quarta-feira, março 17, 2004

Edições Asa - Preço Azul ou preços baixos todo o ano

Já há algum tempo que a Asa nos tinha habituado a ter promoções permanentes nas suas lojas, em que era possível encontrar obras menos procuradas do público, ou simplesmente uns quantos títulos duma dada colecção (a Pequenos Prazeres e a Finisterra, por exemplo), a preços mais baixos. Surge agora o "oficializar" dessa política, através da campanha "Preço Azul".

Esta medida vai alargar a política de reduções a todas as colecções da editora, com descontos significativos em todas as obras abrangidas por esta promoção. Por exemplo, o livro A Morte de um Apicultor, já aqui falado no pilha, tem um preço de capa de €8,50 e custará agora apenas €1,50.

Só para dar mais 2 exemplos, Histórias do Mar, colectânea de contos com a participação de Luis Sepúlveda, Rosa Montero e Antonio Sarabia, passa de €11,50 para €3,50, e A Senhora Smilla e a Sua Especial Percepção da Neve, de Peter Høeg, passa de €15 para €7,50.
Com distribuição prevista para todas as livrarias, esta nova campanha trará benefícios mais visíveis para a própria editora (para além dos leitores, claro está), e será nas suas livrarias que mais facilmente se poderão encontrar. Por esta e por todas as razões, boas leituras :)

terça-feira, março 16, 2004

RESPONDE-ME - Susanna Tamaro



Colecção: Grandes Narrativas
Preço c/iva: €12,47
Nº de Páginas: 175

Sinopse: Constituído por três histórias, encena viragens dramáticas, e de certa forma fundamentais, na vida de cada homem ou mulher em busca de um sentido para a existência. Entre as personagens, muitas são crianças expostas a condições de grande violência e abandono, e em todas transparece um desespero extremo, mas também um extraordinário sentido de responsabilidade perante o facto de estar vivo. Existe aqui um fio condutor, uma continuidade, que permite à autora explorar os abismos sombrios e os cumes luminosos da natureza humana. E ela fá-lo sem medo, sem contemplações, extraindo deles uma formidável energia que pode ser pura destruição, mas que Tamaro, quase alquimicamente, transforma em energia amorosa e criadora.

Agenda 16 de Março

Apresentação do novo livro de Mia Couto, O Fio das Missangas. Colecção de 29 contos, acabada de chegar às livrarias, a preço simpático, como a Caminho já nos habituou. A sessão decorre a partir das 18 horas, na RDP África, em Lisboa.

segunda-feira, março 15, 2004

A ÚLTIMA CONVERSA - Agostinho da Silva

A última entrevista que Agostinho da Silva deu foi no dia 9 de Outubro de 1993, a Luís Machado, que mais tarde a transpôs para livro. Uns meses depois, no Domingo de Páscoa de 1994, falecia essa personagem tão peculiar da identidade portuguesa, deixando-nos um imenso legado de livros, depoimentos, reflexões, histórias.
Esta conversa pode servir para termos um contacto mais pessoal com a sua vida e algumas das suas ideias, como porta de entrada para a sua vasta obra.
Para começarmos bem a semana, deixo a transcrição de uma das suas histórias, e este apontamento irresistível:

«LM - Portanto, isso quer dizer que, no fundo, o seu jornal preferido é mesmo o Público?
AS - É o Público, mas sobretudo é por causa do Calvin.» pág. 109


A Última Conversa, Agostinho da Silva entrevistado por Luís Machado, da Editorial Notícias, 9ª edição (Setembro de 2002; 1ª ed.: Maio de 1995), 125 pág., pvp: 8,73 €


«LM - Portanto, recapitulando o seu percurso: nasce no Porto, vai para Barca de Alva, volta ao Porto e depois vem para Lisboa. Não foi bem assim, porque a faculdade também a fez no Porto. É isso, não é?

AS - Sim, em Lisboa, o que fiz foi a Escola Normal Superior.

LM - Escola Normal Superior?

