«Uma das razões pela qual há tão poucos de nós a agir, em vez de reagir, reside no facto de estarmos continuamente a sufocar os nossos impulsos mais profundos. Posso ilustrar esta ideia escolhendo, por exemplo, a maneira como a maioria de nós lê. Se se trata de um livro que nos entusiasma e nos estimula o pensamento, lemo-lo a correr. Ficamos impacientes por saber aonde vai aquilo levar; queremos captar, possuir a mensagem oculta. Repetidamente, nesses livros, tropeçamos numa frase, numa passagem, por vezes num capítulo inteiro, de tal modo estimulante e provocador que mal entendemos o que estamos a ler, de tal modo o nosso espírito fica sobrecarregado de pensamentos e associações que nada têm a ver com a obra. É raro interrompermos a leitura a fim de nos darmos ao luxo de desfrutar os nossos próprios pensamentos! Não, abafamos e suprimimos as nossas ideias, pensando poder retomá-las mais tarde, depois de termos acabado o livro. Claro que nunca o fazemos. Como seria melhor e mais sensato, mais instrutivo e enriquecedor, se seguíssemos a passo de caracol! Que importa se levássemos um ano, em vez de uns quantos dias, a acabar o livro?
«Mas não tenho tempo para ler assim!», objectar-me-ão. «Tenho outras coisas para fazer. Tenho deveres e responsabilidades.»
É precisamente àqueles que falam assim que estas palavras se destinam. Quem receia negligenciar os seus deveres lendo vagarosa e ponderadamente, cultivando os seus próprios pensamentos, irá negligenciar os seus deveres de qualquer maneira, e por motivos piores. Talvez o nosso destino seja perder o emprego, a mulher, a casa. Se a leitura de um livro nos pode agitar tão profundamente, a ponto de nos fazer esquecer as nossas responsabilidades, é porque estas últimas não têm grande significado para nós. Nesse caso, tínhamos responsabilidades maiores. Se tivéssemos confiado nos nossos impulsos íntimos, teríamos seguido até um terreno mais firme, no qual ficaríamos numa posição de vantagem. Mas tivemos medo de uma voz que murmurasse: «Volta aqui! Bate a esta porta! Entra!» Tivemos medo de nos vermos despojados e abandonados: Pensámos em segurança em vez de pensarmos numa nova vida, em novos domínios de aventura e de exploração.
Este é um mero exemplo do que pode acontecer, ou não acontecer, ao lermos um livro. Se o aplicarmos às múltiplas oportunidades que a vida constantemente nos oferece, será fácil ver por que motivo os homens não são capazes, não só de se tornarem heróis, mas mesmo simples indivíduos. A forma como lemos um livro é a mesma forma como lemos a vida. Maeterlink, a quem me referi há pouco, escreve com tanta profundidade e de uma maneira tão atraente sobre insectos, flores, estrelas, sobre o próprio espaço, como sobre os homens e as mulheres. Para ele, o mundo é um todo contínuo, interactivo e intermutável. Não há muros nem barreiras. Não há morte em nenhum lugar. Um momento do tempo é tão rico e completo como dez milhares de anos. Na verdade, trata-se de uma forma de pensar magnífica!»
O pilha fez um ano de vida no passado dia 21, e entre períodos mais férteis e outros de pousio, por aqui se tem falado muito de livros, do mundo que os rodeia, das pessoas que neles vivem.
Quem aqui em cima fala é Henry Miller, excerto de "Os Livros da Minha Vida", o livro que mais me marcou neste 2004, neste ano de pilha.
O desafio aqui fica: quais os vossos livros deste ano? Editados em 2004 (ou não), a descoberta de um autor, de uma colecção de livros, de uma editora, o que mais vos marcou neste ano de livros pilhados (oferecidos e partilhados) pode ser depositado no espaço de comentários mesmo aqui por baixo, ou enviado para a nossa nova morada: pilhalivros@yahoo.com.
Até já :)
...e também não é por roubar um pássaro ou um livro, que logo dá aos amigos, que o Alba tem as mãos sujas. chartapaciu@gmail.com
quinta-feira, dezembro 30, 2004
quarta-feira, dezembro 15, 2004
A Terrível Impostura
Porque a verdade tem muitas versões
A Terrível Impostura, de Thierry Meyssan, da Frenesi, 240 páginas, pvp: 15€
A Terrível Impostura, de Thierry Meyssan, da Frenesi, 240 páginas, pvp: 15€
conversas com Agostinho da Silva
A.S. - (...)
Bem, mas o que é que Camões diz? Camões diz que se pode, ao mesmo tempo, estar-se preso no Tempo e no Espaço mas pairar acima desses dois condicionalismos com uma noção de Eternidade e com uma noção de não-Espaço, de se poder dominar tudo quanto é o universo do Espaço. Estar lá e ele estar cá, deste lado.
