919 páginas de viagens e sonhos por 35€, menos 20€ que o preço de venda ao público habitual.
Venham eles, os sonhos, e as descobertas.


TESTAMENTO

Após a morte de Deus
abriremos o testamento
para saber
a quem pertence o mundo
e aquela grande armadilha
de homens.

Ewa Lipska (Polónia), trad. Aleksandar Jovanovic

sábado, novembro 06, 2004

a mão que faz o livro

"- (...) Ao princípio trabalhava com planos muito detalhados e agora não. Agora é a mão que faz o livro. Por exemplo, para escrever aquelas crónicas de jornal, quando me sento não sei o que vou escrever, escrevo a primeira palavra e depois as palavras geram-se umas às outras. Ao princípio sim, fazia planos e esquemas, tinha de ter uma ideia, e agora não.

- O que mudou?
- Não tinha ainda percebido que o livro é uma entidade independente de si e que tem as suas leis próprias e que é um organismo vivo, não depende de um acto voluntário seu. É qualquer coisa que nasce de uma zona que não sabe se é sua, se é de outra pessoa, de quem é, e que não lhe pertence. Isto por um lado também é bom porque elimina toda a vaidade que possa existir."

entrevista de Paula Macedo, foto de João Barata, em A Capital, de 04/11/04