AS - É porque para entrar como professor efectivo nos liceus era necessário esse curso. Mas entretanto estive para não ir para o liceu, porque apareceu um concurso para professor de Belas-Artes. Aliás, cheguei a inscrever-me no concurso, porque se ficasse com o lugar, em vez de trabalhar toda a semana no liceu, passava a trabalhar apenas três horas por semana nas Belas-Artes. Bom, já depois de me inscrever encontro na rua um homem que não fazia outra coisa senão estudar história, sobretudo a história da 2ª Grande Guerra. Como não tinha emprego, vivia, estudava e trabalhava no café.
Começámos a conversar e ele disse-me que tencionava inscrever-se nesse concurso. Então respondi-lhe:
«- Ó homem, mas se você quer ir para lá, eu saio!»
E nessa mesma tarde fui lá e «desinscrevi-me.»
Algum tempo depois tive conhecimento que o grande filósofo Vieira de Almeida, um excelente professor da Faculdade de Letras, também se tinha inscrito nesse concurso para a Escola de Belas-Artes. Repare que o Vieira de Almeida era mesmo uma pessoa respeitabilíssima. Não sei se foi por isso ou por outra coisa, o certo é que decidi inscrever-me de novo. Quando voltei lá, o chefe de secretaria reconheceu-me e disse-me, furioso:
«- Outra vez!? Outra vez!? Você anda a brincar...»
«- Pois é, decidi voltar a inscrever-me.»
Para aquele concurso, era preciso redigir uma tese e apresentá-la impressa, portanto aquilo foi mesmo escrever de corrida, ir para a tipografia, voltar lá para corrigir as provas! Mas lá me chamaram para o exame e o primeiro professor a interrogar-me foi o Agostinho Fortes. Recordo-me que a sala tinha muita gente e que na assistência se encontrava o marido da Maria Keil, o arquitecto Keil do Amaral, que gostava muito de assistir aos exames.
Mas voltando ao exame: o Agostinho Fortes pegou então na minha tese e disse com um ar professorial:
«- Ora temos então aqui uma tese sobre um poeta pérsio ou latino que ninguém conhece. É curioso, sabe, mas olhe que não se percebe nada da sua pontuação, está tudo “barafustado”.»
«- O senhor professor dá-me licença?»
E ele disse:
«- Com certeza!»
«- Já sei que é um velho costume seu: quando o senhor não sabe das coisas, pega pela pontuação. Veja lá se hoje passa a outra coisa mais concreta, porque isso não adianta nada.»
Bom, como deve calcular, o efeito de uma resposta destas, para além de pôr a rir a assistência, «liquidou» o nosso amigo. O outro examinador era o perito, o homem que sabia muito de oceanos e dessas coisas.
Na véspera de eu ir lá (nessa altura vivia numa pensão, porque não tinha casa em Lisboa), estava no meu quarto quando um colega entrou e me disse:
«- Você por acaso já viu essa história do mar, das correntes? Olhe que eles agora andam a perguntar muito isso.»
Respondi-lhe:
«- Olhe, por acaso, esqueci-me completamente dessa matéria, mas mais logo vou ver se ainda consigo ver alguma coisa.»
Naquela noite estudei portanto as correntes, para o caso de aparecer alguma pergunta...
Mas então o tal professor chega lá e diz-me:
«- Quero saber o que é que o senhor sabe da corrente que vem do México e atravessa todo o Atlântico para chegar até aqui, às nossas costas. Descreva-me esse percurso.»
Bem, então eu lá descrevi, sem grandes hesitações, porque estava tudo ainda muito fresco, tinha aprendido na véspera. E o homem disse:
«- Mas ela aqui divide-se, o senhor não falou nisso!»
«- Mas divide-se como?», retorqui eu.
«- Há uma que passa mais abaixo da costa...», e tal, tal e tal... E eu então respondi-lhe:
«- Mas quais são os pontos por onde a outra passa, o senhor sabe?»
«- É indeciso.»
«- Pois é, então não vale a pena estarmos a falar de coisas indecisas, porque creio que estamos aqui é para falar de ciência. Ou o senhor sabe por onde é que passa a corrente, ou não sabe, mas por favor não complique mais a nossa vida.»
Escusado será dizer que a minha prova acabou logo ali. Quem ficou?, vai decerto perguntar-me você. O rapaz do café... No fundo, era o que eu queria. Eles não tiveram coragem de nomear o Vieira de Almeida, que, por acaso, também não fez grande figura no concurso, e a mim nem por sombras me queriam ver lá dentro, tomaram eles que eu desaparecesse. Aceitámos passivamente o resultado, dado que não queríamos causar mais complicações ao outro candidato...