V.M. - Mas quando pode acontecer isso?
A.S. - Quando o Homem é capaz, ou por inspiração alheia ou, vamos lá dizer, pela cabeça dele, de produzir uma obra que pode ser uma obra de literatura, como Camilo; pode ser uma obra científica, como uma nova teoria da Física; ou até uma ideia mística de qualquer espécie de religião que também paira no Eterno.
Quando encontramos um grande poema, quando deparamos com uma grande teoria científica ou um grande arrebatamento místico, isso é da Eternidade e do não-espacial. Tanto é grego como é português, tanto é português como é chinês...
Voltemos, pois, a Camilo Castelo Branco e digamos que o seu destino era esse, de escrever para comer.
Em primeiro lugar, era assim tão ruim?
Existe outra maneira de ver a coisa, dizendo assim: provavelmente se Camilo fosse rico ele tinha-se abandonado ao jogo do bilhar, ou dedicado a namorar meninas ou entreter-se a andar à pancada e não se tinha aplicado a escrever como escreveu.
Não temos a certeza de que as condições a que um homem é submetido na sua vida ou num certo ponto da História não seja a mesma coisa que faz com que espremamos a pasta dos dentes para poder lavar os dentes.
V.M. - O mesmo caso pode-se colocar para Fernando Pessoa?
A.S. - Se Pessoa tivesse sido rico, com amigos e com família, bem instalado numa casa, em lugar de andar errante e de comer pessimamente, será que teria produzido a poesia, os heterónimos, a prosa e o pensamento que produziu?
Nós apenas sabemos o que aconteceu pois aquilo que teria acontecido nunca sabemos. Em História, apenas aquilo que sucedeu é passível de análise e de discussão e o que não sucedeu é uma fantasia e uma lição que nós podemos ter mas sem a certeza de ancorar em Terra.
O Camilozinho teve, por exemplo, por destino o ser obrigado a escrever e ele cumpriu esse destino, o destino de ter fome, o de ter dificuldades sociais, mas ao mesmo tempo em cada livro que escrevia, ou em quase todos os livros que escreveu, ele pairou acima do seu destino.
Hoje o que importa para um homem que leia Camilo e não esteja interessado na sua biografia, não são propriamente as desgraças sucedidas a Camilo mas a beleza extraordinária que ele era capaz de colocar num livro.
(das páginas 35 a 37)
conversas com Agostinho da Silva, por Victor Mendanha, da Pergaminho, Novembro de 1994 (10ª reimpressão, 2002), 123 páginas, pvp: 6,50€
Bem, mas o que é que Camões diz? Camões diz que se pode, ao mesmo tempo, estar-se preso no Tempo e no Espaço mas pairar acima desses dois condicionalismos com uma noção de Eternidade e com uma noção de não-Espaço, de se poder dominar tudo quanto é o universo do Espaço. Estar lá e ele estar cá, deste lado.
V.M. - Mas quando pode acontecer isso?
A.S. - Quando o Homem é capaz, ou por inspiração alheia ou, vamos lá dizer, pela cabeça dele, de produzir uma obra que pode ser uma obra de literatura, como Camilo; pode ser uma obra científica, como uma nova teoria da Física; ou até uma ideia mística de qualquer espécie de religião que também paira no Eterno.
Quando encontramos um grande poema, quando deparamos com uma grande teoria científica ou um grande arrebatamento místico, isso é da Eternidade e do não-espacial. Tanto é grego como é português, tanto é português como é chinês...
Voltemos, pois, a Camilo Castelo Branco e digamos que o seu destino era esse, de escrever para comer.
Em primeiro lugar, era assim tão ruim?
Existe outra maneira de ver a coisa, dizendo assim: provavelmente se Camilo fosse rico ele tinha-se abandonado ao jogo do bilhar, ou dedicado a namorar meninas ou entreter-se a andar à pancada e não se tinha aplicado a escrever como escreveu.
Não temos a certeza de que as condições a que um homem é submetido na sua vida ou num certo ponto da História não seja a mesma coisa que faz com que espremamos a pasta dos dentes para poder lavar os dentes.
V.M. - O mesmo caso pode-se colocar para Fernando Pessoa?
A.S. - Se Pessoa tivesse sido rico, com amigos e com família, bem instalado numa casa, em lugar de andar errante e de comer pessimamente, será que teria produzido a poesia, os heterónimos, a prosa e o pensamento que produziu?
