sexta-feira, abril 21, 2006

Volta à Galiza vol.I: Diarios dun nómada - Xavier Queipo


«Oostende (Xusto antes da partida) 26.04.91
I´ve just wake up after a short nap. ¿Que fas falando no teu inglés atrapallado? Acouga. Ninguén está a falar contigo. Ninguén escoita. Estás só no camarote bebendo SPA.
Mal de linguas. Iso é o que tes, en troques de ter mal de mer como outras veces, mesmo antes da partida. E é que ficas como neno con xoguetes novos que non deixarás ata lle remexer nos miolos. É coma un xarampelo idiomático. Empezas por vivir en Bruxelas, capital da Europa occidental e delirio do bilingüísmo, por traballar nun servicio onde tódolos teus colegas falan inglés. Segues por ter un amigo chinés que o mistura co seu inglés internacional, por traballar, agora, nun barco alemán, onde os mariñeiros, pola súa procedencia do leste só falan alemán e ruso. Logo están as túas visitas a Portugal onde les o Público ou O Comércio do Porto ou se estás aburrido falas coa xente no mercado de Santa Apolonia no sábado pola tarde. E as festas, esquecía as festas na casa que Héctor ten na rue Sans-Souci (Precioso xardín con amendoeiros en flor) no que se fala en castelán con sotaque de Tenerife, de Cardiff ou de Vigo. Como remate, e para complica-las cousas estou traducindo un libro de Calvino Collecione di sabia do seu italiano orixinal ó meu galego case inacadémico, no que tamén resolvín escribir estas páxinas e outras. Mal de linguas. Benvido sexa.
Antes de saír escolmo tres versos de Octavio Paz, extraídos do soneto II de Bajo tu clara sombra. Escríboos na cabeceira do meu catre. Eles acompañarán a miña travesía:

«De la suma de instantes en que creces,
del circulo de imágenes del año,
retengo un mes de espumas y de peces.»»
págs. 11 e 12

Na partida, uma das coisas que mais me intrigava era a diferença (e a semelhança) entre as línguas, entre as gentes. À chegada, ficou a sensação de que essa busca exigirá mais viagens, mais descobertas. A literatura, neste primeiro encontro, serve então não só para gozo de si mesma, mas também para gozo da língua em que foi pensada e escrita, e que se quer também entendida.

«Mar aberto (Camiño dos barcos de pesca. Forza sete) 29.04.91
Cando remate esta travesía terei 27 días de vacacións. Día grisallo. Non me encontro ben. Non podo pensar senón no que ha de vir. O presente, só para esquencer.»
pág.14

Diarios dun nómada, de Xavier Queipo, Edicións Positivas, Dezembro de 1993

terça-feira, abril 18, 2006

Adivinha quem voltou


«O guarda ficou a ver Susan afastar-se pelo corredor de cimento. Reparara que os olhos dela, de um belo matiz de avelã, pareciam naquele dia um pouco distantes, mas as faces tinham uma frescura rosada e os cabelos castanhos, que usava pelos ombros, tinham sido recentemente lavados e escovados. Ao passar, deixara atrás de si um ténue cheiro a Johnson's Baby Powder. O olhar do guarda seguiu a linha esbelta do tronco - as alças do soutien quase invisíveis por baixo da blusa branca -, chegou à saia de caqui, pelos joelhos, e deteve-se finalmente nas pernas... as pernas de Susan Fletcher.
Custa a imaginar que transportam um QI de 170, pensou o homem.
Ficou a olhar para ela durante muito tempo. Quando Susan desapareceu ao longe, sacudiu a cabeça.»
pág. 18

sexta-feira, abril 07, 2006

Reinventando Drummond I: Música II





Uma coisa triste no fundo da sala.
Disseram-me que era Chopin.


- «Encantador» – respondi secamente; e recostei-me...

O meu interlocutor falou então de um desgaste quotidiano,
Vaticinou que esta vida é uma porção de deveres,
Estabeleceu metereologias e furores de dentro e fora da alma,
Relacionou sistemas e culturas com os calabouços do Homem,
Argumentou que as estrelas são simples candeeiros esquecidos pelos deuses
Quando há muitos anos se deitaram para dormir para sempre...

Constatando, enfadado, que eu nada dizia,
Perguntou caçoando o bigode o que eu achava...

Eu considerei as contas que era preciso pagar,
Os passos que era preciso dar,
As dificuldades…


Tudo parecia tão pesado,
Tão complexo,
Tão inútil...
O que havia a dizer?