LM - E o que é que aconteceu ao rapaz do café?

AS - Foi aprovado e passou a ensinar nas Belas-Artes, embora como de costume continuasse a estudar e a «viver» no café.» pág. 54 a 58

(ligações para a Associação Agostinho da Silva, o Instituto Camões e para uma página dedicada a ele)

sábado, março 13, 2004

Reportagem: FEIRA DO LIVRO DE BRAGA


Últimos dias da 13ª edição da Feira do Livro de Braga, que está a decorrer no Parque de Exposições desta cidade, com encerramento marcado para as 24h de amanhã, Domingo.

Com um número razoável de expositores e a representação de muitas editoras nacionais, complementadas com a presença de alguns alfarrabistas, a edição deste ano contou ainda com actividades diárias, como um recital de poesia, apresentações de obras, sessões de autógrafos, e conversas à volta de livros que contaram com a presença de Mário de Carvalho, Mariano Gago, Fernando Campos, Armando Silva Carvalho e Ana Eduarda Santos, entre muitos outros. Para amanhã, último dia da Feira, está ainda prevista a presença de Manuel Alegre, às 16h.

Interesse especial nas Feiras do Livro realizadas fora dos grandes centros urbanos de Lisboa e Porto, é a procura de livros, autores e editoras que, devido à sua fraca distribuição, pouca divulgação ou pequena dimensão, dificilmente chegam às livrarias que estão longe do seu local de edição. Um exemplo dessa realidade é a Autores de Braga, uma pequena editora com uma base de “associados” que se comprometem a adquirir as suas edições, factor essencial para a sua sobrevivência. Fez-me lembrar uma ideia simples: bastava haver a garantia de que cada biblioteca municipal adquiria um exemplar de cada novo livro, para que os encargos financeiros da edição desse livro estivessem garantidos à partida. Não só se poderiam publicar muito mais livros, como o custo seria mais baixo, o que também se reflectiria no preço de venda ao público. Mas isso é um tema que poderemos desenvolver aqui mais tarde...

Na fotografia podemos ver o sr. Vilela, na banca dos Autores de Braga, assinando um dos seus livros. Autor de vários obras sobre a produção de livros e reformado dessa função há 5 anos, conseguiu editar quase sem apoios a sua última obra, Artes Gráficas - noções elementares, de que falaremos em mais pormenor brevemente, aqui no pilha.

Enquanto isso, aproveitem os últimos dias desta Feira, e até à próxima!

sexta-feira, março 12, 2004

QUEM ME DERA SER ONDA - Manuel Rui

Chamam-lhe novela, mas apetece-me dizer que este é um delicioso conto, que se lê num (pequenino) fôlego, que nos leva bem adentro duma família angolana, cansada do peixefritismo do dia-a-dia, e a mudança que um porco vai trazer às suas vidas...
Bom, o pai Diogo começa logo por dizer que não é porco, é leitão, mas para matéria de interpretação de leis (que é como quem diz, para os vizinhos que têm de viver com o bicho no mesmo prédio), é a mesma coisa. Com muitos truques e artimanhas, o animal lá ganhou um novo lar, pelo menos até ver a faca mais de perto... O problema é que os putos Ruca e Zeca afeiçoaram-se a ele, e para além de se ter transformado no herói de todas as histórias partilhadas no recreio da escola, recusavam-se a aceitar a ideia de ver o amigo em churrasco. Mais truques e engenharias serão precisas para manter o pai distraído de tão cruel destino, que lhes garantiu que o «carnaval da vitória» não chegava ao próximo carnaval...

Quem me dera ser onda, de Manuel Rui, da Cotovia, 6ª edição (Abril 2001; 1ª ed.: Julho 1991), 70 pág., pvp.: €8