Nós apenas sabemos o que aconteceu pois aquilo que teria acontecido nunca sabemos. Em História, apenas aquilo que sucedeu é passível de análise e de discussão e o que não sucedeu é uma fantasia e uma lição que nós podemos ter mas sem a certeza de ancorar em Terra.
O Camilozinho teve, por exemplo, por destino o ser obrigado a escrever e ele cumpriu esse destino, o destino de ter fome, o de ter dificuldades sociais, mas ao mesmo tempo em cada livro que escrevia, ou em quase todos os livros que escreveu, ele pairou acima do seu destino.
Hoje o que importa para um homem que leia Camilo e não esteja interessado na sua biografia, não são propriamente as desgraças sucedidas a Camilo mas a beleza extraordinária que ele era capaz de colocar num livro.
(das páginas 35 a 37)
conversas com Agostinho da Silva, por Victor Mendanha, da Pergaminho, Novembro de 1994 (10ª reimpressão, 2002), 123 páginas, pvp: 6,50€
terça-feira, dezembro 14, 2004
Autobiografia sumária
Não acha que escrever textos cómicos é uma actividade muito triste? Talvez seja porque dá imenso trabalho ter graça. Concorda?
Sim, mas - até por pudor - não gostaria de fazer a rábula do humorista angustiado.
Há um poema da Adília Lopes que se chama "Autobiografia sumária". São só três linhas:
Os meus gatos
gostam de brincar
com as minhas baratas
Sempre achei que isto era uma bela metáfora sobre o processo de fazer humor: aquilo que em nós é felino, perspicaz e arguto, põe-se a brincar com o que temos de mais obscuro e repelente. Uma vez perguntei à Adília Lopes se era isso que ela tinha querido dizer com o poema. Ela respondeu: "Não. O que se passa é que eu, às vezes, tenho baratas na cozinha, e os meus gatos gostam muito de brincar com elas."
Toma que é para não te armares em esperto.
excerto da entrevista de Leonor Pinhão a Ricardo Araújo Pereira, publicada na revista os meus livros nº 22, de Dezembro 2004.
O pilha sugere a Obra completa de Adília Lopes (e as incompletas também) e os anúncios do Montepio Geral.
Sim, mas - até por pudor - não gostaria de fazer a rábula do humorista angustiado.
Há um poema da Adília Lopes que se chama "Autobiografia sumária". São só três linhas:
Os meus gatos
gostam de brincar
com as minhas baratas
Sempre achei que isto era uma bela metáfora sobre o processo de fazer humor: aquilo que em nós é felino, perspicaz e arguto, põe-se a brincar com o que temos de mais obscuro e repelente. Uma vez perguntei à Adília Lopes se era isso que ela tinha querido dizer com o poema. Ela respondeu: "Não. O que se passa é que eu, às vezes, tenho baratas na cozinha, e os meus gatos gostam muito de brincar com elas."
Toma que é para não te armares em esperto.
excerto da entrevista de Leonor Pinhão a Ricardo Araújo Pereira, publicada na revista os meus livros nº 22, de Dezembro 2004.
O pilha sugere a Obra completa de Adília Lopes (e as incompletas também) e os anúncios do Montepio Geral.
domingo, dezembro 12, 2004
O MAR, A MÃE - Marie Darrieussecq
"O Mar, A Mãe pode ser considerado como o "negativo" do romance anterior da autora, O Nascimento dos Fantasmas, no qual um marido desaparece quando sai para comprar pão. Se nesse texto a descrição se ocupa das emoções da mulher face a essa ausência inesperada, no presente livro é o próprio desaparecimento que invade todos os limites da narrativa, consagrando-se como figura de primeiro plano."
Quando li estas palavras, e como já tinha lido "O Nascimento dos Fantasmas", pensei: "olha, até que é uma boa ideia". Má ideia foi ter comprado o livro.
A acção decorre num extrema confusão, sem um fio condutor. O aparecimento dos personagens surgem sem qualquer introdução, e como não há diálogos, lemos as primeiras linhas de cada parágrafo a tentar adivinhar quem está a pensar o quê. Durante todo o livro não nos é dado a conhecer o estado de espírito e os sentimentos da personagem principal (a desaparecida), e terminamos o livro sem perceber o porquê desta fuga. Igualmente mal explorados são os outros dois personagens principais (a filha da desaparecida e o detective), que teriam muito a dizer ao verem-se inseridos nesta história. A escritora limita-se a descrever o que as personagens veêm, e as pessoas que conhecem, mas a desorganização da escrita é incómoda e, por vezes, irritante.
Se alguém quiser pegar na ideia desta história (que ainda me parece boa), tente ser um bocadinho mais exigente consigo próprio.