Assim,
Enquaderei o Chopin na minha tristeza
E adormeci,
Deixando ao homem do sonho a responsabilidade de pagar todas as dívidas
E ao meu aborrecido interlocutor
O copo de gin semi-vazio
Que talvez guardasse essa resposta
Que eu não soube
Não quis,
Não pude dar…

Memórias IV: Apontamento Sobre a Verdade Oficial:

(Jaime Cortesão)






(Afonso Costa de acordo com uma caricatura de Rafael Bordalo Pinheiro)









(Manuscrito de Memórias da Grande Guerra [A Primeira] de Jaime Cortesão)





a) – Este é o mais ingénuo… (Afonso Costa ad et apud Jaime Cortesão).
– Agradeço-lhe do coração: Não podia dizer-me palavra mais lisonjeira. (Jaime Cortesão, pelo próprio).
b) Há clarividências tão doentes que só nos vale contra elas o estigma da ingenuidade… (Olho Marinho, 03/12/05)

Memórias III: Queixume da alma segundo Rimbaud (Original e tradução):




Oisive jeunesse,
À tout asservie,
Par délicatesse
Jái perdu ma vie…

Juventude alada,
De tudo cativa,
Por ser delicada
Perdi minha vida…
(Lisboa, 19/05/05)

Memórias II: Interpretação da vida segundo um romance de Fiodor Dostoievski:




O crime é o castigo.
(Lisboa, 09/05/05)

Memórias I: Do Principezinho... (Uma Lembrança)

Sentiste hoje, Miguel, como estás velho. A conversa era trivial como qualquer conversa quotidiana. Depois alguém quis subir-lhe o interesse. Começou-se a falar de livros, dos melhores, dos eternos. Le Petit Prince de Saint-Exupéry não podia deixar de ser mencionado.


Os que o leram lembraram os melhores momentos; e falaram, é claro, do elefante dentro da jibóia que os adultos, esses cegos confusos que buscam o coração perdido algures no final da infância, não reconheciam. E eu, muito sério, muito atento (como é meu costume), lembrei o desenho com eles. E só vi um chapéu…
E sabes tu, meu espelho, qual foi a pior descoberta? Também eu busco o meu coração que está perdido, e nem sequer o sabia… (Lisboa, 11/04/05)

quarta-feira, abril 05, 2006

Citizen Kane in Portugal

Culturalmente Correcto, ou como ter Sucesso no mundo da cultura, é a proposta de António Clark Melo que a Mareantes Editora fez chegar às livrarias nestes dias. Aparentemente editado originalmente em inglês sob o título Citizen Kane in Portugal, este livro apresenta-nos uma série de sugestões e conselhos bastante práticos:

«Não é fácil? Vá lá, continue. Pelo menos aqui não seja preguiçoso.
Vire a página e tornar-se-á numa pessoa muito culta!»
pág.8

"Como se referir a algo de que não sabe nada", "Gostar mais de Umberto Eco do que de outros teóricos lusitanos" e "Os jornais que deve mostrar em público (não precisa de os ler!)" são alguns dos capítulos em que se vão sucedendo referências a escritores, livros, filmes, óperas, destinos turísticos, provérbios e demais artimanhas através das quais é possível passar uma imagem de erudito e de pessoa culta na sociedade portuguesa.

Para mim, encaixa perfeitamente nas definições de "livro de balcão", "ensaio humorístico" e "conjunto de tiradas em que Seinfeld encontra a sociedade cultural portuguesa que podiam muito bem ter sido publicadas em mini-fascículos na revista Os Meus Livros". Tem a graça que tem, e à segunda viagem de comboio já não tem tanta assim.

Mas vale um post, e isso já é qualquer coisa.

sábado, abril 01, 2006

Pride and Prejudice


Acabei há uns dias de ler em versão mixada Orgulho e Preconceito de Jane Austen, um livro recomendado por um amigo. Passo a explicar:
O dito cavalheiro emprestou-me um exemplar no original, dando-me o exíguo prazo de 5 dias para o acabar, após o qual iríamos hipoteticamente ao cinema ver o filme com o mesmo título, que está agora nas salas. Ou então ao jardim zoológico. Passados os 5 dias, ia eu na página 2, resolvi dirigir-me à Fnac para dar um avanço aos capítulos. Li umas 50 páginas da tradução portuguesa em meia hora e voltei para casa, para o meu quarto, para a versão original, cheia de entusiasmo e curiosidade. Por volta da página 120, não aguentei mais tanta lentidão e abracei a versão portuguesa, que acabei de um trago.
Jane Austen, criticando sarcasticamente os esquemas e os códigos da sociedade inglesa abastada (also known as burguesia) do século XVIII, provoca no leitor essa vontade universal que é a de cuscar, esse desejo terrível de esmiuçarmos a trica do momento, o acidente que origina a acção, o demónio especulativo que nos escraviza a curiosidade e nos revela a verdadeira miséria que é a da natureza humana.
Ironicamente, Elisabeth, personagem principal, (personagem antípoda à da sua própria mãe), a que aparenta ser mais consciente da sua condição e aquela que nos dá uma visão do mundo que será a mais aproximada da da própria autora, acaba por casar bem, ser o orgulho da sua progenitora e a inveja dos vizinhos.
Casar bem e ser a inveja dos vizinhos é o leitmotiv da acção.
Se o meu inglês fosse melhor, compraria certamente o livro que que encontra na fotografia aqui ao lado. Decerto um excelente manual para o estudo da natureza humana e do seu instinto de sobrevivência.
E para finalizar, servir-me-ei duma expressão que há dias me encheu os olhos no Destak, o jornal que mais leio: "Orgulho e Preconceito" pode de facto ser considerado um estudo sobre alpinismo social.