«- Não percebo como neste país não há carne de porco. Disse-me um camarada que é o bicho mais barato de se criar. E aproveita-se tudo. A pele do boi não se come. A gordura também não. A do porco dá banha e torresmos. - Ruca interrompeu:
- Pai, a margarina faz-se com sebo de boi, a professora é que disse.
- Mas quem é que falou aqui em margarina? A tua professora a ver se troca sebo por toucinho! Pergunta-lhe. Ainda a carne de boi não se pode salgar. Quem não tem frigorífico está tramado. E o chouriço, morcela, paio e presunto? A carne de porco salga-se. E os ossos. Não percebo. Quando se viaja de carro encontra-se porco em toto o lado. Então por que é que o tal ministro não manda comprar os porcos das províncias e pôr a carne nas bichas de Luanda? Matadouro o tuga deixou. Vejam só: um povo revolucionário como o de Cuba tem a mesma opinião, come bué de carne de porco. - E virando-se para “carnaval da vitória”: - Por isso espera, o dia do teu fuzilamento já vem aí, falta pouco, que eu não sustento porcos a comida do Trópico. Era o que faltava. Vais lerpar. - E repetiu o gesto de corta pescoço. Os miúdos ficaram atónitos.» pág. 53

Quem me dera ser onda nos palcos de Luanda.

No uARTE, Manuel Rui diz assim:
«A realidade é sempre maior que o imaginário. Por mais que nós sonhemos com coisas, elas na realidade acontecem.
Depois de eu escrever o Quem me Dera Ser Onda estava num colóquio num centro universitário, na cidade de Luanda, e houve uma senhora que me disse "mas sabe essa história que você contou, eu tenho lá no prédio um porco que é criado por uma senhora, muito bem tratado. Ele ronca, as pessoas abrem o elevar e ele desce; é vadio, tem mais do que uma namorada, anda pelos sítios onde há lixo e depois à noite volta". Por mais que a gente imagine as coisas, elas acontecem.»

Este é um livro bookcrossing, que espero libertar ainda hoje, na livraria Clepsidra, em Lisboa

quinta-feira, março 11, 2004

Argumento Adaptado: Recursos na Net

Based on the Book é uma página da Mid-Continent Public Library, que permite pesquisar numa base de dados de filmes baseados em livros. Com mais de 950 títulos e incluindo filmes lançados depois de 1980, é uma ferramenta útil na procura deste tipo de filmes. Apesar disso, tem algumas falhas, a mais óbvia das quais é a de que as pesquisas apenas dão como resposta o título do filme e o ano em que foram lançados. Sugestão: pegar nessa informação e procurar mais dados no IMDB, onde eles próprios vão buscar alguns dados.

O High Street Central apresenta listas infindáveis sobre tudo e mais alguma coisa, incluindo livros de e sobre cinema. Films & Filmmaking e Movies são as que aqui nos interessam. Apesar de todas as ligações nos levarem à Amazon, esta loja on-line não deixa de ser uma boa fonte de informação, inclusivamente sobre livros.

No Zuzu também encontramos várias listas de filmes relacionados com ou baseados em livros, cujas ligações remetem para o IMDB. Movies based on books, Biographical movies, Movies based on plays e Films emphasizing poetry são algumas das listas que lá podemos encontrar.

segunda-feira, março 08, 2004

Esta semana, no Mil Folhas

«Ao contrário do que acontece em Proust, no romance do irlandês William Trevor o tempo não se recupera. Passa, modifica-se, faz doer, dulcifica-se e, por fim, mesmo por fim, quando já não há nada a esperar, cristaliza-se numa serenidade que tem tanto de aceitação da vida como de aceitação da morte. Mas nunca devolve o que roubou. "A História de Lucy Gault" é a história de uma perda irreparável. Só a suprema arte da discrição do autor impede que caia no patetismo. A ferida permanece aberta, mas deixa de ser lacerante. Está lá, simplesmente, do mesmo modo que o defeito no andar que ficou a Lucy da queda sofrida naquela noite de fuga.»
Regina Louro fala assim de "A História de Lucy Gault", que a Temas e Debates editou em Novembro último. O cenário é a Irlanda, em 1921, e o capitão Gault sente na pele o castigo pelo casamento com uma inglesa. Como última solução, a fuga, mas como dizer isso a uma menina de 6 anos, que sente ir deixar para trás todo o seu mundo?

O Atiçador de Wittgenstein, ou A História de uma Discussão de Dez Minutos entre Dois Grandes Filósofos. Ou, como se pode ler numa introdução ao livro, «Em 1946, numa sala de Cambridge cheia de gente, Ludwig Wittgenstein e Karl Popper encontraram-se frente a frente pela primeira vez. E o encontro não correu nada bem.» Para além das palavras arremessadas, correram boatos de que até atiçadores teriam servido de armas de luta... Os jornalistas David Edmonds e John Eidinow lançaram-se à descoberta do que de facto aconteceu nesse dia, e apresentam também retratos destes filósofos, bem como as correntes filosóficas que nos legaram. Desidério Murcho entrevistou os dois autores e apresenta o livro. Uma edição da Temas e Debates.