"O Mar, A Mãe", de Marie Darieussecq (tradução de Maria do Rosário Mendes), 1ª Edição (2001), Edições Asa, 95 págs., pvp: 2.50€
Quando li estas palavras, e como já tinha lido "O Nascimento dos Fantasmas", pensei: "olha, até que é uma boa ideia". Má ideia foi ter comprado o livro.
A acção decorre num extrema confusão, sem um fio condutor. O aparecimento dos personagens surgem sem qualquer introdução, e como não há diálogos, lemos as primeiras linhas de cada parágrafo a tentar adivinhar quem está a pensar o quê. Durante todo o livro não nos é dado a conhecer o estado de espírito e os sentimentos da personagem principal (a desaparecida), e terminamos o livro sem perceber o porquê desta fuga. Igualmente mal explorados são os outros dois personagens principais (a filha da desaparecida e o detective), que teriam muito a dizer ao verem-se inseridos nesta história. A escritora limita-se a descrever o que as personagens veêm, e as pessoas que conhecem, mas a desorganização da escrita é incómoda e, por vezes, irritante.
Se alguém quiser pegar na ideia desta história (que ainda me parece boa), tente ser um bocadinho mais exigente consigo próprio.
"O Mar, A Mãe", de Marie Darieussecq (tradução de Maria do Rosário Mendes), 1ª Edição (2001), Edições Asa, 95 págs., pvp: 2.50€
quarta-feira, dezembro 08, 2004
Prendas de Natal
Dizia assim um vendedor de uma editora num destes dias:
- Quantos mais Natais andaremos a vender os mesmos livros?
Há aqueles livros que vendem o ano inteiro, mas que têm um lugar cativo nas compras de todos os portugueses, assim que nos começamos a sentir como um velhinho de barbas brancas vestido de robe vermelho.
Gabriel García Márquez, Nicholas Sparks, Luis Sepúlveda, "O Perfume" (Patrick Süskind), "As Velas Ardem Até ao Fim" (Sándor Márai), "Equador" (Miguel Sousa Tavares) e outros que tais, são as escolhas óbvias de quem quer oferecer espírito natalício em forma de livro. Na dúvida, oferece-se algo de que todos (?) gostam.
E aí, este Natal, há algo novo. Poderia pensar-se que o fenómeno estava gasto, que já todos tinham lido, que não haveria um único português sem um exemplar em casa. Estava enganado. Na dúvida, oferece-se "O Código Da Vinci". Saem mais depressa do
que entram e não há outro "best-seller" que lhe faça frente.
Pode perguntar-se «Será que o Código DaVinci já vendeu mais exemplares do que o Código Civil?». Faltava a edição ilustrada (já aí está), mas ainda falta uma edição para crianças, agendas, livros de receitas, colecções de cromos, banda-desenhada, e porque não, "O Código Da Vinci para Advogados e Juízes". Se não vendeu mais que o Código Civil, para lá caminha rapidamente, com uma pequena ajuda do Pai Natal.
- Quantos mais Natais andaremos a vender os mesmos livros?
Há aqueles livros que vendem o ano inteiro, mas que têm um lugar cativo nas compras de todos os portugueses, assim que nos começamos a sentir como um velhinho de barbas brancas vestido de robe vermelho.
Gabriel García Márquez, Nicholas Sparks, Luis Sepúlveda, "O Perfume" (Patrick Süskind), "As Velas Ardem Até ao Fim" (Sándor Márai), "Equador" (Miguel Sousa Tavares) e outros que tais, são as escolhas óbvias de quem quer oferecer espírito natalício em forma de livro. Na dúvida, oferece-se algo de que todos (?) gostam.
E aí, este Natal, há algo novo. Poderia pensar-se que o fenómeno estava gasto, que já todos tinham lido, que não haveria um único português sem um exemplar em casa. Estava enganado. Na dúvida, oferece-se "O Código Da Vinci". Saem mais depressa do
que entram e não há outro "best-seller" que lhe faça frente.
Pode perguntar-se «Será que o Código DaVinci já vendeu mais exemplares do que o Código Civil?». Faltava a edição ilustrada (já aí está), mas ainda falta uma edição para crianças, agendas, livros de receitas, colecções de cromos, banda-desenhada, e porque não, "O Código Da Vinci para Advogados e Juízes". Se não vendeu mais que o Código Civil, para lá caminha rapidamente, com uma pequena ajuda do Pai Natal.
segunda-feira, novembro 29, 2004
HISTÓRIAS DE 1 MINUTO (VOL. 1) - István Örkény
Informação
"Há já catorze anos que está sentado à entrada de um postigo. As pessoas só lhe dirigem dois tipos de perguntas.
- Onde ficam os escritórios da Montex?
Ele responde:
- Primeiro andar, à esquerda.
