domingo, julho 11, 2004

Os Textos de Sophia

Por se ter falado há pouco tempo em Sophia de Mello Breyner, embora por uma situação menos feliz, lembrei-me dos seus contos infantis e de um em particular que sempre gostei muito: "A Fada Oriana"

Confesso, no entanto, que retiro, hoje, uma leitura bem diferente daquela que tirei quando li este livro nos meus tempos de menina. Intriga-me qual é, de facto, a verdadeira moral da história do conto escrito em 1958.

Senão vejamos:

- Primeiro, temos uma fada que para cumprir uma promessa à Rainha das Fadas (a de cuidar de uma floresta), ajuda altruisticamente todos os seres dessa floresta, fazendo por eles coisas que eles não estão para se dar ao trabalho de fazerem sozinhos.

- Depois, quando ela pensa um pouquinho em si própria, tudo se desmorona na floresta. Está bem, que esse "pouquinho" durou uma Primavera, um Verão e um Inverno inteiros, mas isso não é desculpa! Para resultar em termos literários tinha de ser assim!

- Por causa disso, e porque faltou à sua promessa (que nem sequer lhe devia ter sido imposta, in the first place), é castigada de forma cruel e exagerada: são-lhe retiradas as asas e a varinha de condão, não podendo assim ajudar quem precisa, de forma mágica.

-Quando se apercebe que a floresta está num pandemónio e todos os seus seres fugiram ou para a cidade ou para as montanhas, sente-se culpada e passa por uma provação física desumana que vai desde pés ensaguentados até ao abandono total por parte dos seus supostos amigos, a quem levou uma vida a ajudar, e que agora deixaram de acreditar nela.

-Como se não bastasse a Rainha das Fadas (sua superior hierárquica), torna a fazer-lhe exigências para que ela possa readquirir as asas e varinha de condão.

-Finalmente, e apenas quando se esquece de si própria, para ajudar outrém (atira-se para um abismo esquecendo-se que não tem asas para salvar uma velhinha cega que caía a pique por ali adentro) é que volta a ser a Fada Oriana com asas e varinha de condão que lhe são restituidas naquele momento, pelo seu acto heróico e altruísta.

Ou seja, a mensagem que se passa é:

- se tens de trabalhar até à exaustão para agradar a gregos e troianos, em troco de nada, não fazes mais que a tua obrigação.

-se prometes uma coisa, não podes pensar em ti própria por uns momentos, caso contrário és brutalmente castigada.

-se não cumpres os objectivos que te são impostos, ou deixas de ser ou fazer aquilo que os outros esperam de ti, perdes todos os teus amigos, não podes contar com a ajuda de ninguém e se possível ainda te lixam mais um bocado.

-como se tudo isto não bastasse ainda sentes que tudo isso acontece por tua culpa.

-os superiores hierárquicos exigem o que querem de ti e se possível ainda te arranjam mais afazeres que aqueles que já não consegues dar conta à partida. Ou seja, só servem para empatar.

-para recuperares a tua dignidade, tens primeiro de cair fundo no "abismo", levantar-te sozinha, para então voltares a fazer tudo da mesma forma.

-estas frases, apesar de estarem no feminino também se aplicam aos homens.(esta nota já não se extrai da história; é apenas um apontamento pessoal!)

Moral da História:

-se és gaja e não tens superpoderes, estás lixada!
-o ser humano adora milagres e a lei do menor esforço.
-se aparece feito não perguntes quem fez. Mas se algo está por fazer atira logo as culpas para outro.
-sê tu mesmo, desde que isso seja o que os outros esperam de ti.
-apenas quando estás num aperto é que descobres quem são os teus verdadeiros amigos.
-os chefes só servem para empatar.


Por tudo isto a minha opinião sobre a obra de Sophia de Mello Breyner, ficou fortalecida, pois se através de um simples conto infantil, se demonstra a condição humana em geral e a da mulher em particular desta forma, leva-me a crer que toda a sua obra deve ser lida nas entrelinhas.

E fica aqui a promessa de reler todos os seus contos infantis para tentar perceber que outras interessantes conclusões se poderão retirar. Até lá, me aguardem!!!!


A Fada Oriana, Sophia de Melo Breyner Andresen, Figueirinhas, Outubro de 2003, 77 pág.

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