«No livro "Il vecchio con un piede in Oriente", Tonino Guerra fala-nos de uma das suas viagens à Rússia, de um passeio com Paradjanov, à procura de igrejas abandonadas. De vez em quando surpreendiam-se ao encontrar velas acesas nos muros em ruínas. Entraram numa igreja escura, que tinha nas paredes frescos mais ou menos destruídos pela humidade. Um grande S. Jorge, montado num cavalo branco, dava o golpe mortal no dragão. Na escuridão imóvel da igreja algo aconteceu.»
Volta-se a falar de Tonino Guerra no pilha, por ocasião desta crónica de Ana Teresa Pereira. Nela não surge O Mel, mas por lá passam O Livro das Igrejas Abandonadas e Il Viaggio, do qual se diz «nunca conheci outro escritor que dedicasse um livro a um rio.» Ora aqui está um que eu gostava de ver traduzido...

Notas de Tradução: DIAS, FUMO e ASSIM SE DEIXA UMA CASA

Dias, Fumo, de Antonio Saéz Delgado, e Assim se deixa uma casa, de Ruy Ventura, são duas novidades de poesia da Alma Azul. Para além de serem edições bilingues (português e castelhano), há algo mais que as une.

«La noche abre sus ojos infinitos y se hace imposible reconocer los pocos restos de vida abandonados tras estas paredes.
En la memoria resuena la más triste de todas las canciones. Te habla del miedo y de sueños que son llagas en el desierto de los años. Arena y ceniza se mezclan hasta dibujar el perfil exacto del tiempo.» pág. 14

«A noite abre os seus olhos infinitos e torna-se impossível reconhecer os poucos vestígios de vida abandonados por detrás destas paredes.
Na memória ressoa a mais triste de todas as canções. Fala-te do medo e de sonhos que são chagas no deserto dos anos. Areia e cinza misturam-se até desenharem o perfil exacto do tempo.» pág. 15

«os livros
resguardam a sala do
vento
que a meio da tarde
atravessou todo o vale» pág. 55

«los libros
protegen la sala del
viento
que en medio de la tarde
atravesó todo el valle.» pág. 54

Ruy Ventura, nascido em Portalegre em 1973, é o tradutor de Dias, Fumo. Por sua vez, António Sáez Delgado, nascido em Cáceres (Espanha) em 1970 e professor de literatura na Universidade de Évora, traduziu Assim se deixa uma casa para o castelhano, para além de ter escrito o prefácio a essa obra.
Mais uma vez a Alma Azul descentraliza a edição nacional, desta vez trazendo-nos poéticas de ventos alentejanos e espanhóis.

Decorre hoje uma sessão de apresentação destes 2 livros na livraria Ler Devagar, a partir das 19h. José Luís Peixoto fará a apresentação das obras.

sábado, março 06, 2004

DO OUTRO LADO DA LINHA

O que aqui se apresenta é um retrato invulgar, estranho, por não estarmos habituados a vê-lo assim, por não ser assim que normalmente nos chega aos olhos e aos ouvidos.
Há quem apresente palavras que ajudam a enquadrar este cenário (Paquete de Oliveira fala dos Lugares do lugar a que outros não chegaram), poemas e histórias (como as Histórias sem tempo, de Germano de Almeida), mas são as fotografias de Rosa Reis que mais marcam. Ela que mergulhou na vida do bairro, e chegada à superfície tinha os retratos das gentes que ali vivem e sobrevivem, os sorrisos dos meninos e os meninos com caras de mau, as mães e as avós, o massagista e o sucateiro.


Do Outro Lado da Linha, uma edição do Centro Social do Bairro 6 de Maio, Dezembro de 2003, 209 pág., pvp: 25€

Estas identidades revelam sobretudo que a verdade tem muitas caras. Há meninos pretos que não sabem onde é Cabo Verde, assim como há meninos brancos que não sabem onde é o 6 de Maio. São as muitas caras da emigração, dos sonhos que os sorrisos não escondem, da vontade de viver.