A segunda pergunta é:
- Onde fica a Empresa Transformadora dos Desperdícios de Resinas?
A esta ele responde:
- Segundo andar, segunda porta à direita.
Há catorze anos que nunca se engana, toda a gente tem recebido a informação correcta. Uma vez, porém aconteceu que uma senhora se dirigiu ao postigo e lhe fez uma das perguntas habituais:
- Pode fazer o favor de me dizer onde é a Montex?
E ele, nessa única vez, alongou os olhos e disse assim:
- Todos nós vimos do nada e à merda do nada vamos voltar.
A senhora apresentou queixa. A queixa foi examinada, discutida e depois arquivada.
E de facto, não era assim tão grave."
Contos de 1 minuto (Vol. 1), de István Örkény (tradução de Piroska Felkai), 1ª edição (2004), Cavalo de Ferro, 155 págs., pvp: 15€
Durante a minha incessante busca e descoberta da literatura húngara (que não é assim tão escassa, traduzida para português), dei por mim a esperar 12 longos e exasperantes meses pela edição deste livro. A Ficções deu mais uma facadinha na angústia com a publicação de um dos contos no Ficções de Comer. Mas a espera valeu a pena. Sendo uma colectânea de contos, é difícil descrever o livro como um todo. Örkeny salta do simples para o absurdo, do grotesco para o romântico, havendo apenas dois pontos em comum nas suas histórias: um é a ausência de "moral da história"; o outro é a fantástica capacidade de deixar o leitor a pensar "mas o que é que ele quis dizer com isto?". A sua escrita deixa margem de manobra para o leitor tirar as suas próprias conclusões. Este, se estiver "desatento" vai dar por si a divagar mentalmente, por horas a fio. Sim, porque, de um minuto, estes contos têm apenas a sua leitura.
Os nossos filhos
"Era uma vez uma viúva velhinha e essa viúva tinha dois belos filhos. Um, o mais velho, empregou-se num navio cuja primeira viagem o levou ao Oceano Pacífico. O que lhe aconteceu, ninguém pode dizer, porque desapareceu no mar sem deixar vestígios.
O mais novo ficou em casa. Mas uma vez, quando a sua mãe o mandou comprar vermicida (a farmácia, que é a sétima casa a seguir à sua), nunca mais voltou. Também ele desapareceu para sempre.
Esta é a realidade dos factos. Mas nos contos as viúvas costumam ter três filhos. É sempre o terceiro que consegue o seu lugar ao sol."
"Há já catorze anos que está sentado à entrada de um postigo. As pessoas só lhe dirigem dois tipos de perguntas.
- Onde ficam os escritórios da Montex?
Ele responde:
- Primeiro andar, à esquerda.
A segunda pergunta é:
- Onde fica a Empresa Transformadora dos Desperdícios de Resinas?
A esta ele responde:
- Segundo andar, segunda porta à direita.
Há catorze anos que nunca se engana, toda a gente tem recebido a informação correcta. Uma vez, porém aconteceu que uma senhora se dirigiu ao postigo e lhe fez uma das perguntas habituais:
- Pode fazer o favor de me dizer onde é a Montex?
E ele, nessa única vez, alongou os olhos e disse assim:
- Todos nós vimos do nada e à merda do nada vamos voltar.
A senhora apresentou queixa. A queixa foi examinada, discutida e depois arquivada.
E de facto, não era assim tão grave."
Contos de 1 minuto (Vol. 1), de István Örkény (tradução de Piroska Felkai), 1ª edição (2004), Cavalo de Ferro, 155 págs., pvp: 15€
Durante a minha incessante busca e descoberta da literatura húngara (que não é assim tão escassa, traduzida para português), dei por mim a esperar 12 longos e exasperantes meses pela edição deste livro. A Ficções deu mais uma facadinha na angústia com a publicação de um dos contos no Ficções de Comer. Mas a espera valeu a pena. Sendo uma colectânea de contos, é difícil descrever o livro como um todo. Örkeny salta do simples para o absurdo, do grotesco para o romântico, havendo apenas dois pontos em comum nas suas histórias: um é a ausência de "moral da história"; o outro é a fantástica capacidade de deixar o leitor a pensar "mas o que é que ele quis dizer com isto?". A sua escrita deixa margem de manobra para o leitor tirar as suas próprias conclusões. Este, se estiver "desatento" vai dar por si a divagar mentalmente, por horas a fio. Sim, porque, de um minuto, estes contos têm apenas a sua leitura.
Os nossos filhos
"Era uma vez uma viúva velhinha e essa viúva tinha dois belos filhos. Um, o mais velho, empregou-se num navio cuja primeira viagem o levou ao Oceano Pacífico. O que lhe aconteceu, ninguém pode dizer, porque desapareceu no mar sem deixar vestígios.