Do Outro Lado da Linha pode ser encontrado nas livrarias. Continuam a ser realizadas sessões de apresentação do livro, em locais e momentos também a ser anunciados aqui mesmo no pilha.
Os lucros da venda deste livro revertem, exclusivamente, para o Centro Social do Bairro 6 de Maio.

sexta-feira, março 05, 2004

OS LIVROS DA MINHA VIDA - Henry Miller

«Estou sentado numa sala pequena, com uma das paredes agora completamente coberta de livros. É a primeira vez que tenho o prazer de trabalhar com algo semelhante a uma colecção de livros. Não há provavelmente mais do que quinhentos ao todo, mas, na sua maioria, representam a minha própria escolha. É a primeira vez, desde que comecei a minha carreira de escritor, que me vejo rodeado por um número considerável dos livros que sempre desejei possuir. Contudo, considero o facto de, no passado, ter feito a maior parte do meu trabalho sem a ajuda de uma biblioteca mais como uma vantagem do que como uma desvantagem.

Uma das primeiras coisas que associo à leitura de livros é a luta que empreendi para os obter. Não para os possuir, bem entendido, mas para os ter na mão. A partir do momento em que a paixão me dominou, não encontrei senão obstáculos. Na biblioteca pública, os livros que queria nunca estavam disponíveis. E, claro, nunca dispunha de dinheiro para os comprar. Conseguir autorização na biblioteca do meu bairro - tinha na altura dezoito ou dezanove anos - para requisitar uma obra tão «depravada» como The Confession of a Fool, de Strindberg, era completamente impossível. Naquela época, os livros que os jovens estavam proibidos de ler eram marcados com estrelas - uma, duas ou três - de acordo com o grau de imoralidade que lhes era atribuído. Suspeito que este procedimento ainda subsiste. Espero que sim, pois não conheço nada mais bem engendrado para nos aguçar o apetite do que este género estúpido de classificação e proibição.» págs. 25, 26

Os Livros da Minha Vida, de Henry Miller (trad. Ana Bastos), da Antígona, Fevereiro de 2004 (1ª ed. portuguesa), 397 pág., pvp: €23

Publicado em 1952, tinha Henry Miller 60 anos de vida, este livro relata muitas das influências dum autor "maldito", proibido e lido por todo o mundo (não fosse essa uma das receitas para aguçar o apetite...). Apesar de só agora surgir a edição portuguesa, de modo algum será uma leitura fora de tempo. Como só agora peguei nele, deixo lugar à crítica para mais tarde, mas fica já a deixa, com os 2 primeiros parágrafos (em cima), e esta passagem, ainda na página 26:

«Os livros são uma das poucas coisas que os homens apreciam profundamente. E quanto melhor for o homem, com mais facilidade se separará dos bens que lhe são mais queridos. Um livro abandonado numa prateleira é uma munição desperdiçada. Tal como o dinheiro, os livros têm de estar em constante circulação. Emprestem e peçam emprestados tanto quanto puderem - quer livros, quer dinheiro! Mas sobretudo livros, pois estes representam infinitamente mais do que o dinheiro. Um livro não é apenas um amigo, cria novas amizades. Quando possuímos um livro com a mente e o espírito, ficamos enriquecidos. Mas quando o passamos a alguém, enriquecemos o triplo.»

Isto até me faz lembrar uma célebre expressão em inglês, bookcrossing...

quinta-feira, março 04, 2004

Notas de Tradução: SOBRE OS DIFERENTES MÉTODOS DE TRADUZIR

Hoje inicia-se mais uma série de posts temáticos aqui no pilha-livros. Depois de Argumento Adaptado, dedicado ao cinema e publicado todas as Quintas, surge o Notas de Tradução. Sem dia fixo de publicação mas de aparição regular, será espaço para análise de obras de Teoria da Tradução, para destaque de edições bilingues (de qualquer género literário), será lugar de publicação de excertos de obras na língua original e numa de tradução, dará eco aos nossos desejos de tradução de certas obras, e como certas traduções poderiam ter sido evitadas...

Num momento em que esta actividade é muito falada, seja pela boa (ou má) qualidade das traduções, ou até pela maior importância que por vezes se parece dar a estas, em detrimento das próprias obras originais, este será um seu espaço de divulgação, análise e discussão, que mais uma vez se abre a todos os que sentirem ter uma contribuição para dar. Para começar, uma pequena apresentação de Sobre os Diferentes Métodos de Traduzir, de Friedrich Schleiermacher.