O mais novo ficou em casa. Mas uma vez, quando a sua mãe o mandou comprar vermicida (a farmácia, que é a sétima casa a seguir à sua), nunca mais voltou. Também ele desapareceu para sempre.
Esta é a realidade dos factos. Mas nos contos as viúvas costumam ter três filhos. É sempre o terceiro que consegue o seu lugar ao sol."
sábado, novembro 20, 2004
ROSA DO MUNDO - 2001 poemas para o futuro

(Mito da criação)
No princípio existia uma enorme gota de leite.
Então chegou Doondari e criou a pedra.
A pedra criou o ferro;
E o ferro criou o fogo;
E o fogo criou a água;
E a água criou o ar.
Então Doondari desceu pela segunda vez.
Juntou os cinco elementos
E moldou-os num homem,
Mas o homem era orgulhoso.
Então Doondari criou a cegueira e a cegueira derrotou o homem.
Mas quando a cegueira se tornou demasiado orgulhosa,
Doondari criou o sono, e o sono derrotou a cegueira;
Mas quando o sono se tornou demasiado orgulhoso,
Doondari criou a preocupação, e a preocupação derrotou o sono;
Mas quando a preocupação se tornou demasiado orgulhosa,
Doondari criou a morte, e a morte derrotou a preocupação.
Quando a morte se tornou demasiado orgulhosa,
Doondari desceu pela terceira vez.
E ele veio como Gueno, o Eterno,
E Gueno derrotou a morte.
No princípio existia uma enorme gota de leite.
Então chegou Doondari e criou a pedra.
A pedra criou o ferro;
E o ferro criou o fogo;
E o fogo criou a água;
E a água criou o ar.
Então Doondari desceu pela segunda vez.
Juntou os cinco elementos
E moldou-os num homem,
Mas o homem era orgulhoso.
Então Doondari criou a cegueira e a cegueira derrotou o homem.
Mas quando a cegueira se tornou demasiado orgulhosa,
Doondari criou o sono, e o sono derrotou a cegueira;
Mas quando o sono se tornou demasiado orgulhoso,
Doondari criou a preocupação, e a preocupação derrotou o sono;
Mas quando a preocupação se tornou demasiado orgulhosa,
Doondari criou a morte, e a morte derrotou a preocupação.
Quando a morte se tornou demasiado orgulhosa,
Doondari desceu pela terceira vez.
E ele veio como Gueno, o Eterno,
E Gueno derrotou a morte.
trad. Vasco David
Objecto de desejo claro está, até porque tão monumental obra tem um preço condizente. Mas para quem nunca tenha concretizado essa vontade, aqui fica a sugestão: só até ao final do ano, a Assírio & Alvim disponibiliza estas 1919 páginas de viagens e sonhos por 35€, menos 20€ que o preço de venda ao público habitual.
Venham eles, os sonhos, e as descobertas.
TESTAMENTO
Após a morte de Deus
abriremos o testamento
para saber
a quem pertence o mundo
e aquela grande armadilha
de homens.
Ewa Lipska (Polónia), trad. Aleksandar Jovanovic
sábado, novembro 06, 2004
a mão que faz o livro
"- (...) Ao princípio trabalhava com planos muito detalhados e agora não. Agora é a mão que faz o livro. Por exemplo, para escrever aquelas crónicas de jornal, quando me sento não sei o que vou escrever, escrevo a primeira palavra e depois as palavras geram-se umas às outras. Ao princípio sim, fazia planos e esquemas, tinha de ter uma ideia, e agora não.
- O que mudou?
- Não tinha ainda percebido que o livro é uma entidade independente de si e que tem as suas leis próprias e que é um organismo vivo, não depende de um acto voluntário seu. É qualquer coisa que nasce de uma zona que não sabe se é sua, se é de outra pessoa, de quem é, e que não lhe pertence. Isto por um lado também é bom porque elimina toda a vaidade que possa existir."
entrevista de Paula Macedo, foto de João Barata, em A Capital, de 04/11/04
sexta-feira, novembro 05, 2004
"Eu Hei-de Amar Uma Pedra"
Na próxima 3ª feira (9/11) é posto à venda o mais recente livro de António Lobo Antunes, pela editora Dom Quixote. A acompanhar este lançamento chegará também às livrarias uma fotobiografia do autor, assim como 4 novas edições definitivas (ne varietur) de livros já publicados.
A menos de uma semana de distância, o espanto. Na capa de "A Capital" de ontem, 5ª feira, uma grande fotografia de António Lobo Antunes e o anúncio da "primeira grande entrevista" do autor antes da publicação de "Eu Hei-de Amar Uma Pedra". Até dia 9, pilham-se aqui as suas palavras.
"- Este livro tem um lado cubista, tenta mostrar as perspectivas todas. Concorda?
- Não li o livro, só escrevi e portanto a minha opinião nunca é a opinião de um leitor, não tem distância. Eu também não leio os livros. No fundo é um paradoxo: escrevo os livros que gostaria de ler e acabo por não os ler. Quando acabo um livro, quero é esquecê-lo para fazer outro. Nunca li um livro antigo. Nunca.
(...) não posso dizer muito bem que sou o autor dos livros, parece que eles estavam ali à espera. É como a gente meter a mão num saco às cegas e aparece qualquer coisa, as palavras são tiradas do fundo de um poço, uma a uma."
entrevista de Paula Macedo, fotos de João Barata, em A Capital 04/11/04
domingo, outubro 03, 2004
«Está a Brincar, Sr. Feynman! – Retrato de um Físico Enquanto Homem» - Richard P. Feynman

Li este livro há uns anos atrás, por recomendação de um professor meu. São histórias da vida de Richard Feynman, físico e vencedor do Prémio Nobel da Física, contadas na primeira pessoa, com muito humor. Feynman não corresponde à ideia de um cientista normal – ele consegue explicar conceitos científicos profundos de uma forma bastante clara a leigos. O grande e mais famoso exemplo disto foi demonstrado no dia em que ele foi chamado a Washington para explicar aos políticos e à imprensa as razões do vaivém Challenger ter explodido. Quando toda a gente estava à espera de um discurso longo, aborrrecido e incompreensível, Feynman limitou-se a colocar um elástico de borracha num copo com gelo, retirou-o do copo, esperou alguns momentos, e em seguida dobrou o elástico, partindo-o. E encarando a audiência espantada com estes procedimentos, simplesmente disse que o vaivém continha anéis de borracha que enrijeceram com o frio que se fazia sentir nessa altura, e quando se deu o lançamento do vaivém Challenger, os anéis partiram-se, fazendo o Challenger explodir.
Lendo este livro, é de vezes difícil acreditar que este conjunto de histórias pertençam todas a um homem apenas – desde o rapazinho que consertava rádios, ao professor universitário que gostava de pregar partidas, até ao homem que ganhou o prémio Nobel, passando pelo rapaz que, só para se divertir, aprendeu coisas como Biologia Genética, a consciência do Homem, a filosofia dos sonhos, arrombar cofres, até tocar frigideira no Carnaval do Brasil! Todas as histórias são contadas com um toque de humor e com compreensão da psicologia humana. Feynman adorava ser não convencional: de tal modo, que quando foi chamado para seviço militar, decidiu gozar com o psicólogo de tal modo que foi rejeitado do Exército por ser “deficiente em termos psicológicos”!!
Há ainda um segundo livro, «Nem sempre a brincar, Sr. Feynman!», publicado pela mesma editora, no qual ele fala mais detalhadamente da sua vida pessoal, especialmente da infância, sempre com o mesmo estilo. Também recomendo vivamente.
«Está a Brincar, Sr. Feynman! – Retrato de um Físico Enquanto Homem», Richard P. Feynman (trad. Isabel Neves), 3ª Edição, Gradiva, 1998, 328 pág., pvp: 16€.
Lendo este livro, é de vezes difícil acreditar que este conjunto de histórias pertençam todas a um homem apenas – desde o rapazinho que consertava rádios, ao professor universitário que gostava de pregar partidas, até ao homem que ganhou o prémio Nobel, passando pelo rapaz que, só para se divertir, aprendeu coisas como Biologia Genética, a consciência do Homem, a filosofia dos sonhos, arrombar cofres, até tocar frigideira no Carnaval do Brasil! Todas as histórias são contadas com um toque de humor e com compreensão da psicologia humana. Feynman adorava ser não convencional: de tal modo, que quando foi chamado para seviço militar, decidiu gozar com o psicólogo de tal modo que foi rejeitado do Exército por ser “deficiente em termos psicológicos”!!
Há ainda um segundo livro, «Nem sempre a brincar, Sr. Feynman!», publicado pela mesma editora, no qual ele fala mais detalhadamente da sua vida pessoal, especialmente da infância, sempre com o mesmo estilo. Também recomendo vivamente.
«Está a Brincar, Sr. Feynman! – Retrato de um Físico Enquanto Homem», Richard P. Feynman (trad. Isabel Neves), 3ª Edição, Gradiva, 1998, 328 pág., pvp: 16€.