Não é comum vermos, no panorama editorial português, obras não-poéticas em formato bilingue, condição essencial para se constatar onde está a arte do autor e o engenho do tradutor (ou onde estão ambos). A Porto Editora, através da sua colecção Elementos Sudoeste, dá-nos essa possibilidade precisamente num texto que analisa a actividade de traduzir, e que tem apresentação, notas, tradução e posfácio de José M. Miranda Justo.

Através das palavras do tradutor podemos apercebermo-nos do que o autor nos quer transmitir com este texto:
«Os «métodos de traduzir» a que se refere Schleiermacher são dois e só dois, i.e., com explícita exclusão da possibilidade de qualquer terceiro. O tradutor estabelece uma mediação entre o autor do texto original e o leitor da tradução. Assim sendo, das duas uma, ou move o leitor tanto quanto possível até ao autor, ou move o autor quanto possível até ao leitor. No primeiro caso a actividade de traduzir tem em vista a restituição do específico no seu máximo estranhamento possível. No segundo caso tem em vista a anulação do estranho, a nacionalização do estrangeiro. E Schleiermacher não tem qualquer dúvida em defender as virtudes e as vantagens do primeiro método, apesar de todas as dificuldades e prejuízos, como também não hesita em afirmar que o objectivo do segundo método é não só «inalcançável» como «negativo».» pág. 165, incluído no posfácio

Escrito em 1813, por ocasião duma conferência na Real Academia de Berlim, e apesar de nalguns (poucos) pontos podermos constatar o afastamento temporal das ideias expostas, o que aqui se pode ler é um importante contributo na discussão dos princípios que guiam a actividade de tradução.

Sobre os Diferentes Métodos de Traduzir (Ueber die Verschiedenen Methoden des Uebersezens), de Friedrich Schleiermacher (trad. José M. Miranda Justo), edição bilingue, da Porto Editora, colecção Elementos Sudoeste, Novembro 2003, 206 pág., pvp: €7,60

Ainda falando dos métodos de traduzir, agora nas palavras do autor:
«Estes dois caminhos são tão diferentes que é necessário seguir exclusivamente um deles, com tanto rigor quanto possível, pois que qualquer mistura entre ambos dará um resultado altamente insatisfatório e é de recear que entre escritor e leitor se dê o desencontro total.» pág. 61

«A minha intenção é, pois, deixando de lado todas as questões particulares relativas a este objecto já tratadas pelos peritos nesta arte, considerar apenas os caracteres mais universais destes dois métodos, para assim preparar a possibilidade de discernir em que consistem as específicas vantagens e dificuldades de cada um deles, em que vertente, portanto, cada um deles mais completamente atinge o objectivo da actividade de traduzir, e quais as fronteiras de aplicação de cada um deles.» pág. 67

estas duas passagens podem ser lidas no original alemão no pilha-links.

(pistas nos caminhos da tradução: Tonino Guerra no pilha-livros, n’O Livro das Igrejas Abandonadas e n’O Mel, Fernando Pessoa, Eva Christina Zeller e Hermann Hesse no Eelko Van Mulder)

Argumento Adaptado: MOVIES OF THE 70'S, 80'S & 90'S

Esta semana não se fala de livros adaptados ao cinema, falamos de livros que são cinema, da capa até à última página. Com cerca de 800 páginas cada um, a Taschen editou livros que são ao mesmo enciclopédias, antologias e museus de memórias do cinema das 3 últimas décadas.

Olho para a capa de Movies of the 70’s e só me lembro dum enxerto de porrada ao som de Gene Kelly e "Singin' in the Rain". Mas se essa foi a década de "A Laranja Mecânica", "Apocalipse Now", "O Padrinho", "Guerra das Estrelas" e "Annie Hall", talvez fosse melhor um livro para cada ano... Chamam-lhe a altura do nascimento do "blockbuster", graças aos contributos de Steven Spielberg ("O Tubarão") e George Lucas (também por "American Graffiti"), e foi também nos anos 70 que surgiram Robert de Niro ("Taxi Driver"), Al Pacino ("O Padrinho") e Dustin Hoffman ("Papillon").

Encarado como parente pobre, a década de 80 traz-nos memórias de um cinema espectáculo, viesse ele d'outro planeta ("ET" ou "Aliens"), tempo ("Exterminador Implacável" ou "Blade Runner") ou sabe-se lá d'onde ("Caça-Fantasmas")... Mas não só: Indiana Jones viveu as suas 3 aventuras em cinema nesta década, a mesma que viu a consagração de Kevin Costner em "Danças com Lobos" ou a ascensão de Julia Roberts em "Uma Mulher de Sonho". Tudo em Movies of the 80's.

Nos anos 90 fizeram-se grandes filmes da minha vida. "O Silêncio dos Inocentes" foi um dos mais marcantes (bem no início da década), "Pulp Fiction" lá no meio, e "Magnolia" a terminar. É também nos Movies of the 90's que podemos ver como fazer um grande sucesso com um enorme orçamento ("Titanic") ou com nenhum ("The Blair Witch Project")...

Todos os livros foram organizados por Jürgen Müller, estudioso de História de Arte e hoje em dia professor de História do Cinema em Paris.
Cada volume custa €29,99 e as versões em inglês encontram-se facilmente nas livrarias.

quarta-feira, março 03, 2004

Blogs e Livros

Dentadura, ou uma Crítica Literária 100% mordaz.

O Livros com Letras tem andado um bocado apagado, com poucos posts nas últimas semanas, mas merece uma olhadela.

A bibliophile's miscellany no 52 books, ou o desafio de ler 52 livros num ano.

No pensaletes 3.0 também se fala sobre livros.

Boas leituras :)

terça-feira, março 02, 2004

Agenda 2 de Março

Mais uma sessão d'Os Livros em Volta, hoje à volta do Ensaio, a partir das 18h30, no Pequeno Auditório da Culturgest (Lisboa). Com moderação de Eduardo Prado Coelho, estarão à conversa Maria Filomena Molder, Maria João Cantinho, Maria João Ceitil e Patrícia San Payo, autoras de livros analisados hoje, onde haverá grande destaque à editora Vendaval.

A Imperfeição da Filosofia, de Maria Filomena Molder, da Relógio d'Água
O Anjo Melancólico - Ensaio sobre o conceito de alegoria na obra de Walter Benjamin, de Maria João Cantinho, da Angelus Novus
Pôr o Corpo a Pensar, de Maria João Ceitil, do ISPA
Literatura, Defesa do Atrito, de Silvina Rodrigues Lopes, da Vendaval
A Inocência do Devir, de Silvina Rodrigues Lopes, da Vendaval
Exercícios de Aproximação, de Silvina Rodrigues Lopes, da Vendaval
Blanchot, a Possibilidade da Literatura, de Patrícia San Payo, da Vendaval

segunda-feira, março 01, 2004

AS LEIS DO CÉU - Juan Antonio Belmonte

Há realmente leis no céu. Se existe alguma coisa que pode ser muito confortante é reparar que, ano após ano, as estrelas ocupam o lugar que lhes é devido. As estações sucedem-se uma após outra em perfeita harmonia, e em cada (re)começo há sinais celestiais muito particulares que nunca mudam.

Não podia passar despercebido, aos nossos antepassados, o deslumbrante espectáculo que, assim que o Sol se punha, se desenrolava por cima das suas cabeças. E não passou, de todo. Basta folhear o livro. Deparamo-nos com esboços tão familiares como os menires ou Stonehenge, ou com mapas do Mediterrâneo com zonas escurecidas indicando onde não se podia navegar sem contar as estrelas. A tentativa de compreensão era enorme, quase tão grande como o que a razão tentava atingir.

Não é, por tudo isto, "apenas" mais um livro de astronomia. É, acima de tudo, um livro sobre o homem. Do que o fez temer o céu, do que o obrigou a tentar compreender o que era, das crenças inevitáveis que lhe surgiram... e de como a consciência dos fenómenos celestes podia ser vital para a sua sobrevivência. Houve estrelas que, em muitas civilizações, indicaram o tempo para semear e o tempo para colher.

A sua leitura fica recomendada, mesmo àqueles mais renitentes a esta temática e a quem os livros de divulgação científica pouco dizem.

As Leis do Céu, de Juan Antonio Belmonte, da Mareantes Editores, 2003, 288 pág., pvp: 19,80€

edição original (Espanhola)
Las Leyes del Cielo, de Juan Antonio Belmonte, da Temas de Hoy, Junho de 1999, 296 pág., pvp: 14,42€