O Código da Vinci Descodificado - Simon Cox

Há uns meses atrás publiquei a minha crítica de ”O Código da Vinci”, e como este livro despertou muita atenção em Portugal, o Dracul (o criador deste blog) pediu-me para fazer a crítica de um dos vários livros que se baseia nele, “O Código da Vinci Descodificado”.
Como muitos que leram "O Código da Vinci", ao acabar de ler este livro, fui à Internet para verificar os factos, e tentar descobrir o que era ficção e o que não era. "O Código da Vinci Descodificado" faz isso mesmo – mas extensamente. Para quem quiser saber tudo acerca de cada ocorrência do livro original, ou a origem dos nomes das várias personagens, este é o livro a comprar. Mas, para outros que só queiram ter uma ideia do que Dan Brown utilizou como facto/ficção (como imagino que seja a maioria) sugiro apenas que leiam o artigo neste site: http://www.crisismagazine.com/september2003/feature1.htm. Dará uma outra visão do livro original.
Como muitos que leram "O Código da Vinci", ao acabar de ler este livro, fui à Internet para verificar os factos, e tentar descobrir o que era ficção e o que não era. "O Código da Vinci Descodificado" faz isso mesmo – mas extensamente. Para quem quiser saber tudo acerca de cada ocorrência do livro original, ou a origem dos nomes das várias personagens, este é o livro a comprar. Mas, para outros que só queiram ter uma ideia do que Dan Brown utilizou como facto/ficção (como imagino que seja a maioria) sugiro apenas que leiam o artigo neste site: http://www.crisismagazine.com/september2003/feature1.htm. Dará uma outra visão do livro original.
“O Código da Vinci Descodificado – O Guia Não Autorizado dos Factos por Detrás da Ficção”, de Simon Cox (Trad. Maria João Freire de Andrade), 4ª Edição, Publicações Europa-América, 2004, pvp: 12,90 €.
sexta-feira, outubro 01, 2004
Comunicado
A gerência deste estabelecimento vem por este meio assegurar que, apesar dos fracos sinais de vida dados nas últimas semanas, o mesmo continua vivo e (espera-se) de boa saúde. Continuamos abertos (salvo seja) a visitas, comentários e colaborações, na esperança de um futuro melhor (e de um mundo melhor), em que o tempo (e o €) chegue para todas as encomendas (até para ir passar um mês à Islândia). Enquanto isso cá vamos andando, umas vezes melhor, outras pior, na paz do senhor, e da senhora.
Obrigado pela preferência :)
Obrigado pela preferência :)
segunda-feira, setembro 27, 2004
sexta-feira, setembro 24, 2004
O Encantador de Palavras
A menina apareceu grávida de um gavião.
Veio falou para a mãe: O gavião me desmoçou.
A mãe disse: Você vai parir uma árvore para
a gente comer goiaba nela.
E comeram goiaba.
Naquele tempo de dantes não havia limites
para ser.
Se a gente falasse a partir de um córrego
a gente pegava murmúrios.
Não havia comportamento de estar.
Urubus conversavam auroras.
Pessoas viraram árvore.
Pedras viraram rouxinóis.
Depois veio a ordem das coisas e as pedras
têm que rolar seu destino de pedra para o resto
dos tempos.
Só as palavras não foram castigadas com
a ordem natural das coisas.
As palavras continuam com seus deslimites.
Manoel de Barros
quarta-feira, setembro 01, 2004
Rikardo Arregi
CONVERSAS ENTRE AMIGOS
Quando, a meio de uma conversa entre amigos,
chega o acostumado momento das recordações,
e nos seus lábios ressuscita em claro-escuros
a flor seca do passado, penso surpreendido
que os clássicos tinham razão
quando escreveram com tal subtileza os seus belos tópicos
acerca da fugacidade do tempo,
e sacode-me com violência
a inutilidade destas repetições.
A fugacidade do tempo
não é coisa que me assombre,
mais estranho seria
deter a ordem das horas;
mas ouvir questões
que nos velhos livros já eram velhas
repetidas de forma torpe e presumidamente nova
é coisa que me assusta.
LAGUNEN ARTEKO SOLASETAN
Lagunen arteko solasetan
oroipenen une ohikoa
ailegatzen, eta ezpainetan
iraganaren lore iharra
ilun-argi berpizten denean,
pentsatzen dut harriturik
arrazoi zutela klasikoek
denboraren ihesari buruz,
haien topiko ederrez,
hain sotil izkiriatzean,
eta bortizki barneratzen zait
errepikapen hauen hutsala.
Denboraren iheskortasunak
ez nau asko liluratzen
bitxioaga bailitzateke
orenen ordena gelditzea,
baina zaharren libutuetan
jadanik zaharrak ziren kezkak
manera trakets uste berrian
entzuteak izutzen nau.
Periférica
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